VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

A voz possível: identidade e discurso na literatura contemporânea
Margarete Dias (UFRJ)

Tomando como parâmetro a definição mais corrente de literatura: “A arte da palavra”, declaro, parodiando Foucault 1, que a palavra artística pode dizer tudo, a qualquer momento, para qualquer um. Ela revela o segredo muitas vezes sem explicá-lo; é lida, ouvida, ou assistida independente da vontade ou desejo de seu autor, e pode ser experimentada de diversas maneiras por várias pessoas. É, como diz Terry Eagleton, transitiva, pois só se realiza no processo contínuo de integração entre o ser e o outro. A Arte torna o ser mais humano, perturba-o e o enriquece. É no espaço transgressor da palavra que o dizível e o indizível se encontram, ainda que conflituosamente. Neste momento retomo o tema do congresso: “Travessias” e o autor gerador do tema: Guimarães Rosa e seus textos, travessias sempre perturbadoras, palco do conflito anunciado no interior do discurso. A partir das reflexões apresentadas, percebi que a escolha dos autores com os quais decidi travar um diálogo que agora apresento não foi feita ao acaso: Lobo Antunes e Caio Fernando Abreu têm me instigado a construir meu projeto de Doutorado na direção da discussão que proponho aqui: As narrativas analisadas indicam sempre a falha e/ou fracionamento do diálogo: as personagens, presas ao próprio discurso, tentam compreender o outro na medida em que se compreendem – travessias, como as de Guimarães, igualmente perturbadoras. Embora o que apresente aqui seja o início de minha pesquisa, creio que a escolha do corpus introdutório permite a investigação dos conceitos de identidade e discurso pertinentes aos dois autores.

Há muitas formas de os seres estabelecerem contato. Os sentidos nos inserem de forma sensível no mundo material: gostos, sensações, cheiros, imagens visuais e auditivas nos atravessam e, muitas vezes, respondemos aos estímulos de modo automático. O ser contemporâneo é constantemente exposto a experiências que acontecem cada vez mais rápido e de forma fragmentada. Os momentos de reflexão ou de encontro com os outros são instantes de consciência aguda da própria existência. A necessidade de sair do espaço de mero receptor de estímulos externos força-o a elaborar suas respostas em função da própria demanda. Expressar esses instantes é muitas vezes doloroso e inconcebível, por ter de se desnudar frente ao “espelho” – o próprio olhar ou o olhar do outro, sem compreender exatamente o que quer ou precisa expressar. Ao não conseguir dizer o que incomoda, dói ou aterroriza, o ser só pode falar de “outra coisa”, tangenciando o incômodo, a dor e o terror. Entretanto, a construção deste discurso de aparente fuga desenha sua figura. Por caminhos longos e errantes, o ser confunde-se para se compreender.

Na travessia estabelecida entre a confusão e a compreensibilidade insere-se o que chamo de “voz possível”, parte do título desta apresentação. A voz particulariza o ser, resultante das articulações dos sentidos e impressões da própria subjetividade. O reconhecimento do mundo e de si mesmo, embora incompleto, é expressado pela fala. Ao dizer o que é capaz de articular, o ser revela não só as restrições que determinam o seu discurso, mas também o “possível”: a elaboração transitória de sua percepção. Nos textos escolhidos, A morte de Carlos Gardel 2, romance de António Lobo Antunes e os contos “Eles” e “Para uma avenca partindo” , de Caio F. Abreu 3, os enunciadores são vozes que constróem a narrativa de modo fragmentado e lacunar. É por meio de interrupções, de suas retomadas e do reconhecimento do que falta, do espaço lacunar, que a busca de sentido ganha sentido. A voz possível, então, possibilita que o discurso construa a identidade da própria fala: É dizendo a história, ainda que comprometida pela parcialidade da perspectiva, que a voz se identifica e se revela ao destinatário de sua mensagem, seja o outro, o leitor ou ela mesma.

O entrelaçamento de identidade e discurso nos textos pode ser pensada de forma figural, numa relação de contigüidade, pois é a partir do segundo que a primeira se constrói e, por outro lado é a primeira que sobredetermina o discurso. A voz então é, ao mesmo tempo, fim e meio. Fim porque é a expressão da tentativa de comunicação do narrador; meio porque produz elementos que formam os “textos identitários” das personagens. As narrativas escolhidas representam a crise da representação nomeada no resumo deste simpósio. Os mosaicos elaborados tanto por Caio F. Abreu como por Lobo Antunes são sintomas dessa crise.

Embora a elaboração de cada um dos autores seja determinada por momentos, culturas e demandas diferenciadas, o que os une é o tempo da enunciação em suspenso: um intervalo entre o acontecido, o passado e a resposta esperada e/ou desejada. Há sempre, portanto, uma lacuna, e justamente o que não é dito, o que é evitado, é o tema que assombra os enunciadores do romance e dos contos, como veremos adiante. Repetir o mesmo texto ou o mesmo discurso indica o desvio pelo qual as personagens contornam as lacunas. A crise se acirra na percepção de que essas não são um espaço a ser preenchido objetivamente, mas fazem parte da condição humana.

Quando a busca por sentido se revela detentora de um sentido outro, o conforto que o desfecho poderia trazer não chega. A travessia não assegura o espaço da voz, não abre caminho para outras possibilidades da fala. : o ser não é livre, e não se ilude mais com a construção utópica de um discurso possuidor de um sentido completo.

Em A morte de Carlos Gardel , os elementos textuais determinam a alternância dos narradores, personagens inseridas no cotidiano de uma cidade cheia de contrastes. As questões históricas ou sociais atravessam de modo incidental a “história” das personagens. A abertura do romance é narrada por Álvaro. Sua ida ao hospital para ver o filho internado é preenchida por fragmentos da conversa dos paramédicos sobre futebol, a descrição das árvores e lembranças da infância que o levam a tomar consciência do que está fazendo ali. Ainda assim, a percepção da personagem continua guiada para fora do presente narrado. Tentando escapar do inevitável encontro, a personagem se agarra ao que pode, de certa forma, adiar o confronto. Este mecanismo o faz recuar no tempo e leva-o ao momento em que Nuno, o filho, passou a existir em sua vida: o da negação. Álvaro nega a relação amorosa ao declarar à esposa nunca ter gostado dela, nega a paternidade no passado e no presente, tenta se ausentar como o pai e o avô se ausentaram:

Não quero ver os colchões do lado direito. Não quero ver. Não quero ver. 4

 

A repetição da frase enfatiza a impossibilidade da ausência. Assim como no passado os pijamas que vestia eram sempre grandes demais para ele, a experiência vivida parece ser um fardo pesado demais. O deslizamento do olhar na descrição da enfermaria, dos leitos, dos doentes e da enfermeira forma o percurso que chega até o filho. Essa descrição espacial representa também o deslizamento do discurso: de objeto, o filho passa a interlocutor – aquele com quem se fala. Nos encontros com o filho – o do passado recuperado e o do momento, a fala possui os mesmos significantes, mas com significados sem correspondência. Álvaro diz: “ – Nada, dorme, nada”, à esposa que acorda assustada vinte e cinco anos antes, e ao filho em coma. É para o filho que não pode responder ou estabelecer diálogo que Álvaro se revela. Contar a história para o filho é contá-la para si mesmo. A fala do narrador confirma o signo da negação, embora o encontro aconteça afinal. O perdão pensado indica o que não é capaz de dizer. A ele só resta negar o discurso. Diz ele:

-- Perdoa

como se alguém pudesse perdoar alguém, como se a vida não fosse a colecção de azedumes e ressentimentos que é, acabei por descer as escadas enxotando fiapos de nevoeiro e rolos de vapor como enxotei os balões de soro, as botijas de oxigénio e ous tubos de borracha quando o teu colchão e o outro colchão do lado direito da enfermaria deslizaram para mim, como enxotei a minha irmã e a senhora de bata que caminhavam comigo ao teu encontro, vi um pulso com o líquido de um frasco a entrar-lhe na veia, e ao aproximar-me escutei um choro de criança e uma voz ensonada a perguntar

-- O que foi, Álvaro? 5

O encontro é uma confusão entre a lacuna do passado e a do presente. Ambas não podem ser preenchidas. “Enxotar” impressões, seres e objetos é ainda uma tentativa de se ausentar do discurso e não se comprometer com a própria história. A única escapatória talvez fosse o perdão, mas a culpa, embora se inscreva no terreno das possibilidades, é indizível. O desconforto experimentado pelo narrador não se resolve com a morte do filho ou com a formação de uma nova família. Aprisionado na culpa, Álvaro vai se ausentar de sua vida ao abandonar a esposa grávida, o trabalho e o real. Identifica um velho dançarino de tangos como Carlos Gardel e acompanha o suposto cantor numa tentativa de escapar do insuportável.

O conflito anunciado no romance pode ser analisado como uma tentativa de interlocução que já começa na falha, no fracasso. A palavra está comprometida com as interdições que se formam individual ou coletivamente. O diálogo que se estabelece nas narrativas se faz não entre as personagens, mas dentro de cada uma delas separadamente. Na impossibilidade do embate do pensamento com o outro, as personagens lutam com suas próprias falas e se definem na mensagem na qual emissor e receptor ocupam conflituosamente o mesmo espaço, como uma representação de sua imagem. Abandonadas a uma sorte que não conhecem, investidas de um destino que não dominam, elas forjam uma identidade por meio do discurso. Mesmo insano e sem interlocutores é o dizer que as mantém vivas.

Nos contos de Caio F. Abreu, os narradores se dirigem aos interlocutores sem esperar respostas. Sozinhos em seus mundos, a solidão e seu significado patente fazem parte do percurso anunciado. Este não é só um estado transitório: é a própria condição do ser e do estar no mundo. O encontro ansiado com o outro só torna o desfecho mais desesperado nos dois contos. A violência no primeiro e a interrupção da fala no segundo demonstram que o enunciado oprime aquele que o diz.

No primeiro, “Eles”, o narrador se dirige a alguém que é seu interlocutor, segundo ele, seu ouvinte. Mas seu discurso abriga uma incoerência: Ele diz não ter importância porque a história que narra não é dele, mas a de outro. Neste deslocamento, o narrador tenta se ausentar do relato que faz, tornando-se testemunha, como se a experiência vivida, o rito de passagem, não hovesse ocorrido. O fracionamento da fala é reiterado por ele em diversos momentos da narrativa. A descoberta dos seres estranhos, a ida à floresta com o menino que os descobriu e o resultado do encontro são narrados de modo incompleto, uma vez que ele também sofreu os efeitos alucinógenos que o contato com os seres ocasionou. Embora os motivos para a destruição parcial da vila na qual habitam não seja explicada logicamente, a violência resultante da revolta dos outros habitantes têm efeitos inesperados: Destruir os seres é transformar a existência. Ao espancarem, rejeitarem violentamente o incompreensível, os habitantes da vila destróem qualquer possibilidade de continuarem a viver do mesmo modo. A condenação do outro é a condenação de si mesmo.

O narrador se irmana com os aniquilados, mas continua a viver no espaço da negação, a vila. A tentativa de se declarar apenas testemunha, porém, cai por terra quando assume sua posição no discurso. Diz ele:

Por isso meu ódio cresce. Quando atingir um nível insuportável, não será difícil: basta uma lâmina contra o pulso. Nem isso. Uma simples picada de alfinete. Menos até. Um arranhão. Talvez aquele menino volte, talvez eu esteja mesmo sozinho, talvez você ache que sou louco. Queria que você entendesse que apenas contei o que realmente aconteceu, e se isso que aconteceu é loucura, quem enlouqueceu foi o real, não eu, ainda que você não acredite. Não tem importância. A história é essa, talvez eu tenha falado mais do que devia, mas tenho a certeza dura de que nem você nem os outros todos perdem por esperar. Cuidado: eles estão aqui: à nossa volta: entre nós: ao seu lado: dentro de você. 6

 

O real, segundo ele, pode ter enlouquecido, e não ele; o estatuto de verdade é fundamentado apenas na palavra do narrador. Os mecanismos que asseguram o pacto de verossimilhança não estão presentes no texto. A generalização das personagens indica uma lacuna que o próprio discurso revela: quem é esse “você” a quem o narrador se dirige? Será um interlocutor externo ao discurso ou apenas uma duplicação do próprio “eu”? Na fala popular, este recurso de enunciação é bastante comum. A certeza de ser compreendido é partilhada com este outro que o acompanha desde o início da narrativa. A história, o caso transforma a voz que se declara reveladora da verdade, mas que sequer sabe se está ou não sozinho. O que resta ao narrador senão continuar narrando?

No segundo conto, “Para uma avenca partindo”, o texto é iniciado por travessão, indicativo de uma fala que, no caso, é única. A voz que fala se dirige a alguém que parte, e tenta revelar os não-ditos acumulados antes da partida. Ela, a voz, anuncia sentimentos, impressões, experiências partilhadas com aquele que vai embora. A fala é pontuada de interrupções nascidas das hesitações da voz e também de suas reações às reações do outro. Num jogo de encobrimento e desvendamento, a voz revela o que pode nomear. Essa mesma voz percebe que o percurso da relação foi “insuspeitado”,

assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca ... em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas... 7

 

Apesar de aparentemente a voz se dirigir a um interlocutor visível para ele, as respostas perceptíveis indicam que a fala só atinge aquele que a diz. Interlocutora de si mesma, a voz é interrompida no “quê” para sempre incompleto. A voz se apaga no meio da fala, o sentido não se estabelece não porque o ônibus partiu, já que o outro está em ausência no diálogo. A falta de sentido está na impossibilidade dessa voz conseguir dizer o que ainda não consegue compreender. Ela precisa que o outro entenda “quê”. O encontro foi intenso, os sentimentos inesperados, mas o outro parte. Não existem meios de suprir a falta do outro ou a falta de sentido. É por isso que essa voz tem de ser polifônica. A comunicabilidade consigo mesma e com o outro depende da capacidade de, como já foi dito antes, tangenciar as lacunas para dar forma à própria identidade na construção do discurso.

Pretendi nesta fala apresentar algumas reflexões que são o ponto de partida da pesquisa que vou fazer no doutorado. De um lado há as personagens de um romance português da década de 90, do outro, um livro de contos brasileiro cuja primeira publucação se dá no início da década de 70. Embora muito diferentes, ambos revelam a presença dessa voz possível que se diz apesar da crise, da lacuna e da impossibilidade.

 

 

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso . São Paulo: Edições Loyola, 1996, pp. 9-10.

ANTUNES, A. Lobo. A Morte de Carlos Gardel . Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1994. De ora em diante referido abreviadamente como AMDCG.

ABREU, Caio F. O Ovo Apunhalado . Porto Alegre: L&PM, 2001. De ora em diante a referência será indicada pelo nome do conto.

AMDCG, p. 14.

AMDCG, p. 14.

“Eles”, p.72.

Para uma avenca partindo, pp.103-104.