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Ecos da História Paraguaia na Obra de Augusto Roa Bastos
Glória Elizabeth Saldivar de Pacheco (UFRGS)

Em sua tese sobre a concepção da história, Walter Benjamim 1 argumenta que o passado é apenas uma imagem da verdadeira experiência humana com a temporalidade, pois desta restam só fragmentos dispersos, incompletos e insuficientes para reconstitui-la em todas as suas dimensões. E no caso de construir uma memória coletiva, essas dificuldades se multiplicam na hora de recuperar as experiências passadas. Entre elas, a definição dos critérios de seleção e explicação dos fatos históricos, a organização do conhecimento adquirido nesse processo e a intervenção das determinações ideológicas dos sujeitos envolvidos em sua conformação.

Desde tempos longínquos, porém, toda essa problemática é objeto de dois campos do saber humano, a literatura e a história. Cada qual, com seus fundamentos teóricos e procedimentos específicos, se propôs capturar a evanescente materialidade do tempo em sua conjunção com o devir humano, para textualizá-la 2 e convertê-la em história. Quanto à forma de estruturar os saberes obtidos a partir da investigação dos acontecimentos históricos, tanto a literatura quanto a história optaram pela narrativa como a modalidade de conhecimento mais adequada para intermediar o encontro da humanidade com o seu passado.

Apesar desses antecedentes comprovando a afinidade entre ambas as práticas discursivas, a ficção e a historiografia apresentam divergências significativas nas suas trajetórias. A mais polêmica, por exemplo, vem do século XIX, herdada do positivismo, cujos princípios foram incorporados pelo discurso histórico na busca de um estatuto científico. Trata-se do caráter de única fonte verdadeira sobre o passado atribuído ao discurso histórico positivista, em detrimento do discurso literário, limitado à fantasia.

Os historiadores tradicionais argumentam que sua reconstituição do passado é um processo objetivo, baseado em documentos autênticos 3, sem a interferência da imaginação do sujeito. A literatura, pelo contrário, não pode ser considerada uma fonte confiável sobre o passado, pois articula fatos reais e imaginários, ou seja, falta-lhe o caráter documental.

Porém, a historiografia positivista 4 elabora uma história através da disposição de fatos num tempo cronológico, vazio, linear e homogêneo. Esta noção de tempo é a que produz uma falsa imagem eterna do passado, como se fosse intocável, intransponível. De tal modo que se transforma numa prática discursiva identificada com uma prática político-ideológica favorável às classes burguesas. Desta aliança resulta uma história escrita pelos vencedores e para os vencedores, como se fosse "a história", não aceitando nenhuma controvérsia, uma vez que representa a única verdade sobre os acontecimentos. Já os vencidos, as classes operárias, são obrigados a considerar sua uma história que os mente, os humilha e os esquece.

Mesmo desdenhada como área de saber, devido à presença explícita da subjetividade na sua prática discursiva, a literatura não escapou da irradiação positivista. A estrutura narrativa dos romances clássicos, por exemplo, se baseia na noção de tempo linear, pois as ações são dispostas em estrita ordem cronológica. Além disso, também contribuiu para consolidar a ideologia burguesa, pois o romance, em si mesmo, é considerado um fruto da ascensão da burguesia ao poder. Nele, o contexto familiar, os conflitos, os personagens centrais, o individualismo, o materialismo, etc., correspondem ao âmbito burguês.

Com o advento do modernismo nas letras, no entanto, a literatura tem o mérito de ter sido a primeira a contestar a idéia de tempo associada a uma rigorosa seqüência cronológica, e a propor outras formas de lidar com a temporalidade na sua prática narrativa. Por outro lado, também inova ao converter-se num espaço alternativo para que as classes oprimidas se manifestem, mesmo implicando uma mediação de neutralidade discutível. Mas, de qualquer maneira, essa mudança de paradigmas começou muito antes que os estudos historiográficos tomassem novos rumos.

As novas perspectivas na historiografia foram inauguradas por um grupo de historiadores franceses denominado "História Nova" 5 que, entre outros pontos, questiona a neutralidade de sua prática discursiva com relação ao poder estabelecido. Desconstrói a noção tradicional de documento, ampliando e diversificando suas fontes com o propósito de correlacionar-se com outras formas de interpretar o passado.

A partir de então, o discurso histórico passa a ser reconhecido não mais como a descrição objetiva da história, e sim uma representação da história 6. Esta nova configuração o aproxima ainda mais da literatura, um espaço distinto, com características específicas, mas legítimo de problematização da história. O diálogo constante e o profícuo intercâmbio de saberes entre os dois campos favorecerá uma melhor compreensão do fenômeno da temporalidade humana, frisando sempre o caráter contemporâneo de qualquer articulação histórica do passado.

É nesse sentido que a América Latina, perante a iminência do amanhã, requer voltar ao passado para interpretar a sua realidade, marcada por uma trágica sucessão de governos ditatoriais. Estes constituíram, na maioria dos casos, uma resposta direta ao clamor das classes dominantes perante o terrível espectro de perder seus privilégios. Uma ameaça das primeiras centelhas de democracia que emergiam das classes populares. Era necessário, então, empreender uma luta encarniçada contra a perigosa expansão do ideário comunista, para o qual se contava com o generoso apoio financeiro das grandes metrópoles econômicas. A este respeito, por exemplo, conta-se com o registro das atas do Congresso dos Estados Unidos em torno ao golpe militar no Chile 7.

Essas circunstâncias propiciaram, sem dúvida, o desfile de uma infinidade de ditadores militares, todos com o mesmo afã de tornar-se absolutos e eternos para o infortúnio de suas vítimas. Contudo, é necessário ressaltar que uma das principais razões de tanta longevidade foi a adoção de um brutal mecanismo repressor. Incontáveis eram os procedimentos de violência implantados para sufocar qualquer tentativa de oposição ao regime governamental.

Entre os mais eficazes, um contribuiu de maneira decisiva para que essa estrutura de poder se fortalecesse e continuasse incólume ao longo do século XX, a estratégia de apagar da memória coletiva a existência de movimentos dissidentes, criando a falsa imagem de um governo pacífico. Nessa ominosa tarefa, os poderosos contaram com a diligente colaboração dos historiadores oficiais, que esboçaram um percurso histórico asséptico, sem verdadeiros conflitos.

Diferentemente, a literatura latino-americana se converteu numa das principais vias para impedir que essa perspectiva do passado conseguisse sedimentar-se. Diversas obras preencheram significativos vazios deixados pelo discurso oficial ao recriar muitos dos incidentes ocultados, impedindo que caíssem no esquecimento e possibilitando a formação de uma verdadeira consciência histórica, sem escamotear fatos nem personagens

Esses são os princípios norteadores da obra de Augusto Roa Bastos, fundamental para termos uma visão mais ampla da realidade histórica do Paraguai. Em seus escritos, ele manifesta, claramente, um sentimento de inconformidade e uma atitude de permanente contestação do discurso governamental , seja este com respeito ao presente ou ao passado.

É o que observamos, por exemplo, em "La excavación" 8 - publicado inicialmente em 1953 - um conto de indiscutível densidade histórica; não só porque retrata circunstâncias que nos remetem a obscuros episódios deflagrados nos sótãos de uma das tantas ditaduras paraguaias, mas, sobretudo, porque apresenta em seu desenvolvimento narrativo distintos planos temporais que se entrecruzam e colocam em relevo a necessidade de interrogar o passado e compreendê-lo desde uma perspectiva contemporânea. Em outras palavras, a dilucidação do presente, em vista de suas projeções, está condicionada, irremediavelmente, ao escrutínio do discurso histórico e ao desvelo de seus arcanos.

Assim, dois planos predominam ao longo da narrativa, a trágica situação de presos políticos no Paraguai após a Guerra Civil de 1947 e a Guerra do Chaco, contra Bolívia, de 1932 a 1935. Mais de uma década marcada pela disputa do poder entre liberais e colorados, até o ponto de provocar a deposição do presidente em exercício e uma violenta revolta armada que dura seis longos meses. Entretanto, devido à eficácia repressora dos militares, o mandatário deposto reconquista o poder e, para assegurá-lo, empenha-se numa implacável perseguição contra as forças políticas sublevadas. Perucho Rodi, protagonista do conto, simboliza as incontáveis vítimas desse governo, principalmente aquelas que não sobreviveram para enfrentar as adversas contingências e delatar as atrozes agressões sofridas.

"De los diecisiete presos que habían tenido la estúpida ocurrencia de morirse, a nueve se habían llevado distintas enfermedades contraídas antes o después de la prisión; a cuatro, los apremios urgentes de la cámara de torturas; a dos, la rauda ventosa de la tisis galopante. Otros dos se habían suicidado abriéndose las venas..." (Pág. 77).

 

Jornalistas e historiadores simpáticos ao regime - os únicos com direito a exercer suas funções nos limites previamente demarcados - não se ocupavam das misérias sofridas pelos opositores, por convicção própria ou por temor de perder seus privilégios. Conseqüentemente, as condições inhumanas em que viviam e morriam os prisioneiros políticos, em geral, não representavam um tema de interesse para suas respectivas narrativas.

Nesse contexto, o também jornalista Roa Bastos 9 é impedido de revelar na imprensa os sombrios bastidores do poder. Contudo, ele não se omite e consegue esquivar a mordaça generalizada através de seus impulsos criativos. Invade esses espaços cobertos de interdições e recria os detalhes mais sórdidos, mais violentos da reclusão política.

"Entretanto, habían fallecido por diferentes causas, no del todo apacibles, diecisiete de los ochenta y nueve presos políticos que se hallaban amontonados en esa inhóspita celda, antro, retrete, ergástulo pestilente, donde en tiempos de calma no habían entrado nunca más de ocho o diez presos comunes." (Pág. 77)

 

Esse fragmento constitui um bom exemplo do estilo narrativo do autor, que consegue conjugar, com habilidade, força lírica e delação contundente. Não prescinde, como não poderia deixar de fazê-lo, levando em conta o espaço discursivo de que dispõe, de uma grande variedade de recursos expressivos que traduzem os eventos com um realismo vigoroso.

Não bastaram as calamidades da experiência carcerária para que Perucho e os seus companheiros renunciassem à luta, à vida. Eles investem seu último fôlego no túnel que os levará para a liberdade : "Por allí venía el olor puro de la libertad, un soplo fresco y brillante entre los excrementos" (Pág. 78). Enquanto Perucho cumpria seu turno de dar continuidade ao projeto de fuga, é surpreendido por sucessivos desmoronamentos e fica soterrado na tenebrosa cavidade. Porém, não desiste de cavar, mesmo respirando com dificuldade: "Su esperanza crecía con su asfixia" (Pág. 78). E na medida em que vão extinguindo-se seus batimentos, o delírio passa a dominá-lo: "La tortura se iba transformando en una inexplicable delicia. Empezó a recordar" (Pág. 79). Este é, precisamente, o momento em que a narração se expande para outro plano temporal, o da Guerra do Chaco.

Ao retomar esse lamentável episódio bélico, o autor paraguaio se nega a aceitar que já nada pode ser dito e reinterpreta a guerra sob outras coordenadas ideológicas, as do socialismo, mas sempre complementado por sua visão pessoal.

"Y así sucedía porque era preciso que gente americana siguiese muriendo, matándose, para que ciertas cosas se expresaran correctamente en términos de estadística y mercado, trueques y expoliaciones correctas, con cifras y números exactos, en boletines de la rapiña internacional" (Pág. 79)

 

Roa Bastos transgride a versão oficial que reduz as motivações da contenda a questões limítrofes entre Paraguai e Bolívia. Denuncia os obscuros desígnios perpetrados por interesses forâneos ao insuflar uma velha pendência de limites e arrastar a ambas as nações para um confronto armado. Um verdadeiro crime que levou à morte aproximadamente trinta mil paraguaios e sessenta mil bolivianos, cuja única desgraça foi a riqueza subterrânea de suas pátrias, riqueza que despertou a cobiça das multinacionais do petróleo.

Não encontramos no conto nenhum tipo de apelo nacionalista, pelo contrário, a irmandade entre paraguaios e bolivianos, apesar dos contrastes territoriais e culturais, é a idéia central da narrativa. Roa Bastos compreende que ambos povos foram vítimas de uma mesma fatalidade histórica, a de ser o alvo de inescrupulosos oportunistas, embaixadores do capital.

"El altiplano entero, pétreo y desolado, bajaba arrastrado por la quejumbre de las cuecas; toda una raza hecha de cobre y castigo, desde su plataforma cósmica, bajaba hasta el polvo voraz de las trincheras. Y hasta allí bajaban desde los grandes ríos, desde los grandes bosques paraguayos, desde el corazón de su gente también absurda y cruelmente perseguida, las polcas y guaranias, juntándose, hermanándose con aquel otro aliento melodioso que subía desde la muerte." (Pág. 79).

 

Perucho, já muito perto da morte, empreende dois processos incontroláveis e simultâneos de evasão, da vida e do presente: "En el frente de Gondra, la guerra se había estancado" (Pág. 79). Ele se desloca através da memória para reencontrar experiências passadas: "Recordó aquella otra mina subterránea en la guerra del Chaco, hacía mucho tiempo" (Pág. 79). Mas, a sua lembrança não se limita a uma simples contemplação restrospectiva, pois consegue, pouco a pouco, entrever algumas conexões:

"Recordó, un segundo antes del ataque, la visión de los enemigos sumidos en el tranquilo sueño del que no despertarían. Recordó haber elegido a sus víctimas (...) se retorcía en el remolino de una pesadilla. Tal vez soñaba en ese momento en un túnel idéntico pero inverso al que les estaba acercando el exterminio." (Pág. 80).

 

Num estado de nefasta sonolência progressiva, sem poder distinguir claramente entre imagens passadas e imagens oníricas, Perucho, no entanto, vai tomando consciência das verdadeiras repercussões dos eventos que o marcaram no Chaco: "Aquel túnel del Chaco y este túnel que él mismo había sugerido cavar en el suelo de la cárcel (...) este túnel y aquél eran el mismo túnel..." (Pág. 80). Cavar o túnel representava o desejo de que terminasse a guerra para reencontrar a paz, a liberdade. Mas, a continuidade do corrompido sistema político-social do país não daria condições reais para que, ao longo dos anos, uma verdadeira paz fosse construída. Pelo contrário, suscitará mais convulsões sociais. A situação de Perucho como preso político assim o comprova.

O túnel simboliza essa injusta estrutura política e social, que favorece a sucessão de governos totalitários: "Un agujero negro y recto que a pesar de su rectitud le había rodeado desde que nació como un círculo irrevocable y fatal" (Pág. 80). As constantes referências à idéia de circularidade assinalam a contínua reprodução desse quadro, dando a aparência de um círculo fechado: "Un túnel que tenía para él cuarenta años, pero que en realidad era mucho más viejo, realmente inmemorial" (Pág. 80). Mas, Roa Bastos não acredita na invulnerabilidade desse sistema de poder, pois sendo um produto humano é falível. A ação de cavar outro túnel significa buscar brechas para desestabilizar as estruturas e promover mudanças. Cavar é perseverar até encontrar uma "saída no fim do túnel".

"Aquella noche azul del Chaco, poblada de estruendos y cadáveres había mentido una salida. Pero sólo había sido un sueño; menos que un sueño: la decoración fantástica de un sueño futuro en medio del humo de la batalla". (Pág. 80).

 

Através do delírio e devido ao fracasso do túnel da prisão, Perucho consegue constatar o fracasso do túnel do Chaco, que havia significado em princípio uma vitória. Assim como o túnel do Chaco mentiu a paz, o túnel da prisão mentiu a liberdade.

"Se vio retorcerse en una pesadilla, soñando que cavaba, que luchaba, que mataba. Recordó nítidamente al soldado enemigo a quien había abatido con su ametralladora, mientras se retorcía en una pesadilla. Soñó que aquel soldado enemigo lo abatía ahora a él con su ametralladora, tan exactamente parecido a él mismo que se hubiera dicho que era su hermano mellizo." ( Pág. 81).

 

Evocando o instante em que observava os bolivianos antes de matá-los e lembrar, em especial, o soldado a quem perturbava um pesadelo, Perucho se reconhece a si mesmo, espantado, vivendo o mesmo pesadelo: a aproximação da morte. Comprovar a dramática circularidade dos acontecimentos lhe permite antever alguns possíveis desenlaces. Na Guerra do Chaco, paraguaios e bolivianos são, na verdade, irmãos na mesma desgraça, por isso, matar bolivianos significará, mais adiante, matar paraguaios, não importa em que momento, o pressagio está lançado.

"En un pensamiento suficientemente extenso y flexible, esas distinciones en realidad carecían de importancia. Era despreciable la circunstancia de que uno fuese el exterminador y otro la víctima inminente. Pero en ese momento no podía saberlo." (Pág. 80).

 

A sentença "compañeros de prisión" não se refere somente a Perucho e os demais presos. Também a paraguaios e bolivianos, que antes da guerra já estavam presos a uma rede internacional de exploração capitalista, depredadora dos seus recursos naturais. Prisioneiros antes e depois do confronto, pois a Guerra do Chaco conseguiu acrescentar mais dívidas aos empobrecidos erários do Paraguai e da Bolívia, provocando um retrocesso em seu desenvolvimento econômico. Hoje, estudos e estatísticas de organismos internacionais demonstram que ambas as nações não puderam mais recuperar-se.

"Al franquear el límite secreto, las reconoció en un brusco resplandor y se estremeció: esas ochenta y nueve caras vivas y terribles de sus víctimas eran (y seguirán siéndolo en un fogonazo fotográfico infinito) las de sus compañeros de prisión." (Pág. 81).

13 anos depois, mais ou menos, as vítimas do túnel não são mais bolivianos, e sim paraguaios. Com respeito a Perucho, ao esvair-se lentamente, o presságio se confirma e ele fica muito impressionado ao ver a si próprio e seus companheiros sendo mortos no sono que o vai envolvendo, pouco a pouco. Não tem certeza se está apenas sonhando ou se tem uma visão do que acontecerá com os seus parceiros de infortúnio no dia seguinte, quando já terá fenecido no coração de sua ingrata terra.

"Inexplicablemente, el caserón circular parecía desierto (...) empujaron, salieron. Al salir, con el primer soplo fresco, los abatió en masa sobre las piedras el fuego cruzado de las ametralladoras que las oscuras troneras del panóptico escupieron sobre ellos..." (Pág. 81).

As autoridades sabiam que Perucho Rodi ficara sepultado no túnel, depois dos desmoronamentos que delataram o plano de fuga, pois não havia a mínima possibilidade de que pudesse escapar. Contudo, reforçando a emboscada que perpetravam para liqüidar todos os presos, o informe oficial o menciona como único foragido. "Los presos de la celda 4 (llamada Valle-í), menos el evadido Perucho Rodi, a la noche siguiente..." (Pág. 81). De fato, ele se evadiu, mas do sistema, contestando o discurso vitorioso em torno à Guerra do Chaco. Sua evasão significou consciência e subversão, mesmo que tenha acontecido à beira da morte.

"Al día siguiente, la ciudad se enteró solamente de que unos cuantos presos habían sido liquidados en el momento en que pretendían evadirse por un túnel. El comunicado pudo mentir con la verdad. Existía un testimonio irrefutable: el túnel. Los periodistas fueron invitados a examinarlo. Quedaron satisfechos al ver el boquete de entrada en la celda." (Pág. 81).

O extermínio dos companheiros de Perucho não representou uma alteração significativa na rotina da cidade, pois além de estar envolvida num marasmo obrigatório, os assassinatos políticos em massa já formavam parte de seu cotidiano. Contudo, sempre há vozes discordantes, "y la celda 4 (Valle-í) volvió a quedar abarrotada." (Pág. 82).

O conto é um excelente exemplo das possibilidades da literatura como um instrumento valioso contra o ponto final que impõem certas práticas historiográficas. Além disso, "La excavación" é uma verdadeira metáfora sobre a posição crítica que devemos assumir perante qualquer representação da história. Roa Bastos nos propõe escavar para alcançar o passado, seguir-lhe os rastos através das diversas tentativas de reconstitui-lo e assim entrever a sua ressonância no presente. Entretanto, o mais significativo do texto é a ênfase na ação de lembrar, assim como fez Perucho, um lembrar reiterativo que o levou a conscientizar-se das razões de seu drama. E quando se trata de toda uma nação, deve ser um lembrar que implica dizer o passado em toda a sua grandeza, sem esconder os trágicos erros, pois condená-los ao esquecimento traz o risco de repetir-se. Sobre este ponto, é oportuno citar Benjamin 10

"...somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado. Isto quer dizer: somente para a humanidade redimida o passado é citável, em cada um de seus momentos." (Pág. 223).

 

 

Benjamim, Walter. Magia e técnica, arte e política . 7 a . ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 224.

Ricouer, Paul. Tempo e Narrativa III. Campinas: Papirus, 1997. p. 142.

Le Goff, Jacques. A História Nova . São Paulo: Martins, 1995, p.182.

Benjamim, Walter. Op. cit. 1994, p. 231.

Le Goff, Jacques. Op. cit. 1995, p.75.

  Barthes, Roland. O rumor da língua . São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 145-157.

Galeano, Eduardo. Las venas abiertas de América Latina . 56 a . ed. México: Siglo Veintiuno, 1989. p.449

Roa Bastos, Augusto. El trueno entre las hojas . Asunción: El Lector, 1997. p.77.

Foi obrigado a exilar-se em Buenos Aires, em 1947, devido a seus artículos considerados subversivos.

Benjamin, Walter. Magia e técnica, arte e política. 7 a . ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.