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Reflexões sobre a escrita argentina durante a crise nacional
Cecilia Laura Alonso (UFF)
Nada explica mejor una crisis que la literatura que se produce durante ella. Porque una crisis es algo increíble y es de lo increíble que siempre trata la literatura.
Dezembro de 2001. Milhares de homens e mulheres enfurecidos tomaram as ruas. Num movimento espontâneo bateram panelas, gritaram, enfrentaram a polícia, desafiaram abertamente o estado de sítio decretado pelo presidente Fernando de la Rúa. Assembléias surgiram em qualquer praça e durante duas noites os espaços públicos foram ocupados. Diante do caos o Ministro da Economia Domingo Cavallo renunciou e, logo em seguida, caiu todo o governo. O preço: aproximadamente trinta mortos e toda uma população desorientada.
Nesse tempo de incerteza e desesperança velhos se suicidaram por não ter do que viver já que as economias de toda uma vida de trabalho estavam presas num banco, famílias inteiras fizeram filas intermináveis nas portas das embaixadas na esperança de que com o visto também viesse uma possibilidade de emprego e vida estável, crianças e adultos passaram fome no norte do país.
Inserida nesse contexto a atividade industrial praticamente parou e com ela o setor editorial. Medidas como diminuição de salários e demissão de grande parte do quadro de funcionários foram inevitáveis. Segundo os dados apresentados pelo escritor Mempo Giardinelli em sua Carta abierta por la resistencia de la cultura latinoamericana 1, em fevereiro de 2002, editoras como Pearson, Planeta (agora unida a Emecé e Minotauro), Sudamericana (unida a Grijalbo-Mondadori), Norma e outras se viram potencialmente reduzidas. Alguns selos argentinos tradicionais – Losada, Paidós, Eudeba e o Centro Editor de América Latina – praticamente se extinguiram.
Obviamente, os efeitos atingiram também os escritores. Muitas publicações foram canceladas ou, pelo menos, adiadas; o pagamento de direitos autorais foi atrasado ou suspenso e autores jovens se depararam com mais dificuldades do que já teriam.
Diante deste panorama o papel do intelectual começou a ser questionado. No artigo Esos tipos que piensan y nadie sabe para qué , Mempo Giardinelli conclui que se o termo intelectual se refere a toda pessoa que pensa e que tem como propósito de trabalho desenvolver o pensamento, gerar e modificar idéias, inevitavelmente a ação que surge desse pensamento contribuirá para uma melhora no campo cultural e político-social da sociedade na qual se vive. Entretanto, Giardinelli sabe que a passagem da teoria para a prática não é tão fácil. Muitos ainda acreditam, em forma jocosa, que os intelectuais servem para que, ao serem interrogados sobre a própria serventia, estes passem a vida inteira refletindo as possíveis respostas.
Contudo, se trazemos a baila momentos críticos da história argentina, se destacam nomes importantes, como Osvaldo Soriano, que em seu romance No habrá más penas ni olvido , descreveu os irremediáveis problemas gerados pelo peronismo dos anos 70 e suas conseqüências. Autores que refletiram os últimos trinta anos também devem ser lembrados, como Abelardo Castillo, Tununa Mercado, Angélica Gorodischer, Guillermo Martínez, Sylvia Iparraguirre, Marcelo Birmajer, Leopoldo Brizuela e Perla Suez, entre outros.
É natural que, ao passarem por um período caótico de suas vidas, as pessoas queiram entender o que está acontecendo. Diante do medo, da insegurança, do desalento e da desorientação surgem perguntas em busca de respostas. O pensamento coletivo está voltado para o mesmo assunto, e a necessidade de refleti-lo se vê presente de várias formas. Mempo Giardinelli comenta no artigo anteriormente mencionado que...
Las muertes que padecimos en diciembre de 2001, el desfile de presidentes, el desempleo, los piquetes, las asembleas y cacerolazos, el hambre, la desnutrición, la obscena deshoneistidad de la dirigencia y los reclamos de los ahorristas furibundos, todo eso que ha sacudido a los argentinos y ha visto con espanto la opinión pública mundial, está ya en libros y filmes. Nuevas generaciones de escritores, de poetas, de cineastas, de dramaturgos están ocupándose de esto. La literatura, siempre, está en emergencia.
Pero, por supuesto, esto nadie lo sabe. No lo ven, no lo reconocen, y ésa es la parte ingrata del asunto. Pero sucede, e ineludiblemente la literatura ocupa su puesto en la batalla de la realidad. La furia generalizada de los argentinos se canalizó en asembleas y ollas populares, pero también en canciones y libros. Nunca hubo tantos poetas en las plazas de mi país como durante todo 2002. Nunca hubo tanta actividad teatral, a precios bajísimos y con salas llenas, como en estos últimos meses. Nunca se filmó tanto y tan buen cine en la Argentina como ahora, en plena crisis. 2
Pensar a Argentina. Esta parecia ser a nova urgência dos escritores, dramaturgos e cineastas. Diante do fracasso como país, tanto os textos ficcionais como os não-ficcionais se viram envolvidos voluntária ou involuntariamente, consciente ou inconscientemente com a História, talvez até pelo fato de que esta no momento fosse maior do que qualquer história pessoal.
Tal urgência poderia encontrar apoio num fragmento do texto “Papel social do romancista”, de Alejo Carpentier, em seu livro Literatura e consciência política na América Latina :
Ocupar-se desse mundo, desse pequeno mundo, desse grandíssimo mundo, é a tarefa do romancista atual. Entender-se com ele, com esse povo combatente, criticá-lo, exaltá-lo, pintá-lo, amá-lo, tentar compreendê-lo, tentar falar-lhe, falar dele, mostrá-lo, mostrar nele o âmago, os erros, as grandezas e as misérias; falar dele mais e mais, aos que permanecem sentados à beira do caminho, inertes, esperando não sei o quê, ou talvez nada, mas que têm, no entanto, necessidade de que se lhes diga alguma coisa para os demover. 3
E na tentativa de fazer algo, ou melhor dizendo, de pensar a realidade que estava a sua volta, Mempo Giardinelli lança duas obras: Diatriba por la pátria e Cuestiones interiores . Diatriba , livro de ensaios que atravessa as últimas décadas da história argentina até a atualidade, tinha sido concluído pela primeira vez em setembro de 2001, mas foi rescrito na íntegra três vezes em menos de um ano. A cada tentativa de conclui-lo eclodia mais um problema político-econômico no cenário nacional que modificava drasticamente o rumo da obra. Finalmente foi lançado em 2002 trazendo também em suas páginas um registro dos últimos fatos que mobilizaram todo o país. Mas, no calor dos acontecimentos, o livro se tornou de certa forma um grito de alerta, um desabafo, como pode se observar nestas palavras da introdução:
Sólo vengo a sugerir que los que están hartos se dispongan a terminar su hartazgo. Que los que no aguantan, aguanten. Que los que se están por ir, no se vayan. Que los cansados recuperen sus energías. Que los vencidos aprendan a resistir. Todo eso y más y sin pedirle el voto a nadie y por la pura pasión por este suelo que habitamos y que no es mejor ni peor que otros, y no tiene por qué ser especial en lo magnífico ni en lo horrendo, ni es más digno de amor que cualquier otro suelo del planeta. Sólo sucede que es el nuestro, el que alguna vez aprendimos a querer y el que va siendo hora de que convirtamos en un lugar donde se viva con dignidad, oportunidades y felicidad. Y sucede además que se me da la oportunidad de intentar una explicación en forma de libro y no la voy a dejar pasar.
[...]
[Este libro] Que es nada más que un pequeño, personal y veloz intento de explicación de por qué los argentinos estamos como estamos, y cómo podríamos salir del pozo. Ojalá usted lo comparta. O lo discuta, que sería mucho mejor. 4
Por sua vez, Cuestiones interiores é a volta de Mempo Giardinelli ao mundo da ficção após um afastamento de três anos. Nesta obra, Juan, o personagem principal, sem ter nenhum motivo, mata com uma pancada o seu vizinho de mictório no banheiro de um aeroporto internacional. Tanto no seu confinamento na prisão quanto frente ao tribunal se dá conta de que sua vida nunca mais será a mesma, e através de sonhos e lembranças retoma melancolicamente um passado irrecuperável.
A trama, feita de interferências e descontinuidades, foi considerada por vários críticos e na própria capa do livro como “un viaje a las heridas del pasado, a otras muertes, al deterioro que lo ha ido cercando [a Juan] y que halla eco, sin querer y sin el menor asomo de casualidad, con el de un país: la Argentina.” 5
Mas estas obras não foram as únicas, nas gôndolas das livrarias, que fizeram menção ao caos em que o país mergulhou nos últimos anos. Várias foram as abordagens adotadas e entre os muitos títulos expostos, podemos citar: Escritos imprudentes , de José Pablo Feinmann; Dolor país , de Silvia Bleichmar; Ruptura y reconstrucción: lo que la experiencia argentina nos enseña, de Laura Bertone y Patrick Lagadec e Diálogo sobre la globalización, la multitud y la experiencia argentina , de Antonio Negri.
Paradoxalmente, foi constatado numa enquete realizada pelo Centro de Estudos Nova Maioria que o hábito de leitura aumentou na Argentina apesar da crise econômica. Os números da pesquisa feita em março, em Buenos Aires (capital e província), e noticiados pela Agência EFE 6, indicaram que sessenta e dois por cento dos consultados leu no mínimo um livro nos últimos doze meses e que, entre 1998 e 2002, anos de profunda recessão e crise para a economia local, a porcentagem de leitores aumentou nove pontos. Entretanto, não foi divulgado em que categoria se enquadram as obras lidas pelos entrevistados.
Mesmo que seja explicável o fato da produção editorial se voltar fortemente para obras que comentem, expliquem ou problematizem a crise nacional que a Argentina viveu nestes últimos anos, não se pode generalizar e acreditar que todos os escritores foram movidos pelo mesmo tema. Durante o lançamento do terceiro número da Revista Literária Grumo (Rio de Janeiro – 06/08/2004), no qual participaram vários escritores brasileiros e argentinos, Cesar Aira, ao ser questionado até que ponto os contratempos recentes tinham importância para sua escrita, respondeu: “A mí me importan muy poco, para no decir que no me importan nada.”
Sei que tudo o que foi dito nos leva a questões mais profundas, como o real valor dessa escrita emergencial, os estímulos da criação literária, as possíveis interferências da vida social na literatura e vice-versa, o papel da sociologia na análise da obra literária, etc. Entretanto, esse estudo ficará para outro momento. O que quis trazer hoje são dados que, independentemente do que possamos pensar a respeito, refletem um momento no qual, diante de tantas perdas, se esboça uma reação. Pois, como já disse Mempo Giardinelli ao entrevistador Carlos Gazzera:
[...] a los argentinos nos han robado casi todo, nos han desvalijado de la manera más impactante. Pero todavía no nos han robado el lenguaje (no del todo, por lo menos), y si hay algo que todavía podemos decir que tenemos y es completamente nuestro es la literatura argentina. 7
Referências Bibliográficas:
CARPENTIER, Alejo. Literatura & consciência política na América Latina . São Paulo: Global Editora, s/d.
GAZZERA, Carlos. Aún nos queda la literatura. Disponível em: <http://www.lavoz.com.ar/2003/0408/suplementos/cultura/nota156898_1.htm>. Acesso em: 25 jul. 2003.
GIARDINELLI, Mempo. Cuestiones interiores . Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 2003.
______. Diatriba por la patria : apuntes sobre la disolución de la Argentina. Buenos Aires: Vergara, 2002.
______. El país de las maravillas : los argentinos en el fin del milenio. 3. ed. Buenos Aires: Editorial Planeta, 1998.
______. Esos tipos que piensan y nadie sabe para qué. Disponível em: <http://www.intervoz.com.ar/2003/0626/suplementos/temas/nota173464_2.htm>. Acesso em: 25 jul. 2003.
______. La crisis argentina: carta abierta por la resistencia de la cultura latinoamericana. Disponível em: <http://www.letrasdechile.cl/mempo2.htm>. Acesso em: 25 jul. 2003.
GUNTÍN, José Luis. Mempo Giardinelli: La literatura siempre trata de lo increíble. Disponível em: <http://www.elcastellano.org/ns/edicion/ultima/giardinelli.html>. Acesso em: 25 jul. 2003.
s/a. Hábito de leitura cresce na Argentina apesar da crise econômica. Disponível em: <http:// efe.com>. Acesso em: 07 mai. 2004.
Notas:
GIARDINELLI, Mempo. La crisis argentina: carta abierta por la resistencia de la cultura latinoamericana. Disponível em: <http://www.letrasdechile.cl/mempo2.htm>. Acesso em: 25 jul. 2003.
idem, Esos tipos que piensan y nadie sabe para qué. Disponível em: <http://www.intervoz.com.ar/2003/0626/suplementos/temas/nota173464_2.htm>. Acesso em: 25 jul. 2003 .
CARPENTIER, Alejo. Literatura & consciência política na América Latina . São Paulo: Global Editora, s/d, p. 95.
GIARDINELLI, Mempo. Diatriba por la patria : apuntes sobre la disolución de la Argentina. Buenos Aires: Vergara, 2002, p. 19-20.
s/a. Hábito de leitura cresce na Argentina apesar da crise econômica. Disponível em: <http://www.efe.com>. Acesso em: 07 mai. 2004.
GAZZERA, Carlos. Aún nos queda la literatura. Disponível em: <http://www.lavoz.com.ar/2003/0408/suplementos/cultura/nota156898_1.htm>. Acesso em: 25 jul. 2003.