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Uma escriba risível
Virgínia Gouvêa Nunes (FESURV)
Definir o riso, sem considerar seus elementos suscitadores - um objeto risível e um objeto que ri - deixa lacunas imperdoáveis dentro de uma análise mais criteriosa. Diante disso devemos considerar como aspecto relevante para a compreensão do riso, a felicidade e o prazer. O prazer decorre, via de regra, da própria felicidade, de um estado emocional positivo, de um momento de alegria. Já que " o riso de alegria, mesmo que não se oriente para o satírico, é muito útil e necessário socialmente porque desperta a alegria de viver, cria o bom humor e com isso eleva a tônus da vida ".(PROPP, 1992:190). Apesar disso, esta análise propõe distinguir o objeto risível do objeto que ri, a fim de facilitar a exposição e a argumentação, levando em conta a sua estreita correspondência.
Dentro dessa perspectiva de estudo, será enfocado o riso zombador que se utiliza do grotesco, forma mais cruel de derrisão, recorrente na obra A mulher que escreveu a Bíblia , de Moacyr Scliar. Em Comicidade e Riso , o teórico Vladimir Propp discorre de forma sistemática sobre essa manifestação na estética literária.
Este estudo orienta-se pelos estudos de Mikhail Bakhtin (1993), que na verdade não faz um estudo do riso em sentido amplo, porém limita-se a comentar e apresentar o riso do período do Renascimento (carnavalização), em particular na obra Gargantua e Pantagruel , de François Rabelais. Para o autor, estudado por Bakhtin, " O riso tem um profundo valor de concepção do mundo, é uma das formas capitais pelas quais se exprime a verdade sobre o mundo na sua totalidade, sobre a história, sobre o homem ".(1993:121).
Para se entender exatamente a comicidade que está sendo discutida, basta procurar compreender o tipo de riso que é provocado no leitor quando a personagem central do livro A mulher que escreveu a Bíblia demonstra total descontentamento com seu aspecto físico, ou seja, ela acha-se feia, assimétrica aos moldes impostos pela sociedade. Até mesmo diante da beleza de sua irmã ela minimiza-se à condição de uma mulher sem quesitos que despertem a atenção do sexo oposto. Na própria introdução à história, o riso é traduzido de maneira repleta de zombo, repleto de maldade e sarcasmo. A personagem central e anônima encontra-se a explicar o objeto narrado em toda história: sua própria feiúra.
A feiúra é fundamental, ao menos para o entendimento desta história. É feia, esta que vos fala. Muito feia. Feia contida ou feia furiosa, feia envergonhada ou feia assumida, feia modesta ou feia orgulhosa, feia triste ou feia alegre, feia frustrada ou feia satisfeita - feia, sempre feia.
A mulher que escreveu a Bíblia, pág. 19.
O riso está sempre relacionado com as manifestações, comportamentos e atitudes do próprio homem. Segundo Henri Bergson, em O Riso, o homem é capaz de rir de um bicho, desde que alguma coisa no seu comportamento lhe pareça familiar. Ele ri do seu próprio universo, ou seja, de si mesmo; ri das falhas e das fraquezas que cria, revertendo o que culturalmente é admitido com correto, elevado ou esperado. Há no riso, portanto, limites e referências de valor. E em cada riso, há uma diferente atitude.
Um dos principais fatores da comicidade está no que é involuntário na ação e não é esperado nem pelo seu protagonista, nem para aquele que o observa, como ocorre com a personagem central de A mulher que escreveu a Bíblia . No momento de seu encontro com um dos anciãos, que "colabora" na produção dos textos que ela recriava, algo fisiologicamente involuntário é percebido pela mulher e esta começa a rir também involuntariamente:
Não respondeu de imediato. Baixou a cabeça um instante e ali ficou, careca reluzindo à luz do archote. Por fim ergueu os olhos, e era muito estranho o brilho que havia em seu olhar. Por Deus, muito estranho.
- Perturbou-me, o teu texto. Perturbou-me muito. Aquela parte em que descreves Adão e Eva fazendo amor sobre o capim molhado... Puta merda, aquela parte é fogo. Aquela parte -
Interrompeu-se e, num gesto brusco, abriu a túnica.
Coisa espantosa: estava de pau duro. Era um pênis enorme, o dele, comicamente desproporcional à diminuta estatura do homenzinho, um vergalhão imenso que quase, eu diria, o desequilibrava. À vontade que tive foi de rir, de rir às gargalhadas, de estourar de rir diante daquela cômica cena. Mas não era momento para rir, era momento de dar um basta àquela coisa toda, que, em verdade, já passara de todos os limites.
A mulher que escreveu a Bíblia , pág. 133.
Observa-se no livro A mulher que escreveu a Bíblia , por meio de um humor amargo, que o foco principal à percepção do risível está no riso zombador ou sarcástico que utiliza o grotesco como ponto de partida para caricaturar a figura da mulher, sendo esta forma de riso a mais comumente encontrada na realidade e que é provocada com mais freqüência pelas produções humorísticas, segundo Propp (1992:171). Propp acrescenta que a comicidade, proveniente do riso de zombaria, associa-se geralmente ao desnudamento de defeitos, manifestos ou secretos, dos objetos e situações que provocam o riso.
Em A mulher que escreveu a Bíblia percebe-se o quanto o "zombo", mesmo involuntário, cerca as ações de todas as personagens. O zombo advém de algo que se desvia do normal imposto pela sociedade. Há uma situação colocada no livro que remonta a verossimilhança do riso zombador: Salomão, o rei de suas setecentas esposas e trezentas concubinas, chama a personagem central, enfim sua esposa, para acomodar-se junto a ele e consumar seu matrimônio. A vontade remetida às personagens faz do contato físico dos dois algo frustrante a ambos. Ela então apaixonada pelo físico escultural de "seu rei Salomão" e ele a pedindo bruscamente que se deitasse na cama e abrisse as pernas. Diante de toda aquela feiúra, citada em todo o texto de Scliar, o rei Salomão, se vê um perplexo broxa, quando não consegue consumar o casamento a culpando por ser tão feia e lhe causar tanto pavor.
- Alguma coisa não está funcionando bem - gemeu ele, e àquela altura o suor já lhe perolava a testa. Aquilo me irritou, aquele anticlímax. Era assim que a suposta noite de paixão terminaria, com um gemido ao invés de um brado de alegria? O que estaca havendo? Resolvi meter a mão e ver o que estava acontecendo. Suprema decepção: o circunciso pinto real estava ali, conforme esperado, mas murcho, flácido. Meu gesto só fez irritá-lo:
- Quem é que te autorizou a mexer aí? Quem pensas que és, afinal?
- Sou tua esposa - respondi, desabrida. - Uma a mais, mas esposa, de todo jeito. Tu és meu esposo. E não estás correspondendo.
Ele ficou um instante em silêncio, os lhos no teto. Depois voltou-se para mim, magoado e ao mesmo tempo furioso:
- Está bem. Queres saber? Broxei. Nunca tinha me acontecido antes, mas agora aconteceu. Broxei. É uma coisa vergonhosa, mas tenho de admitir: broxei. Depois de setecentas esposas, trezentas concubinas e vários casos extras, broxei. Fracasso. Fracasso total.
Bufou.
- Agora: de que é a culpa? É tua. Quem mandou ser tão feia? Além de feia, estúpida. Estou passando por um momento de grandes dificuldades, até ameaça de rebelião enfrento. O que se espera de uma esposa em circunstâncias assim? Compreensão, paciência. Mas não. Forçaste a barra, fizeste até um comício para me obrigar a te receber. Resultado: broxura. Mas arcarás com as conseqüências: sairás daqui como entraste: cabaço. Bem feito. É o castigo que mereces.
A mulher que escreveu a Bíblia , pág. 98 e 99.
O riso zombador remontado por Scliar encontra-se ainda em diversas situações produzidas pelas personagens de A mulher que escreveu a Bíblia . Outra plena situação de riso zombador ou sarcástico está no fato da personagem central ser anônima, pois seu anonimato é ligado a sua própria "feiúra". Ocorre também a percepção de um desvendamento da personagem central pela remontagem de um passado, zombando do fator primordial de escrever a Bíblia à sua maneira, sob suas concepções. Essa remontagem faz do texto de Scliar zombador a uma história que para todos, enquanto leitores, é tão exposta a questionamentos. Os mesmos questionamentos da protagonista remetem o leitor ao riso que ao mesmo tempo que zomba ele questiona os fatos históricos:
Segundo os anciãos, Deus criara o primeiro homem a partir do barro. Eu não tinha nenhuma objeção a essa humilde matéria-prima. Mas por que o homem primeiro, e não a mulher? E por que tinha a mulher sido criada de maneira diferente? A história da costela me parecia tola, para dizer o mínimo, ou talvez até uma afronta, considerando a modéstia dessa peça anatômica.
Decidi corrigir tais equívocos mobilizando para isso as minhas próprias fantasias. Criados, o primeiro homem e a primeira mulher enamoram-se loucamente um do outro, e aí transformam o Éden num cenário de arrebatadora paixão. Fodem por toda parte, na grama, na areia, à sombra das árvores, junto aos rios. Fodem sem parar, como se a eternidade precedendo a criação nada mais contivesse que a paixão deles sob forma de energia tremendamente concentrada. O encontro dos dois era, portanto, uma espécie de Big-Bang do sexo, muito Big e muito Bang. Todas as posições eram usadas, todas as variantes experimentadas, isso sob o olhar curioso das cabras e dos ornitorrincos e, mais, sob o olhar benévolo de Deus.
Que, na minha versão, não os expulsava do Paraíso; ao contrário, encorajava-os: agora que descobristes o amor, podeis enfrentar a vida como ela é, a vida cheia de som e de fúria.
A mulher que escreveu a Bíblia , pág. 127.
Considerando os objetivos e os desejos da personagem central do livro A mulher que escreveu a Bíblia , como parte de sua caracterização, é fácil notar que grande parte de sua dramaturgia cômica tem como base desejos e impulsos carentes de fundo verdadeiro, ou em desconformidade com valores considerados nobres, justos ou dignos pela nossa civilização.
Esta mesma personagem em desacordo com o que está convencionado como esperado, no comportamento e na aparência, resulta a comicidade. Diante disso, toda a naturalidade e verossilhança observadas na obra de Scliar remetem o leitor aos atos, desatos e emoções ligadas tanto à personagem central quanto a seus coadjuvantes. Esta observação evidencia-se com uma assertiva de Propp de que os autores humorísticos devem abandonar a idéia de fazer rir desde as primeiras linhas, buscando um discurso o mais contido e simples possível.
Em todo o texto de A mulher que escreveu a Bíblia o cômico realiza-se sobre uma manifestação que não ultrapassa o limite onde inicia a objeção do leitor. O que em determinada gradação pode parecer ridículo ou engraçado, numa outra maior pode parecer repugnante. Imagens de deterioração física ou que emanem dor de sua protagonista, a personagem anônima, sofrimento ou absoluta impotência diante de determinadas situações, não provocam o riso, mas seu reverso:
Uma pedra. Uma pequena pedra.
Diferente de outras pedras da montanha, aquela era lisa, suave ao tato. Tão lisa que chegava a surpreender: que erosão tinha domado a aspereza habitual?
Quem sabe não se tratava de erosão. Quem sabe era o trabalho de algum misterioso habitante da montanha, um gnomo ou bruxo, que polira pacientemente a antes áspera superfície, pensando, um dia a feia virá à montanha em desespero e então esta pedra lhe servirá de consolo.
Não sei. O certo é que a pedra - pelo tamanho, pelo formato ovóide, e sobretudo pela lisura - servia perfeitamente para o que eu queria. Essa pedra substituiria o amante que eu, feia, nunca teria. Introduzida na vagina, far-me-ia gozar.
Não deu outra. A partir daí a boa pedra me proporcionou muitos e muitos momentos de amargo e solitário prazer. Oculto sob outras pedras, essas de aparência comum, grosseira, o querido calhau aguardava por mim; impaciente, antecipando o momento de penetração em certa grutinha úmida; fremindo, sim, de prazer. Quê? Pensais que as pedras não sentem? Enganai-vos, homens e mulheres de pouca fé. As pedras sentem, sim, sentem muito mais do que certos humanos, os de duro coração e os outros. Só não manifestam seus sentimentos. Não gritam, não choram, não clamam aos céus. Mas reagem com gratidão à mão que as acaricia; armazenam a ternura como uma bateria armazena energia e depois a devolvem. No meu caso, no caso da minha querida pedra, generosa devolução, com juros e correção monetária. Que orgasmos, damas e cavalheiros. Que orgasmos. Verdadeiros terremotos corpóreos, terminando com um lancinante e mal contido grito.
A mulher que escreveu a Bíblia , pág. 32 e 33.
Diante de tal situação abordada nesta citação percebe-se o quanto a personagem vê-se refletida na figura da pedra. O riso aqui proporciona ao leitor um certo momento de ridicularizarão do ato relatado pela protagonista. Ao mesmo tempo em que surge esta mera sensação pode-se verificar o quão absurda é a cena e o tamanho de sua carência ligada aos sentimentos. Ela colocou todos seus sentidos ligados aos anseios físicos de uma pequena pedra lisa mas que lhe proporcionara tanto prazer, até então, pro ela não havia sido vivido. O riso grotesco aqui declara uma afeição a um objeto que amena as sensações de poder obter o toque de uma pessoa do sexo oposto.
Este relacionamento com a pedra fica cada vez mais ridículo quando ela, a personagem central, sente remorso por estar apaixonado pelo pastorzinho e já não conseguia pensar na pedra com tanta freqüência.
Pensar na pedra era algo que eu raramente fazia, mas que me dava remorsos - remorsos tão intensos que uma vez não pude resistir e fui ao esconderijo ver se ela ainda estava lá, no lugar em que eu a pusera. No primeiro momento, não a encontrei, e levei um susto. Alguém a levou, foi o que de imediato pensei. Mas quem? E por quê? A pedra - o formato ovóide, a lisa superfície - seria usada como objeto decorativo em alguma casa, ou teria outro propósito aquele, ou aquela, que dela se apossara? Mil coisas me ocorreram: a pedra chegando às mãos de meu pai e ele me chamando, furioso: reconheces essa pedra, e reconheces, o que fazias com ela?
Não, não, ninguém tinha subtraído a pedra. Eu é que me enganara quanto ao lugar. Quando a encontrei cheguei a chorar de alegria: beijei-a, pedi-lhe perdão. E de repente, me deu certa vontade... Penoso dilema: de um lado, a pedra e o parco, mas seguro consolo que me oferecia; de outro, minha nova condição de letrada, aparentemente incompatível com manipulações tão primárias. A tentação, contudo, era forte demais, e eu já ia ceder a ela - mas justamente nesse momento um grande alarido elevou-se lá de baixo, da aldeia. É o pastorzinho que está voltando, foi o que de imediato pensei, ele veio desafiar meu pai e a aldeia para me levar consigo, eu, a única mulher que realmente o amou. Movida por essa idéia maluca, joguei a pedra na caverna e precipitei-me montanha abaixo.
A mulher que escreveu a Bíblia , pág. 42 e 43.
"Na realidade, a função do grotesco é liberar o homem das formas de necessidade inumana em que se baseiam as idéias dominantes sobre o mundo. O grotesco derruba essa necessidade e descobre seu caráter relativo e limitado. A necessidade apresenta-se num determinado momento como algo sério, incondicional e peremptório. Mas historicamente as idéias de necessidade são sempre relativas e versáteis. O riso e a visão carnavalesca do mundo, que estão na base do grotesco, destroem a seriedade unilateral e as pretensões de significação incondicional e intemporal e liberam a consciência, o pensamento e a imaginação humana, que ficam assim disponíveis para o desenvolvimento de novas possibilidades. Daí que uma certa "carnavalização" da consciência precede e prepara sempre as grandes transformações, mesmo no domínio científico." 1
O espírito de zombaria e o carnaval registram o "cômico" na história narrada por Scliar. Através desta remontagem das crenças bíblicas ele aprofunda um grande questionamento que traduz para o leitor um cômico grotesco sendo remetido ao riso do próprio grotesco. Desde o afetuoso contato da personagem anônima com uma simples e roliça pedra, à escrita de um Bíblia baseada em uma visão feminina da história cristã.
Assim sendo, o grotesco não é igual à comédia. O riso do grotesco não é o riso da comédia. O riso da comédia faz rir, já o riso grotesco desintegra, totalmente, uma concepção dominante, no livro, à crença cristã, sendo que no texto de Scliar essa desintegração é evidenciada nos escritos da personagem central.
O rei se adiantou, radiante. Fez um pequeno discurso dizendo que aquele era um dia histórico, a visita da rainha somando-se às bênçãos que Deus tinha derramado sobre seu reino:
_ Nossa fama se espalha pelo mundo conhecido. Nosso Templo atrai visitantes de todos os lugares. E breve...
Pausa dramática.
_ Breve tudo isto será coroado por uma obra da maior importância, uma obra não material, mas intelectual, que marcará para sempre a História da humanidade. E fico feliz pelo fato de que o lançamento dessa obra coincida com a visita da rainha de Sabá, que veio de tão longe para nos homenagear.
A revelação criou um certo suspense: de que estava falando, o rei? Que obra intelectual seria aquela? Estavam todos intrigados, e eu mais que todos. Estaria o rei falando do livro no qual eu trabalhava? Pretenderia ele homenagear, com o fruto do meu esforço (e do esforço de outros), uma desconhecida, por mais importante que fosse? Ou seria aquilo uma simples manobra publicitária, destinada a chamar a atenção para o lançamento da obra? Fosse como fosse, o certo é que eu não havia sido consultada, e aquilo me deixava puta da cara. Resolvi que, na primeira oportunidade, chamaria o rei às falas, perguntando que história era aquela.
A mulher que escreveu a Bíblia , pág. 178 e 179.
"O exagero, o hiperbolismo, a profusão, o excesso são, segundo opinião geral, os sinais característicos mais marcantes do estilo grotesco". 2
Esta citação de Bakhtin encaixa-se tanto nas ações, já citadas, da personagem central, quanto na linguagem usada por Scliar em todo o texto. Neste processo de produção dos diálogos e até mesmo em seus monólogos a personagem central é contextualizada em frases que a revelam grotescamente risível aos seus sentidos e sentimentos mais escusos. Neles ela se vê uma mulher já caricaturizada como feia e sujeita aos mandos e desmandos de um rei, Salomão, que a subjugara a uma simples escriba entre outros escribas já assim constituídos do "poder" de serem do sexo masculino. Fatos que a moldaram como uma esposa que, assim como as outras, haveria de se rebaixar aos devaneios de seu esposo, o rei Salomão.
Aquilo me deu muita raiva - o rei fodendo, sem dar bola para nada, nem mesmo para o risco que estava correndo - mas eu não desistiria. Lembrei-me da parede, da parede através da qual eu ouvia as conversas dos dois. Se eu os escutava, na cerca seria escutada também. Fui para o meu quarto, colei o ouvido na dita parede. Sim, lá estavam os dois, e era aquela coisa de risinhos e gemidos e a sacanagem em versos: tua boca cubra-me de beijos, teu ventre é como uma taça, o negócio que eu já conhecia de cor e salteado.
_ Salomão! - chamei, através da parede. - Salomão, abre a porta, tenho algo a te contar, algo muito urgente!
Nenhuma resposta.
_ Salomão! Teu trono está ameaçado!
Trono ameaçado? Pelo visto, ele não pararia de trepar por tão pouco. Que fosse para o diabo, o trono, foder era muito melhor.
_ Salomão, tua vida corre perigo!
Nada. Perdi a paciência.
_ Salomão! Porra, Salomão, será que não dá para parar de trepar e para prestar atenção em uma coisa séria? Onde é que está tua sabedoria, calhorda?
A mulher que escreveu a Bíblia , pág. 197 e 198.
Da linguagem parte o pressuposto de que diante de uma vida de punições o risível aplicado à personagem central de A mulher que escreveu a Bíblia destina-se a uma exposição ao ridículo, grotescamente remontado em suas ações, falas e pensamentos que constituíram seus sentimentos desde seu pai, o pastorzinho e a paixão pelo seu esposo, o rei Salomão, até a singela pedra que remetia certa ligação a um desejo sexual da personagem. A estrutura desta mesma personagem faz-se marcante em todo o texto, mas é no final que ela revela-se uma mulher forte e que poderia articular o seu futuro. O risível aparece mais uma vez para deslanchar seus sentimentos. Agora surge o seu pleno e puro sentimento de justiça a tudo que já havia passado.
A fórmula mágica funcionou. Deus funcionou mesmo. O cara era bom de cama; e eu, estreando, não me saí mal. Meu ventre era como uma taça, e dessa taça ele sorveu, abundante, o vinho da paixão. Não foi a prosaica noite de núpcias que eu esperara: foi uma celebração, um verdadeiro banquete de sexo, todas as posições, todas as variações sendo experimentadas. De zero a dez, nota oito, com desconto dado por minha modéstia.
Levantei-me de madrugada. Ele dormia ainda, sonhando - com quê, eu nunca descobriria, e nem queria saber: preferia o mistério. Beijei-o pela última vez e saí. Caminhei sem ruído pelos corredores, cheguei ao jardim. De seus abrigos, fitavam-me os pombos.
Sem dificuldade, pulei o muro do palácio. Corri pelas ruas da cidade adormecida, em direção ao sul, ao deserto. Ia atrás de um certo pastorzinho. Se me apressasse, poderia encontrá-lo em dois ou três dias. À altura de certa montanha. E de suas enigmáticas, mas promissoras, cavernas.
A mulher que escreveu a Bíblia , pág. 215 e 216.
Nossa capacidade de rir é nossa capacidade de iluminar o caos, desmascarar a ordem apenas aparente, sacudir o que quer permanecer inalterável. O riso é primo irmão da razão, filho da raiva, sobrinho da inconformidade. O riso ao mesmo tempo nos coloca os pés no chão e nos lança em vôos acrobáticos. Então não rimos "apesar de", mas "por causa de". Mas até que ponto? Até o ponto da nossa própria objeção. E do respeito que temos, enfim, por nós mesmos. Há uma espécie de comédia que parece ignorar alguns limites. E para ela há espectadores rindo. Mas, o riso nos revela. E talvez possamos aprender sobre nós mesmos com ele.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAKHTIN, Mikhail Mikhailovith, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento . São Paulo, 2ed. HUCITEC 1993.
BERGSON, Henri. O Riso . Editora Guanabara, Rio de Janeiro, 1987.
PROPP, Vladimir. Comicidade e Riso. Editora Ática. São Paulo, 1992.
SCLIAR, Moacyr. A mulher que escreveu a Bíblia. Companhia das Letras, São Paulo, 1999.
Notas:
BAKHTIN Mikhail Mikhailovith, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento . São Paulo, 2ed. HUCITEC 1993.
BAKHTIN Mikhail Mikhailovith, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento . São Paulo, 2ed. HUCITEC 1993.