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O riso melancólico do centauro: uma problemática da identidade
Luciana Gomes Lima de Freitas (FESURV)

"Agora é sem galope. Agora está tudo bem. Somos, agora, iguais a todos. Já não chamamos a atenção de ninguém. Passou a época em que éramos considerados esquisitos". A frase é a fala inicial do personagem Guedali em O centauro no jardim , romance de Moacyr Scliar, publicado originalmente em 1980. O tom melancólico mescla a alegria com uma ponta de tristeza por querer crer, de alguma forma, que naquele momento ainda não se sente excluído da sociedade em que vive, na medida que ele, Guedali, um ex-centauro mutilado, expõe a realidade pessoal de um judeu e suas aventuras e desventuras em meio a uma sociedade preconceituosa.

A grotesca mudança física de Guedali representa a fuga e, ao mesmo tempo, a busca de si mesmo, em um desvendar de sua identidade. A brusca transformação gera um comportamento melancólico no narrador, mas, ao invés de despertar no leitor tristeza e compaixão, apresenta-se de modo extremamente agradável. Isso se deve à utilização do riso como elemento filosófico, o que representa uma forma de defesa e auto-preservação ante o desespero provocado por sua realidade: um tipo de humor característico da cultura judaica.

Segundo o teórico russo Vladimir Propp, há duas condições definidas para que o riso se estabeleça: a de quem ri, porque assume uma posição individual do que seja moral ou justo; e a segunda, a de quem observando o mundo à sua volta percebe que algo contradiz o que está certo, dentro da perspectiva individual, que não lhe corresponde. Assim, o riso nasce da observação de alguns defeitos no mundo em que o homem vive e atua 1.

Desde seu nascimento, o narrador Guedali é forçado por sua própria realidade - a de um ser "grotesco"- a se reconhecer como diferente, em meio a pessoas normais; primeiro para sobreviver e posteriormente para tomar consciência de si próprio:

Da cintura para baixo, o pêlo de cavalo. As patas de cavalo. A cauda, ainda ensopada de líquido amniótico, de cavalo. Da cintura para baixo, sou um cavalo. Sou - meu pai nem sabe da existência deste substantivo - um centauro. ( CJ 2, 19)

A princípio, a atitude dos pais é o primeiro conflito a ser enfrentado por Guedali: ao invés de receber o afeto esperado, ele é rejeitado pela mãe devido ao sofrimento do parto e sobretudo por causa de sua aparência; já o pai, mesmo assumindo uma postura resignada diante da situação, não consegue demonstrar nenhum tipo de sentimento em relação a Guedali, que se isola. No entanto, quem atua com decisão é alguém de fora do conflito - a parteira -, que, diante da situação inusitada, cuida do pequeno centauro e da família e insiste que se fortifiquem, pois "sofreram um forte abalo, os pobres judeus, precisam se recuperar" ( CJ, 20).

Mesmo com a rejeição dos pais, o pequeno centauro sobrevive, graças aos cuidados e ao carinho da parteira, limitado mas suficiente para prover suas necessidades nos primeiros meses :

A parteira traz um caixote, forra-o com panos (pensaste em palha, parteira?Confessa, pensaste. (...) Até que ele não é feio, suspira, enquanto me coloca, adormecido, no caixote; um menino de feições agradáveis, cabelos e olhos castanhos. Mas da cintura para baixo (...) monstrengos (...), mas nunca pensou que viesse a cuidar de um.Dorme, bichinho, murmura ( CJ, 20).

Ao mesmo tempo em que disfarça o sofrimento pessoal devido ao aspecto grotesco do seu corpo, o riso melancólico do narrador revela a construção de uma alegoria dentro do contexto da narrativa, a do imigrante judeu numa terra estranha à sua cultura. Assim, ao enredo da obra subjaz uma visão alegórica do estabelecimento dos imigrantes judeus no Brasil e as primeiras dificuldades enfrentadas na adaptação social, política e religiosa.

Por ser uma característica específica da fábula, que através dos animais subentende-se os homens, o alegorismo não assegura o riso. Entretanto Scliar faz de O centauro no jardim uma fábula na sua trama e, assim, o riso é suscitado todas as vezes que o personagem centauro-narrador-Guedali realça os seus defeitos e os da sociedade em que convive, numa correlação em que seu lado animal representa as suas ações em busca de uma identidade, que se vê tolhida pela assimilação dos vícios sociais humanos 3.

Explicando que não queria estragar a fantasia de centauro, muito cara, na verdade estava me protegendo de mãos indiscretas(...) me achavam estranho, mas eu não era ali o mais esquisito; o tirador de facas falava sozinho, o palhaço não se dava com ninguém , o trapezista gostava de colocar baratas nos bolsos dos anões ( CJ , 74).

À medida que o menino cresce, será alvo da derrisão em várias situações. Em quase todas o narrador descreve circunstâncias em que prevalece o riso melancólico. As ações e a voz do personagem-narrador Guedali realçam o riso no contexto do enredo, exibindo ora a sensação de incapacidade de convivência com a sociedade por causa de sua condição homem-animal, ora pelo sentimento de culpa em não entender sua própria condição de centauro.

- O que é que tens, Guedali?-perguntava a mãe.

- Nada, mãe, eu murmurava, deve ser alguma coisa que comi, sinto um pouco de dor de barriga.Estendia a mão vacilante, tocava-me o ventre: pobre mão, perdida na imensidão daquela barriga, entre uma mancha marrom e outra branca. Que raça de cavalo será a minha? - me interrogava, meio dormindo, meio acordado. Palominho? Árabe ? Mestiço? Percherão? ( CJ, 65).

A descrição que faz do seu corpo, de suas próprias atitudes e das dos outros em relação a ele reflete e reitera o riso melancólico, às vezes usando um humor espirituoso, como na seguinte passagem:

Li Marx . Tomei conhecimento da luta de classes, uma constante ao longo da historia -mas não vi que papel nela os centauros podiam ter. Eu com os estava solitário escravos contra os senhores ,com o proletariado contra os capitalista. Mas e daí?fazer o que ê?Dar coices nos reacionários?

Li Freud.Ficou patente para mim a existência do inconsciente, dos mecanismos de defesa, dos conflitos emocionais . A divisão da personalidade, eu a compreendi bem. Mas, e as patas?Onde é que entravam? ( CJ, 53).

O narrador procura mesmo dissimular sua crise de identidade. Logo no início da narração, ele descreve como o pai, na tentativa de resgatar sua condição judaica, o submete a um dos mais importantes rituais judaicos, a circuncisão. Ou seja, uma marca indelével da sua cultura provoca novamente o riso; um riso patético que se estabelece por meio de um diálogo entre seu pai e o mohel :

- Não tenho obrigação de fazer a circuncisão em cavalos.

- Não é cavalo, berra meu pai, é um menino defeituoso, um menino judeu!

- (...) não vai me dá um coice?(...)

- Não, não tem perigo, garante meu pai, pode vir.

Sente que será uma experiência transcendente - a grande circuncisão de sua vida, aquela cuja lembrança o acompanhará até o túmulo. ( CJ, 31).

Ao lado da problemática da identidade, essa narrativa apresenta características do realismo mágico ao procurar diluir as fronteiras entre a realidade e absurdo. O leitor é surpreendido por uma técnica narrativa singular, que faz do riso melancólico um by-pass nos padrões da narrativas a que se está acostumado. Desse modo, a narrativa realça o fantástico numa alegoria da condição judaica, fazendo com que o aspecto grotesco de Guedali simbolize a diferença, como fator inexorável em sua vida e em seu modo de viver.

Não apenas uma condição o faz diferente , mas duas: a de homem-animal, que por si seria suficiente para sua exclusão social, dentro de uma perspectiva mais local

Eu me figurava essa gente, os judeus, bando imenso, movendo lento no Sinai. (...) dois homens pai e filho, ou talvez irmãos (...) eu apertava os olhos, as duas figuras se uniam, com mais um esforço eu transformava numa espécie de quadrúpede -mas o resultado final era um jumento, um cavalo magro, ou, no máximo de exotismo que eu conseguia, um cavalo. Um centauro ,não. ( CJ ,:52).

E ainda agravada pela condição judia, que o excluiria religiosamente.

Param de rir, se olham, desconfiadas. Judeu , isso será boa coisa? Os judeus mataram Cristo, os judeus são ganaNciosos (...)não é gente ruim, é questão de saber levar, como todos ( CJ , 89).

Guedali incorpora a rejeição tanto pelo aspecto físico quanto pelo mítico, a do povo escolhido por Deus e odiado pelo mundo. Assim, a circuncisão assume dois papéis: a aliança, o reconhecimento de Deus para com o povo judeu, e o do povo para com ele. Isso além da esperança de se alcançar o ardor espiritual perdido pelo tempo, sacrificado em função da adequação de muitos judeus à sociedade em que estiverem inseridos, perdendo aos poucos suas peculiaridades culturais.

A circuncisão então representa, de início, um desejo profundo do personagem Guedali de se reconhecer como indivíduo e como judeu, em busca de uma identidade tolhida em seu nascimento. O riso provocado no momento do ritual de circuncisão de Guedali é um riso melancólico, pois o acontecimento que representa há séculos o resgate da identidade do povo judeu nesse momento se contamina pelo patético, o grotesco, para melhor se efetivar o fantástico na figura do centauro, já que o grotesco é possível somente na arte e impossível na vida 4.

Enfim, O centauro no jardim exibe, dentro da diferença, o sentido do diverso, do ser estranho no seu meio, que é estranho a si e aos outros. Perseguido por todos e marginalizado, o personagem judeu constitui uma diversificação dentro de uma sociedade que não aceita a originalidade, a qual se torna um perigo dentro do círculo vicioso do preconceito.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

PROPP, Vladimir. Comicidade e Riso. Trad. Aurora F. Bernardini e Homero F. de Andrade. São Paulo: Ática, 1992

SCLIAR, Moacyr. O centauro no jardim. São Paulo: Ática, 2001.

 

 

PROPP, Vladimir. Comicidade e Riso . Trad. Aurora F. Bernardini e Homero F. de Andrade. São Paulo: Ática, 1992, p.176.

A sigla CJ refere-se à obra O centauro no jardim , seguida do número de página citada.

PROPP, Op. cit., p. 176.

PROPP, Op. cit ., p. 93.