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Dorotéia sem senso: Uma aproximação do nonsense vitoriano com a Dorotéia de Nelson Rodrigues
Jade Martins (UFSC)

Quase cem anos separam a peça Dorotéia , do dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, do clássico Alice no País das Maravilhas , romance infantil do inglês Lewis Carroll que estabeleceu o nonsense como um gênero literário. Desde que foi lançado, em 1865, Alice é conhecido, lido, relido e debatido no mundo todo, tanto por estudiosos de letras e literatura, quanto por profissionais das áreas da lógica e da lingüística. Dorotéia , escrita por Nelson Rodrigues em 1947 e encenada pela primeira vez em 50, é pouco conhecida até mesmo no Brasil. A grande razão deste descaso está na dificuldade de se encontrar um padrão de classificação para ela. Tragédia, comédia ou farsa? Inspirações surrealistas ou precursora do Teatro do Absurdo? As dúvidas sempre foram muitas, mas o fracasso retumbante da peça não contribuiu para que o problema fosse discutido da maneira mais adequada . Neste artigo, levanta-se a possibilidade de ter sido Nelson Rodrigues não só o inventor do teatro brasileiro moderno como, também, o primeiro dramaturgo a levar o nonsense aos palcos, justamente através da esquecida Dorotéia .

O nonsense - Antes de tudo, falar em obras puramente nonsense remete direta e obrigatoriamente ao período vitoriano, marcado pelo trabalho de Carroll e os limericks de Edward Lear, dois importantes escritores de um grupo que não deixou seguidores. 1 Parte-se então do pressuposto que este gênero literário não ocorreu na história antes desses autores ingleses, ainda que muitos textos anteriores já carregassem certa semelhança com o gênero, principalmente no que diz respeito ao conteúdo fantástico e/ou incoerente. O que marca a distinção é a busca de sentido no não-sentido que embasa os textos iniciais, caminho completamente contrário à proposta nonsensiana. Após o trabalho da pesquisadora Miriam Ávila, porém, já é possível se falar em momentos de nonsense 2 de determinadas obras contemporâneas.

O nonsense, como gênero literário, não faz parte das correntes do realismo convencional da arte. Ao contrário: suas bases estão plantadas na fragmentação, na simultaneidade e na não linearidade. Em relação à proposta não realista, o mundo nonsense é um lugar onde ou você não conhece as regras, ou reconhece e não consegue segui-las. Em última instância, o nonsense instaura o caos. Neste gênero literário, não há um saber final, uma conclusão que nos remeta ao significado de tudo o que foi visto.

Por outro lado, a grande unidade de todas as obras nonsênsicas é o trabalho sobre a própria linguagem. Como gênero literário, o nonsense se autodiscute o tempo inteiro, numa espécie de narrativa dentro da própria narrativa. A obra nonsense pura apresenta sempre uma tensão entre expressão e sentido, dicotomia própria da época vitoriana, como atesta Wim Tigges em seu livro A anatomia do nonsense literário .

Dorotéia - Quando escreveu Dorotéia , Nelson Rodrigues tinha em mente justamente a criação de uma comédia, tanto que a chamou de "farsa em três atos". Num primeiro momento, o texto foi considerado surrealista - classificação que já pode ser descartada sobretudo por não haver nenhuma alusão ao subconsciente, praticamente um paradigma da arte surrealista. Outra possibilidade que sempre se apontou é a inclusão no Teatro do Absurdo, gênero fundado por Ionesco alguns anos depois da encenação da peça de Nelson Rodrigues. Desta forma, Dorotéia seria, então, uma espécie de precursora do estilo. Apesar da consagração da interpretação neste viés do absurdo, esta ainda é uma configuração precária, principalmente se for levada em conta a absoluta falta de síntese que fecha as obras deste gênero narrativo.

Propõe-se aqui, então, uma aproximação de Dorotéia com a estética do nonsense, configuração atestada já na própria sinopse. A prostituta é uma mulher "normal" que chega num lugar totalmente estranho e radicalmente caótico, com regras extremamente específicas, no qual tenta se enquadrar. As primas dona Flávia, Carmelita e Maura são feias, viúvas e reprimidas, enquanto Das Dores, filha de dona Flávia, leva uma existência completamente incoerente com a sua idade. Vivem numa casa sem quartos e camas, não dormem para não sonharem, não conseguem enxergar os homens e sofrem de náuseas na noite de núpcias, mal que atinge várias gerações da família. A bela Dorotéia teve desde a infância uma vida completamente diferente. Sempre enxergou os homens, nunca sentiu as náuseas ancestrais, abandonou a família ainda cedo para fugir com um paraguaio e acabou entrando para um prostíbulo, onde cultivava uma certa preferência por homens mais velhos. Decidiu retornar às origens após perder um filho e jurar que se tornaria uma mulher de respeito.

A falta de comunicação e identificação entre a linda Dorotéia e as três primas é o componente inicial da peça. Dorotéia quer se redimir e levar uma vida como a delas. Para tanto, porém, terá que passar por uma série provações. Antes de tudo, precisa perder sua beleza, artefato maldito que é encarado como causa de todo o mal que assola a vida da personagem-título. As três primas garantem que ela só estará pronta para ser uma delas após visitar Nepomuceno, solitário homem do mato que lhe transmitirá as chagas necessárias para adquirir sua feiúra.

Paralelamente à história de Dorotéia, Nelson Rodrigues desenvolve a relação entre Das Dores e seu noivo, um par de botinas. Quando elas chegam desabotoadas para uma visita, as mulheres se perturbam: apesar de nunca terem visto um homem, estão conseguindo enxergar aquele par de botinas. Ao mesmo tempo, Dorotéia volta para a casa após o encontro com Nepomuceno e lança o suspense: ela conseguirá ficar feia ou isto é impossível? Antes que o enigma se conclua, todos se apavoram porque a filha de dona Flávia não sentiu a náusea tradicional em sua noite de núpcias. Rebelde, Das Dores diz que vai ficar junto ao noivo e garante ser diferente do resto da família. Dona Flávia aproveita o momento para contar a verdade à filha: a menina não existe, nasceu morta aos cinco meses de idade. Como não quer partir para um além longe da mãe, a menina volta para o útero materno.

As chagas purificadoras de Dorotéia finalmente aparecem. O par de botinas desabotoadas, porém, já fez o seu estrago: mostrou às viúvas que elas ainda possuem desejo. Dona Flávia não resiste aos encantos do objeto e lhe acaricia. Carmelita e Maura enchem-se de paixão e passam a enxergar botinas por todos os lados. Dona Flávia, guardiã do passado e da tradição, decide estrangulá-las para preservar a dignidade da casa. Sobram, então, justamente as mais feias: a "regenerada" Dorotéia, e dona Flávia.

Já neste primeiro momento, consegue-se apreender significativas incursões de Nelson Rodrigues no mundo nonsense. Apesar da criação de um universo complicado, exótico e extra-real, a casa das três viúvas, o grande achado do autor é a construção de um ambiente onde a própria linguagem adquire um significado diferente. E é exatamente esta a maior aproximação de Dorotéia com o nonsense.

Como já foi citado, a linguagem é um dos temas essenciais do nonsense. E, dentro do universo da linguagem, o sentido. Há uma forte tensão entre "o que se diz" e o "que se quer dizer" e uma profunda discussão da relação efetiva entre o significante e o significado, dissociação muitas vezes sugerida (e até proposta) pelo nonsense. Em Dorotéia não só as formas da linguagem são questionadas, como os próprios conceitos são postos em xeque, "inversão" para a qual a personagem-título está completamente despreparada. Um dos mais significativos exemplos acontece quando Dorotéia, incompetente em relação a todas aquelas regras, resolve agradar apontando a beleza de Das Dores. Cria-se, com esta atitude corriqueira na realidade cotidiana, uma imensa confusão:

 

"( Maura e Carmelita aproximam-se para lançar, à face de Dorotéia, a injúria suprema. )

AS DUAS ( como se cuspissem ) - Linda é você!

D. FLÁVIA ( ampliando a ofensa ) - E és doce... Amorosa... e triste! Tens tudo que não presta. ( ofegante ) Minha filha, nunca! ( lenta e sinistra ) Nós somos feias... 3

 

Outro exemplo desta modificação no jogo de conceitos e da própria forma da linguagem aparece numa troca de elogios que, no plano da realidade, seriam sem dúvida nenhuma formas de insultos. Nesta cena, as viúvas estão recebendo D. Assunta, mãe do par de botinas.

"D. ASSUNTA - Cada vez mais feia, d. Flávia!

D. FLÁVIA - A senhora acha?.

D. ASSUNTA - Claro.

D. FLÁVIA - E a senhora está com uma aparência péssima!

MAURA - Horrível!

( A conversa anterior representa o cumulo da amabilidade. )" 4

 

A recolocação de conceitos nas coisas e nas pessoas é um dos grandes achados de Nelson Rodrigues na peça. Logicamente, há todo um jogo moral que aborda, sobretudo, a relação mítica entre beleza e maldição, propósito maior da peça que governa toda a ação. Porém, ao fazer uma leitura em cima da moral da sociedade burguesa de sua época, o autor conseguiu também discutir a falibilidade do sistema de comunicação. Dorotéia e suas primas falam a mesma língua, mas não se entendem nunca. A falta de comunicação existe até mesmo entre as quatro mulheres oriundas daquela casa, como fica claro na cena em que Dona Flávia chama Das Dores, que diz: "N ão ouvi teu chamado, mãe... Grita outra vez..."

Há, portanto, a subordinação de uma realidade à linguagem, que adquire contornos completamente inesperados. Se o nonsense for pensado como um trabalho sobre a linguagem e seus limites, ancorado numa dimensão filosófica, tem-se nesta discussão dos conceitos em Dorotéia um dos grandes momentos de nonsense dentro do teatro brasileiro. Apesar da existência de vários outros elementos nonsênsicos na peça, acredita-se que a problemática (para a qual o autor não encontra solução) de comunicação e não comunicabilidade entre Dorotéia e os "outros todos" é o mais significativo deles, porque alcança a raiz daquilo que caracteriza este gênero literário.

Outra importante característica do nonsense diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. Presente especialmente nos limericks de Edward Lear, "fundador" do nonsense na poesia, o embate do homem moderno e a sociedade hostil que o rodeia é um dos grandes eixos desta corrente literária. Colocando Dorotéia como o homem típico de Lear, e o universo do ambiente onde ela pretende "submerger" como a sociedade, alcança-se exatamente os mesmos resultados. A casa das três viúvas é extremamente hostil à presença de Dorotéia, o que resulta numa constante tensão entre esses dois mundos paralelos. O que diferencia as duas abordagens é o fato de Dorotéia acabar "se regenerando", completando sua história extremamente entrosada no ambiente em que se propôs embrenhar-se. O nonsense vitoriano, contrário a esse tipo de síntese narrativa, trabalha justamente com e sobre a tensão presente nesta relação, sem em nenhum momento sugerir uma resolução final.

Ao mesmo tempo, nos livros de Alice a identidade da personagem-título é questionada durante toda a sua trajetória. Às vezes ela é grande, outras, pequena. Em vários momentos ela perde a memória e não sabe porque saem embaralhados os poemas que antes declamava de cor. No nonsense, a questão da identidade é constantemente ameaçada pelos próprios esforços que as personagens despendem para conseguirem sobreviver. Enquanto Alice diminui e aumenta de tamanho, Dorotéia necessita com urgência das "chagas purificadoras", doença que não só irá livrá-la dos seus pecados como, enfim, integrá-la ao novo ambiente. A grande diferença é que processo de integração de fato acontece em Dorotéia , enquanto que em Alice não se opera nenhuma transformação definitiva na personalidade e na visão de mundo da menina.

Outro ponto de encontro transparece nas personalidades excêntricas que passeiam pelos universos dessas obras. Indo atrás de um coelho apressado, Alice acaba entrando numa legítima gaiola de loucos. Os tipos presentes na obra de Carroll incluem gatos existencialistas que desaparecem no ar, hermeneutas que abusam do aforismo, lebres melancólicas e rainhas furiosas que, sem motivo aparente, ordenam decapitações. Os limericks de Lear por sua vez cotejam um universo de velhos com narizes gigantes e toda a sorte de personagens exóticas em situações ainda mais esquisitas.

Dorotéia , a peça, aponta para uma gaiola de loucos de maior profundidade, apesar de bem menos extensa. No "nonsense" do dramaturgo Nelson Rodrigues, existe até casamento de mulher morta com um par de botas. A grande diferença entre estas duas representações de tipos bizarros está nos motivos que levaram os autores às excêntricas personagens. Enquanto o nonsense busca tipos excêntricos para ilustrar as situações esquisitas que formam o cerne criativo da sua poética, Nelson Rodrigues trabalha com arquétipos humanos, estética que norteia boa parte de seu teatro. A excentricidade é um fim em Nelson Rodrigues e um caminho no nonsense.

A ausência de conclusões e explicações que permeia todo o nonsense vitoriano também aparece em Dorotéia . Se Alice acorda sem entender nada, o leitor ou espectador de Dorotéia volta à realidade com a sensação de ter entrado numa história onde as situações se amarram, mas os fios ficam soltos. Não se sabe o que é feito do noivo de Das Dores, por exemplo, quando ele é levado para a casa pela mãe. Nem o que vai acontecer com Dorotéia, nem o destino de Nepomuceno, o homem que lhe passou as chagas, nem ao menos se é informado sobre a procedência do dinheiro que mantém as quatro mulheres naquela casa.

Outro dado fundamental para se entender o nonsense é a imprevisibilidade 5. Alice passeia, encontra um questionador Humpty Dumpty, anda mais um pouco, cai num tabuleiro de xadrez, vai mais adiante, cruza com um gato que some no ar deixando apenas o sorriso e assim por diante. Não há como prever o que vai acontecer, até porque, por não ter sentido, e, mais ainda, por se propor não ter sentido, o nonsense trabalha com pequenas historietas que vão se desenrolando sem que aja por trás delas nenhum significado maior. Esta justaposição de coisas totalmente disparatadas é, na opinião de Klaus Reicher o grande eixo das obras nonsense puras. 6 Em Dorotéia , obviamente há um significado. Porém o imprevisível e o improvável são dois conceitos que aparecem com bastante força na peça de Nelson Rodrigues, sobretudo porque o improvável da própria sinopse acaba automaticamente levando a uma impossibilidade de previsão.

O grotesco, outra característica que marca o nonsense, sobretudo os limericks de Lear, é uma das grandes facetas de Dorotéia . Para ilustrar a podridão do ser humano, e de certa forma o mito da inexorável vitória da morte sobre a vida, Nelson Rodrigues mostra que sua imaginação não tem limites. Um tanto sensibilizada, Dorotéia conta às três primas que o corpo do seu filho não só apodreceu como deixou toda a vizinhança cheirando mal. Numa abordagem menos profunda, ligada à preferência de Nelson Rodrigues por mostrar a vida como ela é , encontra-se o par de botinas sofrendo de uma prosaica dor de ouvido. Outra referência ao grotesco está no fato de os maridos se decomporem sempre depois das mulheres "receberem" a náusea, na noite de núpcias.

A grande resultante de todos esses vetores da peça é a solidão, justamente o único sentimento possível na fria obra nonsense pura. Alice está constantemente sozinha, mesmo que passe boa parte do livro rodeada de gente. Mas, afinal, de que adianta estar acompanhada se não se processa a comunicação? Dorotéia é, por sua vez, uma prostituta infeliz e solitária. As três viúvas vivem trancadas em casa recebendo somente a visita de uma voz que repassa notícias de outros parentes. Em última instância, são cinco almas convivendo na mais absoluta solidão. Na cena derradeira, quando Dorotéia já está mais abominável do que a própria dona Flávia, o sentimento adquire proporções abissais:

DOROTÉIA - Qual será o nosso destino?

( As duas ficam juntas de frente para a platéia. Muito eretas e unidas. Fazem a fusão de suas desgraças. D. Flávia continua segurando a máscara da filha na altura do peito. E dá à companheira a mão livre. São para sempre solidárias. )

DOROTÉIA ( num apelo maior ) - Qual será o nosso fim?

D. FLÁVIA ( lenta ) - Vamos apodrecer juntas. 7

 

 

ÁVILA, Myriam. Rima e Solução . Rio de Janeiro: Annablume, 1996, p. 57

ÁVILA, Myriam. Rima e Solução . Rio de Janeiro: Annablume, 1996, p. 47.

RODRIGUES, Nelson. Dorotéia . In MAGALDI, Sábato. O teatro completo de Nelson Rodrigues . Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 643

Ibid ., p. 636.

Klaus Reichert aponta que a imprevisibilidade principal do processo nonsense é o que diferencia radicalmente o nonsense vitoriano de todos os tipos lúdicos de nonsense anteriores, que, ao contrário do nonsense puro, se definem a partir de seu autoconceito, o sentido.

ÁVILA, Myriam. Rima e Solução . Rio de Janeiro: Annablume, 1996, p. 20.

RODRIGUES, Nelson. Dorotéia . In MAGALDI, Sábato. O teatro completo de Nelson Rodrigues . Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 670.