![]() |
![]() |
[ VOLTAR ] |
A representação etnológica da divindade
Eliane Aparecida Goulart Mendes (
Universidade Vale do Rio Verde de Três Corações/MG )
Faz-se necessário um campo de reflexão sobre os trânsitos em espaços desiguais entre a produção artística renascentista e a produção teatral contemporânea, através de leitura comparativa. Neste trabalho, serão analisadas as figuras de Deus com traços que desconstroem o modelo judaico-cristão (FIG. 1) da figura "O Criador", de Michelangelo(FIG. 2), e o Deus negro traçado por Ariano Suassuna na peça "O Auto da Compadecida" (FIG. 3), tomando-se por referência as obras do pintor do século XVI e do autor contemporâneo, a fim de refletir o impacto nos processos de recepção. Propõe-se, assim, uma discussão sobre as diferentes formas de representação de um deus que foge aos padrões culturais da sociedade e que, gradativamente, delineiam percepções particulares de reprodução da divindade, evocando temporalidades com ênfase etnológica.
Observa-se que o teatro nasceu entre os gregos, na Antigüidade. A principal alteração que tem experimentado, desde então, é quanto à sua função: tem servido para divertir, satirizar a classe política, refletir sobre os problemas sociais, conscientizar politicamente os oprimidos, fazer refletir sobre a própria condição humana. Para o dramaturgo alemão Bertolt Brecht, a principal função da atividade teatral, entretanto, é a de proporcionar prazer, aquisição de conhecimento. Um prazer que educa, conscientiza e diverte.
Não há fenômeno teatral sem a conjunção da tríade ator, texto e público: um ator interpreta um texto para o público. E entre ator e público é estabelecida uma cumplicidade: ambos sabem que se trata de um jogo, de uma representação. Por meio da razão e da emoção, estabelece-se um diálogo vivo entre ator e público, proporcionando, dessa forma, prazer. O teatro é uma arte que age diretamente sobre os homens. Ele ensina, provoca, faz refletir.
"O Auto da Compadecida" é um texto teatral, sendo uma obra que atraiu grande público e foi aproveitado não só para o teatro - uma manifestação artística da antigüidade clássica - como também na arte contemporânea (televisão e cinema). A representação da divindade por Ariano leva a população brasileira à uma reflexão e resgate de valores etnológicos, criando por meio disso uma realidade atual, uma vez que os cidadãos brasileiros precisam se conscientizar de que é necessário se libertar do preconceito e assumir que o sangue negro circula em suas veias. O Brasil é poliedro de raças: muita gente veio de fora fazer parte do povo brasileiro, entre 1820 e 1950, tais como: 1,7 milhão de portugueses, 1,5 milhão de italianos, 719 mil espanhóis, 295 mil alemães, 243 mil japoneses, 200 mil ucranianos e 450 mil outros conforme dados do "Guia dos Curiosos do Brasil".
Convém lembrar que Michelangelo, também, na tentativa de representar a figura do Criador, esculpiu-o com traços semelhantes à sua imaginação e não com as de um Criador que trouxesse características européias como eram impostas pela sociedade da época. Mesmo consciente de que naquele período ocorriam perseguições religiosas, o artista acabou rompendo com os padrões estéticos europeus. Ao fazer uma analogia da obra de Michelangelo e de Ariano verifica-se uma ruptura com padrões pré-estabelecidos e um desejo de representar a divindade que pudesse realmente retratar e analisar uma questão etnológica vigente.
"O Auto da Compadecida" é uma peça teatral de fundo popular e religioso, que foi encenada pela primeira vez em 1955, e que, embora seja contemporânea, apresenta grande carga semântica ao representar a divindade por meio de um Deus Negro, assim como a obra renascentista em que Michelangelo tenta reproduzir a divindade que representa um Criador que difere das exigências da sociedade atual. A pintura trabalha com tinta, cores e formas, que se materializam por meio da obra de arte, sendo também uma forma de expressão artística como a dramaturgia.
Ao comparar as obras, há possibilidade de se acompanhar a evolução cronológica da literatura de determinado povo e cultura e analisar a relação entre suas transformações e os diversos momentos históricos.
"A literatura tem sido, ao longo da história, uma das formas mais importantes de que dispõe o homem, não só para o conhecimento do mundo, mas também para a expressão, criação e re-criação desse conhecimento. Lidando com o imaginário, trabalhando a emoção, a literatura satisfaz sua necessidade de ficção, de busca de prazer. Conhecimento e prazer fundem-se na literatura, e na arte em geral, impelindo o homem ao equilíbrio psicológico, e faz reunir as necessidades primordiais da humanidade: a aprendizagem da vida, a busca incessante, a grande aventura humana." 1
Pressupõe-se que Michelangelo partiu de experiências pessoais e sociais, recriando ou transcriando a realidade, dando origem a uma supra-realidade ou a uma realidade ficcional. Por meio dessa supra-realidade, ele consegue transmitir seus sentimentos e idéias ao mundo real, de onde tudo se origina. A reação do público à obra também pode modificar as atitudes futuras do artista.
Assim, a obra de arte é um objeto vivo, resultado das relações dinâmicas entre artista, público e sociedade. E, como outras obras de arte, ela não só nasce vinculada a certa realidade, mas, também, pode interferir nessa realidade, auxiliando no processo de transformação social.
Dentre os pontos comuns entre as expressões artísticas, o principal é a própria essência da arte, ou seja, a possibilidade de o artista recriar a realidade, transformando-se em criador de mundos, de sonhos, de ilusões, de verdades. Ele tem, dessa forma, um poder mágico em suas mãos: o de moldar a realidade segundo suas convicções, seus ideais, sua vivência.
O poeta e crítico de arte Ferreira Gullar assim se manifesta sobre essa transformação simbólica do mundo:
"A arte é muitas coisas. Uma das coisas que a arte é, parece, é uma transformação simbólica do mundo. Quer dizer: o artista cria um mundo outro - mais bonito ou mais intenso ou mais significativo ou mais ordenado - por cima da realidade imediata.
Naturalmente, esse mundo outro que o artista cria ou inventa nasce de sua cultura, de sua experiência de vida, das idéias que ele tem na cabeça, enfim, de sua visão de mundo". 2
Em outras palavras, o artista quer, com seu trabalho, interferir no mundo em que vive, agir socialmente, comunicar-se. Picasso, com o seu Guernica , fez as seguintes reflexões sobre o papel do artista e da obra de arte:
"O que pensa que é um artista? Um idiota, que só tem olhos quando pintor, só ouvidos, quando músico, ou apenas uma lira para todos os estados de alma, quando poeta, ou só músculos quando lavrador? Pelo contrário! Ele é simultaneamente um ente político que vive constantemente com a consciência dos acontecimentos mundiais destruidores, ardentes ou alegres e que se formam completamente segundo a imagem destes. Como seria possível não ter interesse pelos outros homens e afastar-se numa indiferença de marfim de uma vida que se nos apresenta tão rica? Não, a pintura não foi inventada para decorar casas. Ela é uma arma de ataque e defesa contra o inimigo." 3
Mas os artistas fazem uma leitura de mundo e a manifestam numa obra de arte segundo valores estéticos de um determinado momento histórico, independentemente do material que será trabalhado (palavras, sons, barro, mármore, madeira, formas, cores, etc.) e, portanto, da linguagem em que se expressará. Chegamos, assim, a outro aspecto essencial da arte: o estético, que se relaciona com a capacidade de percepção, de apreensão pelos sentidos, com sensibilidade, enfim.
A obra de arte é a materialização de uma idéia que se expressa por uma linguagem, o que permite afirmar que a obra de arte "significa", ou seja, ela fala, comunica, pode e deve ser lida pelo outro. O sentido de uma obra é construído pelo artista, que a produz, e pelo apreciador da arte, que a lê, analisa, interpreta.
<= (FIG. 1) Resultado da simulação, com base no crânio de um judeu do século I: Cristo mais moreno.
Na realidade, é impossível afirmar qual era a aparência de Cristo. Os Evangelhos não fazem nenhuma referência ao aspecto pessoal e descritivo do filho de Maria.
Há uma probabilidade de um Cristo com uma aparência levantina que causou espanto, uma vez que o filho de Deus teria um rosto mais arredondado, com o nariz grosso, a barba mais espessa. Convém lembrar que Jesus nasceu e viveu sob o sol escaldante do Oriente Médio.
(FIG. 2) VEJA, ed. 1694, 4 abr. 2001 / VEJA On-Line - www.veja.com.br
Nos primeiros séculos do cristianismo, Cristo era representado por metáforas retiradas do Evangelho, aparecendo como um pastor ou um cordeiro. À medida que as perseguições religiosas diminuíram, os simbolismos abriram espaço para imagens condizentes com o crescimento da Igreja Católica. No século IV, quando o cristianismo foi adotado como a religião do Império Romano, Cristo passou a ser retratado como um homem forte e invencível. Na época das Cruzadas, na Idade Média, a pele clara de Cristo nos quadros retratava as conquistas cristãs, pois os não-brancos eram vistos como pagãos. Com a posição de liderança da Igreja Católica consolidada, deu-se maior ênfase à imagem de humildade e sofrimento. Havia igualmente a preocupação de ressaltar sua dupla natureza - divina e humana - o que deu asas à imaginação dos artistas. A arte renascentista, com Leonardo da Vinci, Rafael, Ticiano e Michelangelo, foi a que deu contornos à imagem de Cristo que persiste até hoje, 500 anos depois.
RAFAEL - Influenciado por Leonardo da Vinci, representava a grandeza heróica de Cristo.
DA VINCI - Mestre do Renascimento, pintou Cristo de maneira suave e com traços angelicais.
MICHELANGELO- Pintor e escultor, retratou Cristo de maneira épica e com formas atléticas .
LOTTO - Veneziano do século XVI, representou Cristo de maneira enigmática.
VELÁZQUEZ - O Cristo do mestre espanhol do século XVII era triste e amarrado à cruz.
Há uma hipótese que permite afirmar a representação do rosto de Cristo como um signo na linguagem das artes plásticas, evidenciando o choque entre a realidade e a sua representação. É possível afirmar que a representação do rosto de Cristo tornou-se um signo na linguagem das artes plásticas. Considerando que Cristo tivesse realmente uma aparência levantina (ou seja, aparência característica dos nativos da região oriental do Mediterrâneo), existe uma razão que teria levado os artistas a representar sua face com nariz alongado, olhos claros, pele clara, cabelos lisos. Se se voltasse a viver numa época de perseguições religiosas, que características teriam as representações de Cristo, se a igreja Católica adotasse uma política expansionista? Teriam as representações de Cristo características próximas às de Michelangelo?
A imagem do rosto de Cristo criada anteriormente ao período renascentista obedecia uma visão eurocêntrica e, em particular, do norte da Europa, não contaminada pelos mouros, considerados os inimigos da fé cristã durante a expansão muçulmana. É visível que essa é uma característica das artes em geral quando submetidas a perseguições, censura. Dessa forma, é possível ter imagens representativas de um Cristo pintadas ou esculpidas por Michelangelo.
Observa-se, então, uma necessidade de um estudo etnológico ao analisar a representação da imagem do Cristo feita por Michelangelo e por Ariano.
O homem, como ser histórico, tem anseios, necessidades e valores que modificam constantemente suas criações, entre elas a literatura - que reflete seu modo de ver a vida e de estar no mundo. Assim, ao longo da História, a literatura foi concebida de diferentes maneiras. Mesmo os limites entre o que é e o que não é literatura variaram com o tempo. Literatura é a arte que utiliza a palavra como matéria prima de suas criações.
(FIG. 3) Cena do filme "O Auto da Compadecida" (Ariano Suassuna)
A literatura, de modo semelhante (re)cria a realidade, utilizando suas próprias convenções. Cada obra representa um modo particular de ver a realidade.
Assim define literatura o crítico José Veríssimo e, a partir do momento em que se aceita literatura como uma manifestação artística, difícil é o trabalho de conceituá-la.
As manifestações artísticas são múltiplas - pintura, escultura, dança, música, fotografia, literatura, por exemplo - e, entre elas, há pontos comuns e pontos distintivos. O principal elemento de distinção é a matéria-prima com que trabalha cada artista e a forma como se expressa. Em outras palavras: a linguagem de cada manifestação artística e de cada artista em particular.
A pintura explora formas e cores no espaço bidimensional da tela; a escultura explora formas num espaço tridimensional. Em ambos os casos, a troca do material utilizado resulta em diferentes maneiras de se expressar. Certos artistas, por exemplo, reproduzem uma mesma peça em mármore e em bronze com resultados distintos.
A arte literária trabalha com uma matéria-prima específica: a palavra. Entretanto, é necessário atentar para o fato de que não basta fazer uso da palavra para produzir literatura. Só se produz um texto literário quando a intenção do escritor vai além da mera informação ou de uma proposta de reflexão sobre a condição humana. Sua intenção deve estar voltada também para a própria elaboração da mensagem, selecionando e combinando as palavras de uma forma muito especial.
O crítico Jonathan Culler ressalta:
"Muitas vezes se diz que a 'literariedade' reside, sobretudo, na organização da linguagem que torna a literatura distinguível da linguagem usada para outros fins. Literatura é linguagem que coloca em primeiro plano a própria linguagem: torna-se estranha, atira-a em você - 'Veja! Sou a linguagem!' - assim você não pode se esquecer de que está lidando com a linguagem configurada de modos estranhos". 4
Finalmente, uma lembrança importante: escritor e escultor são artistas demiurgos (criadores) de fantasias, mas não deixam de ser também homens que têm necessidades relativas à sobrevivência e - o que é mais importante - uma função social e também etnológica, uma vez que representar a divindade significa a materialização de conceitos impostos pela sociedade.
VIEIRA, Alice . O prazer do texto - perspectivas para o ensino de literatura. São Paulo: E.P.U., 1978 - p. XI .
GULLAR, Ferreira. Sobre arte . Rio de Janeiro: Avenir; São Paulo: Palavra e Imagem, 1982.
WALTHER, Ingo F. Picasso . Colônia: Taschen, s/d.
CULLER, Jonathan. Teoria literária - uma introdução . São Paulo: Beca, 1999.