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As qonfissões de um Qorpo: insólita autobiografia
André Menna (UFSC)
Quem levaria em consideração um homem cujos hábitos eram tão esdrúxulos e cujas idéias eram tão inovadoras para o período em que surgiram? Se, por um lado, a sociedade porto-alegrense oitocentista não se encontrava pronta para entender e aceitar os escritos de José Joaquim de Campos Leão, autodenominado Qorpo Santo; por outro, não se esforçou em fazê-lo e, ligando a pessoa - "louca" - ao artista, esta mesma sociedade optou pela exclusão de um indivíduo em nome de um todo social.
Com o avançar do tempo, após ter assimilado novas correntes filosóficas, ter convivido com modelos artísticos de vanguarda e, principalmente, após ter vivenciado a mudança estrutural que se concebeu em nível cênico, no decorrer dos anos cinqüenta do século passado, que promoveu a ruptura com a mímese realista e deu asas ao absurdo, é que o homem moderno conseguiu perceber que os escritos do autor de Um parto realmente possuem valor artístico e não são, simplesmente, frutos de um cérebro perturbado. Contudo, inúmeras são as pessoas que ainda suspeitam do talento de Qorpo Santo, porquanto ligam sua pessoa à arte que produziu, concluindo, assim, que seus escritos são resultados de uma irreversível insanidade.
Realmente, é possível promover uma aproximação entre a matéria dramatizada e o conhecimento que se tem acerca da biografia de Qorpo Santo. Embora o autor não tenha se transferido metonimicamente para suas criações, percebem-se alguns pormenores biográficos em suas comédias que conservam, ao nível do texto, suas aspirações e frustrações, o que ocorre em especial nas peças A impossibilidade de santificação ou A santificação transformada , Hoje sou um; e amanhã outro , Um credor da Fazenda Nacional e O marinheiro escritor , onde há referências diretas à sua pessoa. Todavia, o fato desses textos conservarem reminiscências ideológicas de seu autor não implica que devemos atribuir as mudanças, que se deram sob forma temática e artística, a uma suposta ausência de lucidez da mente que as criou.
Partindo do pressuposto que a obra de arte não deve ser reduzida à referencialidade trabalhada e considerando, também, o legado cultural das vanguardas, que preparou o leitor moderno para absorver uma literatura não canonizada, fica transparente que o conjunto de novas características que compõem o fazer cênico de Qorpo Santo foi realizado de forma consciente e criativa. Levando-se em consideração a "perseguição" sofrida por Qorpo Santo, o escárnio de que foi vítima e o descaso de seus contemporâneos para com os seus textos, entende-se o porquê das constantes explicações e justificativas que aparecem implícitas em seus escritos, assim como entende-se também o motivo que conduziu o dramaturgo sul-rio-grandense a elaborar uma insólita autobiografia.
O forte tom autobiográfico que se faz presente na dramaturgia de Qorpo Santo vem à tona ora pela citação direta de sua pessoa; ora através de seus pensamentos e/ou teses filosóficas que são verbalizadas e colocadas em prática por outros personagens. Todavia, se é fato que seus textos conservam reminiscências ideológicas e/ou confessionais de seu autor, o que fica são as seguintes interrogações: Como e até que ponto os textos de Qorpo Santo são autobiográficos? Onde está o "real" Qorpo Santo? No texto , ou na leitura que fazemos do(s) texto(s)? Basta lembrarmos que Qorpo Santo foi considerado louco, em função da arte que produziu...
Segundo Wander Miranda, 1 "parece não haver motivo suficiente para uma autobiografia se não houver uma intervenção, na existência anterior do indivíduo, de uma mudança ou transformação radical que a impulsione ou justifique"; partindo desse pressuposto e levando-se em conta o que se conhece sob Qorpo Santo, parece que temos, nas palavras de Miranda, uma justificativa primeira que se encaixa como uma luva para o caso em questão. A autobiografia ocorreria pois, em função da transformação interna do indivíduo provocada por eventos externos que, por sua vez, proporcionaria material para um texto que tenha o eu como sujeito e como objeto , e a legitimidade deste eu estaria diretamente ligada à importância da experiência pessoal e à oportunidade de oferecer o relato a outrem.
De acordo com Philippe Lejeune, 2 o objeto profundo da autobiografia está centrado no nome próprio, no trabalho sobre ele e sobre a assinatura, o que denominou de pacto autobiográfico , isto é, afirmação da identidade entre autor-narrador-personagem, remetendo em última instância ao nome do autor que se faz presente na capa do livro; além disso, o teórico afirma também que a pessoa que anuncia o discurso deve permitir sua identificação no interior do mesmo, pois é no nome próprio que pessoa e discurso se articulam, antes de se articularem em primeira pessoa. A questão autobiográfica se traduz, portanto, como sendo uma "narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza especialmente sua vida individual, sobretudo a história de sua personalidade", 3 todo o texto ficcional que se aproxima desse conceito ou permite ao leitor suspeitar da identidade entre autor e protagonista, embora o primeiro negue ou não afirme tal identidade, não deve ser considerado como um texto autobiográfico propriamente dito, porque, segundo Lejeune, a autobiografia não comporta graus: é tudo ou nada.
Contudo, é inegável que a autobiografia tende a assimilar técnicas típicas da ficção, uma vez que pretende ser simultaneamente um discurso verídico e uma forma de manifestação artística, o que a faz trabalhar constantemente com a tensão entre transparência referencial e pesquisa estética. Sendo assim, a problemática da autobiografia não deve ser entendida como uma relação estabelecida entre eventos extratextuais e sua transcrição "verídica" pelo texto, tampouco pela análise interna do funcionamento deste, mas como "uma análise ao nível global da publicação, a partir do contrato interno e externo proposto pelo autor ao leitor, contrato que determina o modo de leitura e engendra efeitos que atribuídos ao texto definem-no como autobiográfico". 4 Logo, a autobiografia pode ser considerada um modo de leitura, um efeito contratual historicamente variável, pois o que se tem em vista é a posição do leitor e não o interior do texto ou os cânones de um gênero. Torna-se pertinente comentar também que - dentro do vasto quadro da autobiografia - se podem exercitar e manifestar os mais distintos estilos, não existindo, então, uma forma obrigatória, porquanto o que prevalece é a chancela do indivíduo.
Após essa singela exposição teórica, passemos ao caso da insólita autobiografia de Qorpo Santo, para que possamos desfazer ou, pelos menos, minimizar algumas das possíveis dúvidas ou curiosidades acerca da fusão inovadora que o dramaturgo sulino promoveu entre os gêneros dramático e autobiográfico. Como trata-se de um texto de teatro, isto é, que se dá através do diálogo em cena, o "pacto autobiográfico" seria entre autor-personagem, revelando assim uma narrativa retrospectiva dialogada que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza especialmente sua vida individual, sobretudo a história de sua personalidade. A autobiografia via teatro ocorre ora de forma implícita, ora explícita, nas peças do sul-rio-grandense Qorpo Santo; passemos à análise de duas peças em que a autobiografia faz-se explícita, a saber: A impossibilidade da santificação ou A santificação transformada e O marinheiro escritor .
A peça denominada A impossibilidade de santificação ou A santificação transformada , em que o autor escreve e se identifica como personagem através das iniciais C-S, 5 é precedida de uma nota cujo título é Explicação e cujos dados informados remete-nos a pensar no caso particular de divórcio por que passou Qorpo Santo:
Existia em certa cidade da província de São Pedro do Sul um homem cuja vida desde a infância foi digna de maior respeito e atenção. Ocupou diversos cargos depois de sua maioridade, sendo forçado a deixar o último porque, cheia sua cabeça de Luz Divina, começo a profetizar! (...) Casado na idade de 27 anos com uma moça de 22, natural da mesma cidade (...) Tornaram-se, em vez de maiores amigos do que dantes, os mais encarniçados inimigos. Não admira: o marido estava divino; a mulher não passava de humana. (...). 6
Esboça-se, nas explicações acima, além de todo um conflito pessoal que encontra sua gênese no pedido de divórcio e de intervenção dos bens pessoais de Qorpo Santo, por parte de sua esposa, Inácia de Campos Leão, uma certa consciência do autor da incompreensão dos seus contemporâneos para com os seus textos, basta tomarmos as metáforas "cheia sua cabeça de Luz Divina" e "o marido estava divino; a mulher não passava de humana" e ligá-las ao nome da peça, A impossibilidade de santificação , para concluir que por trás do título poder-se-ia ler A impossibilidade de reconhecimento artístico :
C-S. - (...) O que lucrará a humanidade com meia dúzia de folhas escritas!? E o lucro em escrevendo-as!? Parece-me um tempo verdadeiramente perdido. Entretanto, tenho sido e ainda vou sendo forçado a essa pena ou perda! Qual será e quando se me dará a compensação desta perda?! Será amanhã, depois, passado um mês; quando? E qual? Só Deus sabe!... 7
Qorpo Santo parece dizer-nos, nas palavras acima, que estava realmente consciente de que suas mudanças artísticas não seriam reconhecidas por seus contemporâneos, mas então por que não mudou de estilo, tão logo recebeu as primeiras acusações de sua mulher e da sociedade? Poderia, escrevendo à moda romântica, minimizar ou até mesmo reverter os ditos de insanidade que foram dirigidos a ele; mas, ao contrário, insistiu em levar adiante o seu estapafúrdio projeto, o que nos leva a crer que, mesmo questionando-se ("qual será e quando se me dará a compensação") e sem saber ao certo o que buscava (promover a ruptura com o método artístico tradicional, mas como?), tinha a certeza de que queria romper com o cânone para legar-nos uma arte inovadora, calcada no hibridismo estético e na denúncia (dos vícios e salamaleques da sociedade), no campo temático. Daí a necessidade de dar-se a conhecer.
Mais adiante, o problemático fim de seu casamento emerge novamente em uma outra reflexão conflituosa:
C-S. (recostando-se em um sofá) - Medito, penso, reflito e discorro que sou casado, que tenho mulher ainda que é minha muito particular ou figadal inimiga e... filhos e filhas (...) Não estou empregado em serviço do Estado, não tenho negócios particulares que me devam obrigar de viver contra minha vontade ou qual solitário; entretanto, não posso nem ver minha família! 8
Mergulhado em constantes questionamentos, Qorpo Santo, ao mesmo tempo em que parecia cobrar-se uma conduta moral idealizada, sentia-se impelido à uma situação que queria evitar e, ao mesmo tempo, teria que viver. Os fantasmas que provocavam seus instintos também ganharam espaço em seu teatro:
UMA VOZ - Temos o convidado tantas vezes e o senhor ainda não quer ir, senhor Duque de...
C-S. - (Consigo mesmo) - Estas mulheres cuja voz ouço já me têm furtado muito; quase que podia dizer roubado, visto que elas me provocam tanto, que violentam a minha voz, isto é, obrigam-me a responder-lhes.
OUTRA VOZ - Há de ficar com o dinheiro amoedado, e ainda quer comer - sem outras! 9
Além da delicada questão de seu casamento, Qorpo Santo também registrou os problemas financeiros pelos quais passou, oriundos da interdição judicial de parte dos seus bens materiais:
UM CAIXEIRO - (Entrando para C-S., que aparece só em uma sala) - Eis a conta de seu débito na loja e uma letra para o senhor assinar.
C-S. - Diga a seu amo que eu não assino documento algum sem examinar primeiro a conta que o senhor acaba de entregar-me; feito, porém, isso, nenhuma dúvida haverá em passar-lhe um documento, que não será letra, visto que estas obrigam de modo a pagar-se de um dia para o outro, vendendo-se para isso os bens materiais que forem necessários! Será, portanto, um Fica, ou um Crédito... 10
Somando os "acontecimentos" de sua experiência empírica às teses filosóficas que sustentou e que são verbalizadas por outros personagens (Planeta e Rapivalho, por exemplo), Qorpo Santo deixa-se ver em meio a correrias, brigas, empurrões, ações inusitadas, enfim, através de que chamou "uma novíssima peça teatral tríplice chamada 'Comédia, romance e reflexões [autobiográficas]". 11
Já na peça intitulada O marinheiro escritor , Qorpo Santo identifica-se como Leão. O ato primeiro, a priori , parece não ter relação alguma com o restante da peça, trazendo à tona uma espécie de anti-teatro carregado de um tom paródico destinado aos temas morte e amor . Ao longo do ato segundo, o nonsense domina a cena através de uma suposta gravidez de Marquinfálio. Leão aparece no decorrer do quadro primeiro para se despedir do personagem Secretário da Previdência, alegando ter que fazer uma viagem para realizar certos negócios na Campanha.
Tendo em vista que o personagem Leão, durante o segundo, terceiro e quarto quadros, conversa e se despede de personagens que, em função dos nomes que sustentam, percebe-se tratar de autoridades ligadas ao governo - Inspetor da Tesouraria, Chefe de Polícia e Presidente da Província, respectivamente - conclui-se que o "assunto central" desta peça é a crítica ao governo geral e provincial, fato que ocorre em função dos problemas de ordem burocrática que Qorpo Santo enfrentou:
LEÃO - Hoje não venho como em outros dias acompanhar a Vossa Excelência durante horas; mas apenas por alguns minutos. É meu fim receber suas ordens para a cidade de Aljubarrota.
PRESIDENTE DA PROVÍNCIA - E o que vai fazer lá?
LEÃO - Prevenir-me e providenciar para que, passado algum tempo, Vossa Excelência não tenha o desgosto de me ver aqui roto e esfrangalhado... senão nu.
PRESIDENTE DA PROVÍNCIA - Pelo que ouço, está muito desgostoso...
LEÃO - Pois não hei de estar desgostoso, (...) pelas violências que há dois anos seguramente hei sofrido em meus direitos!? Três requerimentos hei apresentado para ter sempre dinheiro com que cubra as minhas dispensas; e não tenho podido conseguir. (...) Pedi que se mandasse buscar minha família há tanto tempo, porque padecia todos os dias em razão de sua ausência! E o que tem feito governo?... Nada! 12
Por fim, o quinto quadro completa e encerra o espetáculo com a volta do personagem Enciclopédio, único fio que liga o ato primeiro ao restante da peça, que dialoga com os personagens Alcaide e Juiz para, ao final do diálogo, castigá-los com uma surra de chicote, um momento catártico que bem poderia ser representado pelo personagem Leão:
ENCICLOPÉDIO - (desenrolando um chicote que tinha na cadeira em que estava sentado) - Agora pagam com o lombo o que a tempos me fizeram com a pena! (Dá uma chicotada no juiz, este corre, mas não acha a porta para sair; dá no escrivão, no meirinho; a estes acontece o mesmo, e andam em roda da sala gritando.) Agora não é como antes. Não é. Não é. (O chicote trabalha sempre, até que fica Enciclopédio sozinho.) Eis o prêmio que tarde ou cedo esperar sempre devem os criminosos!... (corre o pano.) 13
Dito isso, restaria ainda uma análise das outras treze peças que o dramaturgo sulino escreveu, nas quais o seu nome não aparece explicitamente, rompendo com o "pacto" autor-personagem. O que se pode adiantar acerca destas peças é que Qorpo Santo estaria presente nas mesmas porém apresentando-se com uma outra identidade, isto é, percebe-se suas reflexões, seus pensares acadêmicos, suas teses filosóficas e até mesmo seus conflitos e casos particulares em meio a ações e falas de outros personagens. Mas como explicar esse fato, levando-se em conta o que foi exposto até agora e, principalmente, a afirmação de que, para Lejeune, a autobiografia supõe uma identidade assumida ao nível da enunciação, e uma similitude produzida , ao nível do enunciado.
Poder-se-ia responder a tal dúvida afirmando que, da mesma forma que existe distinção entre a autobiografia e o romance autobiográfico, por exemplo, existe uma diferença entre a autobiografia via teatro (em que autor e personagem são os mesmos, como no caso das peças que foram, de modo singelo, analisadas), e o drama de cunho autobiográfico (aquele em que autor e personagem não atendem pelo mesmo nome, mas percebe-se tratar de um só indivíduo). Parece-nos que, a exemplo de toda a sua obra, inovadora por ser de cunho experimental, a insólita autobiografia de José Joaquim de Campos Leão, nascida da fusão de gêneros, não poderia ter sido feita (apenas) sob a forma tradicional: a sua autobiografia foi encenada ao longo de toda a sua arte cênica, cada peça em particular forma uma parte do todo.
Poderíamos, para que se entenda melhor o que foi dito, continuarmos argumentando que "a história da autobiografia seria a história de sua leitura" etc. e etc., mas é melhor tomarmos emprestadas as palavras de Philippe Lejeune e dizermos que o presente estudo é, antes, "um documento a estudar do que um texto científico" e encerrar fazendo com que desça o pano bem devagar sobre este discurso, estudo ou comédia.
1. MIRANDA, Wander Mello. "A ilusão autobiográfica". In: Corpos escritos . São Paulo. Ed. USP, 1992.
2. LEJEUNE, Philippe. "El pacto autobiográfico". Tradução: Álgel G. Loureiro. Paris: Seuil, 1975. In: Suplementos . v. 29. p. 47-61. Obs.: "O pacto autobiográfico", de Lejeune, também possui uma versão em língua portuguesa realizada, pela Profª. Dra. Helena Tornquist, exclusivamente para os acadêmicos da Universidade Federal de Santa Catarina, que foi igualmente utilizada para elaboração deste ensaio.
3. LEJEUNE, Philippe. Op. cit. p. 48. (Tradução: Helena Tornquist).
4. Idem. p. 60. (Tradução: Helena Tornquist).
5. Com relação ao nome ou alcunha escolhida para representar o verdadeiro nome - José Joaquim de Campos Leão Qorpo-Santo, faz-se necessário registrar que não há problema algum de identificação, pois "trata-se de um nome diferente do estado civil do qual a pessoa real se serve para publicar seus escritos, mas é um nome de autor, um segundo nome" (LEJEUNE, Op. cit. p. 52), além disso, "deve-se levar em conta que uma sociedade identifica seus membros atribuindo-lhes também diversos títulos e papéis funcionais, sendo que muitas vezes o autobiógrafo se utiliza dessas etiquetas de identificação". (MIRANDA, Op. cit. p. 32).
6. QORPO SANTO , José Joaquim de Campos Leão. Teatro completo . São Paulo: Ilunimuras, 2001. p. 45-46.
7. QORPO SANTO, José Joaquim de Campos Leão. Op. cit. p. 57.
13. Idem. p. 99-100.