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Do pe or not do pe - O macarrônico do alemão: identidades em trânsito
Ana Carina Baron Engerroff (UFSC)
"Nois deng gue figá firmes. Gueng esdá allemong, esdá allemong: gueng nong esdá allemong, nong esdá! "
DO PE OR NOD DO PE" tice ung veis Richard Wagner. Alles ums Vaterland!!!"
"Deutschtum"", A Manha . Rio de Janeiro, Anno III, n. 39, 11/09/1931.
A produção macarrônica brasileira da primeira metade do século XX, vinculada especialmente em periódicos de caráter humorístico, ao forjar um ponto de vista de um não-nacional, colocou em jogo questões sobre identidade e nação fazendo delas, inclusive, tema de vários textos. Em se tratando de uma literatura macarrônica, cujo fundamento é uma linguagem híbrida que revela processos de integração social, o contato entre culturas serve de princípio gerador e sustentador de criação, instituindo um terreno móvel, intermediário, fronteiriço em que os valores identitários são postos em xeque.
O aspecto lingüístico, denunciador da falta de domínio, por parte do autor suposto, da língua local, de imediato estabelece um estranhamento advindo da ortografia propositalmente modificada de modo a aparentar tratar-se de uma língua estrangeira. Para o leitor, que era brasileiro, esse primeiro choque amenizava-se assim que se realizava a leitura do texto, na realidade constituído basicamente a partir da estrutura sintática do português. Assim produzia-se o segundo impacto: o desvendamento de uma linguagem outra, o sotaque familiar em um ambiente de diversidade cultural, de coexistência de várias nacionalidades, como as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
Responsável por grandes mudanças no âmbito cultural, político e econômico, o intenso movimento imigratório iniciado em meados do século XIX provocou uma (re)formulação de representações de nacionais e não-nacionais. Os brasileiros depararam-se com o estranho, o " unheimlch" nos termos freudianos, aquele que "despedaça a rocha sobre a qual repousa a segurança da vida diária" 1 e que, por não compartilhar das suposições locais, aparece como elemento questionador e desestabilizador. O incômodo pela revelação do já conhecido, do familiar, do " heimlich " reprimido, tornava possível, por exemplo, o estabelecimento de estereótipos que "evitam a reflexão sobre o mundo social e sobre nós mesmos" 2. O desejo de "manter o status quo " 3 e de fugir de um "mundo ameaçador" 4 permitiu a criação e a manutenção de traços responsáveis pela cristalização da imagem do outro.
Os macarrônicos fundamentam-se justamente nos estereótipos que são a base da composição dos personagens (junto com a linguagem) e pretendem garantir a identificação pelo leitor da origem étnica 5 dos autores supostos. No caso do macarrônico do alemão, surgido em 1911 na revista O Pirralho , operava-se com uma série de traços estereotípicos como o germanismo, a paixão pelo chope e a postura intelectualizada a fim de compor a representação do não-nacional germânico.
Especificamente na página do jornal carioca A Manha intitulada "Zubblemend to Alle...manho", essa caracterização estava presente na maior parte dos textos, como em "O lei sekko" 6. Era comum que o cronista, suposto alemão, introduzisse seus comentários sobre acontecimentos cotidianos teorizando a respeito do assunto, explicando-o, o que reforçava seu tom de seriedade. Nesse artigo, depois de relatar didaticamente como foi a criação do mundo, especialmente da água, o cronista argumenta:
Borréng, as allemongs esdava mais esbertes te gue a Teus, e ung pello tia elles bengsei:
- Bucha tiabo! Esta nekocie nong esdá tirreide. A chende deng gue pebê acua dudes tiés, teiste manhang indé tinoide!... Nong, a Teus nong fiz esta nekocie tirreide, o endong, elle nong está allemongs.
E elle fui na laporadorrie, estudei te tia e tinoide, indé gue elle tesgrupiu o fabrikasong te chopp!
- Bucha tiabo, nochmool!!! Nunga mais niuma allemong se imbordei te pebê acua. -Acua? Nong! Isto está ung borgarrie, só brás piches pebê e bras bassarinhes. E bra chende se lavá, nadurralmende.
Fica claro na argumentação que, segundo a perspectiva germanista defendida, não há limites para a sabedoria alemã que pode ultrapassar até a divina. Toda essa construção do texto, começando na narração bíblica e passando pela temática do chope e do auto-elogio alemão, é feita para introduzir a polêmica do momento que foi a provisória proibição de os americanos ingerirem bebidas alcoólicas. A abordagem do assunto, sempre no sentido de aparentar tratar-se de uma análise séria e de credibilidade (estratégia comum dos textos em macarrônico do alemão), estabelece um diálogo com o cotidiano e acaba por criticar a postura do governo dos Estados Unidos (mas sob a perspectiva estereotipada, sem explorar criticamente a própria representação).
Nong se bode ir bra gondra bra nadurresa. O nadurresa manta gue a chende téve -gomê e pebê.
Endong borgause te guê a coferna teja a chende gomê e nong teja a chende pebê? Uma coferna asing está uma coferna - andi-nadurraal.- E ung goise andi-nadurraal nong bode ekcisdir! Bor isto as amerriganes tiserong bra sua coferna: - Ooia, tiskrasade, ô focê teja nois pebê a nossa chopp tesgansade, na ferrong e na ingferna dampeng, o endong nois vae faicê uns pacunce bra esgulhampá bra focê! - Barrése acora gue a coferna nordamerrigane figuei gom medo, canhei uma gakasse e mantei uma tebudade abrecendá uma nofa tegrette te lei - bruhipindo o brohipisong bra chende pebê chopp e zerfêcha.-
Asing, a brobria coferna regonhese giue elle estava erade, e gue a bôfo yangee dinha raçong.
E nois, as allemongs, mais ung veis brofei bra mundo inderra gue Teus dampeng estava erade gwande fiz o Ácua e nong fiz o Chopp!
Nadurralmende, nois regonhese gue Teus se encanei 7.
Gwande elle fiz a brimerra homeng, elle nong botia atifinhá ô imachiná gue esta homeng botia sê uma allemong...
- Fui tisdrasong.
Entretanto, nem todos os textos limitam-se apenas a essa exploração redutora da representação germânica. O humor é também alcançado por meio da revelação da falsidade da imagem caricata construída, valendo-se muitas vezes de incongruências entre o que o personagem defende ou aparenta ser e o que ele faz ou diz. Em "Os gondisbasongs" 8, cujo tema é a reclamação sobre o tempo inconstante do Rio de Janeiro, o cronista procura mostrar seus conhecimentos médicos, em primeiro lugar, descrevendo os problemas de saúde enfrentados pelos que moram na cidade, em particular os pigarros na garganta:
Mas nong está somende o tisdilasong ta narriz gue ingommota a chende na ingferno e na ferrong ta Rio.
Tispois veng, brimerra, as bigares no carkande. A chende canha brimerra uns gomichongcinhe no kuella e a chende sende gue deng alcung coise ali gue ingommota e fais ung affliksong tiscrasade! E bra gada momende a chende deng gue faicê asing: - Hung-hung - é a bigare gue adrapalha o carkande ta chende e guaje nong têcha a chende resbirrá.
O detalhamento escatológico, no entanto, torna sua explanação cômica, pois compromete a suposta gravidade do "doutor", geralmente caracterizada por um vocabulário mais técnico. Mesmo assim, sua credibilidade poderia ser mantida se não fossem as afirmações absurdas feitas ao final do texto:
Tispois 9, veng a indubimende ta narriz, o obstruksong gomblete! A chende figa brohipide te resbirrá gom a narriz, neng bra tendro neng bra fora! Deng gue faicê gome os griangses gue estong sembre gom o poka aperto! E tenoide! Gome se vae tormir gom a narriz indubida? Parparitade! Fircheng Marrie! A chende deng gue figá duda noide gom o poka aperto, e indé está berikose, borgause gue muides veis endrong lá bra lá bra tendro ung borsong te mosguites, mosgues e indé parrates fetorrendes!
Orra, estas piches estong inzektes nochendes, ortinarries, gue bódeng emprulhá a esdomaga ta chende guande a chende vae domá te manhang! Sing, muides veis a chende vae mortê a bong gom mandeka e barcisa arotá e nadurralmende veng esta costo te mosguites e parrates!!! (hummm!) E bra uldima, veng ung dóse te gajôro, dóse te dicika, e a chende canha gadáres nochendes, ung fertaterra borgarrie! (Pfui! Teufel!!)
Em artigos como esse se percebe como um estereótipo pode ir sendo substituído por outros, no caso, a superioridade intelectual germânica pela ingenuidade e arrogância alemã. O fato de existir esse movimento, sem tornar totalmente estática a representação dos não-nacionais, é o que torna certos textos do "Zubblemend" menos previsíveis e mais complexos no nível da representação. Não está em jogo aqui se a imagem estereotipada é verdadeira ou falsa, mas parte-se do pressuposto de que é uma simplificação, como diz Bhabha, "porque é uma forma presa, fixa, de representação que, ao negar o jogo da diferença (que a negação através do Outro permite), constitui um problema para a representação do sujeito em significações de relações psíquicas e sociais" 10. Por isso privilegia-se situações de deslocamento, de trânsito, um "Terceiro Espaço" que "constitui as condições discursivas da enunciação que garantem que o significado e os símbolos da cultura não tenham unidade ou fixidez primordial e que até os mesmo signos possam ser apropriados, traduzidos, re-historicizados e lidos de outro modo" 11.
Se há, portanto, no "Zubblemend", de um lado textos que tratam das diferenças entre brasileiros e alemães de modo limitado e caricato, por outro lado, favorecidas pela perspectiva híbrida do macarrônico, muitas vezes as criações brincam ainda mais com as representações, questionando-as e deslocando-as. Alguns temas cotidianos acabam por incitar esse jogo de negação-reafirmação-desestabilização de propriedades identitárias, como é o caso das intervenções governamentais a respeito dos estrangeiros/imigrantes e das polêmicas como a da naturalização.
Em "Furra chornalisdigue" 12, o suposto "secredarrie to Asosiasong tas Embrekades na Gommersie e eks-tirektor to Uniong tas Emprekades na Gommersie", "Hudo Repsold", é chamado a dar sua opinião. Ele vai defender que os alemães se naturalizem, porém tal posição já é desde o início posta em descrédito pela afirmação de que "uma homeng gue hoche está no tirreksong te ung sosietade e amaniang está no tirresong te ung odre sosietade gongorende to ella, esta homeng está gombedendemende audorriçade bra falá bra nome to seu glase e tas badrisies." A ironia lança um olhar de desconfiança para o discurso que vem em seguida, o de que há meio milhão de alemães vivendo no Brasil como brasileiros muito bem integrados no país, como é o caso de Lauro Mueller, Felipe Schmidt, Vitor Konder e outros, sendo que a naturalização só viria a oficializar isso. A finalidade em fazer menção a nomes de personalidades de conhecimento público não fica clara, mas pode ser iluminada com o prosseguimento da leitura:
Eu dampeng está allemong, e asing mesma eu foi elechide tirektor tos tois asosiasongs te gajêrres gue deng na Rio te Chanerra! Borgause te guê? Borgue dudes me gonhese e zabe gue eu dampeng está pracilerra. E asing esdong dudes allemongs minhes badrisies. Ainta nong se viu gue ung embreça ô gasa allemong dinha gue tisgutir nas chornais o gwesdong tas 2/3 te embrekades pracilerras.
Chá gwande fui na dempo to Qera Muntiaal, te 1914, a chende dinha figá pracilerra. Dudes embreças e gasas allemongs podava uma ledrêra gom estes balafres: - "Este gasa está pracilerro".- O gasa estava allemong, mas a chende dinha gue ticê gue ella estava pracileirra, senong vinha as fakapundes e arependava o gasa duda! E ropava dude gue dinha tendro to ella. O mesmo goise eu deng gue faicê acora: se eu ia tizê gue eu estava allemong, ninqueng ia me elecher tirektor te ung asosiasong.
Segundo Repsold, tendo em vista as represálias sofridas pelos alemães por ocasião da Primeira Guerra, não haveria escolha entre considerar-se ou não brasileiro. Contudo, muito mais do que legitimar a identificação como brasileiro, essa afirmação serve para justificar e abrandar a revelação de que essa é uma questão de conveniência, de interesses principalmente para adquirir cargos de poder. Recai, então, sobre as pessoas citadas esse mesmo posicionamento, de soslaio a acusação de que agem por benefício e proveito próprios.
O "Zubblemend", a partir dessas supostas entrevistas com "ilustres" alemães, trouxe ainda diferentes opiniões sobre a questão. Prevaleceu, no entanto, a idéia ilustrada, por exemplo, nas palavras de Franz Becker:
- A coferna podei uma tegrett prohipinde os aggumulasongs. Tevia, dampeng, brohipir os nadurraliçasongs. Sing, uma sucheide nong bode aggumulá tois nasionalitades! O noso Vaterland está mesma gome o noso mamai. E atonde chá se viu uma sucheide gom tois mamais? Atonde? No Alle.. manha eu carrande gue nong. Se uma sitatong nong bode aggumulá tuas embrêgues, muide mais tifisil está bra elle aggumulá tois batries! Sucheide gue deng tois batries, deng dampeng tois gáras... e uma sucheide gom tois gáras, no Alle...manha se jama "seng ferconha"...
Uma allemong nunga nong vae aggumulá; elle nasi allemong e figa allemong - elle está allemong - e bronto!!!
Tal ponto de vista, baseado numa noção de identidade nacional pura, fechada, estável e imutável, que não comportaria qualquer hibridismo e intercâmbio, revela uma espécie de resistência ao movimento social de integração, natural nos processos de imigração no Brasil. Ao mesmo tempo em que os personagens macarrônicos procuram negar qualquer aproximação cultural com os brasileiros, seu discurso evidencia, por outro lado, o entrecruzamento de fronteiras. É o que ocorre na criação de paródias ou, ainda em relação à polêmica da lei dos 2/3, no comentário que se faz sobre o descontentamento dos portugueses:
[...]As borduqueces nong costei te esta lei, elles nong se guer naduraliçá pracilerras, elles nong guer figá pracilerras. Elles guer só canhá tinherra e mantá tinherra na Borducal. Dude tinherrinhe gue elles canha elles manta bra lá! Borgause te gue elles nong fais gome as allemongs? As allemongs veng na Pracil, drapalha, canha tinherra e vae acheidande, kuartande, indé gue elles gue elles bóde se gassá. Elles se gassa e figa na Pracil. Canha griangses pracilerras e nong folda mais simpóra bra o Alle...manha. Dude gue elle canha elle vae castá agui na Pracil, nong vae mantá niuma tinherra bra fóra ta baiz [...] 13
A oposição entre portugueses e alemães se dá pelo desejo ou não de integrar-se no Brasil, fixar residência e investir no país. A naturalização torna-se aceitável e até ideal, não importando a "acumulação" nem os traços que distinguem brasileiros de alemães. Interessa o desejo de permanecer no território nacional e de fazer parte do país.
Como se vê, nem só de posições e representações estanques é feito o macarrônico do alemão. Mesmo fazendo uso de traços estereotipados germânicos, os macarrônicos conseguem desvelar várias questões complexas a respeito da delimitação de identidades étnicas e nacionais. Na maioria das vezes defende-se que há propriedades essenciais (fixas e imutáveis) do ser germânico, mas, em alguns textos, os que acabam sendo mais interessantes, deixa-se escapar em suas frestas, através de vários jogos textuais possíveis, que as relações de identidade estão em movimento e transformação, não havendo categorias inertes. O próprio macarrônico - um híbrido desde sua linguagem até sua perspectiva (entrecruzada pelo olhar "brasileiro" e "alemão") - já é por si só uma evidência dessa condição. São espaços assim, entre-lugares que "fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação - singular ou coletiva - que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação no ato de definir a própria idéia de sociedade" 14. Nesse domínio das diferenças é que são negociados os valores da cultura, comunidade e nação.
BAUMAN, Zigmunt. O sonho da pureza In O mal-estar da Pós-modernidade . Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 19.
CROCHIK, Leon. Preconceito (Indivíduo e cultura), 2ª ed.. São Paulo: Robe, 1997, p.22.
CROCHIK, Leon. o p. cit. , p.22.
CROCHIK, Leon. o p. cit., p.116.
O termo étnico aqui se refere a um tipo de identidade comunitária não necessariamente coincidente com a origem nacional. A abordagem dada aos conceitos de nação, identidade e etnia provém sobretudo de teóricos como Anderson, Hall, Bauman, Bhabha e Barth.
"O lei sekko", A Manha . Rio de Janeiro, Anno III, n. 41, 02/10/1931.
"Os gondisbasongs", A Manha . Rio de Janeiro, Anno IV, n. 19, 14/05/1932.
BHABHA, Homi. O local da cultura . Belo Horizonte: EDUFMG, 1998, p. 117.
BHABHA, Homi. o p. cit. , p.84.
"Furra chornalisdigue", A Manha . Rio de Janeiro, Anno III, n. 13, 13/03/1931.
"O kréve tas choffers", A Manha . Rio de Janeiro, Anno III, n. 18, 17/04/1931.