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Tropicalismo torquatiano
Uma questão de identidade no corpo da contracultura

Tania Lima (UFPE)

1 - Abrem-se Aspas

"Quando eu nasci/ um anjo louco muito louco/ veio ler minha mão/ não era um anjo barroco/ era um anjo muito louco, torto/ com asas de avião/ e eis o que esse anjo me disse/ apertando minha mão/ com um sorriso entre os dentes/ vai bicho desafinar/o coro dos contentes". Em sua, dimensão de poeta guache, Torquato Neto amplia com perspicácia a estética de uma poética que sai da cidade pequena para um possível desencontro com a complexidade da urbe :"Desde que saí de casa/ trouxe a viagem de volta/ gravada na minha mão/ enterrada no umbigo/ dentro e fora assim comigo/minha própria condução".

A descoberta da urbanidade proporciona em Torquato uma mudança no ritmo do DNA. Essa mudança levará o poeta tropicalista a transver o lado marginal das palavras na rebelação do corpo da própria poesia. Em sintonia com sua época, o artista arregala os limiar dos sentidos para se indignar frente aos mandamentos das páginas fechadas da ditaduras.

Em sua fôrma revolucionária, o misto de lucidez e delírio em Torquato Neto se põe em situação de perigo frente ao dilaceramento do corpo, da alma na contracultura. O próprio corpo alegoriza a linguagem frágil de um país repleto de conflitos e contrastes. Em Torquato, os limites entre a vida e a arte underground se recriam frente a invenção do perigo e do medo real e inventado. Tal qual um Maiakoviski, que defendia o princípio de que: "sem forma revolucionária não há arte revolucionária", em Torquato a palavra ganha o apreço da rebeldia de que sem arte revolucionária não há forma revolucionária. Como faz sugerir em versos desta natureza: "Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é está sempre a perigo, sem medo. É inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores. É destruir a linguagem e explodir com ela."

No livro Torquato Neto uma p oética do estilhaço, Paulo Andrade ( 2002:41) destaca

A construção poética dessa geração adotava a colagem de diferentes tipos de linguagem, colocando em cena um verdadeiro confronto de vozes e pontos-de-vista. Todas as linguagens importantes dentro da composição tropicalista mantinham seus significados próprios e não se sobrepunham uma à outra. O diálogo entre a melodia, a palavra e o corpo foi explorado às últimas conseqüências: na poesia cantada, conviviam acordes musicais, ritmo, voz, palavra e imagens do corpo-cantor e do corpo-canção, como expressão-síntese da tradição cultural brasileira revisitada.

 

Em um momento em que atuavam, no cenário da cultura, combinações de estilos dos mais diversos, a poesia, a música, o gesto, a dança , o corpo, a voz, a roupa , o canto, a fala, constituíam entre si uma gama de discursos que manifestavam a pluralidade da geração 70. Frente a isso, Torquato traça um discurso para lá de plural à beira do experimentalismo, utiliza um português dos trópicos, em tom parodístico, pílulas do tipo: "Deixa-o-pau-rolar/ na mesma base: deixa".

Vejamos que o poeta Nosferato acena para o compromisso da arte com a linguagem do seu tempo ao excluir a forma melosa e ultrapassada da poesia como suporte para engajamento político e ao incluir no poema uma miscelânea de elementos que extrapolam o contexto do texto, sinalizando segundo Andrade 2 ( 2002:125)

 

incluir o não representável no próprio texto, desconstruindo as fronteiras entre discursos, entre o texto e o contexto, é uma das características da arte da Segunda metade do século XX, que trabalha com um conceito amplo que seja produto estético. Para os artista pós-modernos, a obra de arte inclui, de maneira quase obsessiva, todos os elementos que envolvem o processo de sua criação e sua recepção. A obra de arte não é somente a linguagem trabalhada artesanalmente, um artefato construído, mas resultado dos antecedentes históricos da sua produção, aliados às reações que poderão causar no receptor.

A partir da geração de Torquato a poesia ganha um ar de marginalia, abusando da gíria, do palavrão pornográfico, da linguagem coloquial. Na parada poética; pichavam-se as frases de Torquato à beira dos sonhos da juventude ou à beira dos arranjos de uma banda de rock.: "Você me chama/ Eu quero ir pro cinema/ você reclama meu coração não contenta/ você me ama/ mas de repente a madrugada mudou/ e certamente/ aquele trem já passou/ e se passou/ passou daqui pra melhor/ foi! Só quero saber do que pode dar certo/ não tenho tempo perder."

A especificidade que se observa na poesia de Torquato Neto não é tanto a crítica sociopolítica embutida até o pescoço na crítica estética, mas principalmente pelo tipo de crítica comportamental que se faz presente vinculando-se à linguagem através de expressões performáticas do corpo ou até mesmo a incorporação à roupa de plástico, colares de umbanda, maquiagens exageradas à moda secos e molhados, cabelos hippies, calças boca de cinta, além do rebolado escrachado, tudo isso faz parte do corpo da canção tropicalista.

À procura de novos caminhos para margear o som parodístico, o tom transgressor , o poeta retoma a cartilha antropofágica de Oswald feito de barro, o Abaporu da linguagem sincrética, carregada de humor. Torquato, assim como Oswald de Andrade, comeu tudo, depois somatizou o que pôde e incorporou às sílabas marginais: a cultura de massa, a sintaxe estrangeira ao um estilo tropical que possibilitou avanços importantes no descomportamento da linguagem. O estilo neo-antropofágico de Torquato reafirmou o hibridismo cultural em que se encontrava a poesia brasileira da década de 70.

Em nome do decomportamento verbal, a geração tropicalista de Torquato aglutina em torno da arte e do próprio corpo uma miscelânea de expressões que além de favorecer um questionamento político, proporciona uma verdadeira agressão frente aos costumes da época, aos valores morais da sociedade burguesa, às regras de obediência às ditaduras nas Américas etc.

Seguindo os passos de Celso Favaretto 3 (1950:30), vê-se que: "Transformado em peça de ´escultura, viva` , o corpo estabelece um reencontro com a dimensão ritual da música, exaltando o que de fato nela existe." Além dessa função de escultura ritual, a utilização do corpo servirá principalmente como instrumento de manifestação política. Vale observar que foi em nome dessa crítica corporal comportamental que Caetano e Gil acabaram sendo convidados ao exílio pelo regime totalitário da época. Tanto Caetano quanto o Gil transformaram o próprio corpo em mensagem de protesto, em ferramenta artística.

Sobre essa relação entre arte e corpo, Silviano Santiago 4 (1978:150) em seu livro Uma Literatura dos trópicos afirma que

A integração entre arte-vida, arte-cidade, arte-corpo, alarga as possibilidades do objeto artísticos, pois o próprio corpo se oferece como criação, o corpo do artista ou corpo dos outros, dos participantes( não mais simples espectadores). Tudo passando a ser parte integrante do grande espetáculo, do happning, da obra que se abre então para o tempo e pelo acaso e no acaso, na invenção passageira e espontânea, no desabrochar descomprometido com as regras e o academicismo institucionalizado.

 

Com a geração Tropicalista, sexo,drogas, rock transgressão de linguagem refletiam um passo marcante nos padrões de comportamento na qual o corpo em exposição tornava-se alvo de crítica. Leyla Diniz sofreu algumas, ao expor seu barrigão nas praias cariocas. A geração de Leyla sofreu o que a geração Beat dos anos 50 padeceram, .s omando aí a algumas polemicazinhas compartimentais. Uma vez declamando poemas, em um teatro, alguém na platéia perguntou a Allen Ginsberg o que ele queria dizer com "valores nus". O autor de Uivo desabotoou as calças e ficou completamente nu.

Com a geração 70, a sexualidade saía da pressão do armário. Em sua Navilouca , o jovem Torquato com seu ar tropicalíssimo, desbundava deboches como tentativa de desarticular a repressão do momento em expressão de liberdade corporal: "Difícil é não correr com os versos debaixo do braço/ Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa."

Ao questionar padrões e valores, o "anjo torto da tropicalia" desafinava o coro dos contentes, colocando em pauta as polêmicazinhas da sua sexualidade em verso e prosa: " Alguém que chora por mim/ um carnaval de verdade/ hospitaleira amizade/ brutalidade jardim." Meio a um sentimento de solidão sem lugar nas fronteiras "entrelugar", o poeta expressa uma angustia profunda derivada de um conflito existencial entre o eu, o mundo e os outros: " Tenho um beijo preso na garganta/ eu tenho um jeito de quem não se espanta( braço de ouro vale dez milhões) eu tenho coração fora do peito."

Em Torquato Neto, o eu-"desenraizado" sai à procura de um lugar em um mundo sem lugar ao sol. Uma vez chega a piparotear em versos " O Piauí está ficando cada vez mais perto. Socorro!" A operação feita no poema se projeta na curva perigosa da palavra que se revela no signo da ruptura a partir de seu eu-criador. O eu-lírico se repovoa de palavras anárquicas para profetizar a função de ser corpo da linguagem e de poetizar a linguagem do corpo. O eu-subjetivo do poeta passa a fazer parte do corpo do poema. Vida e arte se aglutinam em um só expressão. Em Torquato, não há vida fora da arte nem arte fora da vida.

Em busca de alguma realidade consciente, Torquato verseja sobre sua condição de sujeito descentrado, em sua unidade híbrida de poeta-platéia: " Alô poetas: poesia! poesia poesia poesia poesia!/O poeta não se cuida ao ponto/de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo/já sabe: não está cortando nada /além da MINHA bandeira ////////// =sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar./Isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. A/r: em primeiríssimo, o lugar. Poetemos pois."

Em sua triste sina de anti-herói rebelde, o artista vai liberando os extratos das palavras evidenciando aí a relação que cabe à poesia de propiciar tensão no corpo vocabular em um momento que a palavra corpo representava o sonho da mais perfeita liberalidade A presença da liberalidade na Geléia Geral de Torquato tem uma função ética-estética que o poeta piauiense sugere em versos que saltam da anarquia do verbo para o abismo do verso: "Por fim de um só salto/ transpor de vez o paredão".

Em sintonia com suas metáforas corporais , um ser cansado de chegar sem chegança, salta as páginas da história, salta em salto imortal.. Um suicídio que revela não cansaço, mas protesto. Sua queda para o alto sugere-nos as conseqüências de um sistema militar torturante. Em seus Últimos dias de paupéria, o poeta despede-se em poesia:" FICO/ Não consigo acompanhar a marcha do progresso(...) Tenho saudade, cariocas, do dia em que sentia e achava que era guia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Para mim chega! Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar."

2 Fecham-se Aspas

Contra ou a favor do mundo, arte terá sempre está função de criar um estado de tensão permanente com a sociedade. E por ser fazedor de tensão inquietante, uns fragmentos de Torquato concluem por nós: "Acredite na realidade e procure/ as brechas que ela sempre deixa./ leia o jornal, não tenha medo (...) Acredite. (...) Não se esqueça de que você está/ cercado, olhe em volta e dê um rolé./ Cuidado com as imitações. (...) Resista, criatura !

 

1 ANDRADE, Paulo. Torquato Neto. Uma poética de estilhaços . São Paulo: Annablume,2002.

2 ibidem

3 FAVERETO, C. Tropical, alegoria, alegria . 2 ed. São Paulo: Ateliê, 1996.

4 SANTIAGO, S. Uma literatura nos trópicos . São Paulo, 1978.