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Da migração e sedimentação dos gêneros: dos livros de sabedoria aos livros de auto-ajuda
Socorro de Fátima P. Vilar (UFPB)
Os gêneros têm uma história. Neste trabalho, procuro analisar o percurso de um livro e de um gênero. Ele começa levantado uma hipótese que tentarei provar: a de que Perdas & ganhos dá credibilidade, sedimenta e ajuda a compreender o gênero auto-ajuda como prolongamento dos antigos manuais de conduta e livros de sabedoria, muito comuns na antiguidade, bastante apreciados e imitados. Por várias semanas - trinta e quatro -o livro da escritora Lya Luft esteve em primeiro lugar, na lista dos dez mais vendidos da revista VEJA, na categoria que o semanário classifica de Ficção, ao lado de outras duas, a saber, "Não ficção" e "Auto-ajuda e Esoterismo". Perguntava-se o que havia de tão especial nesse livro, para que a obra dessa romancista tivesse finalmente atingido uma venda tão significativa, ganhado popularidade e o reconhecimento de pelo menos 150.000 leitores, que compraram o seu livro, e que eram leitores até então improváveis. É curioso que tantos anos de carreira e de merecida valorização da crítica não a tivessem levado a ser reconhecida nem como grande escritora, nem escritora popular, que pudesse falar a tantos, tantas coisas importantes de serem lidas.
Julgava tratar-se de um romance, já que Lya Luft era conhecida como romancista e seu livro figurava na lista de ficção. A própria VEJA, que não podia ficar indiferente a tanto sucesso, rende-se à escritora, concedendo-lhe matéria de capa. A partir daí, a revista mudou a categoria do livro de Ficção para Não-ficção, justificando que "Lya pratica uma espécie de ensaísmo moral - que não se confunde com auto-ajuda, apesar do tema, nem com a ficção, apesar da linguagem literária" 1. Observe-se que nessa justificativa, embora não esteja explícito, há uma certa definição do que seja "auto-ajuda". Para a revista, o tema ligado às perdas e às vitórias abordado pelo livro estaria ligado a esse gênero, mas, acrescentava a jornalista responsável pela matéria, há uma certa qualidade, um certo tratamento que o distancia do gênero menor, que é o de auto-ajuda. Nesse sentido, a reportagem já se inicia dando ao livro de Lya uma origem "superior", ou seja, a longa e esquecida tradição filosófica que tem início na Grécia clássica, cujo objetivo era discutir temas como a vida, ou a morte, ou "sobre como remover os obstáculos que nos impedem de viver e morrer bem" (BOSCOV, 2004, p. 69). Ampliando a lista de temas elencados pela autora da reportagem, poderíamos acrescentar a amizade, o amor, o saber envelhecer, a prudência, a juventude, o exercício do poder etc, e citar os autores que ela omite: Sêneca, Ovídio, Cícero. Essa longa tradição é chamada para garantir que escritora tão reconhecida pelas qualidades literárias não poderia jamais figurar no gênero auto-ajuda, que a jornalista caracteriza como sendo "corruptela moderna dessa tradição". Dessa, são características a lucratividade e a troca da reflexão pelas simplificações dos manuais". A jornalista também lança mão do depoimento da própria autora, que abomina a auto-ajuda, para garantir estar o leitor diante de gênero nobre: "A auto-ajuda pretende ensinar as pessoas a serem felizes. Eu quero provocar os meus leitores e fazer com que eles pensem", afirma a escritora gaúcha.
Ao tratar na inexplicável vendagem do livro de Lya, Boskov narra surpresa a reação de leitores que acorreram ao chamado da escritora, justificando tal feito como sendo fruto do "casamento feliz entre forma e conteúdo", o que em si não quer dizer absolutamente nada. Ao contrário, seu raciocínio, parece reconhecer que, finalmente, teria cedido aos apelos dos leitores - das centenas de milhares deles - que lêem com fidelidade e constância outros tantos livros que não são os do gênero romance, mas os daquela "corruptela", que, assim como Perdas & ganhos, tratam de temas como amor, amizade, casamento, e por aí vai. O que está em jogo, queiramos ou não, é o desejo do leitor, que, ao contrário do que se pensa, muitas vezes é universitário, rico ou de classe média, viajado e acostumado a freqüentar e a conviver com produtos de valor estético, mas que não gosta de lê romances ou ensaios políticos, mas livros de auto-ajuda, principalmente pelo efeito positivo que causam em suas vidas. Vista sob o ponto de vista dos leitores, que compram e lêem o livro, a pergunta que fazemos é por que livros de auto-ajuda fazem tanto sucesso?
Muito embora torçamos o nariz para o gênero, é incontestável a sua prevalência entre os leitores, cuja demanda tem sido atendida pelo mercado editorial, que cresceu nesse setor 700%, ao passo que o mercado editorial de maneira geral cresceu apenas 35%. Dados de uma pesquisa revelam o perfil do leitor de auto-ajuda. Em sua maioria são mulheres, com mais de quarenta anos. Desses leitores, 70% têm pelo menos o Ensino Médio e sua grande concentração encontra-se nos leitores das classes B e C, com renda de 500 a 3.000 reais. Por si só, isso já seria um motivo para tentarmos compreender essa categoria tão criticada, mas da qual se sabe tão pouco (MARTHE, 13/11/2002). Não existe nem mesmo um consenso sobre o que caracterizaria este gênero. Uma rápida olhada na lista dos mais vendidos já é suficiente para demonstrar como são variados os títulos que se enquadram nessa categoria e como não existe nem critérios formais, nem temáticos, para assim chamá-lo. Por isso, ao lado dos que convencionalmente são classificados como livros de auto-ajuda, encontramos biografias (de comerciantes de sucesso), livros sobre psicologia infantil, dietas, exercícios físicos, aconselhamentos de casais, o que indica, evidentemente, ou que seu leitor é pouco firme no seu gosto, ou que o gênero é de difícil definição.
Alguns estudiosos tentam estabelecer algumas características para o gênero, entre elas, encontra-se o conceito de literatura trivial, best-seller, literatura de massa - termo com que normalmente definia-se essa população "amorfa e sem vontade própria", subjugada aos ditames e infâmias da indústria cultural. A combinação desses ingredientes, acredita-se, é a responsável pelo sucesso desse tipo de livro. Para Rüdiger 2, a "literatura de auto-ajuda compartilha com a literatura apenas o nome, e constitui um fenômeno desprovido de critérios internos de valor: basicamente, é um fenômeno da indústria cultural, caracterizado pelo sucesso de vendagem, a dependência aos esquemas de marketing e a repetição de fórmulas consagradas".
Observa-se nessa citação um certo romantismo que não consegue enxergar que todo produto cultural da atualidade é, queiramos ou não, tenha ou não qualidade, cria da indústria cultural. Outros critérios levantados, como a dependência das estratégias de marketing e o sucesso de vendagem, não são suficientes para caracterizar um gênero, pois dizem respeito a todo e qualquer produto lançado no mercado editorial. Por fim, o uso de fórmulas consagradas estabelece para este gênero uma homogeneidade e uniformidade que lhe são desconhecidas, como atestam as listas dos livros mais vendidos. Na tentativa entender o que faz de um livro de auto-ajuda um bom representante do gênero, Marcelo Marthe (VEJA, 13/11/2002, p. 116) levanta algumas características tais como a de que "os melhores autores se destacam por resumir em linguagem acessível teorias complexas"; outro dom próprios aos bons autores é o de sintetizar numa boa metáfora um sentimento que a maioria das pessoas não consegue articular". Em certa medida, afirma Marthe, a auto-ajuda acabou assumindo um papel que cabia à religião". Daí talvez a justificativa para que figurem lado a lado, tanto nas prateleiras das livrarias, como nas listas dos mais vendidos livros de ambos os gêneros, como se fossem coisas indistintas. Se considerarmos o significado da palavra "auto-ajuda" no dicionário - "Método de aprimoramento pessoal em que o indivíduo pretende buscar, sem ajuda de outrem, soluções para problemas emocionais, superação de dificuldades, etc"(AURÉLIO) - , percebemos que o termo só é válido do ponto de vista daquele que lê. Em "Escrever a leitura", Roland Barthes 3, pioneiramente, chamava a atenção para o papel fundamental do leitor, esquecido por historiadores e críticos que buscavam há séculos descobrir " por que o autor escreve a sua obra, segundo que pulsões, que injunções, que limites ", sem que nunca se levasse em conta o leitor, responsável direto pela significação, transformação, permanência, esquecimento, deslocamento, distorção e fracasso do texto, independentemente da forma e do suporte em que é veiculado. Assim, os livros de auto-ajuda possibilitam aos leitores dispensar profissionais, psicólogos, confidentes, sacerdotes, etc. Como informam os depoimentos de algumas celebridades entrevistadas por VEJA, entre eles o da atriz Cláudia Rodrigues, que afirmar ter o livro de Deepak Chopra, As setes leis espirituais do sucesso, lhe ajudado a superar a morte do pai e o suicídio do irmão. Para ela os ensinamentos do autor sobre o carma fizeram-na compreender "o sentido profundo de tudo aquilo que aconteceu". Fora, esse sentido religioso, chama a atenção para o caráter prático do livro ao "mostrar como as dificuldades ficam menores quando vistas com distanciamento" (MARTHE, 2002, p. 119).
Para provar que é o leitor quem transforma a sua leitura em auto-ajuda, tomemos um gênero, por exemplo, a autobiografia. Ela passa a ser lida nessa perspectiva se a sua ênfase estiver centrada na superação de dificuldades, principalmente as comerciais. É o que ocorre com a de Abílio Diniz, que já figura entre os livros de auto-ajuda mais vendidos, ou a de Jack Welch, diretor da General Eletric, que se tornou um dos mais celebrados do gênero. É interessante observar que, segundo pesquisa promovida pelas principais editoras brasileiras, os leitores deste gênero buscam conhecimentos, muitas vezes para suprir as deficiências na sua formação, outras para aprimorá-la. O depoimento de Manoel Amorim, diretor-geral da Telefônica, é emblemático: "Os livros de auto-ajuda são ferramentas valiosas mesmo para os profissionais que têm a melhor formação.Eles são um meio de se reciclar e não ficar obsoleto" (VEJA, 13/11/2004). Outro exemplo que reitera as afirmações de Barthes é a transformação do livro A Arte da guerra, de Sun Tzu, o mais antigo tratado de guerra conhecido, que, traduzido em 1772 para o francês, substituiu o leitor estrategista pelo administrador de uma grande empresa, ou até mesmo pelo técnico da seleção brasileira, o Felipão, que salienta a importância do livro na conquista do penta campeonato de futebol. Enfim, qualquer leitor de auto-ajuda é enfático em ressaltar o caráter prático deste tipo de leitura, algo que opera reais modificações em suas vidas.
Houve um tempo em que escritores, hoje considerados clássicos, defendiam para a literatura - denominação genérica de uma série de gêneros - e a filosofia um caráter doce e útil, ou seja ensinar e deleitar, como afirmava Horácio em sua Arte poética . Cícero, em seu diálogo Saber envelhecer, comenta na dedicatória que faz ao amigo: "Ela será útil a nós dois. [...] Jamais os benefícios da filosofia serão suficientemente enaltecidos! Contanto seja praticada, ela permite atravessar sem desagrado todas as épocas da vida" 4. Ligar a auto-ajuda a essa tradição não é novidade. O escritor Alain de Botton, no livro As consolações da filosofia, demonstra as semelhanças entre os clássicos do passado e os atuais gurus, sugerindo que Sêneca, Ovídio e Nitzsche escrevem "manuais de conduta". Ora, nem é difícil endossar tal tese, pois basta lembrar o sugestivo título do livro de Sêneca, Como tirar proveito dos inimigos , para reconhecer um livro com caráter utilitário, cujo objetivo é sugerir regras e comportamentos. Ovídio, na sua Arte de amar, exorta: "Se houver algum homem comum a quem a arte do amor seja desconhecida, que ele leia este poema e que, conhecendo-a através da sua leitura, ame." (p. 17). Entre os conselhos ao jovem, Ovídio, muito prosaicamente, sugere os vários lugares onde um homem pode achar uma mulher. Ao lado de indicações tão prosaicas, o autor oferece fórmulas para cativar "aquela que lhe agradou", sugerindo ser esse o "ponto mais importante do (seu) tratado".
Um bom exemplo de que tentar oferecer respostas para as dificuldades sobre os problemas universais da existência não se constituía como algo que transformava tratados filosóficos em "corruptelas" é o Oráculo manual e arte da prudência , de Baltazar Gracián, composto por 300 aforismos que, como os atuais livros de auto-ajuda, conseguem resumir em imagens e em poucas palavras lições sobre o viver bem. As três edições lançadas recentemente no Brasil talvez indiquem que o livro de Gracián já tenha se transformado em um best-seller entre executivos ou jovens em busca de um lugar ao sol. Para Nietzsche, a "Europa nunca produziu nada mais refinado...".Schopenhauer, por sua vez, considerava esse livro como "absolutamente único" , pois ensina
a arte que todos praticariam de bom grado, sendo portanto um livro para todos: mas é especialmente adequado para ser o manual dos que vivem no grande mundo e, peculiarmente, dos jovens que desejam prosperar nesse mundo. A esse, proporciona ao mesmo tempo e de antemão o aprendizado que, caso contrário, só obteriam por meio de uma longa experiência 5.
Nilsamara Oliveira (2004) 6, através de pesquisa realizada com algumas leitoras de livros de auto-ajuda, dentre elas professoras e alunas universitárias, demonstra que, para algumas, esses esquemas prontos e repetitivos são muitas vezes o que as afasta desse tipo de leitura, como atestam as palavras seguintes: "Em geral, o que não gosto em quase todos os livros de auto-ajuda (principalmente os americanos) são as descrições". Em linhas gerais, essa leitura funciona como suporte emocional, que possibilita a reflexão e a superação de certos conflitos e problemas: "me ajuda a superar os problemas e me sentir estruturada para seguir em frente"(p.56), diz uma leitora; ou, possibilita "uma compreensão ampliada das diferenças entre homens e mulheres" (p. 57), afirma outra; o que dizer por exemplo da que reclama de Paulo Coelho, justamente pelo o que é condenado em seus livros: "Eu queria saber o que Paulo Coelho tem de tão bom.[...] O livro que li possui um enredo pobre e não auto-ajuda ninguém" (p. 59). É assim que, alheias tanto ao que dizem os sábios e doutos sobre os critérios de valor destes textos, como aos esquemas propostos por autores e editoras, os leitores consagram, descartam, elegem e estabelecem o que é um bom livro de auto-ajuda, constituindo-se como leitoras efetivas, ao tirar do texto o aquilo que lhes interessa.
Outra questão que pode e deve ser analisada diz respeito ao aspecto sempre lembrado quando se quer demonstrar o caráter de gênero "menor" dos livros de auto-ajuda. Trata-se das "receitas prontas", dos "ensinamentos", ou respostas fornecidas seja para um casamento feliz, seja para o sucesso profissional, ou a perda de peso. Nisso estaria a grandeza de Lya Luft, segundo Boscov (2004, p. 71): "não fornecer respostas para problemas (como a auto-ajuda pretende fazer), mas sim auxiliar homens e mulheres comuns a identificar suas indagações e indicar o caminho para que cada um chegue às suas soluções - um caminho que, em geral, está dentro de nós próprios" (grifos nossos) . Segundo Michel de Certeau 7 existe uma tradição que tende a transformar certos textos, principalmente aqueles que pertencem ao cânone, em entidades místicas, que uns poucos "privilegiados" têm a prerrogativa de serem os seus "verdadeiros" intérpretes. O reverso disso é desqualificar os textos e leitores que não precisam de "passaporte" para conhecer o sentido literal. Implícito nesta concepção encontra-se certa "literalidade" ortodoxa, que reduz as outras leituras (também legítimas) a ser apenas heréticas (não "conformes ao sentido do texto) ou destituídas de sentido (entregues ao ouvido)". A própria Lya Luft, preocupada em não ter sua obra confundida com aquelas pouco confiáveis, indica ao leitor de Perdas e ganhos o sentido do seu texto: "Cada um dê a esta narrativa o nome que quiser. Para mim é aquela mesma fala no ouvido do leitor, que tanto me agrada e faço em romances ou poemas - um chamado para que ele venha pensar comigo" 8. No entanto, os números e as várias tiragens contradizem as palavras da autora, e demonstram que, a despeito do seu desejo, não se trata aqui dos seus leitores dos romances e poesias.
Uma leitura do livro revela que, não só os leitores são diferentes, mas o conteúdo e a forma como a autora fala aos seus ouvidos, em Perdas e ganhos , também está longe daquela dos romances e poesias. Ao contrário, nesse livro encontram-se todos os ingredientes que caracterizariam os bons livros de auto-ajuda. O primeiro deles diz respeito ao tom que ela encontrou para entabular a conversa que tem com o leitor. Ao falar da sua experiência pessoal, a autora, utilizando os mesmos recursos retóricos das biografias anteriormente citadas sobre pessoas que venceram, utiliza a primeira pessoa. Nessa ocasião, narra ou reflete sobre sua experiência e seus acertos, e demonstra como põe em prática aquilo sobre o que escreve. É o caso da passagem abaixo (idem, p. 52-53):
Tenho fotos de minha mesa de trabalho com uma mamadeira junto do computador ou dois carrinhos com bebês adormecidos junto desta cadeira onde escrevo.
Obrigação, chateação?
Escolha amorosa.
Não porque eu seja uma boa pessoa ou sequer uma avó muito convencional. Mas porque para todos nós este é um estágio de trabalho e encantamento. Treinamos mais carinho e paciência.
Ao tratar das dificuldades, das insatisfações e dos erros, o que prevalece é tanto o tom envolvente de um nós, que congrega todos, que une a autora às buscas e angústias de seus leitores como a impessoalidade e uma terceira pessoa. O ponto emblemático é quando discorre sobre as queixas das mulheres sobre a falta de diálogo com os homens. Nesta passagem, o nós não parece verossímil em relação ao que é perguntado. Parece pouco provável que alguém com tanto a dizer, com tanta experiência, possa cometer tantos impropérios, por isso o tom parece o de uma professora, que sabe de antemão as faltas daqueles a quem se dirige. É o caso da passagem abaixo:
Nós realmente lhes abrimos espaço ao nosso lado, nós de verdade os estimulamos, e os escutamos, somos parceira - ou quando chegam em casa despejamos em cima deles uma tonelada de queixas sobre a casa, a empregada, as crianças, o trânsito, os preços do supermercado...como se esta, a nossa imediata, fosse a única realidade? (p. 73)
A linguagem é de uma simplicidade que chega a ser prosaica: ou seja, está e sobre ela. Para essa mãe, a autora tem uma série, do que ela define, de "conceitos pouco simpáticos, severos" que a adverte sobre o amor ao filhos, a sua melhor educação, sobre como lidar e enfrentar os conflitos inevitáveis de todas as relações. Por exemplo (2004, p. 44):
Mãe não tem de ser amiguinha, tem de ser mãe. Tem de ser aquela a quem filhos, mesmo adultos, sabem que podem recorrer quando tudo falhou, até os melhores amigos. Não ser a falsa jovenzinha competindo em maquilagem e roupas com a filha, ou parecendo seduzir colegas do filho - criando constrangimentos que ela ignora como se não vivesse no real. Conceitos pouco simpáticos, severos? A vida pode se bem mais severa que isso.
Arriscaria afirmar que essa leitora - construída a partir de roda de conversas com mulheres cujas idades eram superiores a 40 anos e de vários seguimentos sociais sim, pois há vários episódios destinados a elas - está longe se ser leitora de romances ou poesias. Tanto que, ao transformar essa experiência (que foi acompanhada por uma terapeuta) em texto, a autora apresenta uma mulher comum, dona-de-casa, sempre às voltas com as dificuldades do casamento, infeliz e pouco satisfeita com as escolhas que fez. Apesar do tom poético com que são nomeados, também reconhecemos na divisão dos capítulos de Perdas e danos a mesma estratégia utilizada pelos autores de auto-ajuda, que os dividem em sub-capítulos, a fim de tornar a leitura menos densa, favorecendo antecipações. Os casos, ou testemunhos, que dão credibilidade e são muito comuns em livros americanos de auto-ajuda, cedem lugar a pequenas indagações, perguntas ou afirmações impessoais, mas verdadeiras, uma vez que somos informados de que essas pessoas participaram de reuniões com a autora.
Outro aspecto observado no livro é aquilo que Marthe identifica como próprio a esse gênero, ou seja, a simplificação de teorias complexas. No capítulo, Desenhando no fundo do espelho , em que tenta buscar na infância a origem das escolhas erradas, das dificuldades amorosas, da falta de amor etc, observa-se claramente que um discurso psicanalítico, facilitado e exposto de forma poética, é desenhado nesse percurso ao lado das memórias infantis, tornando-se fácil e compreensível. É o caso, por exemplo, da passagem seguinte que resume de forma convincente o papel e a importância de uma terapia na vida de alguém que sofre( idem, p. 38) : "Autoconhecimento, um dos objetivos da terapia, apura a visão e leva a entender melhor, a conviver com feridas, a sobrenadar mesmo quando a onda é forte e feia. Sentir-se valorizado por alguém, amigo, amor, por um grupo, pode ser definitivo. Mas nem tudo se resolve assim". Porém, como estamos diante de um gênero que se caracteriza por favorecer esse autoconhecimento sem a ajuda de profissionais, Perdas e ganhos proporciona meios de se refletir sobre o assunto e para isso, ela faz uso intenso das interrogações, com a finalidade estabelecer, concretamente, um diálogo com o leitor: "Feridos de morte no início, passaremos o tempo espreitando para os lados: quem agora vai me ferir, de onde virá o próximo golpe, a próxima traição?"; ou, quando questiona os pais sobre "Que deveres são esses?" Mais adiante questiona: Somos emocionalmente tão rasteiros que os afetos são um dever?Nós realmente sentimos isso, pensamos isso, temos uma afetividade tão pobre...ou achamos que ameaçar é educativo? (p. 49)
Por último, vemos em Perdas e danos aquilo que Marthe reconhece como o grande dom dos autores de livros de auto-ajuda, qual seja, a "capacidade de sintetizar numa boa metáfora um sentimento que a maioria não consegue articular". Isso Lya Luft faz ao resumir as perdas e os ganhos na seguinte frase: "Acredito que viver é elaborar e criar: são inevitáveis as fatalidades, doença e morte. O resto - que é todo o vasto interior e exterior - eu mesma construo. Sou dona do meu destino." (p.107). Sobre fornecer respostas para problemas tem razão quem não as identifica no livro. Nesse caso, como exorta essa bela metáfora, em certo sentido muito parecida com aquelas elaboradas pelos autores de auto-ajuda, as respostas nunca são elaboradas pelos escritores, mas pelos leitores que, através do processo de atribuição de significados, pela seleção e antecipação de sentidos, eles sim, transformam esses textos em auto-ajuda, razão de ser da palavra.
MARTHE, Marcelo. O alto-astral da auto-ajuda. Veja. 13 de novembro, 2002, p. 114- 124.
Apud , OLIVEIRA, Nilsamira. Leitores e leitoras da literatura de auto-ajuda . João Pessoa: Qualificação de doutorado, UFPB, 2004.
Barthes, Roland . "Escrever a leitura" In O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 1988.
OVÍDIO. A arte de amar. Porto Alegre, L&PM, 2001, p.8
A pud, Martim Claret In GRACIÁN, Baltazar. A arte da prudência. São Paulo: Martin Claret, 2001, p. 15
O trabalho de Oliveira é parte de sua pesquisa de Doutorado, apresentado para exame de qualificação de cuja banca participei como examinadora. Em linhas gerais, o que desenvolvo tenta responder às muitas questões que lhe fiz na ocasião da defesa, buscando respostas para o problema em questão. OLIVEIRA, Nilsamira. Leitores e leitoras da literatura de auto-ajuda. João Pessoa: Qualificação de doutorado, UFPB, 2004 .
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Artes de fazer. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1996 , p.267.
LUFT, Lya. Perdas e ganhos. 20ª ed. Record: Rio de Janeiro, 2004.