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A identidade do sujeito em Dom Casmurro: o discurso retórico.
Maria da Piedade Moreira de Sá (UFPE)
Com o propósito de recuperar a identidade perdida, atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência , Bento Santiago mandou reproduzir, no Engenho Novo, a casa em que vivera os bons tempos da sua adolescência, em Matacavalos. No entanto, a réplica, ainda que fiel, não o devolveu a si mesmo.
Santiago está à procura de sua identidade, de um eu perdido, responsável pelo grande vazio de sua vida e pela cisão do sujeito. A tensão entre o que foi e o que é parece guiar toda a organização da narrativa, a partir da escolha do pseudônimo do narrador, que acentua a ambigüidade do discurso narrativo. O "eu vivido" é Bento, o "eu narrador" é Casmurro. O narrador possui, assim, um estatuto ambivalente que se desdobra naquele que relata os acontecimentos e naquele que os vive.
Assumir uma máscara ou negar o próprio nome optando por um pseudônimo, assinala Brayner 1,
é desdobrar as duas faces da significação, mantendo uma no exterior enquanto a outra jaz mergulhada no 'mistério' do significado recôndito e equívoco. [...]
O início do romance é, pois, uma demonstração para o leitor que algo importante é preciso dissimular, começando com a troca do nome e identidade do pseudo-autor
Ao usar um pseudônimo, ele passa a ocupar uma situação privilegiada, a do mascarado que se coloca fora do ângulo de visão do observador e, conseqüentemente, de seu julgamento. Dom Casmurro é a máscara que Bento Santiago adota para conferir certo distanciamento e aparente neutralidade à narração.
Dentre as estratégias retóricas que compõem grande parte do discurso de Dom Casmurro, as metáforas, os símiles e as modalizações ocupam um lugar de realce. Logo no início do romance, capítulo II, a réplica da casa de Matacavalos, que Santiago manda construir no Engenho Novo é uma metáfora, quase poderíamos dizer paródia, daquela outra em que o protagonista viveu a sua infância e adolescência. O fim evidente, já sabemos, não foi alcançado. As razões do fracasso ¾ a impossibilidade de recuperar o tempo passado ¾ são reconhecidas pelo próprio protagonista. Diz Dom Casmurro 2:
(1) O que aqui está mal é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não agüenta tinta.
No capítulo CXLIV, um dos últimos do livro, intitulado "Pergunta tardia", Dom Casmurro revela 3:
(2) Esta casa de Engenho Novo, conquanto reproduza a de Matacavalos, apenas me lembra aquela, e mais por efeito de comparação e de reflexão que de sentimento. Já disse isso mesmo.
Hão de perguntar-me por que razão, tendo a própria casa velha, na mesma rua antiga, não impedi que a demolissem e vim reproduzi-la nesta."
Os motivos que justificam a substituição da casa velha por sua réplica são enumerados numa seqüência de metáforas personificadoras, como se lê na passagem a seguir 4:
(3) A razão é que, logo que minha mãe morreu, querendo eu ir para lá, fiz primeiro uma longa visita de inspeção por alguns dias e toda a casa me desconheceu. No quintal a aroeira e a pitangueira, o poço, a caçamba velha e o lavadouro, nada sabiam de mim. A casuarina era a mesma que eu deixara no fundo, mas o tronco, em vez de reto, como outrora, tinha agora um ar de ponto de interrogação; naturalmente pasmava do intruso. Corri os olhos pelo ar, buscando algum pensamento que ali deixasse, e não achei nenhum.
As duas passagens acima se completam e acentuam a divisão do sujeito, exposta no capítulo II, quando Bento Santiago alega não ter conseguido atar as duas pontas da vida, porquanto faltava ele próprio, e essa falta era tudo. Aqui, de modo mais enfático, o narrador-protagonista constata que tudo lhe "era estranho e adverso". A retomada do mesmo tópico em capítulos tão distantes no tempo e no espaço, parece explicitar a preocupação de dar unidade à narrativa fragmentada em razão da sua própria natureza.
Fracassada a tentativa de unificação por meio de um elemento exterior, Dom Casmurro, por sugestão dos bustos que adornam as paredes da casa, resolve escrever as suas memórias. O livro é concebido, assim, como metáfora da vida da personagem. Evidencia-se no texto a fragmentação do sujeito: o eu amargurado de Bento Santiago/Dom Casmurro avalia o presente, e reinterpreta, com a visão de adulto, o passado vivenciado pelo eu do adolescente Bentinho, ingênuo e tímido.
O narrador de Dom Casmurro é o que se costuma chamar narrador não-confiável, uma vez que está envolvido emocionalmente com a história que está contando, o que não significa, claro está, que haja má fé ou desejo deliberado de enganar, mas tão-somente que a narração é matizada por um viés não-confiável. Todos os acontecimentos são intermediados pelo narrador e conhecemos os fatos unicamente da sua perspectiva. A realidade não nos é apresentada em si mesma, mas refratada pelo olhar do narrador, um olhar que não é neutro, uma vez que só registra o que julga de interesse da história, o que significa que é oferecida uma realidade pré-julgada e possivelmente parcial. A personagem narradora conta o que antecipadamente decidira dar a conhecer, tomando por base fantasias e reminiscências, e o seu interlocutor dispõe apenas dos argumentos que lhe são apresentados para julgar os fatos. Veja-se, por exemplo, o que diz o narrador no capítulo LXVIII 5:
(4) Eu confessarei tudo o que importar à minha história. Montaigne escreveu de si: 'ce ne sont pas mes gestes que j'écris; c'est mon essence'. Ora, há só um modo de escrever a própria essência, é contá-la toda, o bem e o mal. Tal faço eu, à medida que me vai lembrando e convindo à construção ou reconstrução de mim mesmo.
Observe-se que, ao mesmo tempo que afirma pretender revelar a sua "própria essência", o narrador declara que contará tudo o que interessar à sua história, o que significa também omitir o que, segundo a sua perspectiva pessoal, não convier às motivações do eu. A sua essência se restringirá, pois, às reminiscências e à conveniência narrativa.
No capítulo LIX ¾ "Convivas da boa memória" ¾ Bento Santiago afirma não ter boa memória: Não, não, a minha memória não é boa. Ao contrário, é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar delas nem caras nem nomes, e somente raras circunstâncias. Em contraposição, no capítulo XL ¾ "Uma égua" ¾ faz a apologia da prodigiosa imaginação de que é dotado e que, segundo ele, o acompanhou por toda a sua existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas correndo.
Eugênio Gomes 6 assinala a contradição entre o empenho em manter-se fiel aos fatos e a imaginação desenfreada do narrador, que o leva a confundir verossimilhança com verdade. Como pretender ser isento e fiel aos acontecimentos se a memória é falha e a imaginação corre solta como as "éguas iberas"?
Note-se que os dois capítulos mencionados, cujos títulos são metafóricos, referem-se respectivamente à falta de memória e ao excesso de imaginação, por meio de símiles que se opõem no que respeita aos ambientes selecionados: hospedaria - interior; campanha - exterior, contribuindo para a ambivalência da narrativa.
As referências a Capitu se configuram, via de regra, como metáforas ou símiles. Veja-se como o narrador fala dos cabelos da garota no capítulo XXXIII ¾ "O penteado". Os cabelos iam chegando ao fim, por mais que Bentinho os "quisesse intermináveis" 7:
(5) Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteaste uma pequena, nunca puseste as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa ... Uma ninfa!
Observe-se a sucessão de símiles e metáforas inspirados uns e outras na mitologia, como adverte o narrador, adotando uma atitude metacrítica com relação ao próprio texto.
Observa Saraiva 8 que o discurso memorialista articula uma narrativa fraturada e elíptica , que ora avança, ora retrocede, e que tanto num quanto noutro caso há a inserção do presente do enunciador, omissões, insinuações e desvios que vão inscrevendo outros sentidos não claramente manifestos. Nada obstante haver aparentemente uma convergência entre as avaliações do narrador e do protagonista, a verdade é que o conhecimento do narrador separa Dom Casmurro de Bento Santiago. A inter-relação que se estabelece entre o eu que narra e o eu narrado confere um estatuto ambíguo ao narrador e acentua a cisão do sujeito. No entanto, salienta a autora que se a distância temporal assinala as mudanças do sujeito a nível ético, afetivo e ideológico, expondo a fratura entre o eu da história e o eu da narração, ela igualmente assinala a permanência do traço caracterizador - a cisão do próprio sujeito -, tanto no passado quanto no presente.
A evocação do passado vivenciado e o presente da escrita se conjugam na tentativa de explicar as transformações sofridas pelo eu e as circunstâncias que as motivaram, e buscam, em certa medida restituir a identidade ao protagonista.
Não havendo equivalência entre história e discurso e sendo por meio deste que tomamos conhecimento dos fatos, cumpre buscar no não-dito a essência dos acontecimentos. Bento Santiago procura convencer-se da sua inocência e justificar a razão de ter agido como agiu com relação à esposa e ao filho, e, ao mesmo tempo, tornar evidente a culpabilidade de Capitu, para depois de persuadir a si, persuadir os demais. No entanto, o discurso de Dom Casmurro é falacioso na medida em que busca fundamentar a sua argumentação no verossímil, uma vez que para ele a verossimilhança é muita vez toda a verdade .(Cap. X)
O conhecimento que teria Bento Santiago não decorre dos fatos tal como ocorreram, mas do que lhe parece ter acontecido. Assim, conquanto a representação de Capitu se dê as mais das vezes pela óptica do homem enamorado, o julgamento do homem que se considera traído conspurca retroativamente a imagem da criatura amada.
A dissimulação, a curiosidade e a reflexão são características que, por meio da reiteração, vão construindo a imagem de Capitu, sendo que a repetição enfática de determinadas características, em capítulos diferentes, não raro acentua ou corrige as anteriores. Não se esqueça, porém, que o perfil de Capitu é delineado à luz do ciúme, e deriva de um julgamento parcial, pois que ditado pelo ressentimento e por uma imaginação exacerbada. É o caso, por exemplo, do capítulo LXV. Nele, Bentinho mostra-se satisfeito com a dissimulação da amiga, ao afirmar que quem haveria de casá-la seria "o padre Bentinho". Mas essa mesma "qualidade" considerada positiva se levantará contra Capitu, como se pode depreender das palavras finais de Dom Casmurro: se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca. (Cap.CLVIII)
Observa-se também que essa preocupação de busca de unificação e identidade se revela na própria composição da narrativa evidenciada nas retomadas, remissões, repetições de títulos ou de conteúdos. Certas passagens são representativas do que acabamos de dizer.
No capítulo XVIII, o narrador afirma que Capitu adolescente sabia de cor a toada do vendedor de cocada. Mais adiante, no capítulo LX, entre outras lembranças do passado, que vai desfiando, o narrador faz referência ao pregão das cocadas, como se lê a seguir 9:
(7) Justamente, quando contei o pregão das cocadas, fiquei tão curtido de saudades que me lembrou fazê-lo escrever por um amigo, mestre de música, e grudá-lo às pernas do capítulo. [...]
No capítulo CX, Bento pede a Capitu, com quem já está casado, que lhe tirasse ao piano o pregão do preto das cocadas de Matacavalos . Mas Capitu esquecera a toada e a letra. Em São Paulo, onde estudava Direito, Bento, conforme mencionado, pedira a um professor de música que lhe transcrevesse o pregão, que como ele próprio confessa, já se lhe ia perdendo. Ao pedir a Capitu que reproduzisse a melodia, ele tampouco lembrava a toada, tanto que foi preciso recorrer ao papelzinho onde o professor transcrevera as notas e o texto. O capítulo CXIV evoca o juramento que Bentinho e Capitu, ainda adolescentes, teriam feito de jamais esquecer o pregão, e repete o já dito no capítulo LX. Declara Bento 10:
(8) Foi para não faltar ao juramento que fiz isto. Mas hás de crer que, quando corri aos papéis velhos naquela noite da Glória, também me não lembrava já da toada nem do texto? Fiz-me pontual ao juramento, e este é que foi o meu pecado; esquecer, qualquer esquece.
Parcial em seu julgamento, Bento não perdoa em Capitu uma suposta falta que ele aceita com indulgência em si mesmo: esquecer, qualquer esquece, afirma condescente.
Vale notar que não são apenas os tópicos que se repetem, na tentativa de conceder unidade à narrativa, mas cada capítulo faz remissão expressa ao anterior.
Três capítulos aludem à semelhança entre diversas personagens da história: Bento e o pai, Capitu e a mãe de Sancha, Ezequiel e Escobar, sendo que apenas os dois primeiros têm uma relação de parentesco. No capítulo sugestivamente intitulado "O filho é a cara do pai", D. Glória insiste que à exceção do bigode, Bentinho reproduz a figura do seu defunto marido e pede a confirmação dos presentes, principalmente a do mano Cosme que, a princípio, concorda frouxamente e, depois, diante da insistência da irmã, termina por aceitar que é muito parecido . (Cap. XCIX) É possível que a semelhança não fosse tão grande e que D. Glória procurasse apenas ratificar a crença de que os filhos devem parecer com os pais.
No capítulo LXXXIII, Gurgel, pai de Sancha, chama a atenção de Bentinho para a semelhança entre Capitu e a sua finada esposa, semelhança que não se restringia à aparência física, pois também possuíam temperamentos idênticos. Gurgel conclui com esta frase sentenciosa: Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas...
O capítulo CXXXIX, denominado "A Fotografia" remete ao LXXXIII, intitulado "O Retrato", acima mencionado, que trata das semelhanças entre pessoas que não são ligadas por laços de parentesco. Naquele capítulo, o narrador relata que a entrada de Ezequiel no gabinete em que estavam Bento e Capitu levou-os, involuntariamente, a olharem "para a fotografia de Escobar, e depois um para o outro."Comenta o narrador: Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura.
Posto que assim fosse, vigora como argumento favorável à defesa de Capitu a semelhança entre ela e a mãe de Sancha, ressaltada por Gurgel. Note-se que é o próprio narrador que relembra as palavras do pai de Sancha propiciando ao leitor a oportunidade de avaliar a justeza do julgamento de Bento. A semelhança apontada por Gurgel entre Capitu e a sua finada esposa é um artifício narrativo que relativiza as certezas de Bento, aumentando a ambigüidade da fala do narrador. Mas o discurso ambíguo e equivocado é neutralizado por uma retórica convincente e irretocável.
Para encerrar essa seqüência de remissões, consideremos brevemente os capítulos XXXII e CXXIII, denominados ambos, ironicamente, "Olhos de ressaca". No primeiro, ao contemplar os olhos de Capitu com o intuito de ver por que José Dias os descrevera como os "de cigana oblíquo e dissimulada", revela Bentinho que, à medida que os fitava, eles se tornavam "crescidos e sombrios". É aí que Bentinho evoca a "retórica dos namorados" para que lhe dê 11
(9) uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca?Vá de ressaca.É o que me dá idéia daquela feição nova. Trazia não sei que fluido misterioso enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.
No capítulo CXXIII, ao relatar o modo em que Capitu olha o defunto Escobar na hora da partida do enterro, Dom Casmurro repete quase as mesmas palavras com as quais Bentinho procura definir os olhos de Capitu no episódio que antecede a cena do penteado.
Vejamos o que diz o narrador 12:
(10) Momento houve também que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar o nadador da manhã.
No entanto, se as palavras são semelhantes, o sentido é em tudo diferente. No primeiro caso, a metáfora "olhos de ressaca" define a força misteriosa que enleia e magnetiza Bentinho permitindo-lhe experimentar momentos de felicidade, cujo "tempo infinito e breve" só os relógios do céu terão marcado; no segundo, consoante as palavras do narrador, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira que lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas . Agora não é mais o enamorado quem fala, mas o marido que se imagina traído, e que, movido pelo ciúme, interpreta o gesto da esposa como uma prova irrefutável da sua infidelidade. Observe-se também que o narrador se refere aos olhos de Capitu por meio de um símile como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar o nadador da manhã .
Considerando os dois momentos em que os olhos de Capitu são mencionados, observamos que "os olhos de ressaca", metáfora valorizadora da figura de Capitu adolescente, torna-se uma das provas mais vigorosas da sua traição. Assim, os mesmos olhos que mereceram, no capítulo XXXII, a antológica exaltação consagradora , são objeto agora da mais severa acusação.
Em que pese as várias etapas da vida que representam outros tantos "eus" dentro da história, e que as mais das vezes se contradizem, ¾ Casmurro é o presente, e Bentinho, o passado ¾ o narrador, sujeito do discurso, consegue persuadir o leitor de que está sendo verdadeiro e fiel aos fatos, nos diferentes momentos de sua vida, pelo uso de uma retórica que procura convencer pelo discurso e não pelo significado dos acontecimentos narrados na história. Assim, por exemplo, não foram estes na história, aliás merecedores de pouco crédito, por serem referidos por um narrador não-confiável, profundamente envolvido pelos acontecimentos e portanto sem condições de reproduzi-los com isenção, mas um discurso que aparentemente busca explicar os acontecimentos ¾ posto que falso em sua essência, por não se relacionar a esses mesmos fatos ¾ que bastaram para condenar Capitu e absolver Bento Santiago do crime de ter desterrado a mulher e o filho para a Europa. Mas não podemos esquecer que, sendo as suas memórias, é a sua visão dos fatos e não os próprios fatos que há de prevalecer no romance. Sendo a construção da história posterior aos acontecimentos e, conseqüentemente, à condenação de Capitu, claro está que o texto a eles deve subordinar-se. A retórica do narrador, estruturada com base no verossímil, orienta-se no sentido de persuadir o leitor da verdade de que parece persuadido o próprio narrador.
Ao decidir contar as suas memórias, Bento Santiago busca, no emaranhado das suas lembranças, nos retrocessos e nos avanços na construção da sua narrativa, unir os fios que compõem as várias etapas da sua existência e que lhe permitiriam encontrar um sentido para a sua vida, e entender o papel que representa na história que está contando.
Duas orientações opostas, que se fazem sentir na estrutura textual, dirigem a interpretação da narrativa de Dom Casmurro : por um lado, este procura manter-se próximo à lembrança das sensações com o intuito de reproduzir as experiências do eu-protagonista; daí o interesse em mostrar que é um narrador isento, que relata os fatos tal qual ocorreram; por outro lado, confessa não ter boa memória, mas possuir uma grande imaginação, o que revela um narrador que procura à força da retórica convencer o seu interlocutor das suas razões num discurso, que se pretende coeso e coerente, e que visa a alcançar uma explicação que projete luz sobre o que foi a sua vida e conferir-lhe sentido.
BRAYNER, Sônia. As metamorfoses machadianas. In____. Labirinto do espaço romanesco . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1979. p. 91.
ASSIS, J.M. Machado de. Dom Casmurro . In_____. Obras Completas. V.I. 2 ed. Rio de Janeiro: Aguilar, 1962, p. 808 .
GOMES, Eugênio. O Enigma de Capitu. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967. 183 p.
SARAIVA, Juracy Assmann. O circuito das memórias em Machado de Assis . São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; São Leopoldo, RS: Editora da Unisinos, 1993. p. 96 e 105.