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Refundações identitárias do sujeito em Barrela: um discurso sobre os marginais
Elton Bruno Soares de Siqueira (Universo-Recife)
Este trabalho tem por objetivo analisar o modo como a literatura dramática de Plínio Marcos representa o marginal na sociedade brasileira e constrói um certo saber social sobre este marginal.
Escolhemos a peça Barrela não só por ter sido o primeiro texto do dramaturgo que abriu espaço para a presença da marginalidade nos palcos brasileiros, mas também por concentrar um maior número de personagens representados como marginais, no espaço degradante da prisão, local que abriga os fora-da-lei.
A peça contém dois grupos distintos de sujeitos, que se opõem no que tange à classe social e às imagens que oferecem à sociedade. Encontramos, em 2/3 do texto, aproximadamente, o diálogo entre cinco bandidos e um louco numa cela de prisão; na última parte da peça, é colocado, na mesma cela, um garoto de classe média, detido pelos policiais por estar envolvido numa briga de bar.
Considerando que o gênero dramático se caracteriza pelo diálogo, analisaremos, mais especificamente, as representações sociais que cada grupo faz do outro, a fim de verificar como a interação dos discursos contribui para a construção de um conhecimento sobre o marginal no contexto brasileiro.
Há na lista das personagens aquelas que são conhecidas pelo próprio nome, ou melhor, codinome, e outras designadas por alguma característica que marca uma função no contexto dramático: Bereco, Portuga, Tirica, Bahia e Fumaça são os nomes dados aos bandidos da cela, onde também se encontra um outro apelidado de Louco. Vê-se que, dos seis bandidos, cinco possuem um nome próprio e um é referido por Louco , em virtude de seus atos, que denotam um distúrbio mental e sexual.
O rapaz que é lançado na cela é chamado Garoto . Ainda que seu nome próprio, José Cláudio Camargo, tenha sido referido pelo carcereiro no final da peça, é o termo Garoto que aparece tanto na lista das personagens quanto no nome que antecede suas falas. Isso mostra, talvez, o propósito do texto em individualizar os bandidos e marcar, como um tipo, o elemento proveniente de uma realidade social estranha à realidade daqueles que se encontram na cela 1.
Dessa forma, podemos dizer que tanto o Garoto quanto os Guardas, os Carcereiros e o Louco correspondem a um plano de ação subsidiário que realça a figura de cada um dos cinco bandidos.
Vejamos o que dizem eles de si:
TEXTO 1
(Bereco empurra Portuga, que sai humilhado. Todos riem.)
BERECO - Qual é a graça?
TIRICA - Nada.
BERECO - Tá se abrindo por quê, então?
FUMAÇA - É do Portuga. É loque. Trouxa pacas.
BERECO - Você é malandro?
FUMAÇA - Eu? Eu não! Estou em cana toda hora. Que vivaldice é essa? Malandro é o Tirica. Lanceiro, tal e coisa.
TIRICA - Quem, eu? Eu sou o maior papagaio enfeitado, maruja. Só entro em fria.
BERECO - E tu, Bahia, tem malandragem?
BAHIA - Que nada, meu bom. Sou de coisa nenhuma. Vim parar aqui por engano.
BERECO - Tá bom. Todos cavalos. Mas gostam de fazer embaixada pra cima dos outros.
(Marcos, 2003:31-32)
A cena se passa logo depois que Bereco intervém para dar fim ao conflito que se estabeleceu entre Portuga e os outros presos de cela. Revoltados porque Portuga os havia acordado com gritos decorrentes de um pesadelo, os presos agridem-no verbalmente e ameaçam violentá-lo, quando Bereco ganha o meio da cela e empurra Portuga para o canto, encarando os outros (Marcos, 2003:30). Bereco, que também é chamado pelos colegas de xerife, assume o papel de líder naquela micro-sociedade que é a cela, não só pela sua idade e força física, mas também pelo prestígio de que goza entre os bandidos.
Apesar de estarem presos, muito provavelmente, por terem cometido algum delito - inclusive num momento da peça Bahia informa que Bereco também tem morte no lombo (Marcos, 2003:33) - , as personagens procuram resguardar sua própria imagem, não se considerando, pois, malandros. Malandro, na gíria policial ou do subúrbio, corresponde àquele indivíduo geralmente pobre que não tem trabalho e leva a vida cometendo alguns delitos: assalto, morte, furtos. Nenhuma personagem assume para a outra sua condição de malandro, de marginal, por isso Bereco afirma, ironicamente, que todos são cavalos - imponentes, dignos - , mas gostam de fazer embaixada para cima dos outros , ou seja, gostam de se aproveitar dos outros. Como a representação social sobre o malandro apresenta características desfavoráveis ao indivíduo que recebe o rótulo, ele costuma negar, por meio de uma moral cambiante, o fato de que é malandro, como ocorre com os presos na peça. Donde se pode concluir que a representação da marginalidade é, em princípio, condenada por eles.
No entanto, quando o Garoto entra em cena, este discurso não mais se sustenta e acaba por esmorecer. Basta observarmos as ações que se seguem:
TEXTO 2
BERECO - Tem grana?
GAROTO - Estou meio duro.
BERECO - Quanto?
GAROTO - Três contos.
TIRICA - Vai entrar em vara.
FUMAÇA - Poxa, com essa pinta toda só traz pixulé! Vai se estrepar.
(Marcos, 2003:51)
TEXTO 3
BERECO - Que mais tu deixou na portaria?
GAROTO - Mais nada.
BERECO - Pensa que está falando com algum otário? Te tiro na pinta, garoto. Tu é de se empetecar. Cadê anel, correntinha e outros parangolés?
(Marcos, 2003:51)
Os detentos pressionam o Garoto para passar-lhes os pertences, atitude típica de bandido, conforme representação que se constrói socialmente: sujeito que furta, utiliza a força física ou moral para roubar ou violentar. Estes diálogos, além de confirmar para o leitor o estereótipo da bandidagem, servem para construir uma imagem do bandido para aquele que é inserido no grupo social, o Garoto. Os bandidos, na voz de Bereco, se aproveitam da vulnerabilidade do rapaz para lhe extorquir os bens materiais e, ao mesmo tempo, exercer o poder, mostrando ao novo integrante que eles, naquele contexto, dominam o espaço e a situação. Esta dupla atitude está bem clara no diálogo do texto 2, quando Bereco pergunta ao Garoto quanto ele tem de dinheiro - logo depois ele exige que o rapaz lhe passe os três contos - e Tirica, inconformado com o valor, ameaça-o, dizendo-lhe que iria entrar em vara , o que é confirmado por Fumaça: Vai se estrepar . Tais ameaças têm uma conotação sexual e servem de indício ao que se efetivará mais adiante: o Garoto será barrelado .
Da mesma forma que estas ações confirmam o estereótipo de bandido para o garoto, este, por sua vez, apresenta uma imagem de si aos detentos, cujas características confirmam o estereótipo do burguês: aparência bem cuidada, o medo diante das pessoas encontradas naquele recinto, marcando a diferença de classes.
Como afirma Moscovici (2003:31), "nossas reações aos acontecimentos, nossas respostas aos estímulos, estão relacionadas a determinada definição, comum a todos os membros de uma comunidade à qual nós pertencemos". Esta definição se cristaliza em estereótipos, de tal forma que, no contexto da peça Barrela , os detentos são bandidos porque se sabe que todo bandido rouba, ou mata, ou violenta, ou submete o outro ao seu próprio poder, mediante força física ou armada. De forma semelhante, o Garoto é, para a comunidade a que pertencem os detentos, um burguês, um filhinho de papai , como podemos observar na seguinte cena:
TEXTO 4
(A porta se abre e um rapaz bem vestido é atirado dentro da cela. Aparenta uns vinte e dois anos e é um rapaz de trato. A porta se fecha atrás dele. Escuta-se o ferrolho correr. O rapaz corre até a porta, tentando forçá-la. Está muito nervoso. Os outros presos ficam só espiando os movimentos do rapaz. Ele se vira e se encosta na porta, com medo estampado no rosto. Vai examinando um por um. Depois de algum tempo, Bereco salta da cama e se aproxima do rapaz.)
BERECO - Filhinho de papai.
PORTUGA - Parece uma menina.
BAHIA - Garoto bonito.
[...]
(Pausa. Ele [Bereco] tira o garoto na pinta. Mede-o de cima a baixo.)
BERECO - Que tu aprontou, garoto?
GAROTO - (Nervoso.) Briguei com um cara num bar.
BAHIA - Viu? O garoto é bravo.
BERECO - Coisa à toa. Quando mudar a guarda te jogam na rua de novo.
BAHIA - Não avisou teu pai?
GAROTO - Eu, não. Se o velho sabe disso, vai ficar uma arara.
(Marcos, 2003:50)
Os indícios que ajudam a construir a representação que do Garoto fazem os detentos provêm do comportamento do rapaz, descrito na didascália: rapaz de trato ; está muito nervoso ; medo estampado no rosto ; vai examinando um por um . A representação se mostra na fala dos detentos: filhinho de papai ; parece uma menina ; garoto bonito ; não avisou a teu pai? . Do ambiente de onde advêm aqueles indivíduos, em que predomina o machismo, a imagem de um rapaz de fino trato está associada à figura feminina, pois expressa delicadeza, fragilidade, elementos inconciliáveis com o universo masculino. Bourdieu (apud Maingueneau, 1995:147) considera que "o estilo articulatório das classes populares é inseparável de toda uma relação com o corpo dominado pela recusa das 'afetações' ou dos 'fricotes' e a valorização da virilidade". Tal representação permite aos presos tomar atitudes violentas com relação ao Garoto, numa demonstração de poder, como podemos ver no texto a seguir:
TEXTO 5
BERECO - Que mais tu deixou na portaria?
GAROTO - Mais nada.
BERECO - Pensa que está falando com algum otário? Te tiro na pinta, garoto. Tu é de se empetecar. Cadê anel, correntinha e outros parangolés?
(Marcos, 2003:51)
Todos os atributos físicos e psicológicos do Garoto são captados por Bereco ( Te tiro na pinta, garoto. ), que classifica o rapaz como um sujeito de posses e se sente ultrajado quando percebe que o garoto está tentando enganá-lo. Desta feita, podemos concordar com Moscovici (2003:35), quando diz que
nós organizamos nossos pensamentos, de acordo com um sistema que está condicionado, tanto por nossas representações, como por nossa cultura. Nós vemos apenas o que as convenções subjacentes nos permitem ver e nós permanecemos inconscientes dessas convenções.
A representação que os seis presos fazem do rapaz constitui, para eles, uma realidade irrefutável, assim como o é a representação que deles faz o rapaz. Podemos prever isso a partir das reações do menino, que são descritas pelas didascálias ao longo de toda a cena em que se encontra na cela: nervoso ; incomodado ; assustado ; nojo ; desesperado. As imagens com as quais o Garoto se depara ativam um conhecimento prévio sobre a marginalidade, uma estrutura que, nas palavras de Moscovici (2003:36), "está presente antes mesmo que nós comecemos a pensar", proveniente de uma tradição que decreta o que deve ser pensado. Ou seja, a nossa maneira de pensar depende das representações sociais, que determinam os sistemas de classificação, as imagens e as descrições que circulam dentro de uma sociedade. Uma vez que o conceito de marginal é aceito socialmente, ele se torna uma parte integrante de nós mesmos, de nossas interações com os outros, de nossa maneira de julgar e de nos relacionar com as pessoas. É por meio desse conhecimento prévio que o Garoto reconhece, classifica e julga como sendo marginais aqueles indivíduos, o que provoca uma reação de medo.
Saliente-se que, enquanto podemos interpretar a representação que os presos fazem do rapaz pela fala destes, a representação que o rapaz faz daqueles sujeitos só pode ser inferida a partir da interpretação que está contida nas didascálias, quando elas descrevem a reação do Garoto. É o caso de uma representação indireta: a voz enunciativa que se encontra no plano das didascálias oferece pistas ao leitor de como o Garoto está reagindo aos estímulos gerados pelas imagens daquela cela de prisão. O cérebro vai encontrar na memória um conceito que se adeqüe àquela realidade vivida. O processo de ancoragem se dá quando o rapaz encontra o conceito de marginal e passa a classificar de bandidos aqueles seis homens.
No final da peça, depois que o Garoto é violentado e Portuga assassinado por Tirica, a cela assume um silêncio desconcertante: o Garoto chora silenciosamente sua humilhação e os presos caem num ensimesmamento profundo. Nesse momento, a fala de Fumaça marca a diferença irrefutável existente entre ele e o Garoto:
TEXTO 6
BAHIA - Já estão mudando a guarda.
(Pausa.)
FUMAÇA - O garoto que é feliz. Logo está na rua.
(Pausa. O ferrolho corre outra vez. A porta se abre. Entram os guardas, acompanhando o carcereiro.)
CARCEREIRO - José Cláudio Camargo.
GAROTO - Eu.
CARCEREIRO - Pode vir.
(O Garoto sai devagar, com profunda tristeza. Mais uma vez a porta se fecha.)
FUMAÇA - Eu que queria me mandar.
(Pausa)
BAHIA - (Da janelinha da porta.) Já está amanhecendo.
(Pausa longa.)
BAHIA - Já estão servindo café no xadrez um.
(Pausa longa.)
BAHIA - É... Mais um dia...
(Marcos, 2003:59-60)
A representação social, por seu caráter de estereótipo, tem característica prescritiva (Moscovici, 2003), ou seja, termina por se constituir num ambiente real e concreto: pela pressão que exerce, mostra-se como realidade inquestionável com que nós temos de nos confrontar. Ao classificar o sujeito Garoto como indivíduo de classe média, logo distante do mundo da marginalidade, Fumaça, por exemplo, o chama de feliz, porque logo estará na rua, considerando que o delito cometido pelo menino não tem a gravidade dos que foram cometidos por eles, e, sobretudo, que o rapaz tem um pai, de posses, que o tirará daquela situação. Não vem a ser o caso dos que se encontram ali, naquela cela, desligados da família e da sociedade, entregues à própria sorte. Seu cálculo é confirmado logo de imediato, quando o Carcereiro vem buscar o Garoto e o tira da cela.
Não obstante terem negado, no início da peça, sua condição de marginais/malandros, a peça termina com a constatação de que eles nunca serão, na sociedade brasileira em que estão inseridos, iguais às pessoas do nível social do Garoto, pois a organização social de que fazem parte apresenta estrutura e funcionamento irredutíveis à estrutura e funcionamento dos grupos sociais economicamente favorecidos. Os delitos que são levados a cometer fazem com que eles, através das representações sociais, sejam classificados e identificados como marginais, por isso vão ficar presos indefinidamente, como atesta, antes de o pano cair, a fala de Bereco: "É... Mais um dia..." (Marcos, 2003:60).
A representações sociais configuram-se, conforme Moscovici (2003), como entidades sociais e são construídas no e pelo discurso. A literatura constitui uma das bases em que representações sociais, as mais diversas, assumem uma forma, daí a importância do estudo das representações no texto literário.
O nosso objetivo não foi, aqui, problematizar as questões estéticas do texto dramático de Plínio Marcos, não obstante, como se sabe, forma e conteúdo constituírem categorias dialeticamente relacionadas. Bastaria, pois, uma análise da estrutura quase bruta da peça e da troca verbal rápida, semelhante à esticomitia clássica, que reproduzem e representam o linguajar dos excluídos da sociedade, para tirarmos algumas conclusões de como a própria estrutura da peça de Plínio Marcos constrói uma representação dos marginais.
O foco do trabalho foi identificar a construção de um saber sobre o marginal, mediante as representações sociais, e como a literatura de Plínio Marcos tratou essas mesmas representações.
Não verificamos nenhum caráter moralista, causalista ou sentencioso que justificasse a condição do marginal na sociedade brasileira. Barrela é uma peça que apresenta cruamente os marginais e confronta este mundo com a realidade daqueles que não se encontram sob o rótulo da marginalidade, como é o caso do Garoto, que constitui quase um tipo, uma função contra a qual investem os presos, por meio da "barrela", curra, violência sexual e moral. As representações sociais sobre os marginais são corroboradas, mas vale salientar que elas correspondem, antes de mais nada, a uma realidade convencionalizada, prescrita e instituída, que preexiste aos próprios fatos ocorridos no contexto da peça, e mantêm com esses fatos uma negociação para a construção de um conhecimento sobre o fenômeno da marginalidade. Os presos cometeram atos a partir dos quais são classificados, mediante representações, de marginais, mas o risco desse rótulo é tomar algumas características como essência do sujeito, eliminando qualquer traço que individualize esse sujeito.
Pudemos constatar nesse trabalho que Plínio Marcos desestabiliza a figura cristalizada do marginal no teatro brasileiro, sempre tratado sob o enfoque farsesco ou estereotipado, para lançar o tema com profundidade e originalidade, abrindo definitivamente um espaço para a discussão sobre este fenômeno social e político no Brasil.
Bibliografia
MAINGUENEAU, D. O contexto da obra literária . São Paulo: Martins Fontes, 1995.
MARCOS, P. Plínio Marcos . São Paulo: Ed. Global, 2003.
MOSCOVICI, S. Representações sociais - investigações em psicologia social . Rio de Janeiro: Vozes, 2003.
O Louco, como o próprio nome diz, é um sujeito que, mesmo marginalizado, encontra-se à parte do contexto da cela de prisão: constitui mais um caso de manicômio judiciário do que de delegacia.