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Refundações identitárias: Florbela e a crítica do sujeito auto-sustentável
Derivaldo dos Santos (UFRN/CERES)
Este texto discute a poesia de Florbela Espanca como uma prática escritural em que o eu da escrita se move pela experiência da dúvida enquanto crítica do sujeito auto-sustentável. Por meio da singularidade de seus versos, a poetisa expressa o desvanecimento da subjetividade individual e o desalojamento de verdades autênticas, ao criar um aparato poético que toma o mundo como falso esplendor do qual ironicamente se desprende como reação e recusa de sua pretensa totalidade. Tal desvanecimento não deve ser entendido, aqui, como algo que desautoriza o discurso feminino na poesia de Florbela; apenas pensamos que se trata de uma tensa relação entre a experiência individualmente vivida 1 e a experiência de linguagem que ultrapassa os limites de uma escrita confessional e deixa sob rasura a unidade do sujeito.
A experiência da dúvida 2 é uma recorrência viva na poesia de Florbela Espanca e se constitui como um procedimento de articulação entre as contradições do sujeito da escrita poética e as muitas faces do mundo. Em seus poemas desfilam sem reservas o interrogar como elemento de busca do conhecimento de si mesmo e descoberta do humano a partir mesmo do que costumeiramente se tem apontado como sendo uma especificidade de seu empirismo individual. Mas o que de fato se impõe aos olhos do leitor é o que pensamos ser a atitude básica do eu-lírico de sua poesia, a experiência da dúvida como pulso vivo da crítica do sujeito e da modernidade: Dize que mão é esta que me arrasta?/ Nódoa de sangue que palpita e alastra.../ Dize de que é que eu tenho sede e fome?! , diz o poema Interrogação 3; ou como sugerem, por exemplo, respectivamente, estes versos de A flor do sonho e Noite de saudade : E nunca, nunca mais eu me entendi... , Que eu nunca sei quem sou / nem o que tenho . Trata-se de um dizer lírico permeado de conflito e perplexidade que caracteriza o incessante desencontro do eu consigo mesmo na sua intrigante experiência vivencial à beira de um abismo.
Florbela, sabendo das muitas faces de que é constituída a pluralidade do mundo, procura por meio da poesia dar forma ao seu sentimento marcado pela hesitação e pela dúvida. Ou seja, por este viés a poetisa capta o sentido da não compreensão do mundo moderno. É o que ocorre, por exemplo, no poema Errante 4:
Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.
Meu coração é místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta
Vai procurar o Paço da Ventura...
Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho
Nem há memória desse sítio incerto...
Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!
O eu-poético participa de um movimento de fuga, angustiadamente desajustado, tonto , cambaleante diante do caminho perdido. Os rubros vinhos que integram o seu coração participam de um conflitante enfrentamento com o seu peito brando , que dá ao poema uma atmosfera dissonante entre o sentido de vida (rubros vinhos) e o de morte (rasga a mortalha). Para atestar esse conflito uma sintaxe construída pela negação imprime no poema o desfalecimento e a desmesura em torno do sujeito: mortalha, tonto, perder-se, desventura, não conhece, não há memória , sítio incerto.
Posto como errância que aponta para a não consciência do ser, o poema carrega em si uma linguagem constituída por um reduto conflitante de interioridade, em que a máxima fica aprisionada no pessimismo e no sofrimento, indício não de recuo mas sobretudo de recusa das atrocidades e do caos que é a experiência histórica moderna. Nessas circunstâncias, os rubros vinhos a que se refere o eu poético estão, de forma dissonante, para o seu coração assim como a mortalha está para o seu peito brando : Meu coração da cor dos rubros vinhos / Rasga a mortalha do meu peito brando . Sendo responsável pela dinâmica da vida, o coração , batendo num permanente descompasso, pulsa em outra direção para rasgar a mortalha e desvitalizar a vida.
Os verbos de ação que compõem a primeira estrofe: rasga, vai fugindo, vai andando, perder-se , dão ao poema o movimento de uma fuga tropeça e vacilante. Imaginariamente criador e profético, os versos de Florbela nos revelam que o mundo moderno é pontuado por espaços labirínticos, onde o sujeito é fadado a viver entranhado numa constante busca de sentido de si e do mundo. A vacilação que contempla o quadro de incerteza dessa busca parece indicar que tudo no poema se realiza na perspectiva de cima para baixo, deixando a negatividade e a anulação como a única garantia do místico profeta . É o que sugerem os dois últimos versos da primeira estrofe: E vai fugindo, e tonto vai andando / A perder-se nas brumas dos caminhos. Aí, a gradação descendente (fugir/andar/perder-se) intensifica o quadro de desmesura, desilusão e rebaixamento a que o eu-lírico chega. O quadro de desmesura que leva o ser a vivenciar um sentimento de impotência e inferioridade faz parte, como se sabe, do procedimento lírico de muitos poetas da modernidade. No cenário moderno, desencantadamente cético diante da vida, o poeta ocupa o lugar da desesperança e da des-ordem ao fazer de sua poesia um discurso de contracorrente dos movimentos legitimadores do mundo externo. A esse respeito é interessante o que diz Davi Arrigucci Jr. 5 ao analisar a poesia de Drummond: o eu poético surge agora puxado das alturas sublimes para o chão dessacralizado e degradado da cidade moderna, espaço de errância do desejo .
Mergulhado no emaranhado da vida, os rubros vinhos dos primeiros versos se transformam agora em místico profeta : Meu coração é místico profeta,/ O paladino audaz da desventura , cujo desajustamento situa-se na perda da dimensão do espaço, sem horizontes definidos, caracterizado pelo perder-se no exílio de si mesmo, já que à procura do Paço da ventura , o sujeito é desprofetizado por não saber o caminho da volta . Disso resulta o descompasso de sua desventura entre a experiência divina de um santo e a experiência profana e profética de um poeta : Que sonha 6 ser um santo e um poeta / Vai procurar o Paço da Ventura... Tem-se, pois, aí um descompasso ironicamente constituído pelo registro do paradoxo que quebra qualquer certeza totalitária e impõe o sentido da dúvida, na medida em que no sonho a sua existência é mesclada de forças contraditórias: de um lado, o desejo de alcançar a plenitude por meio do plano religioso, ser um santo ; de outro, o seu imediato contraponto, ser um poeta , que seria a sua face profanamente mundana capaz de captar o sentido da vida fora do alcance celestial.
Nesse caso, o desejo do eu-lírico não exclui nenhuma das faces da contradição; pelo contrário, constituindo um lugar de incertezas, a contradição integra a atitude básica da poetisa na sua crítica do mundo pautado nas certezas cartesianas que legisla a vida e quer alcançar a máxima objetivação do ser. Por esse intermédio, os versos de Florbela direcionam sempre uma crítica da tendência à fixação do sujeito auto-sustentável a partir do entrelaçamento do cogito com o impensado ou do encontro entre a realidade subjetiva e a do pensamento. Desse modo, a poetisa deixa o leitor diante de uma travessia imaginariamente constituída pela inscrição de um cogito que, ao invés de afirmar o ser do homem, será a fonte de interrogação constante desse seu ser 7.
Assim, entre o objeto procurado e o agente da procura estabelece-se um abismo da mais intrigante desventura; nele, o paladino é vencido e entregue à sua própria desgraça. No desvalimento de seus passos, ele confessa a sua impotência diante do labirinto que caracteriza a sua existência, na carência e na falta: Meu coração não chega lá decerto..., daí encontrar-se perdido no labirinto de si mesmo: Não conhece o caminho nem o trilho . A sua consciência se ausenta paralelamente à perda de sua memória: Nem há memória desse sítio incerto... , diz o último verso do primeiro terceto. A seqüência lingüística de negação do poema: não chega lá, não conhece, nem o trilho, nem há memória, sítio incerto , junto com a constância das reticências nas três últimas estrofes, equivale ao sentido do nulo, do vazio e do indefinidamente vago, e evidencia um mundo vivido sob a forma de espiral, onde se conjugam, portanto, sintaxe de negação e anulação do ser.
E o que resta ao sujeito diante desses sítios incertos na impossibilidade do encontrar-se consigo mesmo e com o caminho da volta, não é outra coisa senão tomar seus sonhos irreais como princípio ou possibilidade de atenuação de sua dor, decorrente do objeto perdido 8, representado pela separação de mãe e filho, no tom dissonante entre o "vir" e o "partir", que dá ao poema a sua constância explícita em torno de um quadro de luto e melancolia. É o que se coloca aos olhos do leitor no último terceto do poema: Eu tecerei uns sonhos irreais... . Nesse sentido, tecer sonhos irreais torna-se uma necessidade básica para o enfrentamento da experiência perdida nas duas comparações que se seguem: Como essa mãe que viu partir o filho, / Como esse filho que não voltou mais! Assumidamente, o sujeito confessa tecer sonhos irreais a fim de solucionar a dor de sua existência, mas não consegue alçar vôo por encontrar-se mergulhado no labirinto de si mesmo. Desse modo, se o viu partir e o não voltou mais nas ações, respectivamente, da mãe e filho , podem indicar a idéia de abandono e de perda do ente querido, então estes versos revelam traços de melancólica que integram a vivência do sujeito com seus rubros vinhos de seu coração pulsando descompassadamente seu andar para a sua própria queda.
A falta do objeto perdido, enquanto sinal de luto, caracteriza o poema numa dupla vertente de melancolia e dor que pressupõe o abismo de tristeza do eu-lírico. No abismo, como nos lembra Julia Kristeva 9, o sentimento de derrota do eu com a introjeção que faz da perda do objeto caracteriza a experiência no sofrimento a cada golpe sofrido. O paladino audaz da desventura, perdido no labirinto de si mesmo porque n ão conhece o caminho nem o trilho , assinala a vida como impossibilidade de ser vivida ou presa a uma existência desvitalizada. Conseqüentemente, o tecer sonhos irreais surge como contraponto do mundo racionalmente concebido. Por essa via, podemos dizer que as muitas faces que constituem a pluralidade do mundo e atestam seu quadro de crise conduzem a escrita florbeliana a anunciar o conflito e a dúvida que nutrem o estado de espírito da poetisa, tornando-se o seu procedimento lírico, por excelência, para representar poeticamente o mundo em discórdia, de onde emergem a sua dor e a sua melancolia em face do labirinto de sua própria existência.
O herói moderno 10, ao contrário do clássico, não vence o labirinto, perde-se nele, perde-se no barroquismo labirinto da vida presente. A melancolia nos versos de Florbela associa-se imediatamente à questão da nadificação da vida e do sujeito. Nessa perspectiva, trata-se de uma vertente barrocamente moderna da poesia de Florbela por meio da qual se delineia uma linguagem eclipsada em que o sujeito beira sempre à engrenagem do labirinto. Entre o eu-poético e o mundo há um espaço figurativamente transmutado em abismo, lugar de errância, emaranhamento, lacunas, ausências e perdas, que faz vacilar as certezas do eu. Na poesia de Florbela Espanca, a questão se acha, portanto, no modo como a linguagem poética conduz a tensão lírica a uma melancolia que reside na dúvida do existir.
O leitor pode, portanto, extrair dos versos de Florbela a travessia de um sujeito contraditoriamente movido pela experiência da dúvida como sendo a atitude básica do eu-lírico por meio da qual ele tece a sua crítica ao sujeito auto-sustentável. Dilaceradamente dissonante, a sua poesia se converte numa escrita de contestação da visibilidade reinante do mundo, e as suas inquietações afetivas logo se transformam numa experiência capaz de suscitar a ambigüidade de um mundo composto de ruínas e fragmentos, onde se perde a garantia de qualquer totalidade. Se o mundo moderno identifica o sujeito com a razão soberanamente concebida, a poesia de Florbela surge em direção contrária, como contracorrente, faz da subjetividade o lugar de possibilidade do impensado 11 para colocar sob rasura a razão. Pelo viés da dúvida, a poetisa capta a multiplicidade do cogito com o impensado na unidade do poema. Torna-se por esse movimento portadora de transgressão da ordem socialmente instituída a partir mesmo da condição feminina que lhe é específica. Assim, o visto como excessivamente subjetivo e impensado se inscrevem, em sua poesia, como crítica de supremacias centralizadoras do mundo moderno.
O mundo vão 12a que se dirige de forma crítica a poetisa é coberto, no sentido foucautiano 13 do termo, por práticas disciplinares que dão sustentação à sociedade de controle que pela correção disciplinar objetiva o homem como uma pretensa totalidade. Daí a poesia em ensaio, passando pela particularidade empírica da poetisa, mas, ao mesmo tempo, realizando a partir disso uma ultrapassagem lírica que atinge o geral, se transforma num gesto de recusa e de resistência à objetivação do ser, por isso é melancolicamente uma poética de dissonância da vida. Pensando assim, se o barroco, enquanto lugar de encruzilhadas, funda a sua razão estética na dupla vertente do luto e da melancolia, na poetisa do Alentejo, traços dessa vertente ressurgem como um expediente de linguagem que atesta a crise da existência na modernidade, através da presença elíptica de um sujeito constituído pela experiência da dúvida. Nessas circunstâncias, queremos crer que a poesia de Florbela ultrapassa os limites de uma alma singular e exclusivamente feminina para transgredir o ideal de felicidade imposto pela sociedade racionalmente reinante.
A dúvida, instituída na melancolia e na dor, ao desempenhar um papel decisivo na poesia de Florbela, torna, por excelência, uma atitude lírica de protesto contra a prepotência das coisas e das práticas legitimadoras do mundo. A errância de sua poesia não é outra coisa senão uma discordância ameaçadora à categoria fixa do sujeito fundador e auto-sustentável, de modo que o herói, ocupando o lugar da linguagem poética, longe da unidade pretendida pela racionalidade moderna, nada mais é do que a errância de um paladino da desventura na forma de sua contradição. É, portanto, assim que Florbela, falando do exílio de si mesma, nos revela o humano fecundante e o abismo existente no próprio ser.
Como nos lembra Davi Arrigucci Jr. 14, o poema tem sempre dimen sões escondidas, além do que se imagina à primeira vista. Ao ultrapassar a singularidade empírica, a afloração lírica de Florbela fala em nome de uma humanidade que se quer livre do mundo opressor. Por isso a dúvida se torna, na prática escritural, um procedimento básico de inquietação do eu-poético a partir do qual ele põe às avessas o mundo como falso esplendor. A poetisa exercita a dúvida como sinal de articulação paradoxal, que faz do seu aparato poético uma tessitura de conflito e de discórdia da racionalidade moderna e das práticas legitimadoras em torno do sujeito fundador e auto-sustentável. Partindo, portanto, da interrogação de si mesma, ela contempla liricamente a interrogação do ser, colocando em derrisão a busca de um fundamento soberano e último.
A questão não elimina a particularidade empírica da poetisa, mas acredita que seus poemas revelam um mundo para além do imediatamente dado como experiência individual.
Do lat. dubitare: hesitar, vacilar, a dúvida cética significa uma suspensão definitiva do juízo, a partir da qual o sujeito situa-se sempre diante de um "nada sei". Cf. JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. 3 ed. Dicionário básico de Filosofia . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.
ESPANCA, Florbela. Poemas de Florbela Espanca . Introd., org. e notas de Maria Lúcia Dal Farra. São Paulo: Martins Fontes, 1996. Todos os poemas, aqui citados, foram retirados desta edição.
Este soneto é uma re-leitura do poema Palácio da ventura , de Antero de Quental. A esse respeito gostaria de remeter o leitor para ALONSO, Cláudia Pazos. Imagens do eu na poesia de Florbela Espanca. Lisboa: Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1997 (Temas Portugueses)
ARRIGUCCI Jr., Davi. O coração partido: uma análise da poesia reflexiva de Drummond . São Paulo: Cosac & Naify, 2002, p. 46.
Na poesia de Florbela a escolha do sonho participa como registro de captura da realidade, conforme nos indica DAL FARRA, Maria Lúcia. Poemas de Florbela Espanca . Estudo introdutório, org. e notas de Maria L. Dal Farra. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 29.
ARAÚJO, Inês Lacerda. Foucault e a crítica do sujeito . Paraná: Editora da UFPR, p. 105, 2001.
Cf. FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: _____. Obras completas . Rio de Janeiro: Standard Brasileira, 1980, v. XIV.
KRISTEVA, Julia. Sol negro: depressão e melancolia . 2 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p. 231.
Cf. SANT´ANA, Affonso Romano de. Barroco: do quadrado à elipse . Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
Ver relação entre o cogito e o impensado em FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas 6 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992 (Coleção Ensino Superior)
Cf. o poema Para quê?! , de Florbela Espanca, de onde extraímos a referida expressão.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir : história da violência nas prisões . Petrópolis: Vozes, 1988.