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Casa-grande & Senzala nos estudos literários
Tatiana Batista Alves (UFF)

Casa-grande & Senzala sempre foi uma obra que me fascinou muito, não só pelo seu caráter enriquecedor sobre a cultura brasileira e a formação de sua sociedade, mas, sobretudo pela própria narrativa. Esclarecendo melhor, minha relação com a obra freyriana se deu muito menos pela credibilidade do texto, baseado em fontes e documentos próprios de uma metodologia científica, do que pelo grau de empatia entre o leitor e a obra. Como pesquisadora de literatura, logo me senti envolvida em examinar o que havia naquela obra capaz de estabelecer um ambiente e uma sensação de leitura mais próxima de um romance proustiano, por exemplo, que de um discurso científico. A partir destas inquietações iniciei minha pesquisa no doutorado em Literatura Comparada, iniciada no ano passado. Como se observa, trata-se de uma reflexão que se encontra, ainda, em sua fase embrionária, e esta conferência pretende discutir apenas uma pequena vertente de uma unidade maior que confere a pesquisa.

Encontrei na teoria de Bakhtin uma ferramenta adequada para averiguar o mecanismo da narrativa freyriana. A partir da adequação da teoria da literatura em Casa-grande & Senzala , surgiu-me a seguinte questão: será que posso aplicar a teoria de Bakhtin num texto que não se diz literário, mas científico e com grandes toques de historiografia? Ocorre é que se trata de um texto que mistura a ciência e a história com a imaginação do autor, e, por isso, carrega muitas marcas literárias. O que desejo dizer é que a obra de Freyre não possui um lugar definido enquanto gênero, justamente, porque caminha por todos, concomitantemente.

Abrindo o livro na folha de rosto, onde se encontra a ficha catalográfica da obra, observa-se que ela é classificada como "ensaio". Mas o que é um ensaio? Ou melhor, como é formada sua estrutura, mas especificamente, qual é a forma e como se constitui o ensaio freyriano?

A leitura de Casa-grande & Senzala nos mostra que estamos diante de um texto híbrido, formado por várias vozes e fontes que dialogam entre si durante toda a narrativa. Gilberto Freyre influi poderosamente no destino das Ciências Sociais, do discurso historiográfico, e, também, dos estudos de literatura e de cultura brasileiras. Seu espírito democrático lhe fazia estar ligado profundamente a todas as fontes - específicas ou populares - caminhando, assim, de forma muito similar às novas mentalidades da escrita da história que surgiam, na mesma época, na França, com a Escola dos Analles, e nos Estados Unidos, através da Nova História. O autor recolheu não só os conhecimentos do saber oficial para sua pesquisa, mas também da corrente popular dos antigos, nas cantigas dos escravos, dos índios e dos portugueses, nos provérbios, na boca de todas as classes sociais. Misturados a estes episódios, une-se o estilo artístico da sua narrativa que, por vezes, abre espaço para a inserção de um imaginário literário. Este trânsito livre pelos diversos discursos do saber faz com que Casa-grande & Senzala seja uma obra híbrida que não possui um lugar definido enquanto gênero textual.

O início de Casa-grande & Senzala se dá com o primeiro capítulo, intitulado "Características gerais da colonização portuguesa do Brasil: sociedade agrária, escravocrata e híbrida", em que ele apresenta uma colônia de estrutura agrária, economia escravocrata e composição híbrida . Este termo será a chave do pensar e do criar freyriano em Casa-grande & senzala , porque entende que a sociedade brasileira, bem como sua cultura, são híbridas devido à fusão natural das culturas européia, indígena e africana. Não há como pensar em brasileiro isentando-o dessas influências, ou melhor, sem entender que ele é o novo, formado a partir da mistura dos três elementos . Consoante a esta perspectiva, observa-se que sua escrita utiliza-se de várias influências culturais e intelectuais, caracterizando uma narrativa híbrida, por possuir vários estilos e formas. Objeto da narrativa e narração fundem-se num só, e confundem-se, na medida em que já não se sabe, com tanta clareza, o que é o fato e o que é o texto. O que é objeto da cultura brasileira: seus relatos sobre a cozinha indígena e sua influência na culinária brasileira ou a própria obra que é, concretamente, uma forma de expressão cultural brasileira, e que, por isso, torna-se arte? Que gênero é este que quer contar a "verdade" (quer?) através da veia artística?

Na verdade, é a escrita em si que dá significado aos eventos reais, porque ao serem representados são lembrados e perpetuados. Desta forma, a relação da Literatura com a História é quase um confronto entre narrativas, pois ambas começam na palavra escrita e não nos fatos, diferenciando-se na forma de narrar. O historiador constrói um mundo baseado em documentos e registros concretos que atribuam veracidade ao seu discurso e o romancista constrói um mundo possível baseado, sobretudo, na sua criatividade e imaginação. Todavia, o que ocorre em Casa-grande & senzala não é uma tensão entre discursos, mas o contrário, a relação entre realidade e ficção se dá harmoniosamente, uma complementando a outra . Essa relação é a soma do material colhido para a pesquisa somado a novos dados, frutos da imaginação e, assim, o autor vai além da história, acrescentando detalhes , e flexibilizando a linha divisória entre fato e ficção. A oscilação de aceitação e de interpretação de Casa-grande & Senzala no percurso político nacional se deu devido à liberdade da obra de representar o acontecido, provocando leituras diferentes das feitas no discurso tradicional.

No decorrer deste exame, podemos perceber que o híbrido freyriano muito se assemelha a idéia de híbrido utilizado na teoria literária de Bakhtin, pois em ambos a teoria de uma cultura híbrida é tema e produto da própria obra. Se Gilberto Freyre foi um dos pioneiros a usar o conceito de híbrido nos estudos sociais brasileiros, Bakhtin também foi um dos primeiros, nesta mesma época, a introduzir este termo nos estudos literários ao pesquisar os fenômenos da cultura popular na Idade Média e no Renascimento. Vejamos o que ambos autores têm em comum, ou melhor, como é possível aplicar a teoria bakhtiniana em Casa-grande & senzala , para melhor compreendermos o texto freyriano.

Casa-grande & Senzala apresenta uma dicotomia entre as duas formas de narrar: a séria e a informal. Freyre não se deteve apenas ao que estava dito nos registro oficiais, a linguagem oral foi, também, uma grande fonte de informação na construção da obra. Ele foi a campo colher dados dos mais variados, de filhos e netos de escravos. Desde informações sobre grandes personagens da época até as receitas de comidas feitas nos fogões da casa-grande e as feitas nas fogueiras das senzalas, tornando sua obra verdadeiramente enciclopédica.

O caráter não-oficial de Casa-grande & Senzala impede que qualquer dogmatismo acadêmico de concepção de mundo caminhe em sintonia com as imagens freyrianas. Sua forma e sua linguagem mais solta rompe com uma proposta de metodologia científica demagógica e opressora, para construir uma pesquisa mais ampla e aberta a todos os tipos de reflexões. Neste sentido, trata-se de uma obra que acaba dialogando e questionando o rigor da retórica acadêmica, apontando suas debilidades e ineficiências. Casa-grande & senzala é uma obra que reescreve e reinterpreta a formação da sociedade brasileira numa forma original e irreverente, e que, por outro lado, carrega uma grande parte de subjetividade. Será justamente neste ponto que a obra se aproximará da Literatura, porque Freyre acabará misturando a pesquisa com suas memórias de menino criado no engenho.

Perceber Casa-grande & Senzala como uma obra que transita na fronteira entre a ciência e a literatura não é nenhuma idéia escandalosa. O próprio Gilberto Freyre interpretava a história social do Brasil-Colônia como se ela - a história - fosse carregada de um estilo romanesco, como se fosse a mais verdadeira ou, talvez, a única colonização acontecida de fato na América.

 

A história social da casa-grande é a história íntima de quase todo brasileiro: de sua vida doméstica, conjugal, sob o patriarcalismo escravocrata e polígamo; da sua vida de menino; do seu cristianismo reduzido à religião de família e influenciado pelas crendices da senzala. O estudo da história íntima de um povo tem alguma cousa de introspecção proustiana; os Goucourt já o chamavam "ce roman vrai". 1

 

 

Se o fato que Freyre desejou representar possui um certo estilo literário, torna-se inevitável que a escrita sobre esse fato real caminhe em sintonia com o objeto de estudo. O olhar de Gilberto Freyre sobre este período da nossa história é um olhar romancizado que acaba deformando e metamorfoseando a história, se levarmos em conta os discursos historiográficos e científicos tradicionais. Todavia, esta metamorfose do objeto não se dá através do enredo, isto é, no seu conteúdo (personagens, cenário ou tempo histórico), mas na forma da narração. Tão pouco, trata-se de uma transformação do objeto sob o aspecto negativo, de depreciação ou de falseamento; ao contrário, o seu método de abrangência multidisciplinar permite um novo olhar sob a história social da colônia, uma reflexão mais natural e livre dos rigores científicos que, muitas vezes, limitam as possibilidades de interpretações.

A forma harmoniosa e, talvez, "irreal" pela qual Freyre percebeu a nossa sociedade patriarcal cria algumas lacunas que a perspectiva acadêmica não tem conseguido dar conta. Diferenciando-se dos demais discursos, a vertente imaginada foi narrada de uma forma mais livre e solta, por uma linguagem que se renova por conta do plurilingüismo e por conta dos extratos "romanescos" da língua literária. Uma leitura despreocupada poderá notar que o autor não possui o rigor metodológico que se exige para trabalhar com tema tão amplo. Entretanto, numa leitura mais atenciosa é possível perceber que o descompromisso metodológico é aparente, porque o autor mostra, durante a sua narrativa, as investigações feitas sobre o tema, quer por constatação em registros escritos, quer por coleta de dados através de fontes orais. Dentro do corpo do texto e, sobretudo, através de excessivas notas, percebe-se o estudo cuidadoso e carinhoso do autor para a elaboração de Casa-grande & Senzala. Em contrapartida, não se pode negar o estranhamento do leitor por esta narrativa, se comparada às demais obras que tentam explicar o Brasil. O que ocorre é que Casa-grande & Senzala não é um texto que pode estar inserido inteiramente no discurso científico, porque não segue as normas acadêmicas oficiais, nem na ficção literária, porque narra fatos "realmente" acontecidos. Parece-nos, então, que estamos num "beco sem saída" para tal problema, porém as respostas vão despontando se tratarmos a obra como uma narrativa que está inserida nos diversos tipos de discursos, mas que, por outro lado, não é nenhum destes discursos propriamente ditos. Isto é, ela está inserida no discurso científico, mas não é ciência pura, e está inserida nos estudos literários, mas não é literatura. Penso que esta reflexão deveria ser também inserida dentro da discussão de gênero textual, sua história e transformações no decorrer do tempo; campo de pesquisa, a meu ver, tão esquecido pelos teóricos da literatura.

Um dos textos explicadores do Brasil de maior importância, Casa-grande & Senzala contribuiu para a reflexão e também para a formação da identidade nacional, não apenas pela narração dos fatos históricos da vida oficial e da privada, mas pela sua subjetividade que transita pelo ideológico e pelo místico na representação da sociedade brasileira. Portanto, há dois lados bem opostos, mas que se complementam, se integram, se confundem e se justificam na obra: um lado altamente científico, em que se percebe a pesquisa rigorosa feita pelo autor antes de iniciar sua narrativa, e um outro lado subjetivo e aberto, em que a reflexão inicia, desenvolve-se durante a leitura e não fecha. Isto é, o autor não quer formular uma explicação "verdadeira" para a formação da sociedade brasileira, mas quer pensar sobre este processo de formação. Este pensar freyriano se dá durante o processo da escrita, como se o autor "pensasse alto", ou melhor, "pensasse escrevendo". Acompanhando o pensamento de Gilberto Freyre, o leitor também acompanha as trilhas percorridas no processo de criação - as da razão e as da imaginação. Dentro deste grande diálogo amplamente penetrado pela idealização, Gilberto Freyre consegue justificar seu olhar otimista da sociedade patriarcal do século XVII.

Uma obra aberta e inacabada, Casa-grande & Senzala é marcada pela pluralidade de estilos e vozes de diversos gêneros, distanciando-se de uma possível unidade estilística ou mesmo ideológica. É a fusão do popular e do erudito, do sacro e do profano, empregando gêneros intercalados, como cartas, canções do folclore, lendas, discurso historiográfico, fontes orais, imagens, receitas, ensaios sociológicos, literatura etc. Seu destemor teórico constrange a ciência canônica, acostumada em solucionar todos os problemas, e remove barreiras de toda espécie, sobretudo, do pensamento hermético.

À guisa de conclusão, ler Casa-grande & Senzala pelo viés bakhtiniano não se dá apenas por que a noção do híbrido foi estudada e inserida nos Estudos Literários por Bakhtin, na sua pesquisa sobre cultura popular a partir do contexto Rabelaisiano, na mesma época em que Freyre utilizava este conceito para explicar a formação da sociedade brasileira, a partir da miscibilidade entre o português, o índio e o negro, mas por perceber que ambos os teóricos da cultura entendiam que o popular era formado a partir de uma "unidade híbrida". Bakhtin ao observar que o texto de Rabelais absorvia as mais diversas manifestações da sociedade medieval e renascentista, desde as tradições eruditas às festas populares da praça pública, bem poderia está falando, em vários momentos, da obra freyriana. Se Bakhtin acaba construindo uma teoria da cultura a partir da teoria literária, Gilberto Freyre faz o mesmo através da narrativa literária. Teoria, literatura e cultura unem-se e se confundem. É importante também examinar que eles pensavam sobre o hibridismo, pensando e criando de forma híbrida. Este tipo de comportamento investigativo estava, por sua vez, em sintonia com o ambiente do novo discurso científico que borbulhava na França.

Se para Bakhtin o romance é uma obra aberta e inacabada, e, pela própria natureza do gênero, deve possuir um estilo individual, podemos encontrar também no discurso freyriano um forte estilo individual, próprios dos textos artísticos e uma perspectiva inacabada e aberta também. Será neste espaço que Freyre construirá a literariedade da obra, abrindo espaço para a imaginação e para a paixão. Casa-Grande & Senzala é uma obra que não fecha e não conclui, possibilitando, assim, uma infinidade de olhares e interpretação. Talvez, esse seja o motivo dele ser o livro mais amado e o mais odiado do Brasil.

 

Referências Bibliográficas:

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Trad. Yara Frateschi Vieira, São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1999.

_______________. Problemas da poética de Dostoiévski. Trad. Paulo Bezerra. 3ªed. - Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.

______________. Questões de Literatura e de Estética. 3ª ed. - São Paulo: Editora UNESP, 1993.

COUTINHO, Edilberto. A imaginação do real: uma leitura da ficção de Gilberto Freyre. J. Olympio: ONL, 1983.

FREYRE, Gilberto Freyre. Casa-grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal - 36ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 1999.

RIBEIRO, João. "Gilberto Freyre". In. Obras de João Ribeiro - crítica. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1952.

 

NOTA:

FREYRE, prefácio à 1ª edição, lxv . in. Casa-grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal - 36ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 1999.