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Consideraçoes sobre a representeção do professor de literatura no cinema
Pedro Theobald (PUCRS/UFRGS)
Inicio estas considerações perguntando se ainda é verdade que não aprendemos para a escola, mas para a vida; e se assim for, como o professor de literatura contribui para que alcancemos esse aprendizado. As perguntas parecem justificadas diante de uma série de filmes em que o professor de literatura figura como personagem. Tomei como base para estas considerações doze filmes: O jogador , O despertar de Rita , Na hora da zona morta , Sombras do passado , Sociedade dos Poetas Mortos , O tio , Cabo do Medo , Mentes perigosas , Garotos incríveis , Histórias proibidas , A última noite e As horas 1. O professor está presente em muitos outros filmes, em poucos como professor de literatura. É por isso que constam desta relação As horas , em que há um professor de teatro, ou Garotos incríveis e Histórias proibidas, com professores de criação literária; e também filmes com professores em situações especiais, como a de aposentado ( O tio ), ou mesmo a de falso professor ( Cabo do Medo ).
Optou-se por dividir os filmes em duas categorias, segundo o nível de instrução que representam: ensino superior e ensino secundário. Apenas dois filmes de cada categoria serão discutidos, com rápidas remissões aos demais. Não será feita uma descrição de técnica cinematográfica, mas a observação de recursos narrativos, visuais e lingüísticos - incluindo-se aí participação do personagem na trama, tempo de exposição e discurso -, e a apreciação dos resultados.
Em Na hora da zona morta, filme baseado em uma história de Stephen King, Christopher Walken aparece no papel do professor de literatura John. Depois de um acidente de automóvel, ao despertar do coma prolongado, ele descobre que tem poderes paranormais. Começa a ajudar as pessoas, mas, contra suas expectativas, se torna uma celebridade. Decide, então, viver em isolamento, e só depois de muito tempo volta a lecionar. É agora professor particular de um menino cujo pai organiza uma partida de hockey. Ao prever que o gelo se romperá durante o jogo, John consegue evitar a morte do garoto. O evento o faz refletir sobre seu dom: havia na premonição uma zona indefinida, uma "zona morta", que lhe possibilitara não só antever, mas também modificar eventos futuros. John chega à convicção de que é sua obrigação moral intervir na política e livrar o país de um candidato perigoso. A dificuldade está em convencer as pessoas de que algo acontecerá sem que tenha realmente acontecido. Ele mesmo precisa executar a ação e é morto durante o atentado ao político que desejava eliminar.
John aparece como professor em dois momentos da história. Na cena inicial, lê e recita de cor versos de "O corvo", de Edgar Allan Poe, sobre os quais faz apenas o comentário: "Nada mal"; recomenda a leitura para a aula seguinte, "The legend of sleepy hollow", a história de um professor perseguido por um demônio sem cabeça, conto de Washington Irving, cujo nome se encontra escrito no quadro-negro. Em cena posterior, durante aula particular, o professor novamente lê versos de "O corvo".
As atitudes do professor aparentam simplicidade, um conhecimento da literatura que está introjetado e se expressa sem nenhuma teatralização. Da mesma forma, suas atitudes pautam-se por um padrão de correção, sensatez e sensibilidade. Os textos parecem ter a função de anunciar o futuro que aguarda a personagem e ligam, assim, o professor ao cidadão. A inexorabilidade da famosa frase do Corvo, "Nunca mais", prenuncia o conteúdo das situações e das reações que ele irá enfrentar, e para as quais a consciência exigirá dele soluções radicais.
A justificação das resoluções do personagem por meio de uma dimensão intelectual e moral é o que, na realidade, parece ter levado a identificá-lo, na história, como professor e não como outro profissional. Sem isso, tratar-se-ia de mais um paranormal, e faltaria a suas atitudes uma explicação convincente. Situações similares encontram-se em filmes como Sombras do passado, As horas e Cabo do medo. Este último apresenta a singularidade do impostor que se passa por instrutor de teatro. Seu sucesso temporário deve-se ao conhecimento das aparências e à exploração da confiança que acompanha a imagem pública do professor.
Em Sociedade dos poetas mortos, filme de Peter Weir, Robin Williams faz o papel de John Keating, professor de literatura numa escola preparatória. O professor tenta abolir os métodos tradicionais de ensino da literatura, que visam a tornar os alunos artistas; quer, ao invés disso, fazer deles livres-pensadores. Manda-os arrancar a introdução do livro-texto a respeito da poesia e convida-os a fazerem algo de suas vidas segundo o lema "Carpe diem", dos poetas ingleses do século XVII. Inspirados pelo professor, alunos entusiastas reavivam a "Sociedade dos Poetas Mortos", grupo de leitura de inspiração romântica dedicado a "extrair a essência da vida" (segundo citação de Henry David Thoreau), cujas reuniões ocorrem em local ermo, fora da escola. Quando o líder do grupo, contrariado pelos pais no desejo de tornar-se ator, comete suicídio, a culpa recai sobre o professor e este é despedido da escola.
O professor Keating, que aparece em sala de aula em quatro cenas e em aulas heterodoxas fora da sala em várias outras, é mostrado como a antítese do que a escola convencional deseja dos professores. Ao invés de propor tradição, disciplina, honra e excelência, os valores da escola, preconiza a postura crítica. Na literatura, isso significa "aprender a pensar por si mesmo", "aprender a saborear as palavras e a língua", pois "palavras e idéias podem mudar o mundo". Entre os autores citados, alguns repetidas vezes, estão Robert Herrick, Walt Whitman, Henry Thoreau, Percy B. Shelley, Lord Tennyson e Abrahan Cowley. Eles corroboram o apelo inicial a "aproveitar o dia" e a dar um sentido à existência. Significativamente, a origem antiga do verso de Horácio 2 não é mencionada: destinado a alunos que prestarão exames para cursos diversos, não para as humanidades, o tipo de estudo proposto por Keating privilegia o conteúdo em detrimento da forma. Por isso mesmo, não há um trabalho com os textos, no sentido de contrastá-los ou relacioná-los. A teatralização das aulas possui um apelo mais forte do que a argumentação. Decorre disso a idolatria dos alunos pelo professor. O ambiente de confinamento masculino é responsável pela outra parte: forçados a conviverem diuturnamente, os alunos confiam em professores como Keating, cuja aposta está na atitude romântica e na abolição das formalidades.
A identificação de numerosos espectadores com a história parece dever-se a essas características, que são também responsáveis pela resistência de outros. Algumas críticas bastam para comprová-lo: "óbvio do ponto de vista dramático e unilateral como melodrama" (Leonard Maltin); "nenhum dos autores é estudado... com um espírito que rendesse homenagem ao seu estilo..." (Roger Ebert); "a percepção da realidade é o preto-e-branco da pulp fiction " (Pauline Kael) 3.
Um paralelo, e em certos sentidos um contraponto ao filme de Peter Weir, encontramos em Mentes perigosas, dirigido por John N. Smith. Professora de inglês numa escola de periferia, depois de esgotar os recursos recomendados pelos manuais de didática, tenta conquistar a atenção de um grupo de alunos problemáticos com letras de Bob Dylan e poemas de Dylan Thomas. Só consegue quebrar a resistência ao fazê-los verem que o texto vai além do escrito, e que o conteúdo está relacionado com suas vidas. Seus métodos contrariam a direção da escola, que se mostra insensível aos problemas dos alunos. Ela decide demitir-se ao final do semestre, porém os alunos conseguem convencê-la a permanecer.
A professora é mostrada em sala de aula nada menos que treze vezes, e só tomamos consciência da dimensão pessoal de sua vida por referências verbais. Sua insistência no trabalho formal - exercícios de compreensão e vocabulário - é fundamentada: "Se você consegue ler poesia, consegue ler sobre qualquer assunto"; "Palavras são idéias e não podemos pensar sem elas". Há freqüentes discussões e negociações sobre tarefas a cumprir, e os textos são explicitamente relacionados uns com os outros. Se esses aspectos distinguem Mentes perigosas de Sociedade dos poetas mortos, há um elemento que os assemelha: o mestre-herói, que rapidamente dobra os alunos resistentes, mas se torna vítima de outros vilões - a direção da escola e os pais. Conseguem fugir desse estereótipo os já mencionados Sombras do passado e Cabo do medo, em que se apresenta, até certo ponto, o avesso dessa heroificação.
Em O jogador, de Karel Reisz, James Caan encarna Axel Freed, professor de inglês na City University, de Nova York. Axel é amado e admirado por todos, até mesmo pelos bookmakers que bancam suas apostas. O jogo o fascina porque implica não só a possibilidade de ganhar, mas o risco de perder. Sua obsessão leva-o a arriscar-se cada vez mais. Pressionado pela Máfia, é obrigado a recorrer à mãe e ao avô para pagar apostas perdidas, e, por fim, a subornar um aluno que joga basquete no time da universidade.
Nas aulas de literatura (duas, no filme), o professor Axel se mostra um debatedor habilidoso, que procura extrair dos alunos as respostas de que necessita para corroborar seus argumentos. Em ambas as ocasiões, o debate está centrado em autores e idéias que justificam a compulsão do professor pelo jogo. Assim, apresenta sucessivamente Dostoievsky (autor do romance O jogador ) para opor a vontade e o desejo, comuns ao poeta e ao atleta, à razão; William Carlos Williams e seu capítulo sobre George Washington no tratado In the American Grain para afirmar que o temor do fracasso é o que nos faz eliminar os riscos; e D. H. Lawrence para dizer que "Não há nada que os americanos mais temam do que as novas experiências..."
No dizer de um crítico, nesse filme "somos apanhados na armadilha de uma preleção maníaca a respeito do jogo como expressão existencial" 4. O fascínio e a complexidade do personagem devem-se à ousadia na ação e à força na expressão dos argumentos. No entanto, embora em tom e registro diferentes do que ocorre em Na hora da zona morta e Sombras do passado, o professor foi utilizado não para propor questões ligadas à instrução e à educação, mas para contar a história de um indivíduo e de sua decadência.
A educação está presente já no título de Educating Rita ( O despertar de Rita ), baseado na peça homônima de Willy Russell. Quanto ao professor, temos aqui, de certa forma, a ordem inversa do que se anuncia no final de O jogador . O Dr. Frank Bryant, poeta que parou de escrever e professor que já não acredita nos benefícios do estudo da literatura, busca refúgio na bebida. Sua orientanda Rita, pelo contrário, procura aprender para superar as limitações de seu meio. Cabeleireira de profissão, ela assiste às aulas da Universidade Aberta de Londres pela TV e tem um colóquio semanal com o Dr. Bryant. Rita ignora tanto as convenções sociais do meio universitário quanto os símbolos que precisa adotar para tornar-se aceita nesse ambiente. Da literatura de entretenimento precisa passar ao cânone universitário. Embora cético, o professor a ajuda a selecionar as leituras, a disciplinar o pensamento e a ser racional na expressão. Ambos os personagens entram em crise. Rita, por se encontrar no limiar de dois mundos; o professor, porque não sabe se deseja ensiná-la a mudar e a perder sua singularidade. A crise se resolve para Rita, que estuda com afinco e passa o exame final com brilho.
Em duas das três aulas coletivas mostradas no filme, a embriaguez do professor contrasta com a formalidade da ocasião. O que se parece questionar aí é o sentido do ensino da literatura, mais especificamente sua falta de sentido quando destituído de relação com a vida. Tanto o professor quanto muitos dos alunos parecem exemplificar esse vazio. Rita contrasta fortemente com isso. Seu interesse em conhecer-se, sua convicção de que, ao contrário do desejo das clientes de seu salão, não se pode mudar a não ser a partir de dentro, e que a mudança é um processo longo e difícil, tornam-na diferente tanto dos outros alunos quanto do professor.
Questão interessante são os poetas, romancistas e dramáturgos citados nos colóquios com Rita: de Blake a Yeats, de Forster a Maugham, de Shakespeare a Ibsen, eles constituem uma amostra do que o cânone universitário consagrou e do que a instituição literária referenda através de professores, editores e leitores.
Abrangendo o período compreendido entre 1974 e 2002, os filmes aqui discutidos foram lançados, em sua maioria, na década de noventa. Apresentam mais situações de ensino secundário do que universitário, e tendências do ensino das últimas décadas, como os cursos de criação literária, também estão representadas. As épocas retratadas vão dos anos cinqüenta, como em Sociedade dos poetas mortos, aos primeiros anos do segundo milênio, como em A última noite e As horas 5. À exceção de Sombras do passado, história construída com certa sofisticação, com numerosos flashbacks, de O jogador, em que o mesmo recurso é utilizado em relação a episódios recentes na vida do protagonista, e de As horas, de construção elaborada, as demais histórias apresentam-se lineares e realistas do ponto de vista narrativo. Classificam-se como "dramas", embora os rótulos "comédia", "terror" e "suspense" também sejam empregados.
Os professores, em sua maioria do sexo masculino, protagonizam quase todos esses dramas, e quando isso sucede são - sem exceção, inclusive na condição de anti-heróis - personalidades fortes e carismáticas. São pessoas de meia-idade ou acima dos trinta anos. Os alunos, ou parte deles, procedem de situações sociais especiais ou marginais em pelo menos quatro histórias ( Mentes perigosas, O despertar de Rita, O jogador e Histórias proibidas ).
Cada filme apresenta em média duas ou três aulas, as do tipo dialogado constituindo aparentemente as privilegiadas pelo cinema. São numerosas as situações de debate. A centralidade e a importância do professor no evento são sempre destacadas, sendo freqüente vê-lo manipulando, com ou sem sutileza, as mentes dos alunos. Contrariamente ao que acontece na realidade, as aulas são breves, raramente se estendendo além dos três minutos. Em geral, só vemos seus instantes finais, não a parte inicial ou intermediária. A aula pode, assim, servir de ponto de partida para a ação, ou seja, para novas cenas. Essa é a regra em todos os filmes em que a condição de professor constitui mero apêndice de um personagem cuja verdadeira história se passa fora da sala. Aulas demoradas e numerosas constituem uma característica daqueles raros filmes que têm a educação como tema central e não apenas acessório. No presente caso, apesar das reservas que se lhes possam fazer quanto ao nível de realização alcançado, Sociedade dos poetas mortos, Mentes perigosas e O despertar de Rita.
Implícita nessas constatações a respeito da situação de aula está a dificuldade dos filmes em lidar com a situação estática. Movimento por definição, o cinema precisa converter a esse princípio tudo o que toca. Embora o aprendizado, e até mesmo o ensino, se dêem em grande parte na solidão e no recolhimento, o silêncio prolongado é maçante e inaproveitável para o cinema. Daí o recurso ao debate, onde o pensamento se expressa em voz alta e onde surgem os conflitos e os enfrentamentos. O mesmo se poderia dizer da personagem. Já foi notado que as personalidades equilibradas, os carateres perfeitos, ou não são atraentes nem para literatura nem para o cinema, ou o são apenas pela possibilidade do desmascaramento, do desequilíbrio e da decadência. Daí preferir-se a personagem romântica, revolucionária, excepcional ou marginal, também na figura do professor e do aluno. Por fim, o mesmo princípio se aplica às menções e citações. Embora as pessoas em geral leiam prosa - os prosadores estão significativamente representados em filmes como O despertar de Rita e O jogador -, a concisão, brevidade e sonoridade do poema parecem harmonizar-se melhor com as características do cinema. É por isso que os poetas levam a palma quanto ao número de menções e citações nos filmes.
A brevidade das aulas corresponde à rapidez das transformações que vemos ocorrerem nas personagens. O crescimento pessoal, o desenvolvimento e a maturação, que demoram na vida, chegam sempre em pouco tempo no cinema. A consciência da curta duração de um filme poderia fazer o espectador relevar esse aspecto, porém a impressão de que os resultados são obtidos com excessiva facilidade se impõe.
A literatura se constituiu como tal quando perdeu o caráter didático. O cinema, que nunca desempenhou essa função com igual intensidade, está hoje voltado quase que inteiramente para suas potencialidades artísticas e de entretenimento. Isso também se reflete na representação do professor e da situação de ensino e aprendizagem. O objetivo dos filmes não é contribuir para o debate filosófico ou político da educação, mas tão-somente construir ficção, a cujas normas têm que adaptar-se as situações e as personagens. Otimisticamente, os mestres dos filmes quase sempre ensinam, e os alunos quase sempre aprendem. Levando-se em consideração os princípios miméticos que orientam a maioria das histórias, caberia, no entanto, perguntar se a passagem dos conhecimentos da escola para a vida também ocorre sempre com tanta presteza e velocidade.
O jogador (The Gambler). Dir. Karel Reisz. EUA, 2003; O despertar de Rita (Educating Rita). Dir. Lewis Gilbert. GB, 1983; Na hora da zona morta (Dead Zone). Dir. David Cronenberg. EUA, 1983; Sombras do passado (Wetherby). Dir. David Hare. GB, 1985; Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society). Dir. Peter Weir. EUA, 1989; O tio (Lo Zio Indegno). Dir. Franco Brusati. Itália, 1991; Cabo do medo (Cape Fear). Dir. Martin Scorsese. EUA, 1991; Mentes perigosas (Dangerous Minds). Dir. John N. Smith. EUA, 1974; Garotos incríveis (Wonder Boys). Dir. Curtis Hanson. EUA, 2000; Histórias proibidas (Storytelling). Dir. Todd Solondz. EUA, 2001; A última noite (25 th Hour). Dir. Spike Lee. EUA, 2002; As horas (The Hours). EUA, 2003.
Todos em Cinemania 96, verbete "Dead Poets' Society" (Microsoft, 1995. CD-ROM). Como nas demais citações, a tradução é do autor do presente ensaio.
Pauline Kael, Cinemania 96, verbete "The Gambler".
Referimo-nos, naturalmente, apenas à parte contemporânea dessa história em três épocas.