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A Guerra do Paraguai na Literatura
Norma Wimmer (UNESP/SJRP)

A Guerra do Paraguai foi iniciada em dezembro de 1864 e envolveu quatro países: Argentina, Uruguai, Brasil (a tríplice Aliança) e o Paraguai. Considerada a aparente desproporção de forças, julgava o alto comando aliado que Assunção seria tomada em três meses, no máximo. Entretanto, a guerra estendeu-se até o início de 1870.

Ninguém contou com a tenaz e obstinada resistência oferecida, nem com a ferocidade das batalhas cuja conseqüência foi a absoluta destruição do Paraguai, reduzido, após o conflito, a escombros habitados por mulheres, velhos e crianças.

A Guerra do Paraguai vem atraindo a atenção de historiadores e ficcionistas nos últimos anos; aqueles continuam buscando "verdades" a seu respeito; estes a interpretá-la. Neste sentido, o volume que reúne textos de quatro autores cuja nacionalidade corresponde a dos países envolvidos no conflito - Augusto Roa Bastos (paraguaio) Alejandro Maciel (argentino) Omar Prego Gadea (uruguaio) e Eric Neponuceno (brasileiro), - impresso em 2001 com o título Los Conjurados del quilombo del Gran Chaco - corresponde a uma crítica conjunta à guerra do Paraguai em particular, já que, conforme o prefaciador Alejandro Maciel: "Até hoje não há um argumento racional para explicar a razão da guerra" 1 - bem como às guerras de modo geral.

Conforme sugere o título - Los conjurados del quilombo del Gran Chaco - o elo de ligação entre os quatro textos é a idéia de que teria sido criado na região fronteiriça entre Brasil Paraguai e Argentina - o Gran Chaco - um abrigo para refugiados do conflito, não importando sua nacionalidade. Estes não seriam, é claro, simplesmente desertores, mas sim pacifistas determinados a resistir ao absurdo da guerra. Os personagens históricos e fictícios reunidos no quilombo também aparecem, nos diversos textos, de maneira recorrente.

Em uma de suas Cartas dos Campos de Batalha do Paraguai (a de número XXIII) Sir Richard Burton, viajante inglês, famoso tradutor das Mil e uma noites que percorreu a região por ocasião da guerra alude à existência, na região do Gran Chaco, a "um enorme quilombo, ou colônia de desajustados, onde brasileiros, argentinos, uruguaios e fugitivos paraguaios, convivem em amizade mútua e em inimizade com o restante do mundo" 2. O prefaciador de Los conjurados del quilombo del Gran Chaco elenca as atividades de Sir Richard Burton: além de redator das vinte e sete cartas escritas por ele nos campos de batalha que visitara como observador (ou seja, espião), ele fora mediador, cronista, explorador, estrategista, historiador, sociólogo, urbanista - e, talvez mesmo - um pouco ficcionista.

A sustentação histórica dos textos que compõem o volume deve-se ao fato de eles estarem ancorados em documentos e de neles circularem personagens tomados à História - garantias da "veracidade" de, pelo menos, "parte" do narrado; por outro lado, a referência e a associação à obras de ficção ( A Divina Comédia , a Ilíada , as Mil e uma noites , obras de Borges, ao romance de Deonísio da Silva: Avante Soldados: para traz , ou ainda à Bíblia, as Cartas dos Campos de Batalha do Paraguai ou Burton no Uruguai, assim como a escritos resgatados do passado, talvez mesmo fictícios: o diário do capitão Paunero; os papéis e a novela, - folhetim ou memorial do general Rocha Dellpiane) inserem os textos dos quatro autores na vasta rede intertextual que compõe a literatura.

A figura do artista argentino Candido Lopez parece interligar a "verdade" (fato histórico) e a "ficção" - suas pinturas não apenas testemunham os fatos acontecidos - aconteceu, já que Candido Lopez "pintou" - mas sugerem os não acontecidos (eles poderiam ter sido retratados) com os inconfundíveis traços, cores e estilo do pintor-cronista argentino. Candido Lopez participou de várias batalhas, perdendo em Curupaiti o antebraço direito. O artista-soldado havia realizado, até então, dezenas de esboços com descrições detalhadas de acontecimentos que, mais tarde, pintou com a mão esquerda. Sua obra, de características muito marcantes caracteriza-se por forte horizontalidade, representando detalhadamente ações múltiplas e simultâneas apresentadas por meio de pontos de vista altos e extensos. Ocorre ainda a menção a um outro Candido Lopez, paraguaio, versão legendária, "duplo astral e obscuro" do argentino. Este teria sido um dos assistentes de Solano Lopez e pintor do "massacre de um povo desarmado, esfomeado e esfarrapado" 3. Candido Lopez, o paraguaio, funde-se - segundo Roa Bastos - com o argentino: as Cenas da Guerra do Paraguai e as Cenas da destruição do Paraguai constituem direito e avesso das mesmas telas. Quanto aos dois pintores, através do tempo que os envolve a ambos, eles celebram abraçados, conforme a lenda e segundo Roa Bastos "a fraternidade dos povos na glorificação da vida, sempre mais forte do que a morte" 4.

O resgatado diário do general Paunero (Alejandro Maciel - Fundação apogeo y ocaso del Quilombo del Gran Chaco) relata ficcional e simbolicamente a chegada ao Quilombo (a 16 de junho de 1868) do argentino Candido Lopez, seu desejo de desenhar o local, um encontro com seu homônimo paraguaio e o impulso de retratá-lo. Testemunham-no um quadro (imaginário) cuja luminosidade eleva o retratado "a categoria de um anjo" 5.

Abrem o volume dois textos de Roa Bastos: Frente al frente argentino e Frente al frente paraguaio . O primeiro é constituído de um longo diálogo entre dois personagens: Candido Lopez (o pintor argentino) e o Generalíssimo Mitre (Comandante-chefe das forças aliadas). Emblematicamente, enquanto Mitre traduz, na tenda militar, o Inferno de Dante, Lopez pinta-o na tela esboçando as futuras cenas da Guerra do Paraguai.

Em uma de suas falas o pintor faz uma insinuação ambígua acerca do refúgio. A ambigüidade parece bem evidente; considerando o original - "diz que hay un grupo de prófugos de esta guerra sin cuartel mi cuarteles" 6 - evidencia-se em primeiro lugar a indeterminação de quem diz; depois, um grupo de prófugos poderia sugerir uma organização de desertores (a escolha da palavra prófugos parece intencional); finalmente, o jogo de palavras encerrado na expressão sin cuartel, ni cuartele s parece apontar para o fato de que, nada faz sentido. Daí a conveniência da fuga e do estabelecimento de uma república com a divisa "lutar contra a guerra".

O segundo autor Alejandro Maciel, apresenta Fundación, apogeo y ocaso del Quilombo del Gran Chaco, texto em que o refúgio, o quilombo é o tema central. O brigadeiro Aranda representante argentino do "pacto para a paz" é gravemente ferido em combate e sabe que não poderá realizar sua missão; pede, assim ao capitão Paunero que o substitua entregando-lhe documentos e informações acerca do esconderijo. Devem-se, portanto, ao Capitão as informações mais consistentes acerca do local que descreve detalhadamente. Na entrada, segundo ele, via-se primeiro uma bandeira branca bela e simples no alto de um mastro de taquara. As choupanas estavam dispostas em quatro largas fileiras que, a partir do pátio abriam-se em leque, perdendo-se na selva; tratava-se de uma república instaurada em pleno chaco, nascida do armistício voluntário de um grupo de oficiais das quatro nações que, 'fora, continuavam a enfrentar-se, invocando obscuros interesses" 7. Todos ali trabalhavam em turnos religiosamente respeitados e eram governados por um Conselho Administrativo integrado por doze conselheiros, três representantes de cada um dos países envolvidos no conflito. Um estranho visitante francês teria sido o mentor espiritual da empreitada. Seria uma alusão a Fourier e seus falanstérios? (Esses estavam em voga no século XIX tendo-se a notícia da construção de um nas redondezas de São Francisco - Santa Catarina - fadado ao insucesso). Várias figuras conhecidas através da História viveriam abrigadas no refúgio: o comandante Ilino Galvão, o barão de Amazonas, o coronel Oribe, o cônsul Hermosilla, o general Rocha Dellpiane. O governo imperial teria recebido informações acerca do local e decidido destruí-lo. Da república teria sobrevivido apenas o caderno do capitão Paunero.

Em Los papeles Del General Rocha Dellpiane . Omar Prego Gadea retoma a figura do mesmo General uruguaio do conto anterior; este estaria redigindo uma "novela, folhetim ou memorial" cujo protagonista (um capitão de infantaria, como o autor), cansado das atrocidades da guerra ter-se-ia deixado seduzir através do relato de um tal "Oribe", por detalhes relativos ao acampamento dos "rebeldes"; uma noite, às vésperas de novo combate, ambos decidem desertar e encontrar o acampamento. O texto do General Rocha Dellpiane apresenta referências semelhantes àquelas do diário do Capitão Paunero. Menciona além disso uma reunião na qual oficiais representantes dos quatro países concluem ser a última possibilidade para terminar a guerra "suprimir" os autênticos responsáveis pelo massacre: os generais Bartolomeu Mitre (o que traduzia Dante no primeiro texto) Venâncio Flores, o almirante Tamandaré e o próprio Solano Lopez. A personagem do texto do general Dellpiane teria sido encarregada da missão de "suprimir" Flores .

Un baron no miente, envejece, de Eric Nepomuceno apresenta a figura ambígua de Florêncio Silveira, que engrossara no Brasil os batalhões de voluntários da pátria para fugir ao cerco da polícia de três cidades do interior de São Paulo, em seu encalço por falsificações bancárias e outras ações fraudulentas. Nomeado um dos assistentes do comandante Ilino Galvão, teria recebido a tarefa de atuar como mensageiro em missões delicadas: entregar correspondência secreta a comandantes argentinos, uruguaios e paraguaios. Nestas correspondências, supõe-se, haveria informações sobre os refugiados argentinos, uruguaios e paraguaios. Florêncio Silveira não parece ter-se importado muito com sua missão: perdia cartas, na confusão da guerra, não as entregava ... Teria ele contribuído para a destruição do quilombo?

 

A leitura dos quatro contos nos leva a refletir acerca da tênue relação entre ficção e história, sobre a distinção tradicionalmente centrada na dualidade invenção/verdade. Quais seriam seus limites? Muitas vezes verdade e invenção parecem não apresentar contornos precisos ... Poderíamos nos perguntar, como o faz a Sra. Rocha Saavedra, descendente do general Dellpiane: "E afinal, o que é a história? Um amontoado de misérias assassinatos, matanças, falsificações, interpretações interessadas" 8 ... Neste sentido, talvez a arte seja uma testemunha tão preciosa da história como o são os documentos; talvez caiba também a ela preencher seus vazios, com outros possíveis.

Quanto ao Quilombo do Gran Chaco, a possibilidade de ter existido deixa um grande legado: os textos dos quatro autores, tão especiais, cada um, que mereciam um estudo detalhado.

Finalmente, a tendência nos textos de relativizar o real através do fictício, de reiventar a cronologia, de anular fronteiras e desconstruir o passado representando-o como uma realidade possível e mesmo fantástica não constituía uma das características da pós-modernidade?

 

 

 

Bibliografia

BURTON, R. Cartas dos campos de batalha do Paraguai . Biblioteca do Exército Editora; Rio de Janeiro, 408 p., 1997.

PACHECO, M. E. Introdução à Candido Lopez . Ediciones Banco Velox; Buenos Aires; 62 p.; s/d.

POMER, L. A Guerra do Paraguai: a grande tragédia rioplatense . Global; São Paulo; 331p.; 1989.

ROA-BASTOS, A. et alii. Los conjurados del quilombo del Gran Chaco . Alfaguara; Buenos Aires; 249 p.; 2001.

THOMPSON, G. Guerra do Paraguai . Conquista; Rio de Janeiro; 278 p.; 1968.

 

NOTAS:

. ROA-BASTOS, A, et alii. Los conjurados del quilombo del Gran-Chaco . Alfaguara: Buenos Aires; 249 p.; 2001; p.10.

. Cartas dos campos de batalha do Paraguai. Biblioteca do Exército Editora: Rio de Janeiro, 408p., 1997, p. 365.

. Los conjurados del quilombo cel Gran Chaco, p. 99.

. Idem, p. 100.

. Idem, p. 150.

. Idem, p. 46.

. Idem, p. 120.

. Idem, p. 191.