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Fato e ficção: a literatura conta a história e auxilia na construção identitária - Eduardo Acevedo D íaz e a ficção uruguaia
Mitizi de Miranda Gomes (UFRGS)
Dentre as muitas discussões feitas por Compagnon em O demônio da teoria , a que se refere à história literária assume importância significativa para o que será tratado neste texto. Embora a discussão principal deste trabalho esteja no âmbito da História e da Literatura, um elemento chave relativo à questão anterior, à da história da literatura, é a abordagem dada pelo historiador; ou seja, a pretensão deste em escrever, compilar dados que julga imprescindíveis para uma história literária razoavelmente "completa". Elencar as obras pertinentes para atingir esses objetivos é uma atividade de julgamentos que, contudo, necessita da reconstrução do tempo em que a obra foi escrita.
Qualquer tentativa de reconstrução de um tempo que não é o nosso para entender uma obra literária, pode incursar em anacronismo. Entretanto, Compagnon afirma que é impossível "alguém pôr de lado seus próprios julgamentos para reconstruir um momento passado" 1. A partir dessas afirmações, podemos concluir que o olhar do historiador da literatura está impregnado de seu próprio tempo, e que tanto a seleção de obras e escritores quanto a análise dos períodos históricos destas implica em leitura de mundo e juízo de valor.
Assim como o historiador da literatura, o escritor ficcionista lê a história de determinada perspectiva, e também elege os elementos que julga mais importantes para atingir seu objetivo. Escritores como Eduardo Acevedo Díaz, que trabalham com a história de seus países, buscam momentos cruciais e inserem personagens fictícios no mundo real para realizar um projeto. Na esfera da escrita do autor uruguaio, percebemos que o cerne da diegese encontra-se nos momentos conflituosos do país em questão; momentos que, certamente, proporcionam reflexões a quem os vive. Em seus contos, encontramos personagens influenciadas pela atmosfera social e política do momento; talvez mais do que isto: vemos o ambiente incrustado nas atitudes das personagens. Tais imagens são tão fortes que Aldyr Garcia Schlee, tradutor de Acevedo para a Língua Portuguesa, afirma que a personagem principal das obras do autor é a própria pátria uruguaia , o que descarta a tese de que tais elementos são apenas panos-de-fundo das narrativas.
Todavia, diferentemente do historiador da literatura, o literato que trabalha com fatos históricos, a exemplo de Acevedo Díaz, não incursa em anacronismo, pois a literatura realiza uma releitura da história à medida que a reconta, sem o compromisso de apenas reviver fatos passados. A literatura vai além quando dá voz às personagens para que a reflexão acerca da realidade se concretize. Ao realizar este trabalho interdisciplinar , o escritor mostra que há um diálogo inevitável, além de complementar, entre Literatura e História. Mesmo o olhar do escritor sendo o de seu tempo, não deixa de reler o passado através das personagens, porém de forma crítica.
Escritos no período de transição do século XIX para o XX, as obras de Díaz assumem um caráter muito importante para os leitores uruguaios, porque embora a independência política tenha sido firmada desde a primeira metade do século XIX, o conceito de nação (tanto uruguaio quanto dos demais países latino-americanos) ainda estava sendo firmado.
Embora não se tenha a pretensão de uma análise da recepção, é importante ressaltar que, em um momento em que tais idéias de emancipação cultural de países há pouco independentes estão em voga, discussões acerca do tema nacionalismo são bastante oportunas. A partir da análise de produções do período e da repercussão que tais temas tiveram, conclui-se que o horizonte de expectativa do público leitor desta geração estava bastante voltado a estas questões.
Ainda pensando na recepção, podemos ir além da detecção apenas da temática; poderemos delimitar também a forma como tal tema é abordado. A narrativa, por seu caráter de relato, assume uma característica mais "séria" que a poesia, chegando a desaparecer, quase por completo, sua ligação com o prazer, com a fruição. Dessa forma, a narrativa pode ser concebida como verdade, principalmente por relacionar-se com fatos históricos. Tal conclusão não é de todo falsa.
Vejamos a dupla relação existente entre a literatura de Acevedo Díaz e a História. A primeira relação pode ser considerada explícita, pois é a releitura histórica feita pelo autor de momentos específicos, geralmente deslocados de seu tempo, como a exemplo do conto La cueva del tigre, que remonta ao ano de 1832. A segunda relação, de ordem teórica, mostra o quanto sua escrita é histórica, pois está imbuída do pensamento social da época e do local em que foi escrita. O teórico Carlos Reis 2 corrobora a idéia de que, por vezes, a literatura não apenas representa a história de forma explícita, mas está em profunda relação com seu tempo histórico. Sendo assim, o tempo e o espaço determinam as relações da obra literária com a realidade, definindo, também, sua unidade artística.
Desse modo, a narrativa possui um compromisso indissociável com o real, o que, por vezes, oblitera sua condição de narrativa ficcional. Um fato que ratifica essas conclusões está expresso na atitude tomada pelo escritor, anos após a criação do referido conto, de inseri-lo ao final de seu livro Épocas militares en los países del Plata (1911) 3, de cunho historiográfico, sob o título Exterminio de una raza - La boca del tigre 1832. o livro abarca o período histórico que vai de 1806 a 1832, iniciado pela dominação britânica no Prata até a ação de Rivera contra os últimos charruas no norte uruguaio, o que evidentemente demandou de muita pesquisa em documentos históricos, pois não devemos esquecer que o elemento principal é a história uruguaia. Muito de suas informações foi extraído de documentos de seu avô Antonio F. Díaz - militar e político que registrou em suas memórias acontecimentos do período citado pelo neto. A partir disso, percebemos que o pensamento dominante deste período, na América Latina, relaciona-se à preocupação com a história da pátria, com a afirmação da nacionalidade.
Se para Compagnon os discursos dos historiadores compõem-se de relatos contraditórios, e, portanto, construídos por múltiplas histórias parciais, não há uma unificação desses discursos, visto que o historiador está contaminado por um momento específico e suas implicações, que são definidoras das construções narrativas.
Considerando que o que pode distanciar literatura e história é o grau da criação literária, podemos concluir que uma literatura que está preocupada com acontecimentos não está longe de conter historicidade. O que torna o relato literário menos pretensioso em relação à objetividade é o fato de que ele não está preocupado em parecer real; o grau de ficcionalidade que contém, o salva. Entretanto, a história buscou, por muito tempo, ser fiel à realidade, retratando-a da forma mais objetiva possível.
Mesmo que a pretensão da objetividade tenha perdurado, a Nova História enfatizou justamente a "textualidade da história", ou seja, sua característica de relato. Eduardo Acevedo Díaz, ao discutir a diferença entre tais disciplinas, destaca também a diferença entre os olhares do romancista e do historiador, dando a este o caráter de pesquisador e analista frio dos acontecimentos, e àquele, além do trabalho paciente de pesquisador, o caráter de criador, o que pode dar sedução a um relato. Ainda que Acevedo tenha realizado esse estudo no final do século XIX, e portanto antes do advento da Nova História, o escritor já avistava um caráter comum entre ambas: o relato.
Ao relatar momentos importantes da história uruguaia, e tomando como exemplo o conto La cueva del tigre , percebe-se que o autor dá ênfase a problemas internos e significativos para a formação do caráter do povo uruguaio. A raça charrua, nesse texto, assemelha-se à raça ameríndia descrita por Sarmiento. Enquanto o autor argentino preocupa-se em demonstrar a superioridade racial dos europeus, contrastando-os com raças com pouca inteligência, limitações de toda ordem, inclusive problemas de formação de caráter, além de serem dadas aos vícios (negros, índios) e à malandragem, Acevedo Díaz ressuscita um caráter um tanto diferente deste, mas nem por isso menos ambíguo. Quando descreve a forma como os índios foram ludibriados pelos brancos e levados para a morte, vemos um texto que parece caminhar em sentido oposto ao de Sarmiento.
Curioso notar que, para ambos escritores, os indígenas são estrangeiros, porque mesmo que reconheçam que os índios já habitavam a terra quando da chegada dos colonizadores, não os reconhecem como iguais; eles são os outros, diferentes e exóticos. Se a literatura latino-americana, com afirma Antonio Cornejo Polar 4, busca uma nacionalização que exclui outros segmentos da sociedade, percebemos, através da escrita de Eduardo Acevedo Díaz, que de fato isso acontece. Mesmo que aborde a problemática da dizimação dos charruas, isso é feito através da ótica do homem branco, com julgamentos de alguém que faz parte de uma cultura européia, ainda que transplantada.
O narrador, então, torna-se uma voz autorizada para falar do problema do outro, e ao mesmo tempo em que o define, define-se a si mesmo. Dessa forma, percebemos que o viés do narrador cria as imagens e transforma-se numa força definidora da identidade de um povo. Segundo Cornejo Polar, no século XIX e nas cinco primeiras décadas do século XX, buscou-se a integração nacional em cada país da América Hispânica, o que apagaria as dissidências culturais, assemelhando-se, portanto, a nações européias. O acontecimento narrado em La cueva del tigre é um exemplo dessa homogeneização cultural.
A escrita de Acevedo Díaz repercutiu significativamente, basta atentar, por exemplo, à carta que Modesto Polanco 5 enviou ao escritor, a qual data da última década do século XIX, e que serviu também de base para a escrita de alguns textos do romancista. Nessa carta, Polanco alerta que muito do que foi dito acerca da hoste charrua no conto Boca del tigre é improcedente. Ao lermos o conto, percebemos uma descrição minuciosa acerca dos atos bárbaros praticados por este povo, o que justifica, de certa forma, a atitude do exército do General Fructuoso Rivera, Presidente do Uruguai à época do massacre.
Como se nunca tivesse conhecido freio no longo transcurso de três séculos, a hoste charrua, lá pelos anos de 1832, fazia-se sentir de vez em quando com terrível violência.
Por onde passava sua manada de potros, o rastro era profundo.
A hoste, como o tigre cevado, escolhia as melhores presas: cavalos bonitos, novilhos suculentos, éguas esbeltas, nutridos rebanhos de ovelhas, pesados tributos em dinheiro; tudo para atender seu apetite. Eram os donos da terra![.] 6
Entretanto, na carta, Polanco não reconhece nenhuma das atitudes que Acevedo narra, pois, para ele, o caráter dos charruas estava longe de conter qualquer traço descrito pelo romancista.
"No tenían inclinación al robo, y esto lo probaron en los años que sentaron sus reales en el campo de Nadal, sin que hubieran cometido ni uno solo de esos actos en su establecimiento ni en el de ningún vecino. [.] Pero jamás mancharon sus manos en sangre de inocentes niños, ni violaron mujeres." 7
No referido conto, fica explícito que participar de uma guerra contra o Brasil, com a promessa de livre saque, era irrecusável. De acordo com o narrador, o povo charrua havia nascido para a luta, e não a rejeitaria em hipótese alguma. Eram 300 homens charruas que se aliavam aos homens de Rivera, e se encontrariam na costa do Queguay, diante da cova do tigre.
Quando do encontro, o cacique Venado, desarmado astutamente por Fructuosos, percebeu a cilada, porém, não sobreviveu à armação, foi morto a golpes de lança. O índio Sepé, no entanto, conseguiu escapar e foi perseguido pelo coronel Bernabé Rivera (sobrinho de Fructuoso Rivera) matagal adentro. Porém, Sepé surpreendeu o coronel, matou alguns que o acompanhavam, e o capturou. A tortura a que submeteu o coronel Bernabé tinha o gosto da vingança, e nenhuma promessa ou pedido de perdão foi ouvido. Para o narrador, "esta foi a última façanha charrua, provocada por um ato de barbárie do presidente Rivera. / Depois, o resto da tribo formidável desapareceu para sempre" 8.
Diante dessas caracterizações, podemos perceber que a "hoste charrua" constitui-se de forma diferenciada dos brancos, habitantes do Uruguai, pois estes são praticamente as vítimas dos índios, e embora diga o narrador que o ato de Rivera tenha sido uma barbárie, esta acaba sendo justificada pelo perfil traçado no início do relato. O impacto causado pelas atitudes dos charruas, juntamente com a descrição da vingança de Sepé, quase oblitera a traição de Rivera. A "marcha errante" e a "vida vagabunda" dessa tribo são particularidades de uma estrutura social não reconhecida pelos civilizados, além do que, os índios também não respeitavam a propriedade, pois eram animais que andavam errantes como se qualquer pedaço de terra não possuísse dono. Essas características bárbaras constituem o outro; aquele que não deve ser o retrato do povo uruguaio; aquele no qual o narrador não se reconhece. O índio representa aquilo que o homem branco quer esquecer, por possuir características que este contém em si, mas que reprova no outro.
Mesmo após o recebimento da carta de Polanco, Acevedo Díaz manteve em seu conto elementos que vão de encontro ao que a carta afirma. Esse fato faz-nos resgatar, novamente, a discussão acerca da relação entre literatura e história, pois, considerando-se que esta deve seguir os fatos, se Díaz fosse historiador, certamente iria rever determinadas informações acerca dos hábitos charruas a partir da leitura dos relatos de Polanco. Entretanto, o escritor não tomou tal atitude, pois a literatura não precisa estabelecer este compromisso com a realidade. Paul Veyne 9, estudioso da Nova História, diferencia história e literatura, destacando que a verdade é o único elemento que interessa àquela, não se importando tampouco com a estética.
A história é anedótica. Ela interessa porque narra, assim como o romance. Apenas distingue-se do romance num ponto essencial. Suponhamos que me descrevam uma revolta e que eu saiba que a intenção é contar-me história e que essa revolta aconteceu realmente; eu a verei como tendo acontecido num momento determinado, com um determinado povo, tomarei por heroína essa nação antiga que me era desconhecida há muito e ela se tornará, para mim, o centro da narrativa, ou melhor, seu suporte indispensável. Assim procede também todo leitor de romance. Somente, aqui, o romance é verdadeiro, o que o dispensa de ser cativante: a história da revolta pode permitir-se ser enfadonha sem, por isso, desvalorizar-se. [.] Mas o historiador, esse, não é nem um colecionador, nem um esteta; a beleza não lhe interessa, a raridade, tampouco. Só a verdade.
Dessa forma, vemos que a história se diferencia substancialmente da literatura, pois esta se preocupa com a estética, com o efeito que a estrutura causa no leitor.
A partir dessas considerações, podemos entender a postura de Díaz ao rejeitar as ressalvas feitas por Polanco acerca dos fatos tal qual se apresentavam em seu conto. Para a história do Uruguai, para a formação do caráter do povo, é mister que as atitudes de seus representantes fossem legitimadas, ou seja, a barbárie do povo charrua justifica a ação de Rivera, pois este é o representante da cultura que se sedimenta no país, que é a cultura do "homem branco colonizador latino-americano europeizado". A estrutura social jamais estaria aos moldes de uma cultura autóctone e ágrafa. Mesmo que a matança não tenha sido aceita por muitos, sabemos que o povo charrua estava fadado à marginalidade por não se encaixar nos padrões de uma nação em formação.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003, p. 204.
REIS, Carlos. O conhecimento da literatura . Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
ROCCA, Pablo. Prólogo y notas. In: ACEVEDO DÍAZ, Eduardo. Cuentos completos. Montevideo: Banda Oriental, 1999.
POLAR, Antonio Cornejo. O condor voa: literatura e cultura latino-americanas. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000.
MARTINEZ BARBOSA, Rodolfo (notas). La carta de Modesto Polanco a Eduardo Acevedo Díaz. <http://planeta.eltimon.com/india/ceci/ceci_e3.htm> Acessado em: 24/05/2004.
DÍAZ, Eduardo Acevedo. Pátria Uruguaia: antologia / seleção, tradução e notas de Aldyr Garcia Schlee. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1997, p. 133. ()
MARTINEZ BARBOSA, Rodolfo. Op. cit.
DÍAZ, Eduardo Acevedo. Op. cit., p. 140.
VEYNE, Paul. Como se escreve a história. Brasília: Editora da UnB, 1992, p. 15.