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Literatura e trânsitos turísticos: interfaces de culturas em travessia
Maria de Lourdes Netto Simões (Universidade Estadual de Santa Cruz. Ilhéus)
Introdução
Pensando novas práticas discursivas, esta comunicação toma a Literatura , considerando a sua interdisciplinaridade com a cultura e o turismo, justificada pelos trânsitos convergentes e divergentes que tais campos de conhecimento diferenciados oportunizam.
A articulação proposta considera que, no espaço entre as identidades regionais 1 e a multiculturalidade global 2. Há travessias discursivas que possibilitam a valorização da literatura e a realização de ações de turismo, através das zonas de cruzamentos simbólicos.
As reflexões serão desenvolvidas em dois movimentos, considerando o contexto global: 1- discute sobre o trânsito entre literatura, cultura e turismo, com o foco em consumo e cidadania; 2- toma o referido espaço de travessia interdisciplinar, visando a uma política valorizadora dos bens simbólicos latino-americanos.
1 - O trânsito discursivo entre literatura, cultura e turismo
Entendida de perspectiva antropológica 3, a literatura é aqui considerada como suscitadora de viagem 4 e, por essa concepção, guia 5 para roteiros turísticos, na medida em que oferece um mapeamento de espaços e bens simbólicos, trazidos à cena através de patrimônios (material e imaterial) que configuram o perfil identitário de um lugar a ser visitado. Tal abordagem, sem desconsiderar as formas de valorização da Literatura em relação ao estético, acrescenta-a dos aspectos antropológicos, ancorados em questões de desterritorialização, hibridação de culturas, identidades.
Na nova ordem mundial, o turismo constitui-se fenômeno de crescente interesse econômico, como também fator de desenvolvimento. Interessa a essa comunicação discutir a sua ação de uma perspectiva que não secundarize o bem simbólico em favor do objetivo econômico, entendendo que não pode haver desenvolvimento sem sustentabilidade do patrimônio, seja ele natural ou cultural.
Se entendermos que uma cultura é pensada como local , porque é compartilhada subjetivamente por uma dada comunidade, e que a global está diretamente relacionada ao processo econômico (blocos continentais), às mudanças tecnológicas e à universalização da informação, temos que, quanto à Literatura, é a sua recepção quem vai sinalizar as suas dimensões culturais em relação à globalização 6. Os deslocamentos turísticos, provocados pela literatura em interconexão com a cultura, são desencadeados por travessias comunicacionais discursivas, situadas nos bens simbólicos, que permeiam os três campos de conhecimento em questão (literatura, cultura e turismo).
Ponto de intersessão entre esses campos, os bens simbólicos guardam sentidos que estão no bojo da sua própria essência, e que exigem reflexões sobre diásporas, hibridismos, identidades em trânsito - aqui compreendidas em sentido alargado, ultrapassando fronteiras, em consideração de aspectos comunicacionais 7. Isto, porque as identidades e as culturas são móveis; deslocam-se, viajam, redefinem fronteiras. A idéia de nação como entidade simbólica 8 permite a compreensão de que m uitos de seus componentes originam-se em um território e migram, acentuando seus caracteres ou hibridando-se com a cultura receptora; a desterritorialização, no lugar de apagar ou esfumaçar aspectos das culturas, na verdade, reafirmam-nos.
Em relação a tais questões, o perar o turismo por interface com a literatura implica uma compreensão do funcionamento do mercado cultural no contexto globalizado. É forma de valorização do discurso literário e do bem simbólico local, que habita o imaginário ficcional. O bem simbólico, presente na literatura, é consubstancializado para o turista através do patrimônio cultural arquitetônico (material) e do imaterial (mitos, lendas, folclore, danças, música, culinária, hábitos de um povo) e, ainda, do patrimônio natural. Por essa ótica, a cultura sobrepõe-se ao mercado, pois é ela quem dará o "tom" da relação entre local e global, entre a literatura e o turismo 9.
Admitindo tal interdisciplinaridade, pensar a Literatura como suscitadora de viagem provoca a atenção ao consumo e à cidadania. As maneiras de consumir alteram as formas de exercer a cidadania 10. O consumidor (turista) e o cidadão local, por olhares diferenciados, têm como elementos de interesse comum os bens simbólicos., que estão estreitamente relacionados a questões identitárias, de hibridismo, de desterritorialização.
Canclini diz que o consumo serve para pensar, partindo da hipótese de que "quando selecionamos os bens e nos apropriamos deles, definimos o que consideramos publicamente valioso, bem como os modos com que nos integramos e nos distinguimos na sociedade, com que combinamos o pragmático e o aprazível" 11. No caso da travessia aqui proposta (literatura, cultura e turismo), a perspectiva econômica que se atrela ao turismo deverá ser reorientada para a formatação de produtos turísticos culturais, em função do respeito à sociedade receptora.
Tais procedimentos além de valorizarem a literatura junto à comunidade local, preparam essa mesma comunidade para receber o turista, porque promovem a reflexão sobre a sua própria identidade. No âmbito internacional, a ação da mídia - fruto de definições político-sociais locais - sinalizará aspectos (diferenças) da cultura local para o possível viajante e motivam-no para o turismo, a ele que, eventualmente, também já teve contacto com aquela cultura através da literatura. Assim, a atenção à maneira como os discursos políticos e a mensagem midiática e do marketing turístico veiculam os produtos culturais e as culturas locais, contribui para que a cultura se imponha em relação ao mercado.
Por isso, no contexto globalizado, é estratégico lançar mão dos recursos instaurados pela lógica do mercado global, onde a mídia e o marketing ocupam lugar singular e, necessariamente, vão atingir a leitores de uma esfera internacional e interferir na sua motivação de viagem, como nos resultados da sua ação, quando, depois, ele passa a turista - apreciador dos bens simbólicos e consumidor das mercadorias.
2. Travessia interdisciplinar, visando a uma política valorizadora dos
bens simbólicos Latino-Americanos
Ultrapassando o temor (procedente) do processo homogeinizador que a globalização mal versada pode provocar, penso na transnacionalização que ela desencadeia, nos comportamentos que influencia e nos valores que modifica ou pode potencializar. Os blocos mundiais 12, movidos por interesses econômicos, exigem um novo olhar político que considere a cidadania.
Admitindo a globalização como irreversível e aceitando-a como ferramenta para dar visibilidade ao local, há maneiras possíveis de operá-la em favor da cidadania e, uma delas, é a referida travessia interdisciplinar, através do discurso simbólico (sustentado nos patrimônios material e imaterial).
A maneira como as pessoas se relacionam e dão significados em sociedade, dão formas ao simbólico e produzem a realidade 13. Nesse raciocínio, nas formatações do turismo, a consideração à cultura há que ter em conta a condição local a fim de garantir o respeito à diferença, em detrimento da desigualdade e subalternidade.
Se, como foi dito, o fenômeno da desterritorialização vem promovendo a reorganização do espaço social e político com o deslocamento da idéia de Estado-nação para a concepção de unidades supra-nacionais, é também inegável que o hibridismo cultural faz com que fronteiras políticas sejam ultrapassadas em função dos bens simbólicos, contribuindo para reconfigurar outros limites de nação. Nesse raciocínio, blocos inter-regionais são decisivos para orientar as políticas culturais.
As formas urbanas de cidades, que abrigam bens simbólicos (o local), provocam imaginários transnacionais (o global). O trânsito turístico provocado pela Literatura proporciona grupos culturais que, interessados em determinados bens simbólicos, ensejados no processo de leitura, fazem do leitor-turista um consumidor . O trânsito de turistas temáticos (a partir dos blocos) promove a transculturação, num enriquecimento mútuo (turista e local) e contribui para redesenhar o local a ser visitado.
Por compartilharem uma parte significativa de sua história, as nações da América Latina constituem-se parceiras naturais na mobilização de seus bens culturais comuns, como capital para o desenvolvimento. Tal entendimento sustenta a idéia de blocos culturais latino-americanos, nos quais podem ser identificadas zonas de cruzamentos, através dos bens simbólicos (do patrimônio material e imaterial) e dos bens naturais (notadamente, os oceanográficos), que a literatura ficcionaliza. Nessa direção, poderia citar os blocos andino, amazônico e do cone sul 14, com interseções simbólicas específicas.
Do ponto de vista político, como observa Dominguez, "ampliar a autonomia política da região [...] exige governos baseados em alianças sociais qualitativamente distintas da atuais" 15. Laredo diz que se "revalorizamos o potencial que temos e aplicamos o modelo e a estratégia de integração, adequados para redimencionarmo-nos e potenciarmo-nos, poderemos avançar progressivamente até o desenvolvimento e uma produtividade destinada não somente ao mercado externo, mas também a nosso incomensurável mercado interno, melhorando a qualidade de vida" 16.
Se o fenômeno transnacional faz com que cruzamentos de fronteiras operem mudanças nas culturas através dos processos de transculturação, justifica-se a imprescindibilidade de políticas culturais bem traçadas e respeitadoras dos valores locais e salvaguardar o bem cultural do consumo depredador. Torna-se fundamental, portanto, atentar para a relação entre produtos culturais e definições políticas em esferas locais e nacionais, visando a um foco internacional, assegurando os resultados em favor do local e, além disso, exige a ação integrativa dos blocos culturais para o fortalecimento das suas políticas de desenvolvimento.
Os passados históricos, marcados por uma condição análoga aos países pós-colonizados da América Latina e as singularidades de cada nação no que diz respeito às suas respectivas expressões culturais constituem-se elementos que justificam acreditar numa "negociação" com o global, "negociação" essa provocadora da comunicação, do trânsito de pessoas em função dos referidos blocos. Acresce a isso, a circunstância continental da América Latina que garante a sua favorabilidade para o turismo. Se a Literatura veicula imagens urbanas - paisagens locais, costumes, mitos, danças, comida típica, música - esses bens simbólicos de culturas singulares constituem-se referentes para o leitor de outras culturas, outras cidades.
Mecanismos devem ser articulados a fim de que a neutralização das barreiras nacionais seja potencializada favoravelmente às expressões culturais locais, promovendo a ordem econômica e política através da integração e intercâmbio. Isto porque, como é óbvio, nem a comunidade nem o indivíduo podem sustentar, sozinhos, um encaminhamento de tal monta. Bem a propósito, ao refletir sobre as relações Sul-Sur no âmbito da Comunidade Cultural do Cone Sul, Tânia Carvalhal 17 ressalta "o valor das articulações no processo de mundialização cultural cuja concretização depende de localização e de enraizamento em práticas cotidianas e culturais".
Integração e intercâmbio justificam, portanto, um turismo intra-continental, por um lado, valorizador da diferença cultural entre países de culturas próximas; por outro, potencializador de intersessões culturais, em blocos simbólicos. Devem motivar, assim, o turismo internacional, quando um mesmo bloco de culturas singulares e plurais apresenta o interesse do conhecimento, que a sua Literatura revela. Evidenciam a necessidade de políticas culturais com vistas ao fortalecimento de blocos culturais latino-americanos frente ao mundo e a imprescindibilidade de um eficaz processo de integração que considere a região como um espaço de cruzamento de identidades, de mesclas; que reconheça o processo de re-elaboração das identidades (dinâmicas e múltiplas). Inclusive, em relação aos massmedias, busquem a priorização da cultura, em reorientação do mercado consumidor.
Se as culturas viajam através da literatura, a informação sobre essa literatura que circula através dos massmedia contribuirá para a visão do turista que virá a interagir e intercambiar na comunidade local. Uma política cultural a ser operada pelo bloco latino-americano deverá prever e promover formas de compatibilização entre literatura, arte e comunicação, formas essas divulgadoras da cultura a partir do seu potencial estético, social e culturalmente diversos.
Por tal compreensão, a Literatura, enquanto elo estético e simbólico, contribui para que laços tempo-espaciais justifiquem ações de turismo. A política, encaminhada nesse entendimento, assegurará a valorização do estético, a sustentabilidade da cultura e promoverá o desenvolvimento das comunidades. A rticulando esses campos de conhecimento diferenciados, os movimentos convergentes e divergentes apontados constituem modos de operacionalizar discursos, possibilitadores de novos trânsitos e novas leituras no/do espaço Latino-Americano.
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A idéia de Literatura como guia de viagem exige uma discussão sobre gênero, que venho desenvolvendo na pesquisa sobre Literatura, cultura e viagem: bens simbólicos e mapas .
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Sobre o assunto escrevi, para o XI Congresso da FIEALC/2003, Japão, set./ 2003: "A Cultura e o Turismo no âmbito da América Latina e do Caribe".
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