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Travessias rizomáticas nas margens do sistema literário: leituras, práticas discursivas e interdisciplinaridades em cursos pré-vestibulares comunitários.
Luiz Antonio Silva (UFMS)

Em "Literatura anfíbia", artigo publicado no caderno Mais! em junho de 2002, Silviano Santiago aborda a problemática relação entre a produção e recepção literária e a configuração socio-econômica brasileira, marcada pela imensa desigualdade social e a conseqüente existência de um significativo segmento de analfabetos. Devido à dificuldade de apresentar tal questão de maneira descritiva, Silviano busca o auxílio na seguinte metáfora: "o nosso sistema literário se assemelha a um rio subterrâneo, que corre da fonte até foz sem tocar as margens que, no entanto, o conformam". Acredito que essa metáfora também pode auxiliar a apresentação e o mapeamento das experiências e reflexões que desenvolvi com práticas leitoras coletivas, de março de 2000 a dezembro de 2002, como organizador de círculos de leitura no curso pré-vestibular de Vila Isabel.

Neste sentido, conforme a metáfora, os encontros de leitura nesse curso comunitário correspondem a outra espécie de contato entre as margens e as águas do sistema literário. Digo isso, pois em tais atividades, nós realizamos leituras coletivas de diversos textos, através do desenvolvimento de uma outra forma de acesso à literatura, fora dos limites geralmente impostos pela formação escolar; assim foi possível construir sulcos nas margens em direção ao rio subterrâneo. Em outras palavras, os participantes desenvolveram recepções mais espontâneas e criativas, fora das normas estabelecidas por suas escolas, nas quais as leituras de textos literários são geralmente reguladas pela necessidade de conduzir os alunos a conhecimentos específicos em relação aos temas, estilos, biografia de autores e contextos de obras canônicas e de avaliá-los através de testes e provas.

Em pouco mais de um semestre de atividade, já percebia que a leitura coletiva permitia a formação de espaços de troca de experiências, nos quais os participantes se apresentavam cada vez mais ativos, críticos e capazes de relacionar suas leituras dos textos com de outros produtos culturais oriundos dos meios massivos eletrônicos, predominantes nas suas vidas cotidianas. Ou seja, estava se configurando, aos meus olhos, uma nova realidade, onde as águas do sistema literário fertilizaram o rico solo daquela pequena parte da margem, um solo híbrido, constituído de anos de sedimentação de experiências coletivas e oralizadas e pela força invisível e penetrante das freqüências das emissoras de rádio e Tv.

Unindo a imagem do rio subterrâneo com a metáfora do rizoma de Gilles Deleuze 1, podemos encarar também esses encontros como vegetações rizomáticas que provocam a transgressão aos limites impostos pelo rio subterrâneo. Isso porque o rizoma para Deleuze significa algo que não tem começo nem conclusão, algo que se encontra entre as coisas. Enquanto a árvore impõe o verbo ser, o rizoma é constituído da conjunção "e..e..e". Entretanto, Deleuze nos adverte que "entre as coisas" significa "uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio"

Devo destacar que o caráter rizomático desta prática leitora se deve ao fato de que os participantes dos cursos comunitários atuam em ações sociais e, ao mesmo tempo, estão construindo identidades coletivas a partir de um movimento contra a exclusão do acesso ao conhecimento. Ou seja, o rizoma não está sendo feito a partir do rio subterrâneo, cuja trajetória é marcada pela tentativa canônica de manter suas águas sempre limpas sem contato com as margens, mas sim de lentas mudanças promovidas no aparentemente estático solo das margens.

Na maior parte dos casos, os cursos comunitários são geralmente autônomos e administrados pelos moradores das próprias comunidades, mantidos com pequenas contribuições mensais dos alunos e com o apoio de estudantes universitários que atuam como professores voluntários. Com relação ao local, geralmente os "pré-comunitários" são instalados em espaços cedidos por igrejas, escolas, sindicatos ou prédios de instituições públicas que possuem salas de aula ou auditórios.

A orientação democrática da leitura coletiva possibilitou o reconhecimento das semelhanças entre os fundamentos que configuram a prática leitora e os objetivos políticos e sociais do curso pré-vestibular comunitário. Ou melhor, os participantes logo entenderam e incorporaram os fundamentos teórico-metodológicos apresentados na realização dos círculos de leitura. Isso porque, nessa prática leitora, cada leitura é respeitada, na tentativa de suspender qualquer tipo de hierarquia entre as interpretações dos participantes.

Nessa perspectiva, os surpreendes resultados dos encontros de leitura no curso comunitário de Vila Isabel, realizados sempre aos sábados à tarde, me impulsionaram a uma série de reflexões sobre o caráter político de leituras coletivas e a uma longa busca de cursos, oficinas e principalmente de informações bibliográficas interdisciplinares sobre práticas leitoras. Acabei reunindo uma bibliografia satisfatória que incluía estudos de historiadores, teóricos da literatura, sociólogos, antropólogos e filósofos. Isso me levou à tentativa de associar campos de estudos que, apesar de serem próximos, geralmente são abordados separadamente: de um lado, a história da leitura e do livro, temas muito comuns na nova história cultural, de outro, os novos rumos da teoria literária iniciada com a estética da recepção e a teoria do efeito estético, nos quais o eixo do exame de textos literários, e até da própria História da Literatura, é deslocado para o leitor.

Na tentativa de exemplificar, cito os deslocamentos rizomático que realizamos em março de 2002 , quando estávamos com dois anos de trabalho. Neste momento eu estava preocupado com a questão das escolhas, pois até aqui era eu quem escolhia os textos, filmes e outros bens culturais para realizar as atividades e percebi que isso estava centralizando o repertório dos encontros. Isso estava nos distanciando da idéia de democratização, como um conjunto de ações que permitem a construção de espaços para o reconhecimento coletivo de práticas e bens culturais e que suscita condições de reflexão e de critica sobre tais reconhecimentos.

Desta forma, resolvemos exibir e debater o filme de ficção científica, "Matrix" 2, filme estreado nos cinemas em 1999 e que foi transmitido na televisão, naquela mesma semana, pela emissora de TV aberta, SBT. O grupo optou pelo filme "Matrix" pelas possibilidades que todos tinham para assistir o filme pela e Tv e pela vontade daqueles que assistiram anteriormente em discutir. Por outro lado, achei que era possíveis fazer conexões entre o conto "O espelho" de João Guimarães Rosa, texto utilizado na atividade anterior, e o enredo desse longa metragem, pois os dois objetos, cada um a seu modo, tratam a questão de como construímos o que consideramos o real e de como essa construção tem implicações sociais. Em outras palavras, achei ótimo escolher um filme que cada participante poderia assistir em sua casa, como eles fazem todas as semanas, acompanhando a programação da TV, e ao mesmo tempo, tivesse afinidade temática com o texto lido anteriormente.

Neste deslocamento de foco, no qual passei a ser incluído, foi possível reconhecer pequenos detalhes fundamentais para o exame das funções sociais da leitura coletiva, tais como: a existência ou não de pessoas e instituições que escolhem os textos a ser lidos e impõe determinados sentidos aos mesmos, bem como a existência ou ausência de hierarquia entre as interpretações e outras questões semelhantes.

Depois dessa atividade, em que houve a leitura crítica de um filme de grande sucesso popular - um filme que pertence ao conjunto de produtos culturais consumidos todos os dias pelos participantes, -, constatei realmente a necessidade de deslocar mais ainda o eixo das atividades para o universo de referências culturais do grupo de leitura. Foi proposto, então, para o encontro seguinte que um deles escolhesse e mediasse uma atividade.

Cassius, um dos rapazes que se envolveu mais no debate sobre o filme "Matrix", prontificou-se a levar para discutirmos um episódio do reality Show da emissora SBT, chamado "Casa dos artistas", e procurar textos que tratassem do papel cultural e social da televisão. Nesse caso, no sábado seguinte, Cassius exibiu as gravações que fez da "Casa dos artistas", e depois leu os três textos que escolheu para atividade: "Fulano de Tal" 3, "O império das lentes" 4 e "À Televisão" 5. Esses textos foram encontrados por Cassius na prova de interpretação do vestibular da UERJ.

Então, posso dizer, que esse aluno do curso comunitário, nos propôs uma espécie de leitura cruzada ou uma leitura híbrida entre tipos de produções culturais completamente distintos. Por um lado, ele usou textos reflexivos sobre aspectos sociais, políticos e culturais dos meios de comunicação televisivos e, por outro, ele gravou um programa de TV explicitamente ligado a todos os mecanismos mercadológicos da cultura de massa e que pretende apresentar a intimidade de artistas famosos, filmados numa casa por vinte e quatro horas do dia. Segundo ele mesmo, essa iniciativa foi muito importante, porque ele nunca tinha visto televisão daquela maneira: selecionando um programa e analisando-o a partir de alguns textos .

Sendo assim, o objetivo de compreender as dimensões políticas e sociais da prática leitora coletiva me conduziu ao reconhecimento de que as teorias da leitura de base hermenêutica, tais como a estética da recepção e a teoria do efeito estético, não davam conta da complexidade de aspectos envolvidos em tal experiência. Isso porque, na teoria da efeito estético, Wolfgang Iser não incluiu na sua análise descritiva do ato da leitura o contexto social e histórico de leitores reais, mas sim as interações entre texto e leitor enquanto estratégias textuais. O mesmo pode se dizer em relação à estética da recepção de Jauss, pois nesta perspectiva a historicidade de obras artísticas e literárias está reduzida ao diálogo do leitor com a obra, minimizando a relação deste leitor tem com o seu contexto social.

No fim da pesquisa cheguei à conclusão, não definitiva, de que a leitura coletiva, realizada por esses participantes de um movimento social contra a exclusão, serviu como uma forma muito produtiva de contato cultural, já que foram negociados, com razoável competência, os limites culturalmente estabelecidos entre o universo da literatura (campo dominado pela elite letrada), o espaço da mídia eletrônica globalizada e os movimentos sociais contemporâneos que lutam por direitos à cidadania.

Assim, argumentei que a experiência, desenvolvida no curso comunitário de Vila Isabel -- com o objetivo inicial de desenvolver a capacidade interpretativa de um grupo de pessoas que compõem o setor marginalizado da sociedade --, transformou simples encontros de leitura num espaço de diálogo e questionamento da função e funcionamento das sociedades atuais, e principalmente da nossa. Foi através da recepção de um amplo espectro de objetos - filmes hollywoodianos, de textos de autores canônicos da literatura brasileira, videoclipes, músicas de rock e de compositores brasileiros consagrados -, que esse grupo de jovens conseguiu produzir reflexões profundas e complexas, sem atrelar-se aos saberes exclusivamente acadêmicos e muito menos ao consumismo alienante, incentivado, em grande parte, pela mídia eletrônica.

A cada encontro realizado com esses estudantes do curso comunitário, eu conhecia melhor os limites dos caminhos teóricos que construíram parte da minha perspectiva analítica. Entretanto, descobri que, diante desses limites, poderia adotar a mesma postura questionadora, sustentada na atividade, em relação às muitas correntes teóricas, considerando-as como leituras passíveis de diálogo entre si, sem nenhum tipo de hierarquia.

Ao mesmo tempo, todo esse processo de abertura para a pluralidade de saberes me atingiu de tal forma que me fez também repensar radicalmente em todos os modelos e posturas hierárquicas, incorporados por uma pessoa que passou pela formação acadêmica. No momento em que percebi pequenas manifestações de tais modelos nas minhas intervenções nos debates, decidi, com a concordância de todos, que cada participante escolheria o material (textos, imagens, filmes e vídeos) para as atividades e passaria a mediá-las. Essa mudança de comportamento revelou um novo mundo de acervos pessoais muito diversificados, no qual encontram-se desde versões em filme de peças de Shakespeare, até histórias em quadrinhos. Isso me transportou para realidades marcadas pelo imprevisível e pela possibilidade de contatos culturais produtivos.

No plano teórico, essa nova dimensão do trabalho me conduziu a busca de teorias que ao, mesmo tempo, enfatizam a articulação entre a contextualização histórica, social e cultural de leitores como produtores de sentidos, o ato da leitura como contato cultural e os processos de produção de identidades, realidades e ações sociais. Por essa razão, acredito que as teorias literárias estruturadas por pressupostos construtivistas tais como reader response criticism de Stanley Fish e a ciência da literatura empírica são fundamentais a essa tentava de elaborar uma análise interdisciplinar e plural dos encontros de leitura e suas influências para esses grupos minoritários, fora de maniqueísmos e atitudes panfletárias.

Na visão de Stanley Fish 6, teórico do reader response criticism, os leitores criam os textos e não os interpretam e o sentido atribuído a um texto é criado cognitivamente pelo leitor, pertencente momentaneamente a uma comunidade interpretativa . Desta maneira, leitores pertencentes a determinada comunidade interpretativa constroem textos semelhantes de acordo como as concepções, valores, conceitos, compartilhados por sua comunidade e, ao mesmo tempo, leitores inseridos em comunidades interpretativas diferentes irão construir outros textos.

A concepção de comunidade interpretativa e a ênfase dada a sua influência em processos cognitivos de leitores, consiste um ponto de semelhança entre a teoria de Stanley Fish com os pressupostos teóricos da ciência da literatura empírica. Isso porque, a ciência da literatura empírica é produzida na perspectiva construtivista baseada por pressupostos epistemológicos e meta-teórico, que através de conceitos como consenso e intersubjetividade explicam os processos de construção do conhecimento, de teorias e da própria realidade . Em outras palavras, nesta perspectiva, a internalização de determinadas formas de percepção que constrói a realidade e não contrário. Entretanto, os processos de construção produzidos por intersubjetividades e consensos, não estão limitados na análise de processos recepção de textos, como na visão de Stanley Fish, mas em todos os campos da vida humana.

Neste sentido, a sociedade é entendida como um sistema de sistemas de ações sociais como a política, a educação e a economia. Assim a cultura de uma sociedade pode ser entendida como um tipo específico de desenvolver, combinar e avaliar processos de produção de modelos de realidade, ou seja, culturas diferentes representam inúmeras formas de modelos de realidade, valores, experiências e visões de mundo.

Desta forma, a literatura é concebida conforme um modelo de ação literária e não a partir de textos literários. Ações literárias são somente realizadas quando alguém produz ações através de um texto que considera literário, de acordo com suas convicções poéticas. Os conjuntos de ações literárias referentes aos textos, considerados literários por aqueles que realizam tais ações, formam o que é chamado, nesta perspectiva teórica, de sistema literário. A partir desses princípios Siegfried J. Schmidt 7, um dos teóricos da ciência da literatura empírica, propõem uma nova perspectiva aos estudos da literatura, no qual o texto literário não é considerado como uma entidade autônoma. Assim o que é enfatizado, através de sua teoria da ação, são as seguintes dimensões do Sistema literatura: produção, mediação, recepção e processamento de "textos literários".

Segundo Schmidt, a diferenciação do sistema literatura em relação aos demais sistemas é estabelecida por duas convenções, a convenção estética e a convenção de polivalência, e por exercer funções específicas . A convenção de estética introduz a regra de ação, onde os enunciados de textos considerados literários devem ser dirigidos por valores e normas estéticas, ao contrário das convenções vigentes em outros sistemas que determina que os elementos lingüísticos referencias devem referir a enunciados e ao modelo de realidade compartilhando por um grupo social. A convenção de polivalência introduz a norma que, nos limites do sistema literatura, os agentes têm o direito de atribuir ao mesmo texto resultados recepcionais diferentes e satisfatórios. Sendo assim, os sistemas de literatura têm como função: na esfera cognitiva criar esboço de modelos alternativos de realidades, de experiências e de vivências; no aspecto normativo como formas de tematizar publicamente conflitos normativos individuais e no plano emocional como satisfação de necessidades hedonistas.

A partir da contribuição dessas visões teóricas construtivistas, acredito que é viável considerar os encontros de leitura nos pré-vestibulares como ações de recepção praticadas por comunidades interpretativas que desenvolveram e compartilham determinados consensos referentes à produção de sentidos, ao reconhecimento das diferenças das leituras de cada participante e à possibilidade de se ler textos considerado literários simultaneamente com outras formas discursivas.

Enfim, creio que a análises dos movimentos rizomáticos, que práticas leitoras coletivas podem provocar, constitui um interessante campo de estudo no qual poderemos verificar as dimensões, papeis e efeitos das interações entre o sistema literário os demais sistemas sociais, tais como, a política, a economia, a educação e outros. Entretanto, devemos lembrar que perspectivas baseadas nos pressupostos teóricos construtivistas podem nos oferecer novas dimensões dos processos de construção de conceitos, princípios, valores, visões de mundo e principalmente da realidade, fora das velhas dicotomias: real e ficcional, alta cultura e cultura popular que grupos sociais podem construir.

 

NOTAS:

Deleuze, Gilles. Mil platôs - capitalismo e esquizofrenia.V1. Rio de Janeiro.: Ed34, 1995. p37.

  The Matrix, Direção e roteiro: Andy Wachowski e Larry Wachowski, produção Joel Silver. Distribuição: Warner Bros. EUA, 1999.

FLUSSER, Vilém. Ficções filosóficas . São Paulo: EdUSP, 1998.

BUCCI, Eugênio.O império das lentes . In: Veja. 03/12/1996 ,

PAES, J. P. Prosas seguidasde odes mininas.

FISH, Stanley . " Is There a Text in This Class ?". In:___. Is there a text in the class? The authority of interpretative communities . Cambrigde: Harvard UP, 1980, pp 303-321 .

SCHMIDT, Siegfried. " Do texto ao Sistema literário. Esboço de uma ciência da literatura empírica construtivista ". In: OLINTO, Heidrun Krieger (org) Ciência da literatura empírica . Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994 , pp. 53-69.