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O uso da imagem de criaturas repugnantes nos discursos religiosos Pecadores nas mãos de um deus irado de Jonathan Edwards e Árvores e frutos de Jesus Cristo
Lemuel de Faria Diniz (UFMS)
Em seu Manual bíblico: um comentário abreviado da Bíblia , Henry H. Halley observa: " Atualmente apareceu um homem revestido de grandes poderes. Seu nome é Jesus. [...] É de estatura nobre e bem proporcionada, seu rosto cheio de bondade.[...] Sua testa, lisa e macia; suas faces não têm falha, realçadas por um rubor moderado; seu semblante é franco e bondoso." 2 Henry H. Halley também pondera que, "exortando e ensinando", Jesus "é gentil e de linguagem afável." 3 Mas o que dizer, então, quando lemos Jesus usando de ríspida autoridade ao comparar os fariseus a uma raça de víboras, conforme registra a Bíblia Sagrada em Mateus 12.34? 4
Conforme denota Enéas Tognini na obra Avivamento real, no século XVIII, nos Estados Unidos, "um homem simples começou a pregar a Bíblia com simplicidade e poder. Sua igreja passou uma noite em oração - de sábado para domingo". No dia seguinte, à noite, "o famoso pregador falou sobre Um pecador nas mãos de um Deus irado , e nessa noite 500 pessoas foram salvas" 5 , isto é, se converteram ao Puritanismo. Estamos falando de Jonathan Edwards, ministro puritano, cujo sermão referido acima, alcançou notoriedade literária graças ao impacto causado nos seus ouvintes, quando comparou-os a criaturas repugnantes tais como a aranha e a serpente.
Conforme pondera Anísio Batista Dantas em sua obra Como preparar sermões 6 , a comparação ou o símile é uma figura de linguagem empregada nos discursos religiosos de Jesus Cristo e de Jonathan Edwards (analisados em seguida), para comparar uma coisa a outra. Na visão teológica de Severino Pedro da Silva, autor da obra Homilética: o pregador e o sermão , o símile pertence às figuras de pensamento (retórica geral) e seu sentido "expressa a idéia do que é semelhante; comparação de coisas semelhantes." 7 Ressalta ainda Severino Pedro da Silva que dois dos mais simples artifícios literários são a metáfora e o símile, sendo que "símile é uma comparação, onde a expressão semelhante , como e assim estão em foco. No símile a ênfase recai sobre algum ponto de similaridade entre duas idéias, grupos, ações, etc." 8
Realizadas estas breves considerações teóricas, nos deteremos na análise dos discursos de Jesus Cristo e de Jonathan Edwards, demonstrando o uso da imagem de criaturas repugnantes ao referir-se a pessoas. Dessa forma, observamos que, em seu célebre discurso Árvores e frutos, presente na Bíblia Sagrada , Jesus falou duramente contra os fariseus, denominando-os de "raça de víboras". Em seu Manual bíblico: um comentário abreviado da Bíblia , Henry H. Halley justifica essa atitude de Cristo ao observar que "os fariseus, odiando como odiavam visceralmente a Jesus, não negavam Seus milagres que eram por demais numerosos" e bem conhecidos para serem negados, entretanto "apesar de serem tais milagres benéficos em sua natureza, tão empedernidos e hipócritas eram os fariseus, que os atribuíram a Satanás." 9 Comenta ainda Henry H. Halley que tais acusações vis e diabólicas eram evidência de uma natureza quase além do alcance da redenção, posição ratificada pela Bíblia de Estudo de Genebra ao asseverar que classificar a obra do Espírito como obra de Satanás "envolve uma rejeição explícita, intencional e decisiva do único Poder que pode trazer arrependimento." 10
Recorrendo às notas do Dr. Russell P. Shedd, presentes na Bíblia Shedd , apreendemos que Cristo classificou os fariseus de " raça de víboras" pois a blasfêmia dos fariseus é a prova de sua peçonhenta maldade, já que o caráter do homem é revelado através das suas palavras 11 . Reproduzimos, na seqüência, o discurso de Cristo, extraído da Bíblia Sagrada :
Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau: porque pelo fruto se conhece a árvore. Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca. O homem bom tira boas coisas do seu bom tesouro, e o homem mau do mau tesouro tira coisas más. Mas eu vos digo que de toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo. Porque por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado. 12
Ponderamos que o discurso Pecadores nas mãos de um Deus irado de Jonathan Edwards assemelha-se ao discurso de Cristo ( Árvores e frutos ) no que tange ao uso da imagem de criaturas repugnantes, conforme verificamos na tradução desse fragmento do próprio sermão puritano:
O Deus que vos mantêm fora do abismo do inferno abomina-vos; Ele está terrivelmente irritado e Seu furor, queima como fogo contra vós. Ele vê em vós uma dignidade imensa apenas para vir a serem lançados no fogo do inferno. E Seus olhos são tão puros que não podem tolerar tal visão. Vocês são dez mil vezes mais abomináveis a Seus olhos do que a mais odiável das serpentes venenosas será para todos os humanos. Têm-No ofendido infinitamente mais do que qualquer rebelde obstinado ofenderia um governante. No entanto, nada, a não ser a Sua mão, pode-vos impedir de cair no fogo a qualquer momento. O fato de nenhum de vós ainda não ter ido para o inferno a noite passada e vos haver sido concedida a graça de acordar ainda neste mundo, depois de terem fechado os olhos para dormir ontem, atribui-se a essa mesma graça e favor. [...] E não existe outra razão para que vocês não caiam no inferno, já, neste exato momento.Ó pecador, pense no perigo terrível que corre! É sobre essa grande fornalha de furor, você está pendurado sobre um abismo imenso e sem fim, cheio do fogo da Sua ira, seguro pela mão de Deus, cujo furor acha-se tão inflamado contra si, como contra muitas pessoas já condenadas as quais já estão no inferno. Você está suspenso por uma linha quebradiça, com as chamas divinas a toda a sua volta prestes a queimá-la [...]. E você continua sem interesse nesse Mediador, sem ter onde se agarrar para se poder salvar de tal ira certa, nada que possa afastar as chamas da cólera divina, nada em si próprio, nada que tenha feito ou possa vir a fazer, para poder persuadir o Senhor a poupar sua vida por mais um minuto que seja. [...] Oxalá todos aqueles que ainda estão fora de Cristo, pendendo sobre o abismo do inferno, quer sejam senhoras e senhores idosos, pessoas de meia idade, jovens ou crianças, possam dar [...] ouvidos [...] ao clamor dos chamamentos da Palavra [...]. Este é o ano aceitável do Senhor, um dia de grandes misericórdias para alguns [...] mas quando negligenciam vossas almas a esse ponto, vossos corações se endurecem e vossa culpa aumenta vertiginosamente. 13, 14
De acordo com Raymundo Carlos Bandeira Campos em sua obra Estudos de história: moderna e contemporânea 15 , os puritanos, grupo de religiosos que reconhecia as Escrituras como única autoridade religiosa, passaram a sofrer perseguição religiosa na Inglaterra, refugiando-se, então, na Nova Inglaterra (posteriormente, Estados Unidos da América). Devido a sua dedicação ao trabalho, em pouco tempo os puritanos alcançaram prosperidade material, mas entraram numa fase de declínio espiritual ao perder seus preceitos morais.
Dentro desse contexto vigente, Jonathan Edwards levantou-se como o líder de um grande avivamento, conclamando o povo a voltar-se para Deus. Em seu mais célebre sermão, Pecadores nas mãos de um Deus irado 16 , Jonathan Edwards intimida seus ouvintes a arrependerem-se diante da fúria iminente de Deus, já que estão a somente um passo de serem lançados no inferno. Utilizando-se da comparação, Edwards é extremamente enfático ao definir a cólera de Deus para com cada ouvinte, "da mesma maneira que alguém segura uma aranha ou um inseto repugnante sobre o fogo". Observamos que, na cultura ocidental, a aranha é uma criatura desprezada e sua presença, sempre indesejada. Nesse ínterim, salientamos que, ao comparar seus ouvintes a uma aranha, Edwards conduz inconscientemente seu interlocutor a perceber que, em virtude do seu distanciamento de Deus, se faz desprezível para o Senhor, tal como se despreza uma aranha, criatura repugnante e sem qualquer valor. Seu sermão pretende, portanto, induzir seu ouvinte a reconhecer que é pecador e, assim, admitir sua própria culpa, reconhecendo a gravidade de sua situação moral e espiritual perante Deus.
A mensagem de Edwards contém um caráter de urgência, conforme se denota no trecho: "Ó pecador, pense no perigo terrível que corre! É sobre essa grande fornalha de furor, você está pendurado sobre um abismo imenso e sem fim, cheio do fogo da Sua ira..." Ao declarar: "Vocês são dez mil vezes mais abomináveis a Seus olhos do que a mais odiável das serpentes venenosas será para todos os humanos", Edwards trabalha toda uma simbologia em torno da serpente. A serpente é considerada um animal astuto, de caráter irremediavelmente malévolo, sendo, por isso, indigna de continuar viva. Trabalhando esse jogo mental, o pregador puritano infunde aos corações de seus ouvintes que todos são enganosos e traiçoeiros como uma serpente que destila peçonha, pois foram infiéis para com Deus, merecendo, portanto, o mesmo desfecho das serpentes: uma terrível morte no fogo ardente.
Concluímos que, embora os discursos religiosos Árvores e frutos e Pecadores nas mãos de um Deus irado sejam semelhantes quanto ao uso da imagem de criaturas repugnantes em referência aos seus interlocutores, eles se diferenciam no tocante ao fato que, quando Jesus recrimina os fariseus classificando-os como "raça de víboras" está automaticamente inferindo que os fariseus não podem mudar, já que é impossível mudar a natureza peçonhenta de uma víbora, ao passo que Jonathan Edwards, ao apenas comparar seus ouvintes a serpentes sugere que esta condição poderá ser alterada por meio de arrependimento.
Diante do trabalho apresentado, consideramos primordial ressaltar que nossa pesquisa comparatista é movida pelo múltiplo e pelo diverso, posição teórica destacada no ensaio "Literatura comparada e estudos culturais: diálogos interdisciplinares" em que Reinaldo Marques assevera que "as vozes, disciplinas, tradições, objetos" dão ênfase "aos jogos, confluências, trânsitos, deslocamentos, intervalos de cultura" investindo em releituras de "formações nacionais, na escuta de diálogos entre nacionalidade, classe, gênero, etnicidade. Razões quer da existência de uma gama variada de interesses presente na literatura comparada, quer da nossa teimosa insistência em ultrapassar as fronteiras instituídas." 17
NOTAS:
1 As questões teóricas que abordarei neste texto fazem parte do projeto que desenvolvo, intitulado "Vertentes regionalistas e históricas na poética naveiriana" na Pós-graduação em Letras, em nível de Mestrado, Área de Concentração Estudos Literários, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.
2 HALLEY, Henry H. Manual bíblico: um comentário abreviado da Bíblia , Tradução de David A. de Mendonça, 4 ed., São Paulo: Edições Vida Nova, 1994, p. 469.
3 HALLEY, op. cit., p. 470.
4 Bíblia Sagrada . N. T. Mateus. Português. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Editora Vida, 1981, p. 24. Cap. 12, vers. 34.
5 TOGNINI, Enéas. Avivamento real , 2 ed., São Paulo: Edições da Livraria Louvores do Coração Ltda, 1972, p. 57 .
6 DANTAS, Anísio Batista. Como preparar sermões. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 1995, p. 60.
7 SILVA, Severino Pedro da. Homilética: o pregador e o sermão . Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 1992, p. 101.
8 SILVA, op. cit., p. 109.
9 HALLEY, op. cit., p. 387.
10 Bíblia de Estudo de Genebra . Português. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo, Barueri: Editora Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999, p. 1118.
11 Bíblia Shedd . Português. Tradução de João Ferreira de Almeida, 2 ed. rev. e atual. no Brasil, São Paulo, Brasília: Edições Vida Nova e Sociedade Bíblica do Brasil, 1997, p. 1348.
12 Bíblia Sagrada . N. T. Mateus. Português. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Editora Vida, 1981, p. 24. Cap. 12, vers. 33 - 37.
13 EDWARDS, Jonathan. Sinners in the hands of an angry God (Pecadores nas mãos de um Deus irado). Disponível em: < http://www.biblebb.com/files/sinners.htm > Acesso em: 03 jun. 2003.
14 EDWARDS, Jonathan. Sinners in the hands of an angry God (Pecadores nas mãos de um Deus irado). Disponível em: < http://www.reavivamentos.hpg.ig.com.br/biografias_e_livros/pecadores_na_mao_deus.htm > Acesso em: 03 set. 2003.
15 CAMPOS, Raymundo Carlos Bandeira. Estudos de história: moderna e contemporânea . São Paulo: Editora Atual, 1988, p. 44-45.
16 Traduzido por Enéas Tognini como Um pecador nas mãos de um Deus irado .
17 MARQUES, Reinaldo. Literatura comparada e estudos culturais: diálogos interdisciplinares. In: CARVALHAL, Tania Franco. (Coord.). Culturas, contextos e discursos: limiares críticos no comparatismo. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1999, p. 58.