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Influxos platinos no discurso crítico do Rio Grande Do Sul: João Pinto Da Silva
Léa Masina (UFRGS)
A crítica literária exercida no Rio Grande do Sul durante o século XX foi, com raras exceções, de tendência lusófona, presa à idéia de que a língua separava o Brasil dos demais países da América Latina. Não se ignorava a origem ibérica comum, então reconhecida como índice de proximidade entre as culturas. No entanto, essa origem não era considerada suficiente para autorizar a proximidade entre a literatura gaúcha e as platinas que, não obstante, conviviam nas longas faixas de fronteiras entre os países. Diferentes fatores contribuíram para definir essa visão, destacando-se o receio, dissimulado no gosto pelo purismo lingüístico, de que a literatura gaúcha se afastasse do centro hegemônico do país. A literatura brasileira, por sua vez, vinha sendo estudada, desde o início do século, sob a égide do nacionalismo, noção advinda dos primórdios românticos de XIX. A assunção do constructo teórico do nacional para a legitimação da arte criou, no Brasil, uma verdadeira "tradição afortunada" responsável, no dizer de Afrânio Coutinho 1, pela coesão do nosso sistema literário. Ainda que muitos textos críticos destacassem a expressão de idéias que apontavam para um cosmopolitismo particular, a literatura, sobre a qual continuou-se a escrever durante o século XX, acentuava as marcas do local e do nacional confundidos num mesmo conceito. Assim, o discurso crítico brasileiro, como não poderia deixar de ser, perseguiu ideais utópicos, como a homogeneidade cultural, ainda vivendo a tensa relação de dependência com o pensamento europeu.
Essa tradição, com diferentes nuanças, fora dominante no século XIX, quando a trindade crítica, representada por Romero, Veríssimo e Araripe Jr., buscou "atualizar" o pensamento nacional, trabalhando com os aportes das teorias deterministas e evolucionistas dominantes na Europa. No século XX, porém, os críticos das primeiras décadas dividiam-se, discretamente, entre duas tendências: prosseguir investigando as relações entre história e literatura, ou produzindo leituras críticas impressionistas, voltadas para a valorização estética dos textos literários. Essas duas tendências, como bem observa João Alexandre Barbosa 2, conciliavam-se através de recortes historiográficos. A essas, incorporaram-se, aos poucos, os mecanismos da Sociologia, que aportara no Brasil graças, entre outros, a os trabalhos de Gilberto Freyre. E já em meados do século, Antonio Candido desponta na crítica literária, apresentando uma visão sistêmica do fato literário, que privilegiava a interação entre autor-obra-público. Também, nesse primeiro momento, Afrânio Coutinho publica a coleção A Literatura no Brasil (1959), que idealizou e coordenou, composta por ensaios de natureza monográfica, escrita por diferentes críticos literários e professores de literatura. . Na Introdução da obra, o autor antecipa a divisão da matéria literária por eixos históricos, períodos estilísticos que permitiam identificar, na literatura brasileira, as tendências européias dominantes em períodos correspondentes. O fato de Antonio Candido e Afrânio Coutinho dedicarem-se ao magistério superior aponta para um deslocamento da crítica literária, que migra dos periódicos para o âmbito das universidades.
No Rio Grande do Sul, a crítica literária, que surgira com os intelectuais do Parthenon Literário, confundia-se com a prática periodística, uma vez que os jornais, abundantes no sul, eram o espaço privilegiado para a circulação das idéias. A formação de opinião e o julgamento estético das obras eram práticas simultâneas que, ainda assim, possibilitaram o surgimento de uma geração de críticos literários cuja importância no ordenamento da matéria literária foi vital para configurar o que hoje se entende por literatura gaúcha. E muito embora a prática do periodismo literário fosse idêntica ao que ocorria nos países do Prata, com forte impregnação política, conforme em 1924 já reconhece o historiador João Pinto da Silva 3, os críticos preocupavam-se em espelhar o que acontecia no centro do país. E isso ocorria, muitas vezes, de forma anacrônica e desvinculada da realidade, quando, por exemplo, questões polêmicas que haviam ocupado a intelectualidade dita "brasileira", aqui repercutiam com visível atraso, enchendo páginas e páginas dos periódicos locais.
Exemplo disso lê-se em Alcides Maya, o primeiro crítico literário gaúcho. Ocupado em escrever sobre questões do momento, foi um disseminador da cultura francesa e também do pensamento crítico brasileiro contemporâneo, dedicando-se a comentar, em diversos momentos, as polêmicas que dividiam as opiniões em torno das visões críticas de José Veríssimo e Sílvio Romero. Do mesmo modo como procurava "atualizar" sua comunidade discursiva, realizando um projeto intelectual propedêutico e "civilizador", Maya inseriu o Rio Grande do Sul no mapa literário do Brasil. Esse desejo de inclusão induz a pensar a questão da identidade do gaúcho e de seu pertencimento a um estado meridional, cuja história fora marcada por guerras de defesa de fronteiras. Isso porque o Rio Grande do Sul, espoliado pela política do governo central, sentia-se paradoxalmente ameaçado pela proximidade com os países do Prata. Toda a mitologia pampeana, que a literatura acolhe e reitera, aponta para o duplo pertencimento que contempla sentimentos contraditórios, advindos de uma nacionalidade difusa e conflitada. O conjunto da obra de Maya contém o paradoxo de um discurso crítico anti-separatista, e uma obra literária em tudo próxima às narrativas de escritores uruguaios e argentinos. 4
Por outro lado, muito embora a tendência dominante na primeira metade do século XX, no Rio Grande do Sul, resultasse na negação dos influxos platinos na literatura brasileira, a proximidade e os contágios culturais foram reconhecidos por um número minoritário de críticos e historiadores da literatura. Esse reconhecimento, numericamente inexpressivo, foi ignorado durante o século XX, eis que a crítica optou sempre por mitigar a diferença regional, acentuando a proximidade temática e periodológica com a literatura dita "brasileira", lida e legitimada pelo eixo Rio-Minas-São Paulo. O regionalismo literário que irá realizar, na prática narrativa, os postulados das vanguardas modernistas, foi aceito como manifestação de diferenças locais que, tomados de forma aditiva, comporiam um "retrato" vivo do Brasil. Esse seria formado por gaúchos, sertanejos nordestinos, mineiros e baianos, conforme configurou-se no romance de 30. Desse modo, o "meu Brasil brasileiro", rimando com Rio de Janeiro, encobria um rico filão investigativo: o diálogo entre as culturas fronteiriças do Brasil Sul , o Uruguai e a Argentina.
Em 1924, João Pinto da Silva, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, instituição privada de grande importância para o fomento aos estudos da cultura regional, publicou a sua História Literária do Rio Grande do Sul. O autor, jornalista e autodidata, chegou a ocupar cargos diplomáticos durante a chamada Era Vargas.
Por esse tempo, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul reunia, dentre seus membros, figuras de proa da intelectualidade sul-rio-grandense, dentre as quais destacava-se, por sua liderança intelectual, Moysés Vellinho. Autor de diversos livros de ensaios, Vellinho defendia abertamente a idéia de predomínio da cultura de origem portuguesa no estado. Pesquisador sério e bem articulado, publicou Letras da Província (1944) e Capitania D´El Rei : aspectos polêmicos da formação rio-grandense (1964) . Nessas obras, o ensaísta enfatiza seu apego à vertente lusa, afirmando uma "fidelidade de raiz ao idioma que as forças da tradição nos legaram" 5 Desse modo, sempre que examina as relações do Rio Grande com o Prata, o faz para acentuar o reconhecimento de um "antagonismo atávico", decorrente de injunções políticas e ideológicas da época, acentuando o entendimento de que as guerras de fronteira motivariam a separação indesejada do Rio Grande do Sul com relação ao resto do Brasil. Cabe observar que, ainda a essa época, temia-se que se repetissem os pertencimentos coloniais com relação à faixa territorial correspondente à antiga Colônia do Sacramento, ora pertencente ao Brasil, ora ao Uruguai.
No entanto, como é óbvio, as culturas de fronteira não dependem de acordos, limites administrativos ou vontades políticas: elas são permeáveis e, portanto, atravessadas por representações simbólicas comuns. Existe um modo de viver fronteiriço que, no caso, está representado pela vida nas campanhas e pelo fracionamento herdade de inúmeras guerras. Por outro lado, as hostilidades cotidianas, comuns aos tempos de demarcação dos limites das nações, nunca impediram o fluir dos contatos humanos, criando aproximações inevitáveis entre culturas que se desenvolveram num mesmo espaço geográfico e sob condições sócio-históricas semelhantes.
Em muitas ocasiões, Moysés Vellinho repudiou os influxos platinos, chegando mesmo a considerar sua identificação e reconhecimento como "grossos erros de interpretação" . Evitando o que considerava um "paralelo fácil" entre diferentes culturas vizinhas, Vellinho firmou posição que se fez dominante no século XX, e que, de certa forma, impediu o desenvolvimento de outros aportes que permaneceram obscuros. Porém, outros críticos de meados de XX reconhecem, em suas obras, a proximidade entre as culturas platinas e a brasileira. Dentre esses, num primeiro momento, além de João Pinto da Silva, também Sílvio Júlio e Manuelito de Ornellas. Num segundo momento, devem se referir os nomes de Rubens de Barcellos, Augusto Meyer e Guilhermino César.Pretende-se, em trabalhos futuros, estudar esses confrontos, muitas vezes transformados em polêmicas.
Autor da referida História da Literatura do Rio Grande do Sul (1924) e de A Província de São Pedro (1930), dentre outros ensaios, João Pinto da Silva vem sendo valorizado por sua contribuição para definir as características da literatura do Rio Grande do Sul. Foi quem estudou, de modo pioneiro, as manifestações do regionalismo sulino. Para além disso, ao escrever a primeira história da literatura do Rio Grande do Sul, Pinto da Silva construiu um arcabouço teórico com paradigmas encontrados em obras de escritores, críticos e ensaístas platinos, como o uruguaio Zum Felde, e o argentino Ricardo Rojas.
Lida numa perspectiva contemporânea, a História da Literatura , de João Pinto da Silva, resulta num exercício de crítica e historiografia comparatista, eis que o crítico se desloca, no texto,num movimento pendular, do Brasil para o Prata, em busca de informação e legitimação. Ele reconhece, desde o primeiro momento, as vagarosas infiltrações culturais que adentravam as fronteiras meridionais do Brasil, embora essas ainda estivessem impermeabilizadas pelas guerras. E deplora a ausência de "cultura literária" na província gaúcha, ao contrário do que ocorria em outros estados brasileiros, ágeis na importação de professores e literatos europeus. Seguindo esse rumo, depara-se com a questão do folclore regional, comparando o sul do Brasil, como Uruguai e Argentina, para concluir que o brasileiro era, em todo, avesso à épica, eis que produziam-se os textos em meio a condições sociais inóspitas, como as revoluções 1835 e 1893. Para construir esse raciocínio crítico, Pinto da Silva socorre-se de Alberto Zum Felde, em Critica de la literatura uruguaya , buscando parâmetros para pensar a produção literária do Rio Grande do Sul. E conclui que nem os "cielitos", do uruguaio Hidalgo, nem "la produccion maestra del genero, el Martín Fierro", encontram correspondência no subjetivismo lírico e sentimental da poesia brasileira. Assim, sem encontrar em Zum Felde, sequer no Processo Histórico Del Uruguay , respaldo para um maior aprofundamento do tema, Pinto da Silva apela a Ricardo Rojas, autor da Historia de La Literatura Argentina , para concluir que na Argentina "é tão freqüente como entre nós a tepidez sentimental, aquele suave calor corazonero de que fala o poeta." 6
Veja-se que Pinto da Silva não procura referenciais apenas na trindade crítica brasileira - Romero, Veríssimo, Araripe - ,aliás, bastante lida no sul do Brasil, eis que fora objeto de ensaios e artigos críticos de Alcides Maya, publicados nos principais jornais da época. Também não se louva, de modo dominante, na cultura européia ou norte-americana, muito embora refira autores consagrados, como Walt Whitman, Emerson, Edgar Allan Poe, Max Nordeau e outros. São os platinos que, nas três primeiras décadas do século XX, mobilizam a opinião de um jornalista, político e diplomata, cujos demais acertos críticos são, até hoje, fartamente louvados e reconhecidos por sua pertinência.
Não importam as conclusões a que João Pinto da Silva chega nesses momentos: quer-se assinalar uma prática crítica que não criava parâmetros a partir do centro nacional ou do cânone europeu. Como se lê na História da Literatura do Rio Grande do Sul, quando estuda o regionalismo e seus principais autores, e também quando descreve e analisa as manifestações teatrais, o exercício da crítica, o periodismo cultural e político, Pinto da Silva sempre argumenta através da comparação sistemática com as culturas platinas, denotando no seu discurso crítico o diálogo interliterário e intercultural.
Em 1930, João Pinto da Silva publica o livro A Província de S.Pedro: interpretação da história do Rio Grande. O título repete o nome da coleção de revistas dirigida por Moysés Vellinho, cujos principais ensaios virão a ser publicados em livro, compondo o conjunto também denominado "Coleção Província". A insistência em nomear assim a produção literária de proa, escrita e publicada pelos intelectuais que formavam a Geração da Globo, parece ter uma intenção ambivalente, ao mesmo tempo irônica e sobranceira. O livro, porém, inicia situando a questão geográfica e histórica do Rio Grande, lendo-se já no primeiro capítulo a seguinte frase, escrita por um naturalista francês :
O Rio Grande é uma região sui-generis, ponto de contacto, ou intersecção de dois
climas, zona intermédia de diferenciação botânico-zoologica. Ainda não é o Prata e já não é, tampouco, o Brasil..
Essa fronteira, segundo o citado, Elisèe Réclus, é também uma fronteira zoológica, pois em tudo ela apresenta grande permeabilidade. Para o ensaísta, flora e fauna são oriundas de permutas e típicas de transição. Essa dualidade, referida também sob o ponto de vista climático, não resulta em determinismo mesológico, como ocorreu longamente na passagem do século XIX para o XX. Embora cite a Taine e sua teoria do meio, raça e momento, Pinto da Silva afirma, com segurança que na formação do caráter sul-rio-grandense, a geografia física influiu muito menos do que a geografia política (1930: 26). Ainda que o Rio Grande do Sul se lhe parecesse, geograficamente, quase uma ilha (1930:29), ele aponta a situação histórica e política de região fronteiriça como responsável pela caracterização cultural do gaúcho. A defesa das fronteiras, a atividade guerreira e de guerrilha fez do gaúcho um soldado permanente. A desoladora impressão de deserto, transmitida pelos naturalistas europeus, Nicolau Dreys e Herbert Smith, explicaria, pela lógica, as atitudes dos colonizadores portugueses e espanhóis, ora interessados na fronteira marítima de São Pedro do Sul, ora esquecidos dela. A preferência ibérica por Maldonado, no Uruguai, e não por Rio Grande, possibilitou o ato fundador de José da Silva Paes quando, em 1737, desceu até a barra do Rio Grande para ocupar a raia oceânica. João Pinto da Silva encerra a primeira parte do seu livro comentando:
Mais em contato com o Prata do que com a Guanabara, trabalhado, enfim, por elementos vários de desagregação, o Rio Grande, de cuja população exigia o Brasil tantos e tão ásperos sacrifícios, teria, talvez, em oportunidades várias, todo ele, e não apenas a minoria, como em 35, pensado em se tornar autônomo, se a dolorosa experiência democrática do Uruguai e o expansionismo expectante da Argentina lhe não houvessem feito compreender que, em face das desvantagens do caudilhismo iminente e dos riscos de anexação por parte de Buenos Aires, o mais acertado ainda era permanecer fiel aos governos longínquos e, muita vez, retrógrados do Rio de Janeiro. 7
Assim, tanto pela vertente da história regional, ligada à geografia física e política, quanto pela vertente do pensamento, João Pinto da Silva insiste na dominância do caráter fronteiriço do Rio Grande do Sul. Essa característica deveu-se, no seu entender, também a proximidade tentacular de uma grande metrópole, de vida intensa e trepidante, como Buenos Aires (1924:128), o que determinava a distinção entre os influxos advindos do Uruguai daqueles devidos à Argentina. Essas diferenças, como não poderiam deixar de ser, manifestaram-se em nuanças fronteiriças. Descrever o modo como as culturas platinas articularam, na cultura brasileira, as suas diferenças, rastreando-as desde o início da colonização, foi o grande legado do primeiro historiador literário do Rio Grande do Sul.
COUTINHO, Afrânio. A Tradição Afortunada (o espírito de nacionalidade na crítica brasileira). Rio de Janeiro: José Olympio; São Paulo:Edusp, 1968.
BARBOSA, João Alexandre. A leitura do intervalo. São Paulo: Iluminuras, 1990, p. 37-62.
SILVA, João Pinto da. História literária do Rioi Grande do Sul Porto Alegre: Globo, 1924, p. 24
MASINA, Léa. Alcides Maya, um Sátiro na Terra do Currupira. . Porto Alere;IEL/Unisinos, 1998
___. Capitania d`El Rei: aspectos polêmicos da formação rio-grandense. 2.ed. Porto Alegre: Globo, 1970. .p.228.
SILVA, João Pinto da. História literária do Rioi Grande do Sul Porto Alegre: Globo, 1924 .p. 23.
PINTO DA SILVA A Província de São Pedro (interpretação da história do Rio Grande). Porto Alegre: Globo, 1930, p. 39.