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As memórias inventadas nas interfaces lusitanas de Manoel De Barros
Josenia Marisa Chisini (UFMS)

Ficar no parrrede era uma glória. 1

 

Ao celebrar este discurso poético, Manoel de Barros anunciou uma experiência lírica movida pelo imaginário, gravado às imagens diagramáticas que carregaram os sons da oralidade. Desse encontro com a parede/parrrede o saber poético retirou um aprendizado, revivido em circunstâncias de castigo prazeroso, do qual transborda uma poesia confessional que se alimenta de um tempo juvenil em que o poeta freqüentava o Colégio São José, no Rio de Janeiro, conforme podemos constatar nas suas declarações ao periódico Leia :

 

Em meu primeiro ano de internato no colégio São José, no Rio, conheci um padre francês, homem sábio e sensível de quem me fiz amigo. Sou grato a esse homem que me afastou dos livros de aventuras e me apresentou as obras do Padre Vieira. Então deixei de me importar com enredos. Vieira tornou a linguagem, para mim, uma coisa atrativa. Fui ficando obcecado por construção de frases, sintaxes de exceção etc... Senti que eu estava exercitando, pela primeira vez, o gosto pelas palavras. Cada recreio, cada intervalo de aula, buscar em Vieira riquezas fantásticas, era a glória! Acho que chequei a ter febres então. Penso que vem desses delírios com Vieira a formação do meu gosto poético, como se diz na minha terra: me representa que brotava água da mina. 2

 

"Parrrede/parede" torna-se uma configuração hieroglifada que vetoriza a primordialidade de um olhar, que se inscreve aos discursos do padre Antônio Vieira. O processo desencadeia a tentativa de escavar um saber que se combina à identidade cultural, porém, de incitamento transgressor. A elaboração literária emblematiza imagens tensionais de um eu poético que carrega curiosidades, ao realizar os seu desejos no encontro com a parede. As sensações avançam na busca das remanescentes marcas que contêm em si um recalque que converteu a dor no gozo, no conhecimento reinvestido da função psicanalítica do supereu, da sublimação, 3 cujo reconhecimento psíquico possibilitou as demandas do fenômeno subjetivo/autoral dos versos "IV Parrrede!"

O jogo exposto pela transferência literária revela-se na participação da alteridade, ao projetar as imagens focalizadas à parede, instigando uma forma similar à linguagem hieroglifada. Antonio José Saraiva 4, ao examinar a obra de Vieira, nos oferece um caminho esclarecedor, quando cotejou a participação da montagem plástica dos "Sermões", agregada às representações objetais por meio da arte de decifrar os hieróglifos - já que estes redesenham as leituras espirituais, os efeitos perseguidos pela oratória do jesuíta.

Quando lemos o poema "IV Parrrede", constatamos as referências dos Sermões da "Sexagésima e do Mandato", sendo as fontes textuais precursoras à iniciação do poeta sul-mato-grossense, pois elas instigaram as observações sobre os elementos de constituição frasal, voltados aos domínios da sintaxe de exceção, ou seja, sobre os processos que possibilitaram os trabalhos de inversão estrutural da frase. Impelido à curiosidade gramatical dos efeitos emitidos pelas composições semânticas e recomposições lexemais dos neologismos, Barros, também ateve-se à ornamentalidade da linguagem e dos ritmos frasais. É nesse sentido versificador da prosa/poética que as formas reiterativas,tanto sonoras como do eu poético, desdobraram-se em múltiplas vozes misturadas às imagens e à memória juvenil, propiciando a arte deste poema:

 

Quando eu estudava no colégio, interno,

Eu fazia pecado solitário,

Um padre me pegou fazendo.

- Corrumbá, no parrrede!

Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e

decorar 50 linhas de um livro.

O padre me deu para decorar o Sermão da Sexagésima

de Vieira.

- Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.

O que eu lera por antes naquele colégio eram romances

de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.

Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei

embevecido.

E li o Sermão inteiro.

Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!

E fiz de montão.

- Corumbá, no parrrede!

Era a glória.

Eu ia fascinado pra parede.

Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.

Decorei e li o livro alcandorado.

Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.

Gostar quase até do cheiro das letras.

Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.

Ficar no parrrede era uma glória.

Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.

A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio

das paredes. 5

 

 

As lições que Barros extraía do aprendizado com Vieira 6 transmitem os efeitos persuasivos da leitura que se introjeta às mensagens do "Sermão da Sexagésima". São estimulantes as visibilidades plásticas e sonoras, porquanto interagem com a palavra que, intencionalmente, deve ser eficaz e exemplada de ações; coadjuvadas pelos tipos de pregadores e de ouvintes, sobretudo, quando a sermonistíca trata da matéria-prima contida na Bíblia , da interpretação sobre a parábola do "Semeador", recolhida pelos escritos de Mateus (cap. 13, 1-23).

Para que possamos constatar essas prováveis experimentações de Barros nas leituras dos "Sermões", recorremos às pesquisas de Alcir Pécora 7, na obra a Maquina de gêneros , em que estão demarcados os três princípios basilares da "inversão, locução e disposição", suportes inerentes à arte da eloqüência. Tais inserções chamam a atenção para a dignidade do pregador eclesiástico, mediante a frutificação das ações, medidas pela sua própria e exemplar convivência, visto que o público/ouvinte deveria espelhar-se nos preceitos religiosos e nos valores morais, visto que a ação da semeadura dependia de uma prática cultural, histórica e universal, que deveria ser difundida pelas civilizações.

Barros revive a memória literária de Vieira e dessa maneira ressignifica os sentidos de um diálogo com o passado longínquo, realizando um procedimento arqueológico ao escavar as memórias culturais da Literatura Brasileira e Portuguesa. Esse exemplo reveste-se no eu poético que retorna às origens, ao lugar onde o poeta nasceu, Corumbá, e por isso a ressonância lírica repete-se por meio das vozes de um repreensivo sotaque estrangeiro: "Corrumbá no parrrede". As palavras emblemáticas registram uma travessia que Barros realizou ao encaminhar a cultura regional à mundivivência universal. Portanto, o colégio do Rio de Janeiro tornou-se um referencial da memória espaço-temporal, que possibilitou os sentidos da descoberta, na qual inclui-se a fonte literária lusitana, a persuasão e a observação realizada sobre os fenômenos lingüísticos e o direcionamento do gosto e dos valores estéticos.

Nesse contexto, o ensaio de Ana Pizarro 8, Questiones conceptuales:mestizaje, hibridismo contém comentários oportunos à nossa análise, porque demonstra como os escritores latino-americanos tornaram-se novos sujeitos autorais, a partir de suas leituras nas obras clássicas, que forneceram os contatos para a produção de escritas transgressoras, e portanto, é destas que resultaram os efeitos literários das "textualidades subvertidas". Com esse raciocínio de linhagem teórico híbrida, a pesquisadora chilena retoma as observações feitas por Antonio Candido, quando este apontara para os "jogos de autorizações e transgressões" construídos pelas diversas formas de memória, que reescreveram os gêneros canônicos, os espaços culturais e as diferentes estéticas. Como vemos, esse trajeto é marcado por um legado literário que se incorpora às literaturas nacionais, quando estas se aproximam ao às formas de preservar a memória de um patrimônio cultural comum:

 

Los géneros del canon tradicional, como apuntaba Antonio Cándido, se interceptan , se intersectan, se suponen, se soslayan em juegos de autorizaciones y transgresiones: aparecen escrituras de la crisis, diversas formas de la memoria, se reescriben em clave atual . Elos géneros canónicos, la poesía popular desdibuja su perfil en función de la cultura de masas. [...] Es necesario observar sus textualidades, desmontar sus mecanismos para poner en evidencia sus obsesiones, evidenciar sus focos de orientación, sus núcleos de articulación simbólica. 9

 

Compreendemos o referido tipo de penetração de raízes do cânone tradicional, considerando os obstáculos, os desvios enfrentados nas observações do aprofundamento do processo cultural, entretanto, é através das novas escrituras e das revisitações literárias que temos a oportunidade de alterar a visão tradicional, visto que no empreendimento da cultura clássica, também, estão escondidos os jogos de transgressões e autorizações. Incluímos nessa prática de leitura revisitada o exemplo integrador da poesia de Manoel de Barros, reconfigurando as absorções extraídas do aprendizado dos "Sermões" do Pe. Antônio Vieira, numa construção literária que subverte as textualidades precursoras, causando uma nova produção enunciativa e histórica.

Aproveitando a idéia de transitividade dos saberes estéticos e lingüísticos que migraram do Pe. Antônio Vieira à produção de Barros, o conceito de "transculturação" torna-se aplicável ao nosso ensaio, porque expõe essa ocorrência no sentido de indicar a superação dos efeitos sobre as perdas culturais, tanto das interfaces historiográficas da Literatura Brasileira como daquelas da Literatura Portuguesa, já que Vieira faz parte do acervo literário dessas duas fontes literárias, e portanto, edifica um patrimônio literário comum. Com a ajuda dos estudos de Marli Fantini Scarpelli, o nosso entendimento encontra esclarecimentos teóricos:

 

Por sua vez, a transculturação enquanto processo de transitividade, irá pautar-se na relação desierarquizada de trocas e interatividade entre culturas diferenciadas em confronto, o que pode ser realizada com um mínimo de perdas culturais e com a preservação das diferenças de cada parte inter-relacionada. Nesse sentido, a transculturação torna-se um importante conceito operacional para o exame das contradições que presidiram e ainda presidem o processo de formação histórica, política e cultural da América Latina. 10

 

Entendemos que o discurso de hibridez cultural comparece na permeabilização das idéias históricas e da transposição da memória literária de Barros, apoiando-se nas leituras de Vieira. Assim, evidencia-se a edificação de um mútuo patrimônio, que se enriquece entre si, apesar das diferenças, dos confrontos sociais entre a metrópole e a colônia. Devemos repensar por outro lado, que Vieira também desempenhara, na sua época, o papel transculturador, e por isso, apresentara-se como uma nova consciência de sujeito autoral, com funções, demandas religiosas e sociais inovadoras. Criticara, através de seus "sermões", as práticas inadequadas utilizadas pelos pregadores; denunciara os abusos cometidos pela nobreza e pelo clero contra as classes oprimidas, desprovidas de liberdade e de justiça.

Para reforçarmos essa contextualização inter-relacional, utilizamos a obra Estética da criação verbal (2003) de Mikhail Bakhtin, pois nela encontramos algumas explicações quando associamos o conceito de "distância" para conservarmos as penetrações da "cultura do outro" marcada pelas diferenças:

No campo da cultura, a distância é a alavanca mais poderosa da compreensão[...] Um sentido só revela as suas profundidades encontrando-se e contactando com o outro, com o sentido do outro: entre eles começa uma espécie de diálogo que supera o fechamento e a unilateralidade desses sentidos, [...] Nesse encontro dialógico de duas culturas elas não se fundem nem se confundem; cada uma mantém a sua unidade e a sua integridade aberta , mas elas se enriquecem mutuamente. 11

 

Outro exemplo de consolidação artística e biográfica de Barros dialogando com as vozes de Vieira está, explicitamente, divulgado na coletânea de 2001, no Tratado geral das grandezas do ínfimo , em que o curto poema, que segue abaixo, movimenta os efeitos paralelísticos de um leixa pren sonoro e enumerativo, atingindo os aspectos críticos, anteriormente, mencionados:

POIS POIS

 

O Padre Antônio Vieira pregava de encostar as orelhas na boca do bárbaro .

Que para ouvir as vozes do chão

Que para ouvir a vozes das águas

Que para ouvir o silêncio das pedras

Que para ouvir o crescimento das árvores

E a origens do Ser. Pois Pois. 12

 

A recuperação das assimilações de Barros feitas no contato com as leituras de Vieira, alinha-se à transferência emocional de uma identidade confessional de cunho histórico e literário e nessa direção os trabalhos de Mikhail Bakhtin são profícuos para que possamos contrastar a categoria do auto-informe-confissão, sendo um referencial teórico que trata das implicações da memória autoral/biográfica, operando intervenções na arte literária, na temática da "reinvenção de memórias". Vislumbramos tanto a biografia como os conteúdos da mensagem difusora de Vieira, no contato com a vida colonial brasileira, quando as passagens pontuadas pelo imaginário poético captam o exercício dos sermões integrados à História do Brasil. A composição de Barros translada um diálogo de vozes alheias, informações casadas à natureza brasílica e aos conflitos sociais. Desse modo, a memória histórica age por meio do "auto-informe-confissão", que tenta interpretar os sentidos auditivos por meio de uma simultaneidade de vozes. A biografia autoral desvela-se com a incorporação vocal da alteridade, emitindo a enunciação de um sujeito poético que se ampara na biografia psíquica de Barros. Diante desse entendimento, Bakhtin nos oferece outros subsídios teóricos:

 

Tomo conhecimento de uma parte considerável da minha biografia através das palavras alheias das pessoas íntimas e em sua tonalidade emocional:

[...] No auto-informe-confissão [...] personagem e autor estão fundidos em um todo único: são o espírito que supera a alma em seu processo de formação,

[...] Só integra o auto-informe-confissão aquilo que eu mesmo posso dizer de mim mesmo (no essencial e não de fato , é claro);

[...] Porque além da memória estética e da memória histórica existe ainda a memória eterna proclamada pela Igreja, [...] Na tarefa de realização do sermão ocorrem a nossa compenetração no sujeito e a reprodução em nós mesmos do acontecimento interior do seu ser. 13

 

Os apontamentos citados servem para que, novamente, possamos interpretar o poema "Pois Pois" realizando o retorno à memória autoral, situada às leituras dos "Sermões" do Pe. Vieira e à história literária da colonização. 14 Barros conserva a difusão das pregações vividas num lugar agônico, repleto de conflitos entre colonos, índios e negros, e isto, o poeta inscreve nos seus versos quando a palavra propagava-se encostada às orelhas e à boca do bárbaro, na audição das vozes de todos os seres, sejam aqueles do chão, da água, das pedras e das árvores, cuja prática literária incorpora-se do caráter cósmico. Por conseqüência, a forma enumerativa e reiterativa do leixa pren movimentam o ritmo versificador do verbo ouvir -, que serve de apoio sinestésico ao processo acústico/polifônico, distendendo a voz do ouvido à orelha e à "boca do bárbaro". Tal tropo translada os efeitos trágicos praticados pelos portugueses e colonizadores, que Barros relembra ao emitir: "Vieira pregava de encostar as orelhas na boca do bárbaro".

As significâncias contextuais indicam um conjunto de informações históricas, culturais, políticas e socio-econômicas que Vieira denunciara nos seus "Sermões" e "Cartas". Por isso, interpretar a montagem do poema Pois Pois é tentar decodificar um processo silencioso em torno dos episódios da "Operação Resgate", movida aos "índios de corda", que eram confinados nos cativeiros, para depois serem vendidos como escravos. Por detrás do emblema "bárbaros", podemos interpretar outras atrocidades, aquelas cometidas contra os negros e às suas vidas nos engenhos. Sabemos que Vieira deixou críticas contundentes, repletas de mensagens sociais para reverter as injustiças, os crimes e os vícios coloniais, cujas escrituras exemplares estão elencadas nos "Sermões do Rosário" 15, de números XIV, XVI, XX e XXVII.

Ampliando outros aspectos biográficos de Manoel de Barros, conservando as influências de Vieira estão os depoimentos concedidos ao entrevistador André Barros, nos quais conferimos a intensidade do aprendizado adquirido nas observações das leituras do Pe. Jesuíta:

Sempre tive uma preocupação com a palavra, com as frases. No colégio interno, os padres me deram o Padre Antônio Vieira para ler. Ele era um grande frasista, se preocupava com a ressonância verbal interna das frases. Em linguagem, ele muitas vezes não era tão católico assim. Depois que comecei a ler o Vieira não parei mais de prestar atenção nas frases. Sou um fazedor de frases. 16

 

Estas falas demarcam as distâncias históricas, os estilos e os gêneros diversos, notamos a construção de um patrimônio literário de confluências comuns entre o Brasil e Portugal, e nisso, constitui-se "a comunidade interliterária", que alcança as dimensões supranacionais, porque as relações ocorrem numa "parceria", que mantém as convivências especificas, tanto da produção de Vieira como às de Manoel de Barros. O processo pelas vias interliterárias elabora a integração das obras desses escritores, sendo rompedores de suas fronteiras culturais, geográficas e étnicas. Nesse sentido, Tania Franco Carvalhal 17 ao analisar as propostas das pesquisas comparatistas atuais, sob orientação de Dionýs Durisin, demonstra que a Academia Eslava de Ciências estabeleceu um funcionamento de "gradações classificatórias" para a inserção da literatura nacional, quando esta insere-se às "formas de mútua correlação" (individual, geral e específica).

Por meio dessa linha de estudos contrastivos, desejamos intensificar as nossas análises voltadas à função interliterária, já que Barros, ao inventar as suas memórias, conservou o auto-informe-confissão na "contextualidade" da memória histórica e literária do Pe. Vieira. Nesse entrecruzar de convergências biográficas, artísticas, históricas e sociais sublinha-se a precursora expressão "pecúlio comum", mencionada pela crítica machadiana 18, e lembrada por Tania Carvalhal, quando exercitamos as possibilidades de reunir as afinidades interliterárias construídas num patrimônio mútuo, edificado pelas Literaturas Brasileira e Portuguesa. Cabe nesse interesse, agregarmos os três eixos teóricos que fazem parte das oito formulações da Escola de Bratislava, que Carvalhal elencou:

1.  a proximidade ou ininterrupta inter-relação de culturas nacionais;

2.  a consciência da "mútua presença" de uma literatura em outra ao longo de sua

[...]

afinidade histórica mútua;

7. as relações integrativas (alusões empréstimos, imitações, plágio, adaptação, etc.) e diferenciais (as polêmicas literárias, a paródia, o travestimento, etc.) e complementares (o que é deliberadamente trazido e transformado criativamente); 19

 

Como se constata, a visão de mutualidade intensifica-se na inteiração das duas literaturas (Portuguesa e Brasileira) delineadas pelas feições de "interdependência", que recompõe as interfaces culturais da arte literária de Vieira introjetadas às de Manoel de Barros. É nessa reciprocidade que a memória inventiva e histórica apóiam-se para a realização interliterária, e nisso, tornam-se oportunas as falas esclarecedoras de Bakhtin, ao explicitar que a "literatura se revela antes de tudo na unidade diferenciada da cultura da época de sua criação, mas não se pode fechá-la nessa época: sua plenitude só se revela no grande tempo [...] As obras dissolvem as fronteiras da sua época, vivem nos séculos, isto é, no grande tempo ". 20 Nesse sentido, podemos afirmar que a literatura alimenta-se de movimentos culturais, históricos, econômicos e sociais e a obra permanece no seu curso vivencial resistindo ao tempo, quando é recontextualizada, revisitada a cada época, considerando os contatos com a linguagem do outro.

 

 

Leia-se o poema de Manoel de Barros "IV Parrrede!", na obra, Memórias inventadas - a infância. São Paulo, Editora Planeta, 2003.

Revista Leia , 1991, março, nº. 149, p. 3-7.

Sublimação , decorre das primeiras definições de Sigmund Freud expostas "Nos ensaios sobre a teoria da sexualidade" ( Obras Completas de Sigmund Freud . Buenos Aires: Santiago Rueda, vs. 8, 9, 19. O termo foi trabalhado por Jacques Lacan, que explicou a sublimação sendo uma função em a arte acolhe o Imaginário e o Real (inconsciente). Consultar as obra de Alain Juranville. Lacan e a filosofia , Rio de Janeiro, Zahar, 1987, p. 192, 243, 319); Jacques Lacan. Seminário - livro 7 - a ética da psicanálise . São Paulo, Zahar, 1988, p. 199-202.

SARAIVA, Antonio José. O discurso engenhoso , São Paulo, Perspectiva, 1980, p. 39, 42.

BARROS, In: Memórias inventadas - a infância , 2003. In: " IV Parrrede"

Interessante é se consultar a dissertação de mestrado, "Manoel de Barros: Uma Interpretação Poética e Simbólica das Interfaces Espirituais", de Maria Aparecida Ferreira de Melo. O trabalho defendido no Programa de Pós-Graduação em Letras do CEUD - UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), em 2004, recebeu a orientação da autora deste artigo.

PÉCORA, Alcir. Máquina de gêneros . São Paulo, EDUSP, 2001, p. 158, onde se lê: "o que pretende é estabelecer os princípios dessa adequação no tocante à arte específica que está considerando. Trata-se de repor o preceito retórico do decoro , da conveniência de pessoa , lugar e tempo , de maneira que a sua aplicação correta impeça que se perca a eficácia desejada".

PIZARRO, Ana. Questiones conceptuales: mestizaje, hibridismo. In: Literaturas em movimento , São Paulo, Editora Arte e Ciência, 2002, p. 15-19.

PIZARRO, Ana. idem, ibidem, p. 19.

SCARPELLI, Marli Fantini. Heterogeneidade, transculturação, hibridismo: a terceira margem da cultura latino-americana. In: Literaturas em movimento , SãoPaulo, Editora Arte & Ciência, 2002, p. 51-52.

Conceito de distância , cf. Mikhail Bakhtin, Estética da criação verbal . In: Os estudos literários, hoje. São Paulo, Martins Fontes, 2003. p. 366.

BARROS, Manoel de. Tratado geral das grandezas do ínfimo . In : Pois Pois, Rio de Janeiro, Record, 2001, p. 47.

Categoria do auto-informe-confissão , cf. Mikhail Bakhtin, Estética da criação verbal . In: auto-informe-confissão, São Paulo, Martins Fontes, 2003, p. 141, 135, 130, 137.

Consultar o texto de Alfredo Bosi, Vieira, ou a cruz da desigualdade. In: Dialética da colonização . São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 119-148, onde se lê: "A Lei de Cristo revelada não suprime a Lei Natural, presente nas consciências de todos os homens. Ambas exigem estreita eqüidade, ambas ensinam que os bens, universalmente distribuídos por Deus, devem ser universalmente retribuídos pelos três estados". Ainda, é interessante ter-se em conta os conflitos, vivenciados pelos índios na "Operação resgate", da qual os portugueses levavam consigo os condenados, os 'índios de corda'. (...) 'comprar ou resgatar (como dizem) dando o piedoso nome de resgate a uma venda tão forçada ou violenta, que talvez se faz com a pistola nos peitos' Opus. cit, p. 136, 139).

Sermão do Rosário . Consultar Alfredo Bosi, idem, ibidem, p. 143.

JORNAL DO BRASIL. In: Caderno de Idéias. Acesso<http//www.secrel.com.br/poesiabarros04.html>, 30/jul/2003.

CARVALHAL, Franco Tania. O próprio e o alheio . In: Sistematizações recentes. São Leopoldo, Editora Unisinos, 2003, p. 159-165.

ASSIS, Machado de. Críticas literárias . In: Literatura brasileira - instinto de nacionalidade . São Paulo, Editora Formar, s.d. p. 164. (Machado de Assis, Obras Completas, v. 6).

CARVALHAL, idem, ibidem, p. 162.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal . In: Os estudos literários hoje. São Paulo, Martins Fontes, 2003, p. 364, 362.