VERSÃO PARA IMPRESSÃO [ VOLTAR ]

Barbosa Lessa, Ricardo Güiraldes e Valery Larbaud: realizadores de travessias entre a história e a literatura
Joana Bosak de Figueiredo (UFRGS)

As múltiplas travessias realizadas por Barbosa Lessa, Ricardo Güiraldes e Valery Larbaud transcendem diversas áreas do conhecimento. Se Barbosa Lessa carrega consigo a marca do telúrico, desdobrando-se entre a história, a memória, o folclore e a literatura propriamente dita, Ricardo Güiraldes se aventura pelo mundo editorial e pela seara da poesia para justificar sua obra maior: o romance Don Segundo Sombra , complementado por uma atividade tradutória junto ao amigo Valery Larbaud, escritor, tradutor e teórico de primeira ordem.

O que une os três escritores é o contato com um mesmo tema latino-americano: a construção ou a ressignificação de um sujeito histórico-literário platino, o gaucho , ou gaúcho, a partir de visadas e esforços distintos. Cronologicamente, pode-se pensar a inserção anterior de Ricardo Güiraldes junto ao tema: a escritura de Don Segundo Sombra 1 começa em 1919, como tentativa de redenção de um escritor oriundo da aristocracia portenha muitas vezes considerado inferior em sua obra poética. A vivência campeira, contrariando aqueles que não compreendiam a insistência do escritor em relação ao tema, lhe traz inspiração para a obra que seria marco na reestruturação do ícone para uma Argentina já industrializada carente de auto-imagens positivas, já que o gaúcho Martín Fierro 2, aparecido em 1870, denota um tipo que é mais próximo ao marginal e ao paria social.

A figura de proa de Valery Larbaud, teórico da tradução, poeta, escritor e tradutor em primeira instância, surge na vida de Güiraldes junto a amigos comuns, como a livreira Adrienne Monier, na Paris efervescente da década de 1920, onde o argentino divide seu tempo com a estância da família, La Porteña. Ao mesmo tempo em que introduzia o tango em Paris, Güiraldes inseria-se nos grupos de discussão e elaboração cultural da época, fazendo uma verdadeira ponte entre a cultura e a literatura latino-americana e a européia, apresentando autores e obras que seriam logo traduzidos por seus amigos franceses das publicações Navire d'Argent e Nouvelle Revue Française . Larbaud, franco comparatista, ainda que inominado à época, torna-se um amigo sincero e essa amizade, fortemente marcada pela troca de cartas entre o casal Güiraldes, rende ao escritor argentino o intercâmbio de autores franceses a serem traduzidos por ele e os escritores latino-americanos - ele, inclusive - a merecerem a tradução ao francês por Valery Larbaud.

Precocemente desaparecido, Güiraldes é homenageado por seu amigo francês com a imortalidade: a tradução de Don Segundo Sombra é feita quase que concomitantemente à edição argentina, de 1926. Entusiasta da "República Mundial das Letras", Valery Larbaud 3 vê nas traduções a maneira possível de alcançar o internacionalismo, o que é defendido por ele veementemente em seu Sous l'invocation de Saint Jerôme 4. Dessa maneira, Larbaud, que não é prestigiado como escritor, destaca-se pela entrega a essa causa: a tradução e o papel do tradutor como protagonista silencioso da literatura. E é justamente a dedicação de Larbaud à tradução e à obra de seu amigo Güiraldes que o fazem o essencial disseminador do mito do gaúcho em terras européias naquele período.

Barbosa Lessa surge no cenário literário algumas décadas mais tarde. Leitor dos autores gauchescos, é um grande ativista do tradicionalismo já na juventude, na década de 1940 do então prestigiado colégio Julio de Castilhos. Cria, junto a Paixão Cortes, o Movimento Tradicionalista Gaúcho, que recria tradições rio-grandenses e pesquisa seu folclore, além de ser matriz de um novo tipo de regionalismo no Rio Grande do Sul. Humanista convicto, não permanece ligado aos temas regionais "gaúchos" tão somente: seu interesse é pelo todo do Brasil e não apenas pela parte. Estuda costumes e tradições de norte a sul do país, desde São Paulo, onde está radicado desde a década de 1950. É de longe de suas raízes gaúchas que escreve seu romance mais importante, publicado em 1959: Os Guaxos 5, que recebe o prêmio da Academia Brasileira de Letras de 1961.

É ao contar o cotidiano dos homens andarilhos dos campos do Rio Grande do Sul e ao refletir sobre sua condição de guachos , isto é, de órfãos, de quem não tem para onde ir e tem de bastar-se por si mesmo, que Barbosa Lessa incide, também, na reposição desse mito, às vezes em desuso, mas que reaparece a cada momento literário para reafirmar uma inserção profunda na cultura platina como um todo. Os guachos nada mais são que os próprios gaúchos: trocadilho do qual também se utiliza Güiraldes em sua obra, pois que Fabio Cáceres, o protagonista, nada mais é que um guacho aprendendo a ser gaúcho através da figura de um sábio, Don Segundo Sombra. Don Segundo, por sua vez, é, ele mesmo, a imagem reflexa de todos os gaúchos, pois que sombra representa uma espécie de coletivo desse tipo do qual já se disse que não existia mais.

 

E o gaúcho, existe?

Talvez essa seja uma das questões de maior indagação entre pensadores e folcloristas rio-grandenses e platinos, atuais e antigos. Se o gaúcho sobrevive hoje como gentílico, como designação de toda uma comunidade nascida em território rio-grandense e como tipo social também no Prata, independente de sexo, etnia, religião, grau de instrução, profissão ou ainda, pertencente a um meio urbano ou rural, foi disso que tratou o pacto travado entre a história e a literatura na construção e manutenção desse modelo humano e cultural através de pelo menos três séculos de existência.

Inicialmente pária social, marginal à História, a figura vivida e construída do gaúcho superou esse destino trágico para tomar um papel à frente de suas potencialidades originalmente descritas. Por obra da habilidade de cronistas, historiadores, literatos e folcloristas tornou-se alvo de estudo detalhado sobre sua origem e permanência. Tanto que no limiar do século XXI ainda não foi suficientemente lido, interpretado, entendido e sintetizado, se essa for mesmo uma possibilidade. Portanto, aquela é a pergunta original que não quer calar: que é o gaúcho finalmente? Desenrolar de um "verdadeiro" processo histórico ressemantizado, tradição inventada, produto da criativa imaginação de autores platinos, ou um pouco de toda essa encruzilhada entre a história, a literatura e a memória?

Parece que a última indagação é mais próxima desse real, ainda que incompleta, pois que um fenômeno de tal ordem não pode ser sucintamente medido. É a proposta de um estudo de maior abrangência que aqui se propõe: perceber as facetas anteriormente citadas da criação e transcendência desse mito real chamado gaúcho pelos autores anteriormente citados. De guacho a gaúcho ele está presente em corações e mentes de muitas gerações de sul-brasileiros. Ou seriam gaúchos?

 

Novas abordagens e novos critérios para o estudo do gaúcho

As contribuições teóricas de aportes nem tão recentes assim como a discussão acerca dos estudos multiculturais e da crítica pós-colonial têm dado um novo fôlego ao estudo das questões identitárias de uma maneira geral. Autores como o já clássico Homi Bhabha e, mais recentemente, a espanhola María José Vega, vêm trabalhando essa questão de forma diferenciada 6 entre si e em relação ao que era feito anteriormente à sua obra. Nessa visada, a noção de identidade, seja ela definida por padrões culturais ou locais, vinculada à questão nacional, regional ou local, passa a ter uma nova elaboração conceitual. Se anteriormente as identidades apareciam como construções , ainda que percebidas como processos simbólicos, hoje em dia, além dessa noção, pode-se pensar e discutir a identidade como negociação , tanto como nas fronteiras culturais, como nas lingüísticas e territoriais.

Se a identidade é uma negociação, é porque passa por um processo que se desenvolve a partir da noção da existência do outro, da idéia de alteridade e do embate que sofre que nesse jogo entre o próprio e o alheio para se constituir. Como na tradução, que sempre envolve a comparação entre línguas e culturas, também a identidade só pode ter como ponto de partida a existência do outro. Portanto, a aceitação do outro é o primeiro passo para a existência desse um que se propõe diverso. É na comparação com o outro que existe esse um e é na nessa negociação que se gesta o tipo de identidade a ser constituída. Entretanto, essa constituição não se dá de forma estanque, podendo ser refeita e rearticulada a cada novo movimento político, histórico, geográfico ou ainda, literário. O que permanece é um substrato anterior, uma noção mais vaga e difusa do conceito que lhe dá uma forma primeira. No caso da literatura, que é o que aqui interessa, a cada nova obra escrita esse olhar pode ser ampliado e revisitado de forma a fornecer um novo arcabouço teórico que permite uma visada outra sobre o tema em questão.

No caso do gaúcho , foi a possibilidade de um reconhecimento dessa diferença que tornou viável o desenvolvimento de uma determinada idéia, pois hoje são muitos "os gaúchos". Antes como tipo social localizado muito especificamente no tempo e no espaço, é o trabalho combinado da história e da literatura que tornará o gaúcho muito mais um conceito, uma idéia que deixará de estar presa a um momento ou um espaço mais definidos originalmente. As obras a serem propriamente abordadas dão conta de diferentes percursos trilhados por autores andarilhos que buscam, através da literatura e, quiçá, do folclore, essa negociação. O que deverá permanecer como linha mestra na condução da reflexão que aqui se inicia é a do gaúcho mais como uma idéia que se foi transformando com o tempo, uma abstração que se significou, entre outras construções, em conceito literário.

Nesse sentido, houve um deslocamento de raciocínio: ao invés da preocupação de perceber o processo de construção identitária gaúcha através da obra de Barbosa Lessa e Güiraldes, pareceu mais rentável, diante das discussões atuais a que já se referiu, articular o gaúcho enquanto conceito na atual fragmentação cultural e perceber que o trabalho que a história e a literatura em conjunto fizeram foi tão profícuo que o estabelecimento de um tipo social mantido pelas duas disciplinas foi capaz de desdobrar-se atualmente em significado muito mais amplo e fluido, que dá conta da realidade pós-colonial, mesmo com todas as mudanças ao nível do local que ora se operam.

Se o gaúcho há muito deixa de ser pária social e é incluído numa visão "vencedora" da história e ele mesmo, torna-se "vencedor" enquanto sujeito vivo e atuante seja no passado social como na literatura 7, sua trajetória é coroada nos dias atuais pela ressignificação constante, através da manutenção dessa mesma literatura revitalizada combinada a idéias soltas de um folclore e tradição inventados, porém altamente profícuos 8. O gaúcho, para os dias de hoje, deixa, portanto, de ser apenas referência de uma era em que se tornou símbolo de resistência, como no passado, mas atua, também, como um sujeito-conceito, ativo e participante, inserido em uma ordem já consolidada.

Isso leva a crer que hoje o gaúcho existe muito mais como uma idéia do que é ser gaúcho e como um conceito amplo, fluido e um tanto vago, mas que não se contrapõe às idéias de modernidade: ele mesmo é um símbolo da trajetória que os mitos do passado, se bem arranjados no concerto da história e da literatura, podem alcançar num contexto fragmentado carente de solidez cultural. Barbosa Lessa, Güiraldes e Larbaud foram protagonistas dessa transformação de ente real a mitológico, de sujeito social a conceito e forma estética.

A idéia que suscita o termo "gaúcho" pode passar por diversas acepções atualmente. Se inserirmos aí o termo em castelhano, gaucho , essa gama aumenta ainda mais. Portanto, as noções do que é o gaúcho decorrem não apenas de tempos distintos, mas de espaços e tipos de construção. Além de momentos e espaços diversos o gaúcho tem freqüentado essas duas grandes frentes de expressão, histórica e literária. Ambas se valem ou se valeram da imagem mítica do passado e de suas reposições, ao mesmo tempo em que se reconstroem mutuamente. Essa é uma questão de proa nesta proposta de análise: até que ponto o gaúcho é construção de um processo histórico inserido num tempo e num espaço específicos ou, até onde a literatura se apodera dessa criatura dando-lhe permanência histórico-social, trazendo-a até os nossos dias de forma ressemantizada.

Acredito que o estudo comparativo das obras dos três autores citados possa ser um elo a mais nessa cadeia que é a existência do gaúcho ainda como personagem de peso no imaginário sul-rio-grandense e platino, mesmo no cenário atual, de valorização do global a despeito das resistências locais no limiar de uma nova cultura altamente fragmentada no século XXI. A literatura recente, com exemplos da narrativa curta do chileno Roberto Bolaño - El Gaúcho Insufrible 9 - e da poesia quase o brasileiro Fausto Wolff - Gaiteiro Velho 10 -, ambos publicados em 2003, atestam a existência e permanência atual e de alto gabarito do gaúcho, ao menos na literatura.

 

 

Edición crítica, Paul Verdevoye, coordenador, 1ª reimp.. Madrid; Paris; México; Buenos Aires; São Paulo; Lima; Guatemala; San José de Costa Rica; Santiago de Chile: ALLCA XX, 1997, 538 p.

Ver : HERNÁNDEZ, José. El Gaúcho Martín Fierro . La Vuelta de Martín Fierro. Madrid: Melsa, 1999, 154 p.

Ver: CASANOVA, Pascale. A República Mundial das Letras . São Paulo: Estação Liberdade, 2002, 436 p.

Paris : Gallimard, 1997 (1946).

Rio de Janeiro/São Paulo: Livraria Francisco Alves, 1961 (2ª ed.), 349 p.

Ver as obras: Nation and narration , Homi Bhabha (ed.). London/New York: Routledge, 1990 e Imperios de Papel . Introducción a la crítica postcolonial, María José Vega. Barcelona: Crítica, 2003.

Quando se pensa aqui no gaúcho como um "vencedor da História" não se está excluindo a visão tradicional desse tipo social originalmente à margem da sociedade, excluído de uma situação social e economicamente privilegiada. Pelo contrário, trabalha-se com essa origem, mas também com a noção de que o tipo sofre uma ruptura em relação a essa marginalidade, subvertendo tal noção e participando da História, através da manutenção documental, literária e historiográfica, de maneira decisiva e transformadora da realidade social no Rio Grande do Sul e no Prata como um todo.

Além do auxílio do historiador inglês Eric Hobsbawm para se pensar na questão das tradições como "inventadas", utilizou-se também, a idéia própria de Barbosa Lessa, o qual também percebia isso.

Barcelona: Anagrama, 2003, 177 p.

Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003, 159 p.