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"O Quatrilho", literatura e cinema; reconversões
Ilva Maria Boniatti (UCS)
Como observa Rita Schmidt, no ensaio Repetição e diferença: a sutura da história (1990) 1, a palavra liberta o escritor do esquema mimético decorrente de um projeto literário cujo objetivo é apreender uma região. Dessa forma, José Clemente Pozenato inscreve a geografia do Alto da Serra no mapa literário do Brasil, inserindo a colonização italiana como tema da literatura brasileira. Já no início de sua obra, ao discutir as relações entre os conceitos de "regionalismo" e "regionalidade" (1974), Pozenato amplia o eixo de significados, pois irá realizar na ficção o que teoriza no ensaio.
A obra ficcional de Pozenato inicia um percurso sobre a história da imigração italiana na região do Alto da Serra e passa o olhar para representação do que seja a "divisão" chamada região e na qual se inserem as diferentes marcas culturais. Para Pozenato, "o traço cultural é uma espécie de marca que fica no comportamento de um grupo social, que viveu a mesma história, enfrentou as mesmas adversidades e acabou criando os mesmos instrumentos para garantia de sobrevivência". (1987) 2
Em sua dissertação de mestrado, Pozenato afirma que não pretende "percorrer toda a longa e complexa história do conceito de região, nem relembrar a pluralidade de significados que lhe foram atribuídos pelas diferentes áreas de conhecimento em que esse conceito foi utilizado (1995:18) 3.
A primeira observação a ser feita é que tanto o conceito de região quanto a definição de uma determinada região no plano da realidade são construções teóricas, portanto. Quer dizer, são representações simbólicas. E, apesar da aparente obviedade dessa afirmação, pode-se supor que uma região existe, bastando, para tanto, defini-la, ou seja, estabelecer suas fronteiras. Como observa Pierre Bourdieu (1989) 4, tanto o discurso regionalista quanto o discurso científico são performativos, isto é, constroem a realidade que designam. Ou, como afirma Pierre Lévy : "Nenhuma fronteira existe a priori. Sem dúvida, há no mundo descontinuidades, mas o recorte estrito de um conjunto supõe a seleção de um ou mais critérios para separar o exterior do interior. A escolha desses critérios é, necessariamente, convencional, histórica e circunstancial" (1993:143) 5. Uma determinada região é constituída, portanto, de acordo com o tipo, o número e a extensão das relações adotadas para defini-la. Torna-se possível pensar que as fronteiras da região se deslocam de acordo com diferentes critérios, dentro de uma nação e até acima da divisão dos territórios nacionais.
Nas últimas décadas, um importante deslocamento do conceito de região vem sendo elaborado. Isso porque a referência da região à nacionalidade começa a ser substituída, pelo menos em parte, pela referência à globalização da cultura, diante da qual a identidade peculiar de cada região ganha nova significação e, até mesmo, novo realce. Nesse sentido, Tânia Carvalhal, com base no pensamento crítico de Walter Mignolo e Ernesto Laclau 6, questiona os marcos teóricos interdisciplinares e discursivos para afirmar que o conceito de hibridização substitui as antigas oposições binárias, como centro e periferia. Para ela, o movimento de globalização reduz o mundo, transformando as configurações culturais. Citando Octavio Ianni, quando discute a questão da globalização, ela reafirma a ruptura histórica e suas implicações no conhecimento do que seja, atualmente, uma região 7.
Também numa perspectiva interdisciplinar, cabe citar o antropólogo Ruben George Oliven, para quem
a afirmação de identidades regionais no Brasil pode ser encarada como uma reação a uma homogeneização cultural e como uma forma de salientar diferenças culturais. Esta redescoberta das diferenças e a atualização da questão da federação numa época em que o país se encontra bastante integrado do ponto de vista político, econômico e cultural sugere que no Brasil o nacional passa primeiro pelo regional (OLIVEN, 1992: 43) 8.
No caso brasileiro, apesar dos sintomas isolados de separatismo, a questão regional tem sido visto como um problema de busca de relações adequadas de integração nacional, nas quais haja respeito pelas diferenças.
No entanto, com o crescente fenômeno de estabelecimento de relações supra-nacionais e, sob alguns aspectos, planetárias 9, o conceito de região começa a adquirir um novo sentido. Ele passa a ser usado em contraposição à idéia de globalidade e não tanto, ou não exclusivamente, em contraposição à idéia de nacionalidade. Já Alvin Toffler, nos anos noventa, (1990: 268) 10, apontava nessa tendência uma reação à globalização, que se manifesta tanto no plano da economia e da política como no da cultura.
No plano da cultura, essa possível relação entre região e mundo, e não apenas entre região e nação, foi registrada por Oliven, ao analisar a questão regional no Brasil. Para ele, "todo esse processo de mundialização da cultura, que dá a impressão de que vivemos numa aldeia global, acaba repondo a questão da tradição, da nação e da região" (OLIVEN, 1992:135) 11. Assim, é possível afirmar que a idéia de região, no Brasil vincula-se ao processo de consolidação da nacionalidade, iniciado há quase dois séculos.
Pozenato já afirmara, em seu trabalho Universidade e região : a regionalização como estratégia de acesso ao conhecimento (1995) que "é precisamente o costumeiro uso geográfico do conceito de região a fonte de muitos mal-entendidos que devem ser explicitados. A geografia trata a região como um espaço delimitado, com fronteiras que, mesmo não podendo ser nitidamente definidas como uma linha objetiva, funcionam no plano simbólico com um traço de separação e, pois, de exclusão. Outra idéia associada pela geografia ao conceito de região é a de um centro que polariza, em decorrência de suas funções, um determinado espaço, que se hierarquiza segundo seu maior ou menor grau de acesso ao centro. Ao redor do centro gravita o interior, a província, a periferia". Como observa Pierre Bourdieu (1989: 126) 12, "se a região não existisse como espaço estigmatizado, como 'província' definida pela distância econômica e social (e não geográfica) em relação ao 'centro', quer dizer, pela privação do capital (material simbólico) que a capital concentra, não teria que reivindicar a existência".
Objetivando essas reflexões teóricas com a prática ficcional e a criação de José Clemente Pozenato, cabe considerar, inicialmente, que sua obra como escritor caracteriza-se pela representação simbólica do regional. São as imagens da região do Alto da serra que compõem seus poemas, como se lê em Mapa de viagem (2000) . Também a temática de seus romances O Quatrilho (1985 ) e A Cocanha (2000) concentra-se na representação das diferenças regionais, não restritas pelo registro de usos e costumes, mas com a preocupação evidente de marcar comportamentos e sentimentos híbridos, construídos a partir de mesclas culturais que fundem diferentes extrações sociais.
Por questões relacionadas à mídia, decorrentes do sucesso alcançado pelo filme de Fábio Barreto, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1995, Pozenato tornou-se conhecido no mundo como o autor de O Quatrilho . Essa repercussão de um escritor tido como regional no plano globalizado leva a considerar a afirmação de Nelson Pereira dos Santos de que "o regionalismo do filme não o indispõe com platéias estrangeiras, qualquer produção é universal, depende de quem decifra sua linguagem" 13.
Numa dissertação recente sobre a obra de Pozenato, Ana Boff de Godoy (2002) 14 identifica as qualidades que fazem de romances como A Cocanha e O Quatrilho textos capazes de traduzir os movimentos sociais e históricos que retratam as dialéticas regionais. Ela aponta a exploração adequada das relações entre homens e meio, bem como as contradições da história, incluindo os sentimentos dominantes no grupo. Como apoio teórico-crítico, ela cita Flávio Loureiro Chaves, quando observa que "escrever a narrativa significa dialetizar a realidade em todos os níveis - do individual ao social, do histórico ao mítico - interpretando-a na vida das personagens de ficção". É óbvio, portanto, que a leitura de uma obra regional, que se universaliza pela recepção globalizada, torna-se possível porque o escritor conseguiu, no seu trabalho, "acentuar o diálogo entre a história, a história social do imaginário e a ficção". Esse compromisso social com a representação local tem sido uma das razões que influem no apreço da obra ficcional de Pozenato, visível no interesse de cineastas em filmar essas narrativas.
A reconversão da literatura para o cinema será, portanto, uma assimilação transformadora, eis que se tratam de duas linguagens em diálogo.
Para o cineasta sueco Richard Dyer MacCann 15, film has nothing to do with Literature . Outros há, como José Martínez Ruiz 16para quem el cine es literatura, si no es literatura, no es nada. A contribuição desses juízos contribuem para discussão da fluidez das fronteiras entre a Literatura e o Cinema, eis que ambos se constituem de narrativas que "borram" suas fronteiras. Além disso, conforme o proposto como objetivo desse IX Congresso Internacional da ABRALIC, aqui se pretende também examinar a importância, função e impasses da literatura e da cultura na cena contemporânea, particularmente os processos de mobilidade e passagem que têm caracterizado esse campo específico da produção humana, na perspectiva das condições materiais de produção e recepção em espaços desiguais, onde se entrecruzam tradições e histórias diferenciadas, mas permeáveis às injunções geopolíticas do capital e à lógica de um mercado globalizado. Desse modo, a absorção do romance O Quatrilho , transformado em filme por Fábio Barreto, leva a considerar a proximidade narratológica entre a literatura e o cinema. Vitor Manuel de Aguiar e Silva, ao examinar proximidades semiológicas, afirma que "o texto fílmico narra freqüentemente uma história, uma seqüência de eventos ocorridos a determinadas personagens num determinado espaço e num determinado tempo, e por isso mesmo é tão freqüente e congenial a sua relação intersemiótica com textos literários nos quais também se narra ou se representa uma história" 17.
Assim, a aproximação entre o cinema e a narração se deve a fatores como a imagem móvel figurativa (o cinema proporciona uma imagem figurativa que conduz à narração.), a imagem em movimento (o cinema aproxima-se da narração dado que é um caminho de um estado inicial a um estado terminal) e a busca de uma legitimidade, como afirma Jacques Aumont em "Estética del Cine" 18. Ainda para Aguiar e Silva
todo o texto narrativo, independentemente do (s) sistema (s) semiótico (s) que possibilita (m) a sua estruturação, se especifica por nele existir uma instância enunciadora que relata eventos reais ou fictícios que se sucedem no tempo - ao representar eventos, que constituem a passagem de um estado a outro estado, o texto narrativo representa também necessariamente estados -, originados ou sofridos por agentes antropomórficos ou não, individuais ou coletivos, e situados no espaço do mundo empírico ou de um mundo possível 19.
Para compreender as relações entre literatura e cinema, cabe referir as idéias de Carlos Reis, especialista em Narratologia, para quem há uma correspondência funcional que propõe uma associação sintetizada nos seguintes pares: narrador-realizador cinemato-gráfico, narratário-entidade convocada por uma voz off, autor-argumentista -autor literário, leitor- espectador 20. Assim, livro e filme suscitam várias questões, estabelecendo conexões íntimas entre os dois tipos de narrativa, eis que na linguagem cinematográfica, o cinema tem a sua própria maneira de "dizer" as coisas. A linguagem cinematográfica envolve fatores técnicos que não têm valor em si. O que realmente importa é como, por que e para que eles são utilizados. Do mesmo modo que a palavra impressa de um livro, tais recursos não passam de meios para atingir determinados fins.
Resta concluir que, no caso de O Quatrilho, cinema e cultura podem estar intimamente ligados. Isso porque a obra cinematográfica concilia sua mensagem e sua tese com uma construção formal impecável e por si só criadora. Como lembra Maurício Rittner, embora o cinema seja uma arte que explora a forma, ele possui também uma missão social. Seu conteúdo construtivo - seja ético, político ou filosófico - é uma exigência do próprio alcance que tem o filme dentro da sociedade 21. No entanto, o próprio autor adverte que o cinema apresenta um campo de efeitos amplos e próprios e que qualquer filme, por mais banal e rotineiro, destila um modo de entendimento da realidade humana, condiciona positiva ou negativamente a vontade do espectador, promove imperceptivelmente uma ideologia. A conclusão é estarrecedora: não existe filme inocente. Assim, cabe ao investigador comparatista levar adiante a análise formal e ideológica das duas linguagens para registrar o modo como o texto de Pozenato foi transformado ao projetar-se na dimensão fílmica de Fábio Barreto.
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