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História e Literatura: novas possibilidades para a historiografia
Beatriz Polidori Zechlinski (UFPel)
Este trabalho é uma reflexão sobre a escrita da história e sua relação com a literatura, que, na atualidade, tem gerado um redirecionamento em alguns textos historiográficos, o que acredito ser de grande valia para socialização do conhecimento. Busco questionar os limites disciplinares que impõem regras e tolhem a criatividade de acadêmicos e pesquisadores da área de história, problematizando conceitos como "ciência" e "verdade" que por muito tempo nortearam o trabalho dos historiadores. É importante deixar claro que a discussão que coloco é sobre a forma do texto e não sobre a pesquisa histórica, que continua sendo essencial no trabalho do historiador.
Desde a Antigüidade existe uma diferenciação entre o que é história e o que é literatura. Aristóteles 1, em A Poética Clássica , definiu a história como a narrativa de acontecimentos que de fato aconteceram enquanto a literatura seria a narrativa de fatos que poderiam acontecer . A diferença não acontecia em termos da forma do texto, já que as duas se constituíam em narrativas. A diferença era/é que uma se propunha a contar uma história verdadeira e a outra uma história inventada, além de cumprirem funções sociais diferentes. Para o filósofo, narrar o que poderia acontecer era mais importante e interessante do que narrar fatos reais, pois encerrava "mais filosofia e elevação". Em sua concepção, as "verdades gerais" do mundo se expressavam através da arte, ou seja, através das histórias inventadas. A história apenas relatava "fatos particulares".
No século XIX, com o estabelecimento da Ciência Moderna e a busca pelo cientificismo e a racionalidade, a narração do que realmente aconteceu foi ganhando status. As ciências enunciavam as verdades do mundo e a história, na busca pela cientificidade, passou a reivindicar para si a verdade sobre o passado. Através do método científico de descoberta dos fatos , estes ganharam o caráter verdadeiro e lhes foram negados todos os elementos fictícios de sua composição. A história se transformou em um discurso de verdade.
Desde esse período, a disciplina histórica vem sendo legitimada através do conceito de verdade (mesmo quando superou a história política do positivismo), porque seu status e a especificidade de seu conhecimento dependem dele. Para Michel Foucault 2 - que define os discursos como procedimentos de exclusão - a vontade de verdade é um dos grandes sistemas de exclusão (senão o maior deles). Esta, "apoiada sobre um suporte e uma distribuição institucional tende a exercer sobre os outros discursos (...) uma espécie de pressão e como que um poder de coerção" (p. 18). Segundo Foucault, esses procedimentos de exclusão têm estreita ligação com o desejo e com o poder - na vontade de dizer um discurso verdadeiro é exatamente isso que está em jogo (o desejo e o poder).
A partir da década de 70, com a crise da Ciência Moderna, teorias como a de Michel Foucault trouxeram reflexões sobre o conceito de verdade. Muitos concordam que é impossível se chegar a uma verdade absoluta sobre o passado ou sobre o presente, pois a verdade em que as pessoas acreditam depende de convicções, de grupo social, da época ou de outros fatores. Paul Veyne 3, chegou à conclusão que vivemos em "programas de verdade", compostos de imaginações, de forma que cada época, cada local, cada grupo, vive verdades que devem ser consideradas tão verdadeiras quanto as de outro. Assim, as massas de imaginações não devem ser consideradas nem falsas, nem verdadeiras. Para o autor, "a verdade é que a verdade varia" (p. 139).
No caso do conhecimento histórico, a visão de um fato passado está sempre se modificando conforme passam os anos e mudam as formas de pensar a história. Assim, é possível dizer que a história está sendo sempre recriada . Isso nos leva a encarar o trabalho historiográfico como interpretação ou representação da realidade, afastando-o do conceito de verdade histórica . Para Walter Benjamin 4, "articular historicamente o passado não significa conhecê-lo 'como ele de fato foi'. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo" (p. 224). Assim, para Benjamin nós convocamos o passado quando dele necessitamos.
Nessa perspectiva, assume-se também o papel da linguagem no texto historiográfico, que foi durante muito tempo escamoteado pelos historiadores. Quando o grupo dos Annales e os marxistas chamaram para si uma história analítica, problematizadora e estrutural negaram a forma narrativa do texto historiográfico, acreditando que um formato "não narrativo" daria maior legitimidade ao texto (pretensamente científico). Assim, a forma do texto tornou-se também um discurso de verdade - as histórias inventadas se constituíam em narrações, a história verdadeira se constituiria num texto "analítico".
Com a problematização do papel da linguagem no texto historiográfico, historiadores questionaram esta negação do formato narrativo e muito se ouviu falar em "volta da narrativa" no texto historiográfico. Porém, é importante destacar aqui que a negação da presença da narrativa não significou seu abandono, pois para contar alguma história é necessária a presença da narração. Hoje, pode-se dizer que os historiadores estão conscientes da existência da narrativa nos seus textos. Nas palavras de Chartier 5:
Os historiadores sabem bem hoje em dia que também são produtores de textos. A escritura da história, mesmo a mais quantitativa, mesmo a mais estrutural, pertence ao gênero da narrativa, com o qual compartilha as categorias fundamentais. Narrativas de ficção e narrativas de história têm em comum uma mesma maneira de fazer agir seus 'personagens', uma mesma maneira de construir a temporalidade, uma mesma concepção de causalidade. Essas constatações tornaram-se clássicas pelas obras de Michel de Certeau e de Paul Ricoeur. Eles lembram, de início, que considerando a dependência fundamental de toda a história, qualquer que seja, em relação às técnicas da composição de uma intriga (mise en intrigue) 6, o repúdio da história factual não significou absolutamente o abandono da narrativa. O que é uma boa maneira de dizer que os historiadores, assim como os outros, nem sempre fazem o que pensam fazer e que as rupturas orgulhosamente reivindicadas mascaram com freqüência continuidades ignoradas. (p. 14)
Reconhecer que a linguagem faz parte do labor histórico é conferir-lhe uma dimensão literária, ampliando as definições tradicionais da história e da metodologia histórica. Segundo Kramer 7, há atualmente uma espécie de "batalha historiográfica" (p. 132) entre as forças literárias e aqueles que desejam manter a história em seus limites tradicionais. Os críticos literários Hayden White e Dominick LaCapra, são os principais combatentes em favor da história sob uma perspectiva literária.
Hayden White 8 põe em dúvida a existência de um saber especificamente histórico, ou seja, questiona as fronteiras que separam a história da literatura e da filosofia. Estas fronteiras forçam a distinção entre fato e ficção, que se tornou um tabu da historiografia desde o positivismo. Segundo White, "toda disciplina é constituída por um conjunto de restrições ao pensamento e à imaginação, e nenhuma é mais tolhida por tabus do que a historiografia profissional" (p. 29). O autor acredita que uma maior atenção às perspectivas crítico-literárias pode ajudar os historiadores a romper esses tabus disciplinares, porque enquanto a história permanece situada dentro dos limites dos paradigmas que datam do século XIX, a literatura já os superou há muito tempo. Porém, muitos historiadores encaram essa perspectiva - de olhar a história a partir de uma perspectiva literária - como uma ameaça ao valor de seu trabalho.
O tabu da distinção entre fato e ficção pode ser abalado quando a imaginação que está presente no texto historiográfico for de fato admitida. Existem brechas deixadas pelos documentos, que Finley 9 chama de "momentos de espaçamento temporal" (p. 81), onde o historiador junta os fragmentos para montar a história, atribuindo a ela uma lógica. Esta lógica só acontece através da linguagem. Dessa forma, o historiador imagina, supõe, interpreta e cria, em busca de sentido para as ações passadas. Para Hayden White (1994: 45) as narrativas históricas revelam uma coerência, integridade e plenitude que só podem ser imaginárias.
O que acontece é que, enquanto historiadores tentam suprimir/escamotear ao máximo possível os elementos imaginativos de seus trabalhos, os literatos utilizam-se largamente da imaginação na composição de sua história.
Antônio Cândido 10 assinala que devemos ter consciência que a relação do trabalho artístico com a realidade é arbitrária e deformante. Para o autor, a "liberdade de deformação" (p. 13) da realidade é o que garante a eficácia do trabalho literário como representação do mundo, pois o torna mais expressivo. Assim, devemos ter consciência de que não existe obra literária que transponha a realidade para o texto. Porém, parece claro que essa mesma consciência é necessária para o texto não artístico, que também não estabelece com o mundo uma relação de transposição da verdade, mas sim de interpretação, que é, inevitavelmente, deformante.
Uma maneira interessante de entender esta relação da escrita com a realidade é a forma como Michel de Certeau 11 a enxerga: para ele, a "arte de dizer" (p. 152) cria uma realidade em seu próprio texto, de forma que produz o real, porque essa arte é ao mesmo tempo teoria e prática - a arte de dizer é ao mesmo tempo uma arte de fazer.
Quanto à relação da literatura com os objetos de estudo da história - isto é, o estudo dos modos de vida do passado, das questões políticas ou econômicas, do imaginário, das sociabilidades, das relações de poder etc. - há uma maior ou menor aproximação dependendo do autor e de seu tema. A profundidade reflexiva, o nível de crítica e a proximidade ao real de uma obra dependem das aptidões do autor e da forma como ele encaminha o seu trabalho e não necessariamente do formato que recebe o texto.
Em muitas narrativas literárias, através da narração de uma vida individual (de um personagem) é possível entender todo um contexto histórico e uma reflexão sobre o passado. Já a historiografia profissional, através das análises macro , suprimiu durante muito tempo o indivíduo do contexto histórico, fazendo com que a história parecesse acontecer sem as pessoas, num movimento de continuidade que se realizava quase que sozinho.
A literatura, por contar sempre a história de alguém, é capaz de valorizar as ações humanas e a sua interferência no espaço, isto é, valoriza o papel do sujeito na construção da sociedade. Através da trama é capaz de demonstrar os mecanismos de poder que funcionam no nível das pequenas ações cotidianas de que nos fala Foucault em Microfísica do Poder 12.
Atualmente, a discussão teórica a respeito dessas questões gerou na historiografia uma "modalidade" nova, a microhistória, que se propõe justamente a contar experiências micro (de grupo ou individuais), para a partir delas pensar as diferenças e, na comparação com outras experiências, pensar as semelhanças. É o caso da história como a do moleiro Menocchio de O queijo e os vermes 13, do historiador italiano Carlo Ginzburg. Esta história gera perguntas como: o que existe de individual na história de Menocchio e o que existe de geral? Esse tipo de pergunta, se feita a uma obra literária, pode produzir o mesmo tipo de reflexão.
Percebe-se na microhistória uma aproximação da estrutura literária, justamente por voltar a atenção para o indivíduo e pela construção narrativa mais próxima ao que podemos chamar de "literário". No entanto, apesar de obras terem sido magistralmente escritas nesse sentido, como a de Ginsburg, nota-se ainda uma resistência na academia de valorizar tal modo de escrever história.
O que talvez a historiografia que podemos chamar de "tradicional" não perceba é que a escrita literária também é uma forma de produzir conhecimento, que possui vantagens em comparação com o modo de escrita dito "científico". Uma das vantagens mais importantes é a relação que o texto literário estabelece com o leitor. Segundo Roland Barthes 14, o autor de uma obra ficcional procura o leitor (mesmo sem saber onde ele está) e joga com ele.
A literatura traz à tona questões humanas, dos sentimentos e das emoções, permitindo que o leitor se sinta na pele de personagens, identificando-se com eles. Através da imaginação, sua narrativa faz com que o leitor se transfira para o ambiente onde se desenrola a história. Sua capacidade de recriação da realidade permite a quem lê emocionar-se e impactar-se com ela, levando assim à reflexão e à possibilidade, por um momento, de uma pessoa tão distante no espaço e no tempo destes personagens estar na pele deles por um instante e compreendê-los. Os textos ficcionais normalmente são prazerosos, não por serem rasos (destituídos de profundidade ou reflexão), mas por se relacionarem com os leitores.
A liberdade conferida à literatura (por lhe ser atribuído o caráter artístico) torna o texto literário mais interessante para o leitor. A historiografia (por ser considerada e considerar-se ciência) ficou durante muito tempo presa aos limites do cientificismo, esquecendo-se de que precisa manter contato com os leitores leigos, com a sociedade em geral e com a escola. Dessa forma, a produção historiográfica voltou-se para dentro da academia, ou seja, tem sido feita de historiadores para historiadores. No entanto, se os resultados dessa produção e a reflexão gerada por eles não chegarem até a sociedade, não há razão para sua existência.
Dessa forma, acredito que este redirecionamento que se inicia, aproximando o texto historiográfico do texto literário, muito tem a contribuir para a produção do conhecimento histórico. No entanto, vemos ainda a Academia cobrar da sociedade acadêmica um falso distanciamento científico, que ainda lhe confere status e lhe dá poder, mas não se aproxima nem se relaciona com a comunidade em geral (não acadêmica).
ARISTÓTELES. A Poética Clássica . 7ªed . São Paulo: Cultrix, 1987 .
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso . 7ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2001.
VEYNE, Paul. Acreditavam os gregos em seus mitos? Lisboa : Edições 70, 1987.
BENJAMIN . Magia e Técnica, Arte e Política : ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. Capítulo: Sobre o conceito de história. p.223-232.
Roger Chartier. A Beira da Falésia : a história entre certezas e inquietude. 2002.
KRAMER, Lloyd S. Literatura, crítica e imaginação histórica: o desafio literário de Hayden White e Dominick Lacapra. In: HUNT, Lynn . A Nova História Cultural . 1ª reimpressão. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p. 131-173.
WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura . São Paulo: Ed. da USP, 1994. (Ensaios de Cultura, vol. 6)
FINLEY, M.I. História Antiga: testemunhos e modelos . Martins Fontes: São Paulo, 1994. Especialmente capítulo IV: "Como realmente aconteceu". p. 64-88.
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