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A produção do símbolo "Cruzeiro do Sul" na Carta do Mestre João
Antón Corbacho Quintela (UFG)
Os três documentos remetidos a Lisboa durante a escala na Ilha de Vera Cruz por tripulantes da esquadra de Pedro Álvares Cabral - a Carta de Pero Vaz de Caminha, a Carta do Mestre João e a Relação do Piloto Português Anônimo - foram incorporados aos leitmotiven dos debates que, desde meados do séc. XIX, surgiram no seio da historiografia literária a respeito do sentido e do lugar outorgáveis às experiências pessoais, às impressões sobre a natureza e o aborígene e às presumíveis visões do paraíso contidas nas crônicas dos descobridores e dos primeiros colonizadores. Nas obras quinhentistas acerca do Brasil, elaboradas com o objetivo de transmitir à cosmovisão européia os traços geográfico-antropológicos de um mundo novo, os intelectuais românticos que perscrutaram os textos localizaram recorrências temáticas e culturais que inseriram no processo de construção da nacionalidade brasileira iniciado após a consolidação do Império. No entanto, o caráter de narrações de viagem inerente aos três documentos aludidos obrigava a refletir acerca da pertinência da sua incorporação ao corpus dos produtos literários fundadores da identidade do Estado Nação. Um empecilho que socavava a ilusão de alicerçar na épica da descoberta a fundação dos campos sociais do Brasil residia na particularidade de que o destino da armada portuguesa que fundeara aos 22 de abril de 1500 nas costas da Terra de Santa Cruz era Calcutá, fato pelo qual o repouso na escala que posteriormente seria magnificada com o título de "achamento" do Brasil fora considerado pelos sujeitos da expedição como um rito de passagem na rota das riquezas do Oriente. De todas as formas, os documentos que expõem o acontecido durante a estada no Porto Seguro constituem o testemunho inaugural da transmissão do Brasil para a cultura ocidental ao exibirem os mecanismos de identificação e a apropriação simbólica do desconhecido mediante alguns procedimentos concretos, como foram a fixação de uma denominação para o território descoberto - Ilha de Vera Cruz, o batismo de um monte - o Monte Paschoal, a celebração dos ritos da fé - a Primeira Missa - e a descrição de uma constelação - o Cruzeiro do Sul.
Desde o Romantismo, a partir do Resumo da história literária do Brasil - a poética propedêutica de Ferdinand Denis que inaugurou o debate a respeito da relação entre literatura e nação no Brasil, nas "histórias da literatura brasileira" encontram-se os discursos que, articulados sobre diversos pressupostos ideológicos e guiados por variadas táticas argumentativas, visaram construir e instituir projetos de formação de nacionalidade com base no campo cultural estruturado no Brasil durante a época colonial. Nesse sentido, os críticos, historiadores e historiógrafos que assumiram a tarefa de reconhecer as primeiras nuanças caracterizadoras do sistema literário brasileiro tenderam a assentar os alicerces da nacionalidade literária, tanto no processo de formação de uma pretensa identidade forjada através do compartilhamento de tradições, quanto em diferenciais lingüísticos e em referências a fenômenos socioculturais aparentemente exclusivos que proporcionaram coesão ao território. Destarte, com vistas a entrelaçar a literatura do Brasil emancipado com os supostos precursores da concepção da "consciência nacional", esses autores acionaram a inclusão, no âmbito canonizado da produção literária brasileira, da narrativa de viagem e da prosa dos cronistas dos períodos pré-colonial e colonial em que cabia localizar indícios ou prenúncios de autonomia nas letras. Ao longo do processo diacrônico da crítica, foi conformado um campo de lutas cujas principais finalidades eram delimitar o espaço que ocupariam os repertórios de elementos locais, especificar as transferências que tinham sido realizadas de outras literaturas e fixar os autores e as obras susceptíveis de serem qualificados como elementos motrizes do "gênio" nacional.
Assim se tratando, para os historiadores tornou-se necessário analisar os três documentos referidos e ponderar a posição que eles poderiam ocupar no vasto quadro das narrativas de viagem. Partia-se da aceitação da premissa de que os textos quinhentistas conteriam considerável interesse histórico mas estariam invalidados para a sua inclusão na história literária caso as observações, ora objetivas e pragmáticas, ora ingênuas e simpáticas, contidas na prosa dos livros de bordo ou das cartas-diários, não refletissem curiosidade científica e gosto e cultura literários. Expuseram-se, consequentemente, opiniões divergentes no tocante às origens da literatura brasileira. Na atualidade, a controvérsia na crítica ainda não foi totalmente encerrada, de tal forma que para alguns autores os primeiros textos do séc. XVI não são propriamente literários, senão textos de informação que pertencem à pura crônica histórica. Em fins do séc. XIX, Sílvio Romero 1 (1960: 346) expusera que as necessidades materiais absorveram totalmente a energia da exígua população do período quinhentista fazendo com que durante quase todo o primeiro século da descoberta e conquista não se produzisse literatura. Por conseguinte, Romero acreditava que o período de formação da literatura nacional se iniciara em 1592, data suposta da 1ª edição de Prosopopéia , de Bento Teixeira Pinto. Ainda em fins do séc. XIX, Oliveira Lima 2 (1984: 87) credita que o séc. XVI foi pouco menos que nulo para a literatura brasileira, compartilhando o juízo de Sílvio Romero no sentido de apreciar Bento Teixeira Pinto, junto a Gabriel Soares, como primeiros escritores. Já no início do séc. XX, José Veríssimo 3 continua negando qualquer valor estético aos textos quinhentistas de informação. Posteriormente, no entanto, Castello 4 (1999: 51) e Moisés 5 (2000: 15) colocaram que a história da literatura brasileira começara, sem lugar a dúvidas, em 1500, com a Carta de Caminha. Castello expôs que os documentos quinhentistas possuem, além do valor informativo da crônica histórica a respeito do primeiro contato do homem ocidental com a terra brasileira, um interesse obliquamente estético pois forneceram sugestões temáticas e formais ao redor do nativismo e do indigenismo nas quais a intelligentsia brasileira - do romantismo ao modernismo - procurou imagens para afirmar e legitimar a sua distinção em face do estrangeiro. Na Carta de Caminha, foram reconhecidos a observação espontânea da paisagem, a mitificação da visão do paraíso, as impressões simpáticas sobre o autóctone, o lirismo espontâneo e o humor rude e, inclusive, o valor lingüístico ao tentar exprimir na língua portuguesa a descrição de um mundo que era oposto ao universo de onde provinha o descobridor. Contudo, para Bosi 6 (1994: 13) a visão do mundo e a linguagem legadas pelos textos de informação contidos nas crônicas da descoberta careciam do fenômeno da "palavra-arte" apesar do que constituíram a pré-história das letras brasileiras.
Da parte portuguesa, na década de 1940, o historiador Jaime Cortesão 7 (1994: 15) censurava que a Carta de Caminha só tivesse sido olhada como texto singular da história e da geografia do Brasil, salientando a necessidade de compreensão da obra como peça literária devido ao fato do escrivão haver composto essa narrativa de viagem, tanto no cumprimento de um dever, quanto também com uma disposição especial motivada pelo seu interesse particular e o seu talento natural. Eis a razão, segundo Cortesão (1994: 18), da Carta de Caminha ter sido inserida no processo de formação de uma cultura nova universalista, de base experimental e tendência crítica, superadora da cultura prévia, estritamente ocidental, fundada sobre a erudição clássica que cingia ao dogmatismo das fontes antigas o pensamento e a expressão artística, tornando-os esterilizadores e regressivos.
Após transcorrido um século de emissão de pareceres detalhados sobre a natureza da Carta de Caminha, consolidou-se uma imagem elaborada retrospectivamente através de uma exegese do documento que foi apagando a historicidade dos eventos do Brasil pré-colonial passando a destacar, paralelamente, a funcionalidade literária contida na observação da paisagem edênica do trópico, na estranheza perante a nudez juvenil mostrada com amoralidade e na cordialidade das relações humanas. Recentemente, Maria Aparecida Ribeiro (2003: 9) visou concluir essa polêmica hermenêutica constatando que a Carta de Caminha, pela sua qualidade literária superior à dos outros dois textos conhecidos sobre a chegada dos portugueses ao Brasil - o do Mestre João e o do Piloto Anônimo - inaugurou, embora inconscientemente, um tópico das literaturas e das artes visuais portuguesa e brasileira. A inserção da Carta no repertório de motivos geradores da pintura brasileira, a partir da composição de Vítor Meirelles de Lima Primeira Missa no Brasil , e no âmbito das representações da poesia, com os versos de "Vera Cruz" de Guilherme de Almeida, abriram a cerimônia da canonização da Carta transformando-a em um clássico que ocupa o centro do sistema cultural do Brasil. Na atualidade, com base em juízos sobre a função estética e em valorizações sobre as estruturas literárias, poder-se-á questionar a conveniência de iniciar os estudos da literatura nacional a partir da Carta ou se, em cotejo com a historicidade dos eventos durante a escala da esquadra, é adequado e congruente interpretar que a visão inaugural do Brasil é uma visão do paraíso. Todavia, a recepção do comunicado da Carta ao longo do séc. XX pelos campos culturais do Brasil e as conseqüentes representações elaboradas impediram pôr em dúvida a transcendência do documento para a criação da identidade nacional e a sua pertença ao polissistema da literatura.
Em comparação com a Carta de Caminha, a Carta do Mestre João, exumada por Varnhagen 8 e divulgada pela primeira vez no Brasil em 1843, tem-se apresentado como um documento inútil, quando não incômodo, para o labor historiográfico preocupado em proporcionar coesão à produção literária do Brasil. Tanto a carta de Caminha quanto a do Mestre João foram datadas no 1º de maio de 1500, ambas foram escritas no Brasil relatando exclusivamente acontecimentos relativos à permanência da esquadra na Vera Cruz e em ambas percebe-se a ausência de comunicação verbal com os indígenas. Essas cartas são os remanescentes do conjunto de 30 documentos que, relatando ao rei D. Manoel o "achamento" do Brasil, fora enviado ao monarca, após 10 dias de estada em Porto Seguro, em um navio esvaziado de mantimentos sob o comando de Gaspar de Lemos. Mas, se a fluência e o detalhismo na descrição de terras e gentes da Carta de Caminha acabaram por converter esse documento no "diploma natalício lavrado à beira do berço de uma nacionalidade futura" (Abreu, 1999: 150) 9, o teor científico e informativo da Carta do Mestre João fez com que, a priori , o mais valioso dessa sumária correspondência - duas laudas de extensão - tenha sido o uso dado às suas observações astronômicas e cartográficas para a apologia da tese da intencionalidade na chegada ao Brasil.
Em conseqüência disso, a "certidão de batismo" da Terra de Santa Cruz pode ser analisada considerando o texto como um documento literário em si mesmo e, além do mais, como um elemento do repertório literário, pictórico, musical e cinematográfico brasileiro possuidor de uma ampla acolhida através do tempo. Frente a isso, só com uma provocativa vontade hiperbólica poder-se-ia considerar que, enquanto Vaz de Caminha descrevia a terra e seus habitantes, Mestre João narrava a aparência do céu austral e de suas estrelas, com o qual a instauração do domínio português no Brasil teria acontecido por meio da posse do solo e dos astros. Para a historiadora Patricia Seed 10 (1999: 144-45) a conduta cerimonial adotada pelo Mestre João ao contemplar o firmamento do litoral brasileiro e ao calcular as medidas exatas dos pontos onde estavam as estrelas no céu deve ser interpretada como um ato de reivindicação da monarquia portuguesa em relação ao Novo Mundo.
Pode ser entendida a brevidade do documento do Mestre João ao reparar em que no momento de redigir a Carta ele estava doente, tinha uma perna "mui mala que de una cosadura se me há hecho una chaga mayor que la palma de la mano" (Simões, 1999: 149) 11 o que o impediu de contatar os nativos e de observar e descrever as particularidades da terra. Durante a maior parte do tempo em que a esquadra esteve ancorada em Porto Seguro, Mestre João teve que permanecer, devido à ferida, desconfortavelmente trancado a bordo de um navio "mucho pequeño e muy cargado que non ay lugar pera cosa ninguna" (Simões, 1999: 149). Contudo, na Carta encontra-se a primeira observação realizada no Brasil do grupo cruciforme de estrelas conhecidas hoje como Cruzeiro do Sul, constelação que figura como emblema em alguns dos símbolos republicanos brasileiros - armas, escudo e bandeira. Por outro lado, por essa Carta infere-se que desde Lisboa os pilotos de todos os navios mediram a latitude, quer com o astrolábio, quer com as tábuas da Índia para contrastar a eficácia dos dois instrumentos, o qual significa que eles tinham consciência do seu afastamento progressivo para o Oeste. Além disso, o uso dos instrumentos astronômicos da arte de navegar demonstra como os portugueses detinham o que de mais avançado se sabia no tempo da ciência náutica. Nesse sentido, o próprio Mestre João, quando desceu a terra, em 27 de abril, armou na praia um grande astrolábio de pau e, com ele tomou a altura do sol do meio-dia para determinar a latitude, registrada como de 17 graus austrais. De fato, a baía de Cabrália se localiza a 16º 21' 22' de latitude sul. Essas informações foram o eixo utilizado por Joaquim Norberto de Sousa Silva 12 ao lançar em 1854 (Silva, 1854: 125-209), mediante um artigo publicado na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a tese da intencionalidade da descoberta de Cabral. A Carta de Mestre João tornou-se também atrativa porque, em determinado trecho, o autor sugere ao rei: "mande vosa alteza traer un napamundi que tiene pero vaaz Bisagudo e por ay podrra ver vosa alteza el sytyo desta terra" (Simões, 1999: 149). Esse fragmento foi utilizado como "indício" de que havia conhecimento a respeito do Brasil antes da chegada de Cabral.
Foi Francisco de Souza Viterbo (1988: 285) 13 quem, a finais do séc. XIX, revisou a biografia do Mestre João, conjeturando que o médico-astrônomo e piloto-chefe da esquadra de Cabral era João Faras, natural da Galiza, bacharel em artes e medicina e cirurgião do rei D. Manuel. Além disso, identificou Mestre João com o tradutor ao espanhol - a um espanhol aportuguesado - do manual clássico de geografia e cosmografia antigas (séc. I) intitulado De Situ Orbis , de Pompônio Mela. Na década de 1930, William Greenlee 14 (1938 :125) apresentou a hipótese de Mestre João ter sido um judeu converso pois, caso contrário, teria sido natural que figurasse na capitânia ou na nau de Sancho de Tovar, também espanhol, e não em um dos três navios pequenos da esquadra. A suposição de que Mestre João fosse um judeu que se havia convertido ao cristianismo para poder ficar em Portugal é também mantida por Patricia Seed (1999: 147) quem, por sua vez, frisa que o tom íntimo da Carta ao revelar os resultados dos experimentos científicos indica a familiaridade que deviam ter o astrônomo e o monarca.
O grande detrator da transcendência da Carta do Mestre João foi Marcondes de Souza 15 (1956: 181-88). Baseando-se em um estudo de Eurico Góes , o historiador brasileiro acusou os historiadores portugueses de emprestar excessiva importância à carta para a defesa da tese da descoberta intencional do Brasil por Cabral e para exaltar os avanços na astronomia náutica aplicada à navegação nos mares do hemisfério austral. Em primeiro lugar, Marcondes de Souza alegava que fora o navegante veneziano Alvise de Cadamosto quem, em 1455, já descrevera o Cruzeiro do Sul nos céus setentrionais ao longo das costas da África. Marcondes de Souza assevera também que Mestre João não se referiu nem uma vez só à Cruz do Sul, ou ao Cruzeiro do Sul, ou, simplesmente, ao Cruzeiro, porque no texto a denominação empregada é "estrellas de la crus". Com isso Marcondes negava que João Faras pretendesse aplicar uma designação especial para a constelação. Além do mais, Marcondes opinava que quase nada se podia aproveitar da Carta e que Mestre João devia ser um velho enfermo, secante, e alucinado de quem D. Manuel prescindira, incorporando-o entre os tripulantes da frota de Cabral, por julgá-lo sem mais condições para exercer a profissão de médico da corte. Nesse sentido, o jornalista Eduardo Bueno 16 (1998: 104), reparando na chaga que, mesmo sendo médico, contraíra o Mestre João, aprecia, escatologicamente, que a ferida era um provável sinal elucidativo do desleixo do Mestre João com a higiene pessoal.
Contudo, o motivo principal das dificuldades para assumir a Carta como o documento em que se descreve por primeira vez o símbolo nacional "Cruzeiro do Sul" radica na peculiaridade de que a língua usada para a redação fosse o espanhol embora haja alguns vocábulos portugueses. Apesar de que na fortuna crítica da Carta predomine o critério de que o documento está redigido em um português com indícios de castelhano, se fosse submetido o texto manuscrito original a uma leitura paleográfica, a análise filológica faria aparecer um código lingüístico que, a pesar da interferência lexical do português, se corresponde com os padrões do castelhano dos finais do séc. XV.
O perfil do Mestre João nunca foi explorado nem pelos imigrantes galegos nem pelas instituições espanholas instaladas no Brasil. Surpreende que a Carta do Mestre João não tenha sido reivindicada pelos coletivos de imigrantes como possível primeiro contributo do volkgeist galego à forja da idiossincrasia brasileira. Essa ausência surpreende, sobretudo, ao constatar que a preocupação pela fixação de alicerces sobre os quais construir a épica da intervenção galega no Brasil fez parte das estratégias desenhadas com vistas a reivindicar o notável papel da participação galega na construção da identidade nacional. A língua espanhola utilizada na Carta , o serviço prestado a Portugal por um galego que, em princípio, deveria servir ao rei castelhano em vez de ao monarca português e o caráter científico da prosa continuam incidindo para que o documento ofereça muitas dificuldades e poucos rendimentos caso se procure a sua inserção em um sistema cultural.
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As citações da Carta do Mestre João são tomadas da leitura paleográfica feita por Henrique Campos Simões do texto original manuscrito [SIMÕES, Henrique Campos; As cartas do Brasil ; Editus; Ilhéus; 200pp. 1999.]
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