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Um maluco beleza nas margens do imaginário - ficção e loucura na obra de Raul Seixas.
Paulo Roberto Luna de Almeida (UERJ)
Na música "Metamorfose ambulante", Raul Seixas se define como "ator" e não como um cantor ou poeta e, assim, abre possibilidade para um jogo lúdico que é a utilização de múltiplas personagens que se deslocam, metamorficamente, dialogando, através da música, com outras formas artísticas e áreas do conhecimento como o teatro, a filosofia, a psicanálise e a história.
Em sua performance de ator-cantor, podemos mapear cinco personagens principais que se revezam na interpretação de sua obra: O louco; o profeta; o filósofo; o cantor romântico-brega e o roqueiro. É através dessas personagens que se vai desdobrando seu texto poético-musical. Assim, longe de ser o cantor romântico, como Roberto Carlos, o roqueiro eterno como Erasmo Carlos, o intelectual da música como Caetano Veloso, o brega maior como Reginaldo Rossi ou o cantor da voz minimalista como João Gilberto, Raul plaina por diferentes horizontes.
Na figura do profeta, renuncia às verdades e se coloca em conflito com os valores sociais estabelecidos, como roqueiro, se transveste de Elvis Presley brasileiro e faz dialogar as guitarras com o mais sertanejo baião e diz, em canções como "Let me sing" que "Não quero ser o dono da verdade/Pois o Messias ainda não chegou " . Enquanto filósofo anuncia a dúvida " Não me pergunte porque/ Quem-Como-Onde-Qual / Quando-O quê ?".
É a personagem do louco, entretanto, que vai emblematizar e, de certa forma, sintetizar sua proposta estética. Sendo o louco visto em nossa sociedade como o diferente, o que está fora, o não enquadrado, o que está à margem da normalidade, isso faz com que a personagem que encarna a loucura possa romper os limites do convencional e, dessa forma, enunciar e proferir sentenças que, descartadas como insanas, numa primeira avaliação, guardam, em sua ambigüidade, as possibilidades do questionamento, da dúvida e da incerteza.
Ao longo da história da humanidade, muitas vezes o estigma da loucura foi utilizado para silenciar vozes discordantes do campo político ou religioso dominante, uma vez que o afastamento, aprisionamento ou mesmo extermínio do opositor sob a alegação de loucura, é, ao mesmo tempo, uma forma de inviabilizar o discurso proferido. O perseguido fica restrito a ser perseguido, não pelos valores ou idéias que expressa, mas por ser louco. A personagem símbolo e emblema da atuação de Raul enquanto ator/cantor/personagem é a do "Maluco beleza", que afirma " Enquanto você se esforça/ para ser um sujeito norma / E fazer tudo igual / Eu do meu lado aprendendo / a ser louco / Maluco total / Na loucura rea/Controlando a minha maluquez/Misturada com minha lucidez.
Ser um "Maluco beleza" seria encarnar uma postura nova diante da vida e da sociedade e suas convenções e limitações, que impõem, a todos, o mesmo tipo de comportamento e de pensamento, levando, assim, a que se considere como louco os diferentes e inadaptados. A partir dessa música, Raul passou a ser conhecido como o "Maluco beleza" e vai se confundir também com a figura do profeta, como aquele que profere as verdades místicas e ocultas. Essa loucura, no entanto, não é loucura patológica e clinicamente tratável, mas a loucura ensejada ficcionalmente, enquanto papel assumido pelo ator-cantor.
Raul Seixas tinha uma visão particular sobre o ser um ator. No livro "O baú do Raul", publicado em 1992, há um texto intitulado "A Philips", destinado à sua então gravadora no qual se lê:
" O fato de ser um ator da vida me facilita atuar fazendo papel do metafísico, do professor de inglês etc., quando na verdade ser ator é ser o próprio autor e expressar tudo o que é, no tempo e no espaço".
Somente os loucos podem, na sociedade tecnológica e tecnocrática, proferir verdades-metáforas, sem que lhes sejam cobrados pressupostos que garantam a veracidade da verdade proferida. No mundo da verdade científica não há lugar para profecias ou visões místicas, pois tudo deve ser explicado pela ciência. A mesma ciência que é por Raul ridicularizada na música "Todo mundo explica" quando diz que a ciência, além do carimbo positivo que aprova e classifica, tem lápis de calcular e borracha para depois apagar os constantes erros e equívocos.
Na obra de Raul Seixas, a metáfora da metáfora se desdobra na performance do ator que, em constante mutação, se desloca de qualquer noção de estar no centro, ou de estar proferindo verdades, ou de estar ocupando o lugar esperado para o artista da música popular, pois para ele, a metamorfose, sendo constante, impede a emissão da verdade em seu sentido científico e, o que se revela é logo metamorfoseado em outra metáfora:
" Quero dizer agora o oposto do eu
disse antes
prefiro ser essa metamorfose ambulante
do que ter aquela velha opinião formada
sobre tudo".
Numa de suas entrevistas, Raul afirmou: "Eu sou tão bom ator que finjo que sou cantor e compositor e todo mundo acredita". Nessa perspectiva, sua obra vai se descortinando, a partir dos papéis que vai assumindo. Na figura de ator, que encarna o louco e o profeta, enuncia um discurso que vai acabar por ser visto como um filho bastardo que vaga nas vizinhanças da literatura e da própria música popular, olhado por muitos com desconfiança: "Eu sou um moleque maravilhoso/ No certo sentido mais perigoso/ Moleque da rua, moleque do mundo, moleque do espaço (...)/ Nesta vizinhança sou filho bastardo."
Será com essa postura que Raul se colocará no cenário artístico das décadas de 1970 e 1980, controlando sua maluquez misturada com sua lucidez e emitindo, através das figuras ambíguas do louco e do profeta, as metáforas de quem contempla o vazio e faz da contemplação desse vazio a matéria de sua música e de sua poesia, conforme afirma em "Eu sou egoísta":
"Eu sou estrela do abismo do espaço
O que eu quero é o que eu penso e o que faço (...)
Eu vou sempre avante no nada infinito
Flamejando meu rock, meu grito
Minha espada é a guitarra na mão"
Temos aqui a configuração do profeta que, ao invés de um cajado, tem uma guitarra em sua mão e, dela, os sons distorcidos embalam versos, que anunciam a perplexidade e a falta de um rumo definido dando as costas ao que o convencional da sociedade de consumo. E propõe que:
"É tudo mentira
Quem vai nessa pira
Atrás do tesouro
Pra viver bem".
Contrastando com a eterna euforia de quem acredita que consumir indefinidamente leva a uma felicidade sem fim, onde morte e caos não estão presentes, seu discurso tornava-se profundamente incomodativo e paradoxal. Raul Seixas foi o contestador por excelência, o porta-voz do indivíduo não ajustado aos valores sociais vigentes, tornando-se uma espécie de ícone da contra-cultura no Brasil. Apresentou-se como um desajustado e desenquadrado aos valores dessa sociedade de consumo, batendo-se contra ela. E, aqui, observamos o paradoxo dessa postura, uma vez que sendo ele um artista da música popular cuja obra é colocada à venda no mercado e cuja própria sobrevivência, enquanto artista vinculado à indústria cultural, depende da vendagem de seus discos, seu discurso contestador voltou-se, de certa forma, contra ele mesmo, pois ao desqualificar e deslegitimizar a sociedade de consumo na qual seus discos eram vendidos, colocou no horizonte imediato a cessação de seu próprio discurso. Porém, como um jogador, vai fazer escaramuças constantes com o sistema, conforme afirma em "As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor":
"A arapuca está armada
E num adiante de fora protestar
Quando se quer entrar num
Buraco de rato
De rato você tem que transar".
O que possibilita tal postura é o papel do louco vivido por esse artista, podendo, dessa forma, emitir um discurso que fica na difusa fronteira entre realidade e ficção, somente possível através da arte ou da loucura. A arte e a loucura, em seu desmedimento, possibilitam a transposição das fronteiras e das margens de tal forma que não se possa mais distinguir a realidade da ficção.
Caminhando nessas imprecisas fronteiras, a personagem Raul Seixas vai se multifacetar e explorar as possibilidades abertas nesse jogo lúdico. Como roqueiro, sua obra vai se afastar dos paradigmas vigentes desde os primórdios desse gênero no Brasil, iniciado com Celly Campelo e cuja explosão de sucesso se deu na jovem guarda, calcada nas baladas de cunho amoroso e nas aventuras de namoros juvenis. Nesse quadro, Raul Seixas vai introduzir outras maneiras de enunciar o discurso roqueiro flertando constantemente com a filosofia existencialista, conforme pode se ver em "Óculo escuros":
"Quem não tem colírio/Usa óculos escuros
Quem não tem filé/Come pão e osso duro
Quem não tem visão/Bate a cara contra o muro".
Na citação implícita de Sartre, "há um muro entre mim e a liberdade", o roqueiro se metamorfoseia de filósofo e sempre num jogo de ser e não ser, inventa de ser isso e aquilo, mas nunca de uma maneira totalizadora e definitiva, pois há sempre uma quebra que desloca a verdade e inaugura muitas vezes o non sense e o inesperado. Em "Rock'n'roll", o roqueiro e o doente se confundem:
"Há muito tempo atrás na velha Bahia
Eu imitava Litte Richard e me contorcia
As pessoas se afastavam pensando que eu tava tendo
Um ataque de epilepsia".
Entre a contorção da dança e o ataque de epilepsia, entre criação artística e abalo patológico, entre a poesia e a loucura, a obra de Raul Seixas se localiza no espaço do ficcional. Performaticamente, sua dança que parece doença, ataque epilético ou coisa que o valha, é uma encenação que deixa no público a incerteza entre a loucura e a criação artística. A vida do cidadão Raul Varelas Seixas é ponteada de situações em que o rótulo patológico de loucura lhe coube, para muitos, como luva perfeita. Já o poeta, profeta, visionário, anarquista, escritor, Raul Seixas, criava-se a si mesmo de outra forma e apresentava de outra forma a loucura:
"Não há mais retorno
Uns há que ficam, são tantos,
Quero a mão dos que prosseguem
Quero a certeza dos loucos que brilham
Pois se o louco persistir na sua loucura
Acabará sábio."
A loucura é por ele apresentada como fonte da sabedoria e de iluminação, comparada a um estado de êxtase religioso conforme o formulado pelas religiões orientais. O louco é aquele que, ao contrário dos muitos, a maioria que caminha de cabeça baixa seguindo o rumo da correnteza e com correntes nos pés, caminha com a certeza de seu caminhar e de sua busca, de sua procura. Os loucos seriam os portadores de uma certeza que incandesce e transcende a falta de visão e de sabedoria. Em constante pulsão, a palavra, o gesto, a imagem, o canto, se misturam e mais que retratar uma realidade, se confronta com a realidade ficcionalmente.
No LP "Eu nasci há dez mil anos atrás", Raul Seixas aparece na capa do disco vestido de longas roupas brancas e de vasta cabeleira e barbas também totalmente brancas reproduzindo a imagem do profeta divulgada na cultura ocidental. O profeta nascido há dez mil anos atrás, muito antes do surgimento das primeiras civilizações e das primeiras rotulações tecno-cientificas, antes do nascimento da literatura e da divisão das disciplinas, vagando por imagens multifacetadas e fragmentadas da História, indaga:
"Eu fui testemunha do amor de Rapunzel
Eu vi a estrela de Davi brilhar no céu
E pr'aquele que provar que eu estou mentindo
Eu tiro o meu chapéu"
Entre a verdade e a ficção, quem poderia apresentar a versão insofismável e definitiva, se a própria civilização ocidental " se tornou tão complicada e frágil, como um computador"? Entre as verdades da História e as mentiras da ficção quem poderia estabelecer com nitidez absoluta a mais insofismável fronteira? Falando aparentemente de uma história e de uma vivência reais, o poeta vaga por outras margens.
Questionar valores e posturas, buscando um significado mais real para a vida, numa visão existencialista. A loucura, nesse aspecto, não é a loucura moderna, mas a loucura em seu aspecto clássico, de transcendência, de êxtase místico e de revelação. Essa loucura, portanto, permite ao poeta ver mais e mais profundamente, observando detalhes da realidade cotidiana que fogem à percepção dos chamados "sãos" e comuns que caminham de cabeça baixa, como um gado que segue no rumo do nada. E é contra esse comportamento atordoado e repetitivo, sem criatividade e sem luz que se insurge a louca palavra do poeta.
"A loucura tornou-se, no homem, a possibilidade de abolir o homem e o mundo - e mesmo essas imagens que recusam o mundo e deformam o homem. Ela é, bem abaixo do sonho, bem abaixo do pesadelo da bestialidade, o último recurso: o fim e o começo de tudo. Não que ela seja uma promessa, como no lirismo alemão, mas porque ela é o equívoco do caos e do apocalipse: o idiota que grita e torce os ombros para escapar ao nada que o aprisiona é o nascimento do primeiro homem e seu primeiro movimento na direção da liberdade, ou o último sobressalto do último moribundo?" 1
Essa dualidade entre liberdade e sobressalto de um moribundo, entre criação e destruição, entre caos e luz, entre vida e morte é que torna a loucura um fenômeno assustador e ao mesmo tempo intrigante e atraente. Se, nas sociedades antigas, o louco podia ser visto como mensageiro dos deuses, como aquele que teria capacidade de desvendar os mistérios dos desígnios divinos, nos tempos modernos, de alta tecnologia e alta produtividade, onde os deuses são feitos de aço e eletricidade e a padronização de costumes e comportamentos impõe padrões a serem seguidos, a loucura é um desafio.
Raul Seixas, em sua obra poético-musical fez da loucura um paradoxo encarnando uma personagem que, ao mesmo tempo era sábio e profeta, que emitia questionamentos constantes, visões e profecias desdobradas em letras carregadas de nonsense. Entre o cantor popular de sucesso e o profeta do caos anuncia não as benesses prometidas pela sociedade de consumo, mas sim a confusão e o caos do abismo infinito, como em "As profecias":
" O anjo surgindo do mar/ Os selos de fogo, o eclipse/ Os símbolos do Apocalipse/ A fuga geral dos ciganos/ Os séculos de Nostradamus/ E está em qualquer profecia /Que o mundo se acaba um dia."
Colocações desse tipo contrastam com a eterna euforia dos que acreditam que consumir indefinidamente leva a uma felicidade sem fim, onde morte e caos não estão presentes. Anunciar um fim que está próximo, significa negar o happy end das telas de tv e dos cinemas e da própria maioria das músicas populares, mesmo daquelas que enfatizam as desilusões amorosas, mas deixam sempre a possibilidade para um novo amor onde a felicidade enfim estaria presente.
A arte flerta com o sonho e assim o poeta e o louco se confundem. O desafio é manter-se no limite possível de se saber, pelo menos de forma aparente, onde começa a obra e onde termina a loucura ou vice-versa. Mas haverá realmente um parâmetro definido e definitivo para determinadas avaliações? Como afirma Michel Foucault em sua "História da loucura":
"Só há loucura como instante último da obra - esta a empurra indefinidamente para seus confins; ali onde há obra, não há loucura; e no entanto a loucura é contemporânea da obra, dado que ela inaugura o tempo de sua verdade. No instante em que, juntas, nascem e se realizam a obra e a loucura, tem-se o começo do tempo em que o mundo se vê determinado por essa obra e responsável por aquilo que existe diante dela.
Artifício e novo triunfo da loucura: esse mundo que acredita avalia-la, justifica-la através da psicologia, deve justificar-se diante dela, uma vez que em seu esforço e em seus debates ele se mede por obras desmedidas como a Nietzsche, de Van Gogh, de Artaud. E nele não há nada, especialmente aquilo que ele pode conhecer, capaz de assegurar-lhe que essas obras da loucura o justificam". 2
Mas, e quem é o outro? Quem é o louco? A realidade não se revela enquanto totalidade, mas sim, enquanto ficção e cada ficção, perante o olho humano, é um universo. O louco só é louco se sua verdade é colocada em contraste com outras. Entre o cantor popular que canta sua terra, seus costumes ou expressa seu eu lírico, Raul Seixas vagou pelo terreno do ficcional e fez da loucura mais do que uma patologia, uma possibilidade de criação.
FOUCOULT, Michel . O círculo antropológico. In: História da loucura . São Paulo: Perspectiva, 1978. Pág. 524.
FOUCOULT, Michel. O círculo antropológico. In: História da loucura . São Paulo: Perspectiva, 1978, pág.530.