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Literatura popular: cantando e encantando
Maria Lindamir de Aguiar Barros (UFSC)
" somente palavras que andam, passando de boca em boca, lendas e cantos, no âmbito de um país, mantêm vivo o povo." 1
Algumas das propostas das quais me servi durante a pesquisa de campo e posteriormente estão calcadas na análise dos versos, na história oral local, no registro das entrevistas, auditivo ou audiovisual, na transcrição, na interação da pesquisadora com o pesquisado, na publicação e no arquivamento do material coletado. Meus registros foram feitos com gravações, vídeos e fotos. Após a pesquisa de campo e da coleta de dados, meus registros foram feitos através da observação e de depoimentos.
Foi através da pesquisa de campo e das entrevistas que percebi o quanto à memória é imprescindível para a criação e recriação dessas manifestações, ela faz parte de uma herança cultural. É possível perceber que, apesar das transformações das últimas décadas, em Barra Velha 2 e região se mantêm vivos vários elementos culturais que são recorrentes da memória, não de uma memória estática, de um arquivo cerrado, mas da memória como um agente do presente, trazendo a baila algum acontecimento do passado, transformando-o e reinventando-o. O repente barravelhense é puramente oral e improvisado, muitas vezes caracterizando uma disputa de versos, na qual os aplausos e as manifestações feitas pela recepção é que são os indicadores da audiência. O ritmo, a experiência e a habilidade dos repentistas são transmitidos de uma forma tão importante que se torna memória coletiva, persiste em virtude da oralidade, de modo imediato que a voz se faz presente e mostra de que forma o homem se localiza no mundo e em inclusão em outro. O repente e o pasquim são o resultado de muitas vozes da cultura que se misturam, entrecruzam e se decifram. Uma cultura que se edifica no diálogo entre outras culturas, que se recompõe e se transforma a partir desse diálogo, respeitando as especificidades.
Os repentes exigem performances que habitualmente personificam os personagens através da mudança de postura ou de algum gesto específico, do uso de vozes diferenciadas, com alterações dramáticas no tom, no volume e na forma de utilização do vocabulário local. A performance do repentista pode ser vista como um meio de comunicação verbal, que consiste na espontaneidade, para uma recepção, por meio da manifestação de sua capacidade comunicativa, e esta tem suporte no conhecimento e na habilidade que ele possui para cantar publicamente. Quanto mais habilidade de versejar, mais intensa a sua prática. O prazer proporcionado ao espectador depende de suas qualidades no ato da expressão. O cerne de um repentista ou trovador está na forma de ser, de agir no espaço, de movimentar, de gesticular e nos seus traços fisionômicos.
Investigou-se o contexto do local, do horário em que ocorrem as produções dos pasquins e como ocorre a leitura, a recepção e a performance . Nas entrevistas ficou comprovado que eles formam grupos e estes possuem os mesmos objetivos, e segundo eles tudo que escrevem é filmado, investigado e depois analisado, para iniciar a composição dos versos do pasquim. Apesar de ser anônimo há pessoas na comunidade que reconhecem o estilo de cada pasquineiro através de determinadas palavras. A leitura do pasquim é realizada em qualquer dia, lugar e hora, mas sempre caracterizando algo secreto. A cada estrofe lida há comentários, risos e discussões. Através da leitura se percebe o prazer do leitor, o ritmo dos versos e a performance do narrador. A oralidade dos versos é percebida quando estamos no processo de recepção da obra, presenciando os gestos ou a performance do corpo, que também podem confirmar ou contestar os fatos. Os gestos, as diversas entonações da voz, o rico detalhamento de cada episódio versejado legitimam o sentido dos versos, provocam emoções e dão um ritmo de sátira e comicidade aos fatos. É a partir do momento em que se inicia a leitura dos versos do pasquim que se compreende que as fronteiras entre oralidade e escrita acabam sendo suplantadas.
2 - Leitura alternativa: pasquim
No primeiro momento da entrevista com o pasquineiro se estabeleceu uma forma de reconhecimento da pesquisadora com o pesquisado e com o objeto de pesquisa. Como o entrevistado já me conhecia - pelo fato de ser professora e da comunidade, firmou-se uma estrutura mais íntima entre ambos, o que facilitou a entrevista e deixou o entrevistado mais à vontade para o relato de suas produções. Esse jornal anônimo, o pasquim , circula em Barra Velha sempre que há algo inédito, principalmente quando se refere à política local, como podemos perceber nesses fragmentos de diversos pasquins coletados:
Nós somos jornalistas anônimos
Tudo temos que relatar
Até pequenas notícias
Como a história do celular
Esta aconteceu com o papa tudo
Na próxima ele não vai escapar
(...)
Nós somos jornalistas anônimos
Não perdoamos safadeza
Queremos que esta cidade cresça
Pelo bem das pessoas indefesas
Que estão sendo enganadas
Por alguns vereadores cheio de esperteza .
Aos poucos esse laço de amizade tornou-se mais intenso, e gradativamente acabei tornando-me cúmplice desse pasquineiro. Ele me trazia os manuscritos de sua produção para que eu os digitasse, imprimisse as cópias e depois as devolvesse para serem distribuídas pela cidade. Essa divulgação sempre foi feita por meios oblíquos e anônimos. 3Ele aparecia no final da tarde, ao anoitecer, estas folhas estavam sempre bem dobradas e escondidas. Quando me entregava, sempre dizia que ninguém poderia saber quem escreveu, e que eu não deveria jamais revelar quem era a digitadora, pois esses fatos poderiam trazer conseqüências graves, como um processo, perseguição, etc.
E dessa forma acabei assumindo o papel de cúmplice na produção do pasquim, o que gerou mais confiança e intimidade para com o pasquineiro, estabelecendo-se uma rede de amizade e de solidariedade. Essa palavra, rede, é apropriada para explicar como se estrutura esse grupo de pasquineiros, pois percebi que havia um grupo de sustentação que apoiava e ajudava o pasquineiro. Eles se reuniam e se ligavam entre si para compor o pasquim, expondo a temática, ou seja, os acontecimentos inéditos, geralmente ligados à política. Essa reunião de pessoas se assemelha a uma rede, caracterizando relações estreitas entre as pessoas, formando interconexões.
Eles têm os mesmos objetivos e pertencem ao mesmo partido político, esse referido grupo é o PMDB. Os partidos políticos de destaque em Barra velha são PPB/PFL e PMDB, os candidatos a prefeito são sempre os mesmos. O PT e o PSDB são minoria, até hoje nunca houve candidato a prefeito desses partidos. Na eleição passada, em 2000, elegeu-se um vereador do PSDB, o senhor juvenildo dos Santos, que é caso de polêmica na cidade, pois, segundo pessoas envolvidas na política local, este vereador tramou a cassação do prefeito Glauber Ziermann (PFL). Durante a pesquisa e, posteriormente, como observadora, o que ficou evidente é que o pasquim tem forte conotação política e que cada pasquineiro tem um partido político, uma ideologia, embora continuem anônimos, também não são remunerados, e o partido político que defendem também não os conhece, nem os reconhece, há somente suposições de quem poderia ser, mas não se têm como provar.
Com relação ao horário e ao local adequados dos encontros para se formular o pasquim, percebe-se que geralmente ocorre à noite, depois do trabalho. Segundo o depoimento do pasquineiro, eles se reúnem na casa de algum membro do grupo. No dia-a-dia esses pasquineiros e as pessoas que o compõem são cidadãos comuns, convivem na sociedade normalmente, estão inseridos no meio sócio-político, ora observando, ora escutando e gravando clandestinamente. É dessa maneira que eles tomam conhecimento dos fatos. Observe o que diz o pasquineiro: "nós temos um pessoal que grava tudo, são fatos reais que acontecem, depois na casa de um dos membros do grupo - nomes não são citados - nós analisamos e comentamos a investigação, a partir daí é que começo a composição do pasquim." 4Esse depoimento pode ser comprovado nos fragmentos abaixo:
Esta pessoa chamou nosso repórter
Para ver o acontecido
Atrás de uma janela
Os dois ficaram bem escondido
Para gravar tudo claro
Não fizeram nenhum ruído
Fragmento de outro pasquim:
Nisto pulou o Catito 5
Luzia não fale assim
Tu não tá vendo quem tá aí
A reportagem do pasquim
Estes bicho são perigoso
Depois sobra também para mim
Estrofe de outro pasquim:
O Pedro muito sabido
Já foi falando assim
Eu não tenho medo de reporter
Só tenho receio é do tal pasquim
De tanto que já li
Também pode sobrar para mim.
Apesar do anonimato, há pessoas que são apontadas como autores desses versos denunciadores. Há pessoas na comunidade que colecionam e apreciam a leitura do pasquim, como os professores Jeremias Bernardes e José Carlos Fagundes, que declaram conhecer o estilo de cada pasquineiro: "esses pasquineiros usam palavras-chave como Credo em cruz, Deus me livre e outras, que nos levam a deduzir quem possa ser o produtor". Através de indícios lexicais, de palavras-chave como estas citadas, é possível nomear alguns pasquineiros da região, mas que, por medida de precaução, estou proibida de mencionar. Esses códigos de repetição, ou seja, paralelismos que os pasquineiros utilizam, auxiliam na composição, na rima, no ritmo e principalmente na memorização, feita por quem os lê, os recita. É bom lembrar que eles ficam mais evidentes quando se faz a leitura do pasquim em voz alta. Eis um exemplo abaixo.
Senhores dono de casas
Acenda a vela e apague a luz
O Bene está solto na rua
Vamos rezar o Credo em Cruz
Gente que age igual o Bene 6
Para o inferno o diabo conduz.
A leitura é realizada em qualquer dia, lugar e hora, mas sempre caracterizando uma forma clandestina, como se fosse algo proibido. Ela se desenvolve através de um locutor que apanhou o pasquim com um amigo e seus receptores. A cada estrofe lida há comentários, risos e muitas vezes discussões. A leitura não ultrapassa o nível de decodificação das palavras, pois esta possui a primazia de favorecer o prazer. Essa fruição no decorrer da leitura estabelece um laço pessoal entre locutor e receptor, já que no caso do pasquim se desconhece o autor.
Nota-se que essa clandestinidade está relacionada à temática dos versos, às pessoas envolvidas no discurso e ao partido político que atacam ou defendem. As narrativas em versos dos pasquineiros possuem versões que tendem ao engrandecimento dos fatos, atribuindo - lhes muitas vezes um aspecto épico. Observem-se estas estrofes:
Barra Velha é nosso berço
Para defender não estamos sozinho
Se alguém tiver duvida
É só atravessar em nosso caminho
Não gostamos de safados
E nem de porco sem focinho.
Nunca temos receio
Não somos filho de pai assustado
Somos defensor da natureza
Não adianta olhar pra nós atravessado
A paisagem de nossa cidade
Vale muito mais do que uns destruidores safado.
Amar a natureza
É viver sem correr nenhum perigo
O perigoso é aquele que veio para destruir
E para ser o nosso maior inimigo
Mandando embora os veranista nato
Que estavam aqui desde tempo antigo
A melhor forma de transformar um texto escrito em relato oral é operar uma leitura fluida, clara, que preserve a musicalidade e, o ritmo. Segundo Maria Ignez Ayala, temos que fazer o texto escrito pulsar 7. O tom da voz do narrador é fundamental para oferecer o que Barthes chama de texto de prazer : "aquele que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura." 8É durante a leitura que se percebe o prazer do leitor, através da ênfase que é dada aos versos. A temática gira em torno da política, do nacionalismo, da sátira e da comicidade, como fica claro nesses diversos fragmentos de vários pasquins:
(...)
Barra Velha tua história continua
No passado e no presente
Quem destruiu tua natureza
Hoje chora amargamente
Foram eles que fizeram que nossos
Velhos veranistas daqui ficar ausente
(...)
Só escrevemos
Baseando naquele velho ditado
Quem deve a força maior
Sempre paga ao diabo
É no inferno ou na cadeia
Que é o lugar de político safado.
Fomos até a cidade estranha
Falar com nossa equipe de espionagem
Eles estão reunido com pessoas
Que é especialista em descobrir sacanagem.
Vamos mostrar a alguns leitores
Que não estamos brincando e não escrevemos bobagem.
(...)
Este é o resultado
De uma mal feita democracia
Pessoas abusando do poder
Fazendo coisas que não devia
Esquecendo que o calendário
Tem apenas trinta dias.
(...)
O leitor deste relato pergunta
O porque o verso acima
É para cacetar alguém
Ou somente para completar a rima
E exclusivamente aos safados
Que estes versos se destina.
Durante a pesquisa de campo, e posteriormente, percebi que para alguns membros da sociedade barravelhense o pasquim pode ser um texto de prazer 9 - quando o que se relata está de acordo com a sua ideologia. Já para outros leitores o pasquim é um texto indigno 10, porque perturba, declara, insiste em mostrar fatos ou fofocas que atingem a moral dos sujeitos que estão no discurso do pasquineiro. São as reações, as emoções, os gestos corporais e os tons vocais que "a escritura em voz alta" 11 traz à tona na oralidade do pasquim.
A oralidade dos versos do pasquim é percebida apenas quando estamos no processo de recepção da obra, presenciando os gestos ou a performance do corpo, que também podem confirmar ou contestar os fatos. Os gestos, as diversas entonações da voz, o rico detalhamento de cada episódio versejado legitimam o sentido dos versos, provocam emoções e dão um ritmo de sátira e comicidade aos fatos, parecendo naquele momento tão reais, tão intensos.
É a partir do momento em que se inicia a leitura dos versos do pasquim que se percebe que as fronteiras entre oralidade e escrita acabam sendo superadas. Há um elo ativo entre as narrativas orais, a escrita e a produção de novas narrativas orais, pois normalmente um pasquim causa uma resposta, e esta, outra, sucessivamente, formando uma rede quase inesgotável de fontes de inspiração, recriação, produtos de intertextualidades. 12
Essa intertextualidade é notória no entrecruzamento da oralidade com a escrita, porque, assim como um pasquineiro, encontram-se vários outros que publicam e veiculam seus próprios pasquins na comunidade, que, por sua vez, se apropriam e também passam a transmiti-los por escrito e oralmente, pois aqui não há imprensa, rádio ou outra forma de comunicação local que possa colocar diariamente a comunidade a par dos fatos ocorridos. Percebe-se que na leitura do pasquim as formas de expressão do corpo são dinamizadas pela voz, pelo ritmo, tecendo processos naturais que constituem a transmissão e a recepção no ato de participação, o que poderá constituir um ato performático.
Como observadora desse processo, acredito que o pasquim aqui nessa comunidade e região ocupa o espaço de um jornal, ele é uma produção alternativa, informando e influenciando o cotidiano das pessoas, pois é através do pasquim que a comunidade tem conhecimento dos fatos ocorridos na sociedade, ou seja, na política. Sob esse aspecto, o pasquim se apresenta paradoxalmente positivo e negativo. Sua positividade constitui-se na forma de informar, de transmitir, de esclarecer e de transformar. Por outro lado, cada pasquineiro tem uma forma de ver e olhar, expor a informação. O que, para alguns, são fatos reais, para outros são calúnias, mentiras. Dessa maneira geram-se conflitos, discussões. O que poderia até certo ponto ser positivo acaba sendo negativo, pois ele deflagra desavenças no seio de uma coletividade.
3 - De repente um repente
Outra manifestação constante no município e região são os repentes, que divergem do pasquim. O contexto do local e o horário são tradicionais, sempre ocorrem à noite, geralmente nos finais de semana, nos bares e nas festas, sempre acompanhados de um violão, de amigos e de cerveja. O repente tem como função o entretenimento, o lazer, possui temáticas que tendem para o engrandecimento da pátria, do amor, da vida, choram as tristezas e também são recheadas de humor, chegando à comicidade. Esses risos provocados pelo humor possui caráter especial, ele é de cordialidade, de alegria, de otimismo. O humor aparece quase sempre como fusão com o satírico, pode ser descrito como irônico, inteligente e engraçado, misturado com alegria e amargura.
Essas características são também fundamentais na diferenciação entre as performances e as outras maneiras de falar na comunidade. Os métodos que utilizam para nomear, muitas vezes, o próprio gênero, têm função referencial, buscando estabelecer a comunicação entre trovador e recepção; são importantes na indicação do início e do fim dos repentes, assim delimitando-os e contextualizando-os diante da recepção.
O repente barravelhense é puramente oral e improvisado, constitui uma narrativa em versos, muitas vezes caracterizando uma peleja, uma disputa de versos, na qual os aplausos e as manifestações feitas pela recepção é que são os indicadores da audiência. Transcrevo abaixo alguns fragmentos de uma disputa de versos entre Vilmar dos Santos e João Amaro, mais conhecido como João da Viola. 13
Vilmar:
Eu comecei a cantar
Seu João Luzia na frente
Eu quero temperizar
Um homem de respeito
Que chegou a se apresentar
Apresentemos esse homem
O prefeito do lugar.
João da Viola:
O prefeito do lugar
Eu quero que apresente agora
Vai meu aperto de mão
E pro senhor e sua senhora
Eu senti que te acompanha também
O reino da glória.
(...)
Vilmar:
Meu verso pra arrespeitaaa
O povo São Benedistaaa
Quem conhece em toda hora
O Vilmar não é artista
Receba o meu verso
O povo que interera
Eu sou aqui da Itajuba
E dos prezados que viera
A minha idéia é tão boa
Mas que não joga provera
Alimentando esse povo
que vive na Barra Velha.
(...)
Percebe-se que o ritmo dos versos equivale às modinhas de viola, a síncopa; 14 esse ritmo pode ser a organização do tempo do som, que constitui o método de ajustar as durações do tempo. De acordo com Raymond Williams,
(...) o ritmo é uma maneira de transmitir uma descrição de experiência, de tal modo que a experiência é recriada na pessoa que a recebe não simplesmente como uma abstração ou emoção, mas como um efeito físico sobre o organismo - no sangue, na respiração, nos padrões físicos do cérebro... um meio de transmitir nossa experiência de modo tão poderoso que a experiência pode ser literalmente vivida por outros. 15
O ritmo, a experiência e a habilidade dos repentistas são transmitidos de uma forma tão importante que se torna memória coletiva, persiste em virtude da oralidade, de modo imediato que a voz se faz presente e mostra de que forma o homem se localiza no mundo e em inclusão em outro.
Vale destacar uma outra característica desses repentes, as estrofes introdutórias. Percebemos que os repentistas possuem estruturas iniciais, as quais consistem na apresentação do trovador. Observem-se as estrofes de dois repentistas da região:
Eu cantando para vocês
com maior da alegria
não sei se posso voltar aqui
para cantar outro dia
por que amanhã não sei
o que vai ser da minha filosofia
pode ser que amanhã
não esteja mais aqui
para vocês representar
mas se caso não estiver
fica meu nome: Vilmar.
eu quero me apresentar
não quero fazer fuxico
meu nome é Euclides
meu apelido Quico.
O repente possui a função de gerar prazer. Sua transmissão requer a voz, a musicalidade, o ritmo, essa qualidade que a voz possui demanda a manifestação do corpo, do qual transparece a alegria, o prazer. O que mais chama a atenção no trovador é a sua irreverência, permeada de espontaneidade e bom humor particular, que contagia a recepção. Com suas performances ele nos conduz ao universo da tradição e da transmissão oral. A leitura que se faz do repente depende da performance, dos usos que o repentista faz de seu corpo, da sua voz. Ainda que inconscientemente, desenvolve estruturas, e estas são mecanismos próprios da memória.
Os repentes exigem performances que habitualmente personificam os personagens através da mudança de postura ou de algum gesto específico, do uso de vozes diferenciadas, com alterações dramáticas no tom, no volume e na forma de utilização do vocabulário local. Esses repentes são narrados em versos rimados, e sua performance vocal é cantada. Eles celebram o amor, choram as tristezas e marcam episódios significativos na vida do trovador ou da comunidade. Segundo o sr. Alzerino Bernardes (Mimo), "antigamente esses versos eram oferecidos à pessoa amada, desejada" 16. repentista assemelha-se ao jogral da Idade Média, poeta que vagava pela cidade, pela noite para cantarolar, trovar, versejar. Ele não trazia anotações do texto poético, este surgia da memória, e quando esta falhava, ele improvisava novos versos, novas palavras. Percebe-se, dessa forma, que a poesia popular foi criada e recriada desde a Idade Média até nossos dias para preencher lacunas da memória ou para atender à vontade do povo.
A performance do repentista pode ser vista como um meio de comunicação verbal, que consiste no modo de espontaneidade, de um performer, neste caso o repentista, para uma recepção, por meio da manifestação de sua capacidade comunicativa, e esta tem suporte no conhecimento e na habilidade que ele possui para cantar publicamente. Quanto mais habilidade de versejar, mais intensa a sua prática. O prazer proporcionado ao espectador depende de suas qualidades no ato da expressão. O cerne de um repentista ou trovador está na forma de ser, de agir no espaço, de movimentar, de gesticular, nos seus traços fisionômicos.
O repentista, como um dos preservadores da tradição oral da comunidade, e como um cidadão que vive os problemas desta cotidianamente, não está isento de deixar-se envolver por subjetividades, pois é a sua experiência que qualifica sua memória e que permite sua exteriorização. Nesse sentido, ele passa a ser um objeto de coletividade. Essa subjetividade se sobressai através da maneira como o trovador utiliza sua memória, interpretando e performatizando os momentos vividos e criados. Eles podem assim envolver o imaginário local.
Sabe-se que o corpo possui uma carga potencialmente expressiva e comunicativa, que se realiza especialmente através dos gestos e da voz. Percebe-se no repentista ou trovador - como gostam de ser nomeados - que sua performance consiste de tons vocais, de seu olhar, de expressões faciais, de gestos com as mãos e os braços. Esta transmissão corporal e vocal pode ser considerada como um conjunto de múltiplos canais que leva o trovador a interagir e integrar-se com os ouvintes, a ponto de aceitar sugestões destes, como se percebe nesses versos do sr. Euclides:
Esta é a derradeira
Agora eu vou parar
Um pedido eu lhe faço
Só quem quer participar
Pode pedir um versinho
Que o Quico vai cantar.
Esses trovadores, assim como os pasquineiros, utilizam códigos especiais, uma linguagem que os diferencia como grupo. Eles fazem uso de uma linguagem poética, de arcaísmos adaptados, diferenças em relação à fala cotidiana, frases feitas e populares, frases tradicionais fixas ou antigas figuras adicionadas em um novo contexto. "Se tu não tiver dinheiro/ vou ficar super estressado/pois o tanque já está seco/o carro vai ficar parado". A presença de paralelismos, a repetição de palavras ou frases são mecanismos que auxiliam na memorização, e na influência espontânea ou improvisada; o ritmo, a melodia, a duração da pausa, a altura e o tom de voz, a ênfase também são percebidos na forma de versejar, de cantar, de rimar as narrativas, porque, para formar um verso com rima apropriada sem uma sílaba a mais, o repentista prende a voz para dar o espaço (a métrica), ou, quando ocorre o oposto, ele solta a voz para dar a rima exata.
Outros códigos especiais são as características paralinguísticas (alteração no tom da voz), a linguagem figurativa:
Eu saí lá de Medeiros
pra enfrentar esta jornada
pois eu saí de lá correndo
saí quase de madrugada
eu não posso vir de avião
a parada está fechada.
Nessa perspectiva se pensa que a realidade e a ficção se mesclam, se confundem e que variam de acordo com o contexto. O repentista se metamorfoseia em duplo sentido, de intérprete em espectador e de espectador em intérprete:
Você é uma professora
tem uma grande profissão
eu também sou trovador
mas nada ganho não
eu chegando lá em casa
eu quero comer um pão.
Eu quero dizer a vocês
o que é que estão sorrindo
eu quero que digam logo
se estão me achando muito lindo
eu canto agora e vocês ficam sorrindo.
Na primeira estrofe nota-se que o trovador faz uma distinção entre as profissões, assinalando que a de professora possui prestígio "grande profissão", enquanto a do trovador também o transforma, porém momentaneamente, mas não é suficiente para transformar seu ganha-pão, sendo esta uma profissão sem talento, desvalorizada.
A leitura dos repentes não deve ser vista somente pelo aspecto da tradução, da transcrição, mas deve ser observada pelo sentido visual, através dos traços performáticos, sejam auditivos, sejam táteis ou visuais, os quais auxiliam a decodificação da mensagem verbal e abarcam múltiplos dados sistematizados ou não no contexto cultural. Eles são despojados de um conteúdo prévio e produzem no ouvinte uma extraordinária sensação de prazer.
A literatura popular pode nos remeter a uma leitura de estrutura volátil, interativa, um texto, portanto, dinâmico.
Notas de rodapé:
GRUNDTVIG, N.F.S.apud. CERTEAU, Michel de A invenção do cotidiano . 1. Artes de fazer.Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 221.
BARRA VELHA, está localizada no litoral catarinense, a 45 quilômetros de Joinville e a 130 quilômetros de Florianópolis. Possui uma área de 142,4 km2, com população de 13.204 habitantes, sendo que na alta temporada a população flutuante é de 50 a 100 mil habitantes, conforme dados recentes do IBGE.
· Nunca participei da produção, nem da circulação.
Pasquineiro M.L.S. Entrevista concedida em dezembro de 1999 em Barra Velha.
Catito, codinomeJ.L.D.R., vereador do PMDB cassado em 1999.
Bene, codinome de J. C. O., vereador do PPB eleito duas vezes e candidato a prefeito nas três últimas eleições.
AYALA. Maria Ignez Novais. Cultura popular: a questão da oralidade . Curso ministrado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Florianópolis (sc), no período de 21 a 31 de outubro de 2002.
BARTHES, Roland. O prazer do texto . Tradução J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1993, p.21/22.
GENETTE, Gerard, em sua obra Palimpsesto , nos fala do texto como uma somatória de vozes, composto de diversos textos, e a literatura neste sentido existe por imitação ou transformação das obras anteriores. É através da linguagem que se lê o passado e se constroem novos textos. O texto não apresenta uma única verdade, ele é uma rede de códigos, de vozes de outros textos. Palimpsestes - la litttérature au second degré. Paris: Seuil, 1982.
Encontro promovido por mim, através da Escola Antônia Gasino de Freitas, localizada no Bairro São Cristóvão, Barra Velha, em 6 de maio de 2000.
SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo . 2 ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1998. "A síncopa, a batida que falta... é a ausência no compasso da marcação de um tempo (fraco) que, no entanto, repercute noutro mais forte. A síncopa atua de modo especial, incitando o ouvinte a preencher o tempo vazio com a marcação corporal - palmas, meneios, balanços, dança. É o corpo que também falta - no apelo da síncopa. Sua força magnética, compulsiva mesmo, vem do impulso (provocado pelo vazio rítmico) de se completar a ausência do tempo com a dinâmica do movimento no espaço." p.11.
WILLIAMS, Raymond. The ong revolution . Cox & Wyne , 1961, p.40.
Entrevista concedida em dezembro de 1999.
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