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O TEMPO NÃO PÁRA - Cazuza e a modernidade
Francisco José Neiva Lacerda (UFRJ)
Este trabalho parte do princípio de que criar poemas e canções é uma forma de fazer história, na medida em que o texto participa da riqueza de elementos que caracteriza o momento em que seu autor o elabora. Dessa forma, dialogar criticamente com a obra poética de Cazuza é uma forma de compreender e interpretar os anos 80 do século XX. Além da transição política, com a erosão da ditadura militar, o Brasil viveu então um período culturalmente muito rico, que teve como um de seus principais traços a forte tensão entre esperança e desencanto, levando os artistas do período a trocarem a perspectiva utópica que havia marcado a produção das duas décadas anteriores por uma nova postura, caracterizada pela desconfiança.
Desta forma, repetia-se um dilema que tem marcado a poesia moderna desde o seu nascimento - o que contrapõe uma adesão entusiasmada a uma decepcionante frustração diante das idéias centrais da modernidade - a revolução e o progresso. Tal fato se explica, segundo Octavio Paz 1 pelo fato de a modernidade ser filha da idade da crítica, a Era das Luzes. Por isso, ela chega ao ponto de ser crítica de si mesma. Já desde os pré-românticos e sua ambígua relação com a Revolução Francesa, o poeta moderno costuma aderir de modo entusiasmado aos projetos de transformação social, mas não os poupa de uma constante vigilância, uma atitude chamada por Paz, na obra citada, de "paixão crítica". Tal estado de permanente questionamento os leva facilmente ao desencanto, a partir do momento que os projetos revolucionários começam a deixar suas contradições virem à tona. No caso dos pré-românticos, o entusiasmo diante da revolução arrefece na medida em que o rumo dos acontecimentos levam a França ao período do terror e mais tarde à ditadura de Bonaparte.
A proposta central de meu trabalho é demonstrar a presença na obra de Cazuza da atitude definida como sendo de "paixão crítica" por Octavio Paz, ou seja, de uma atitude típica de poeta moderno. Tendo composto sua obra numa época que prometia mudanças, ainda que não se tratasse de um processo revolucionário, o poeta oscila entre aderir ao clima de confiança presente nas ruas e um agudo ceticismo quanto aos rumos que os fatos estavam tomando.
A anistia política, conquistada em 1979 e o abrandamento da censura à liberdade de expressão, que havia sido uma das marcas registradas da ditadura, foram marcantes para definir o perfil dos anos 80 como um tempo de novas esperanças. Contudo, a ditadura estava cedendo terreno dentro de um quadro de grave crise social e econômica, marcada pela inflação, a dívida externa e a falta de políticas sociais consistentes por parte do governo e da sociedade civil, todo um quadro que ameaçava perpetuar a miséria, a exclusão social, o que explica a perplexidade de uma grande parcela da juventude brasileira, que herdava um país em crise e não sabia o que teria pela frente.
Ao mesmo tempo, foi nessa época que o rock brasileiro ganhou força: novas bandas surgiram, um público consumidor se consolidou. Entre as novidades estava o Barão Vermelho, com seu rock de garagem, com sua proposta de radical simplicidade, em que havia um pouco do "do it yourself" do movimento punk. 2 Muito volume de som com pouca sofisticação técnica. Uma postura estética de comunicação fácil e direta com o público.
Cazuza fez parte do grupo até 1985, coincidentemente o ano em que chegava ao fim o mandato do último general-presidente. Dessa forma, sua carreira solo tem início num momento-chave, verdadeira encruzilhada em nossa histórica, momento para o qual confluíam as esperanças alimentadas por muitos anos. Mas não se tratava de uma esperança entusiasmada. A apresentação do Barão no Rock in Rio, último grande momento de Cazuza ao lado de seus companheiros, foi uma demonstração muito clara disso. Havia no repertório a canção Pro dia nascer feliz , espécie de hino aos novos tempos que se anunciavam, escolhida estrategicamente para encerrar o show. Em contraponto, canções como Down em mim denunciavam que tantos anos de espera por melhores dias haviam deixado a marca da angústia na geração 80. Mas a canção que escolhi para ocupar um lugar central nesse ensaio pertence já à etapa em que o poeta assumira sua carreira-solo - O tempo não pára - um texto em que vemos reunidas as duas tendências - nela tanto existe a esperança como o desencanto.
Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou o cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara. 3
( O tempo não pára - Cazuza e Arnaldo Brandão, p. 199)
A revolta é latente, mas não se sabe com clareza contra quem direcioná-la. Passados os anos de chumbo, a sociedade brasileira amarga a decepcionante derrota da campanha Diretas Já, momento ímpar de mobilização civil, quando os comícios, mesmo realizados com pouco apoio e divulgação da mídia, reuniram milhões de pessoas nas ruas das principais capitais do país, e ainda assim, o clamor público fora ignorado pela classe política. Depois, viera a promessa de superação da crise econômica, via Plano Cruzado, novo engodo, sonho de um ano de eleições. A revolta, antes direcionada contra um alvo preciso, os militares no poder, agora direciona-se contra tudo e contra todos. A mágoa acumulada é disparada contra o Sol. O poeta, quixotescamente, desafia um poder que está muito além de suas forças. Ele reconhece que não "há pódio de chegada", ou seja, não parece haver chance de vitória. Nem ao menos o conforto de um "beijo de namorada". Ele é apenas mais "um cara", mais uma pessoa comum, perdida nas multidões anônimas e solitárias das grandes cidades. O poeta "desposa a multidão" como o pintor de croquis de que fala Baudelaire. 4 Por um momento parece estar pressuposto que esse casamento resulta em que ele aceite tudo como estar, e deixa-se levar pelo turbilhão dos acontecimentos, tudo o que lhe resta é entregar-se, desistir de lutar. Contudo...
Se você achar que
Que eu estou derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo não pára.
Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta...
Lançado à própria sorte na roda da vida, ele não desiste. Contrariando o tom niilista esboçado no início da canção, o trecho acima assume o tom de uma advertência. Para quem julgasse que o poeta se entregara e desistira de lutar, para quem se arriscasse que a juventude perdera as esperanças de buscar o seu lugar, era preciso lembrar que os momentos se sucedem e não sabemos o que virá. Sendo assim, a roda da história ainda poderia guardar surpresas. Seria preciso pagar para ver, continuar o jogo, sem se entregar.
Ao propor que sobrevive "da caridade de quem o detesta", o texto expõe o ardil inerente à falsidade dos padrões éticos vigentes no sistema capitalista, em que se julga que atirar algumas moedas a quem tem fome será suficiente para aplacar todas as carências deste ser. Analogamente, o mesmo código de condutas prevê que comprar um disco de um artista com aids vem a ser uma atitude piedosa, mesmo sem dar muita atenção à contundência do discurso veiculado pelas canções deste.
Por falar em padrões éticos, a frase "o tempo não pára" é retomada no refrão da canção, articulada à forte imagem de uma piscina cheia de ratos, alusão aos cada vez mais numerosos casos de corrupção noticiados pela imprensa na época. Tal fato levaria a canção, alguns anos mais tarde a se tornar um dos hinos dos caras-pintadas da campanha pelo impeachment de Collor, uma campanha que viria a ser bem sucedida, funcionando como contraponto ao clima de "fim da história" que marcaria o início dos anos 90. Porém, ainda mais importante que o afastamento do presidente foi o fato de a canção servir como parte da trilha sonora de uma "campanha pela ética na política", fato inédito em nossa história, ainda que não tenha surtido os efeitos desejados.
O show O tempo não pára também foi a principal turnê que teve tempo de realizar em sua curta carreira solo, levado aos palcos em fins de 1988 e registrado não apenas em disco, como também em fotos que foram publicadas no encarte. Vale dizer que a fotografia talvez seja a modalidade de arte que dialoga de forma mais aguda com o transitório, na medida em que suas lentes se propõem a capturar e eternizar momentos que já passaram. Ela representa uma etapa da milenar luta do ser humano pela conquista de uma dimensão de eternidade.
Para os efeitos das observações que aqui estou fazendo, o que está valendo é a versão em LP 5 (naquela época os CDs estavam em seus primórdios e as gravadoras ainda ofereciam o disco em suas duas versões). De um lado do encarte, há uma coleção de fotos menores, que captam momentos variados do evento. Mas as duas fotos que têm tudo para funcionarem como os registros centrais do show, para ficarem guardadas em nossa estante, como lembranças de um momento de brilho do astro, guardam surpresas. Uma delas está do mesmo lado que as fotos pequenas, mas ocupa metade do espaço do encarte. Ali podemos ver a banda inteira... ou melhor, vemos quase todos, porque a imagem de Cazuza é ofuscada por vários canhões de luz. Dele temos apenas uma pálida impressão evanescente. Só é possível perceber o contorno de suas vestes, que assumem o aspecto de uma túnica. Há tanta luz que não é possível ver com clareza.
Todas as nossas esperanças se concentram na foto maior, do outro lado do encarte. Todavia, mais uma vez somos surpreendidos - o poeta está de costas. Decididamente não é seu rosto que ele pretende que os fãs guardem em suas lembranças, mas sua poesia, a mensagem que sua voz porta. Interessante é constatar que a poética do rock brasileiro trabalha justamente o seu componente efêmero como um dado fundamental. De resto, qualquer tentativa de captar em fotografia um instante de uma performance poética parece empresa problemática, ainda mais em se tratando de registro fotográfico, forma de trair o caráter dinâmico e transitório de uma performance de poesia cantada. No máximo, parece destinada a nos proporcionar uma imagem pálida do que foi a experiência única da performance, momento que já se foi, pois, como nos adverte a própria canção, o tempo não pára.
Nesse ponto de minha reflexão, encontro uma importante analogia entre a canção mediatizada, em geral, e o rock, em particular, e outra manifestação artística contemporânea que conheceu grande expansão nos anos 80 - o grafite, que é o campo das artes plásticas que mais convive com o efêmero cotidianamente. 6 Quase sempre, o artista grafiteiro elabora sua obra durante a madrugada, com rapidez e destreza, sem despregar os olhos da possibilidade da chegada de uma ronda policial. Hoje, este tipo de manifestação artística já desfruta de um maior reconhecimento, mas na época, o artista sabia que era grande a possibilidade de sua obra ser apagada pela limpeza pública dali a algumas horas, mas antes disso, milhares de pessoas teriam passado pelo local e prestado, talvez pela primeira vez na vida, atenção naquele muro.
Assim, os muros da cidade se transformam numa espécie de museu às avessas. Enquanto nos museus convencionais, as obras de arte são conservadas, nos muros elas são desfeitas no ritmo frenético da vida numa metrópole. Deve ser considerado o fato de grande parte desta massa jamais ter entrado num museu convencional para se aquilatar a importância estética assumida pelo grafite a partir desta época.
A princípio, o grafite pouco se distinguia das meras pixações, e levou tempo para que seu colorido e criatividade se impusessem e conquistassem simpatia de uma parcela do público. Enquanto a pixação se concentra no texto, tanto a que serve para transmitir mensagens de caráter político, como as que serviam como demarcação de território entre as gangues, o grafite se caracteriza por um diálogo rico entre as formas desenhadas, os padrões cromáticos e os textos, eventualmente que traz em si um duplo protesto: tanto contra a monotonia das paisagens formadas por muros mudos, que nada dizem aos transeuntes, como à monotonia imposta ao público pelo ritmo da vida urbana, que não deixa sobrar tempo para nada, quando muito é possível olharmos para o lado e vermos um desenho colorido desafiando a ditadura do cotidiano.
Nas palavras de Octavio Paz 7 , na época moderna a indústria é a nossa paisagem, superando a velha dicotomia natural x sobrenatural. Pode-se afirmar que o grafiteiro é o artista de um tempo em que toda a paisagem é fruto da ação humana, ou seja, é indústria. Desta forma, estamos diante de uma forma de expressão tipicamente moderna, para quem toda a cidade é suporte para a expressão criativa. Se existem os muros, que sejam transformados pelo toque de midas da arte. Aceitando a provocação que lhe é imposta pelos tempos em que vive, os grafiteiros estão sempre dispostos a refazer o que lhes foi suprimido, retornar à noite para pintar o que o poder público cobriu de cal durante o dia. Com a vantagem de que a cada recriação poderá resultar uma obra melhor, depurada.
Essas observações nos permitem voltar os olhos mais uma vez para a foto principal do encarte do disco O tempo não pára . Aceito a sugestão feita por Roland Barthes, em A câmara clara 8 , fecho os olhos para enxergar melhor, ao permitir que as fotos falem em silêncio. Para além do jogo algo barroco, efeito criado pela imagem do poeta vestido de branco contra o fundo mergulhado na penumbra, vemos o eloqüente detalhe de sua mão direita segurando o microfone como normalmente se segura uma caneta. Além disso, o punho se ergue, símbolo de uma atitude de protesto, denotando a vontade de ter voz ativa, participar nos debates sociais, influenciar o rumo dos acontecimentos - em suma, mudar o país. Uma vez que os dados ainda estão rolando, o futuro ainda está por ser escrito. O desencanto de seu canto é patente, mas não creio que possa ser confundido com niilismo estéril
1 PAZ, Octavio. Os filhos do barro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
2 Acerca da estética punk, leia-se BIVAR, Antonio. O que é punk. São Paulo: Brasiliense, 2002. Sobre as bandas e tendências da época DAPIEVE, Arthur, Brock - o rock brasileiro dos anos 80. São Paulo: editora 34, 1996.
3 CAZUZA. Preciso dizer que te amo. Todas as letras do poeta. São Paulo: Globo, 2001.
4 BAUDELAIRE, Charles. Sobre a modernidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
5 Gravado pela Som Livre no Canecão?RJ e lançado em 1989.
6 GITAHY, Celso. O que é graffiti. São Paulo: Brasiliense: 1999.
7 PAZ, Octavio. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
8 BARTHES, Roland. A câmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.