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Linhas de escrita, mapas de épocas - Waly, Hejinian, Ashbery
Mauricio Salles Vasconcelos (UFMG)

O ensaio de Joan Dayan, "Finding What Will Suffice" 1, concentrado numa análise de "A Wave", de John Ashbery, faz um mapeamento dos motivos modernos da poesia, essencial à compreensão contemporânea de uma atividade marcada por tradições, desmontagens, assim como por cartografias/cosmogonias ainda não traçadas. A partir do poema de Ashbery, título de seu livro editado em 1984 - "Uma onda" -, Dayan redefine não apenas alguns dos veios mais criativos sinalizados desde o Romantismo - caso de Wordsworth -, mas também uma disposição nova da escrita e de seus produtores, inicialmente sugerida pelo topos marinho, assimilado já por Walt Whitman como ondulação/flutuação, feita sobre um solo preciso de referências fundamentais à vida da poesia como atividade do presente.

No poema analisado por Joan Dayan, "As I Ebb'd With the Ocean of Life" , o alcance metafórico do Oceano da Vida se faz por um movimento desmedido que os versos de Whitman querem abarcar. Só que não mais associável ao mar como um englobante. É como se articulada a cadência discursiva de tema-conceito-imagem-som, típica da propensão reconhecidamente "oceânica" de Whitman, fossem também amplificados os contornos da declinação da forma eu , desbordando e multiplicando o corpus da linguagem poética.

Muito menos do que um projeto acabado, circunscrito à emergência de transformações políticas nas sociedades modernas, o poema whitmaniano vibra pelas tensões próprias do realinhamento da subjetividade no espaço tópico da escrita de poesia. Mesmo sendo consideradas a figura do autor WW, a presença corporal do ícone da democracia e de um pacto vital com a idéia de comunidade, da forma como o leu Ana Cristina César, o que pulsa ainda em seus versos é a convocação a uma nascente plurificada de forças criadoras, mais próxima do maelström do que de um pouso pacífico a ser encontrado nas figuras do eu e do oceano (desdobrados em terra/ globo).

Electric Self se configura como espaço potencializador da poesia do movimento, dos margeamentos às grandes extensões, pela sonda da linguagem em expansão. Enquanto são experimentadas linhas conceituais, envolvendo tudo o que está em coextensão com subjetividade, corpo, com a experiência no tempo e nos diferentes territórios dos produtores/agentes de escrita poética, situados a contar de um repertório e de uma história.

Dados irrecusáveis para a instalação da impessoalidade, daquilo que o poema tem de performativo, de ato presente tornado vivo pela linguagem. " Tomado por esse elétrico self para fora do orgulho com que articulo poemas". É o que pode ser apreendido no texto whitmaniano, em convergência com Rimbaud, como pensa Joan Dayan, ao estudar um poema central de nossa contemporaneidade, caso de A Wave , de John Ashbery.

"Mémoire", segundo a própria Dayan, não fica sem manter um diálogo com "Bateau ivre", um título leitmotiv de Rimbaud. A abertura do registro da memória ao impasse da identidade assim como da recollection /reunião de imagens reconhecíveis do tempo, atende à formação de outros elos afetivos e comunitários, para fora do modelo do romance familiar e do consenso com a idéia progressiva de História (tal como se lê no clássico do poeta, escrito depois do desencantamento com a política e a história social após a derrota da experiência da Comuna de Paris, de 1871). Diferente das gradações expansivas de "As I Ebb'd with the Ocean of Life" e de "Bateau ivre", a água que flui em "Mémoire" é a de um lago imóvel, água estagnada, contagiada pelos transcursos culturais da vida humana assim como por suas acepções de memória, e de história.

Poema escrito um ano depois de "Bateau ivre", "Mémoire" mantém a mesma dinâmica do olhar, dessa vez empreendendo uma operação no limite, em sincronia com o desterro, a desterritorialização, bem próprios do percurso de Rimbaud na poesia de seu tempo, em dissenso com os regimentos eurocêntricos de literatura e cultura, com o que chamou de " marasmos ocidentais", em Uma estação no inferno. O interessante no poema é que o rompimento se instala no interior da recollection, mais afinado com as linhas móveis de um corte topográfico do que com a ordenação rítmica da palavra em sintonia com um patrimônio de imagens cultuadas, consentidas, no espaço estrito dos versos. " Mon canot, toujours fixe; et sa chaîne tirée/Au fond de cet oeil d'eau sans bords, - à quelle boue?" 2

O impasse do movimento de ir adiante em relação à memória, atende ao gesto simultaneamente crítico e mapeador de Rimbaud, interessado em desbravar novas possibilidades de visão e existência, pondo em destaque o embate com um arsenal de imagens-de-mundo, dadas como íntimas e fundadoras de todo um itinerário. A expansão sensorial da subjetividade, que se lê, também, no poema de Whitman, e marca o advento de um novo corpo amoroso , da relação integral do poeta com o panorama de transformações do mundo moderno, não ocorre, em Rimbaud, sem o confronto do movimento com seus pontos-cegos, reincidentes, com os obstáculos próprios da modernidade, anunciada e, ao mesmo tempo, indagada radicalmente pelo poeta de Les illuminations . (Indagação que se estende mais de um século depois, em "A Wave").

A relação estabelecida por Joan Dayan entre os poemas modernos citados e "A Wave", de Ashbery, se dá no poder de sondagem do transcurso vital no tempo, captado no movimento - o oceano da vida, em Walt Whitman, e as variações do mar em "Bateau Ivre" até o imobilismo do lago-lama, em "Mémoire", de Rimbaud. À altura da onda, Ashbery conduz uma indagação levada ao paroxismo do mapeamento e da metamorfose - Viviana Bosi já apontava em um livro fundamental sobre o poeta, John Ashbery - Um módulo para o vento (1999), a presença do que chama de perguntas-cumes, ao longo de sua produção.

Em "Uma onda", parece ocorrer uma retomada das tradições e das dicções mais diferentes, atualizada pelo interesse em tudo dizer e interrogar - uma disposição integral e extrema, seja na autoespeculação do poema enquanto irrompe e se espraia como o surgimento de uma onda, seja no vórtice aberto no centro da recollection /rememoração, que se lê como refiguração do repertório das coisas que movem a produção de poesia em seus vários momentos, seus muitos séculos e modernidades. " Some day when names are being removed from things, when all attributes/Are sinking in the maelstrom of de-definition like spars./You must then come up with something to say ,/Anything, as long as it's no more than five minutes". 3

"A Wave" reconfigura tradições/dicções, não criando mais divisórias entre a introspecção reflexiva e a anotação do imediato, entre a narratividade/a discursividade de tom subjetivo e a potência analítica em torno de uma linguagem em experiência, em plena performatividade. O tradutor português de Ashbery, João Barrento, apontou no poema sua capacidade de articular o tonus celebratório - the memorable speech, tipicamente americano, proveniente de Whitman e de Stevens - e, ao mesmo tempo, a dessacralização dos lugares culturais reservados à existência da poesia e à atividade do poeta. Indagação, in-definição, ante o maelström , em abalo das identidades de toda ordem.

A complexidade própria das criações de Ashbery, marcadas, especialmente em seus poemas longos, pela sobreposição de registros, pela alta taxa de referência - seja às tradições, seja aos agoras da linguagem -, contém em seu projeto um intuito remapeador feito na dimensão de uma consciência intermitente, traçada no ritmo da variação e da pontuação de uma onda .

Importante é notar que o discurso deambulatório, o programa inclassificável, sem destinação, presentes em "A Wave", da forma como bem o define João Barrento 4, são trabalhados por um autor formado pelo construtivismo, pela impessoalidade com que o conceito move as linhas, os limites do poema. Tal combinatória, tal conjunção de tendências aparentemente discordantes, é construída com um senso forte de interpelação a quem o lê. É como se uma possível perspectiva central se esvaziasse, se deixando conduzir para o pólo tantas vezes obscuro, tantas vezes violado, de um diálogo com o leitor (uma tendência que se reforça nas produções de Ashbery dos anos 2000). A Wave e livros como Your Name Here (2001) lidam com um sentido vivo da materialidade da escrita poética, abarcam grandes conjunções, envolvendo a relação de uma escrita mentada, altamente conceptiva, com um tom dialógico, endereçada a uma parte cada vez mais explícita da enunciação, através da qual as vozes poéticas se dão a conhecer, tendo o poeta como sujeito-objeto, num eixo, que é maelström das formulações/ondulações de sentido.

Na poética de Ashbery, desponta a encruzilhada entre a energia de um electric self, celebrador das potencialidades enunciativas em torno do eu, da história e dos espaços (visíveis em Whitman), e o traço problematizador, indagativo dos valores, em relação à memória e à passagem do tempo (perceptível em Rimbaud). Tudo indicia a conjugação do pensamento em sondagem, em consonância com o movimento vital, o desejo, a indagação urgente no ponto de irrupção da onda. A Wave ou a ondulação de um só instante, um momento único que contém seu retorno a todos os outros tempos e a intermitência de um agora que não se resolve como remissão ao decurso específico da linguagem de poesia, expositivo de uma idéia linear de tempo com suas linhagens circunscritas a uma inserção/inscrição. Pontua-se como recorrência, referência, a imagem da onda que tudo arrasta, suspende os nomes e as coisas, mas também sustém o pacto com o inacabamento. À altura do acontecimento - Meditação e irrupção de signos indicadores de uma outra cultura, nesse início de era, na conjunção oferecida por todos esses poetas lidos por Joan Dayan em seu ensaio, numa abertura genealógica de motivos e procedimentos possíveis de se estender à nossa atualidade.

Não por acaso, um dos autores mais importantes da cena literária contemporânea, a também norte-americana Lyn Hejinian, vem sinalizando desde os anos 80, as conjunções cartográficas e inventivas do texto poético. Em seu pequeno clássico My Life (1980), retomado em My Life in the Nineties (2003), Hejinian redesenha a noção de tempo, subjetividade e escrita autobiográfica, ao elaborar pequenos livros voltados para o raconto de cada um dos anos de sua vida (ela é de 1941). Curioso é perceber em sua produção um projeto de re-situação dos signos do transcurso do tempo, até os últimos anos do século XX, na dimensão de verdadeiros mapas formados por sentenças dispostas em linhas breves, telegráficas, aparentemente concentradas em torno-de-si (do livro em que se lê "Minha Vida").

Percebe-se um multidirecionamento cartográfico do poema contemporâneo - capaz de reencenar as perspectivas de um eu e das vertentes todas contidas na escrita de poesia ( afflatus/ dicção que passa por respiração, pelo corpo), tal como já ocorria em Ashbery ao conciliar mentação e desejo, dissolvência no fluxo elementar das coisas e mais high-tech tradition . No projeto My Life, desdobrado em My Life in the Nineties , todas as linhas estão em pauta, das ocorrências micrológicas do cotidiano em anotação até o remapeamento topográfico do campo cognitivo do poema: sexualidade, geografia, as imagens e os ditos/escritos da arte, os aforismos da filosofia, os modos de convivialidade (família, conjuntos imobiliários, comunidades artísticas), meio-ambiente, arquitetura, escrita-de-si, tecnologia, cultura planetária. MY LIFE e a vida do poema agora.

A vida da poesia desde a modernidade se constitui hoje em um dizer integral, que contém um remapeamento atualizador de suas diferentes formas. É o que se observa em um poeta como Waly Salomão, em sua "Carta Aberta a John Ashbery". Em Algaravias, o poeta brasileiro persegue uma dicção plural (da dicção cabralina à livre enumeração de Frank O'Hara, de microformulações típicas do epigrama até o dinamismo discursivo de "Poema Jet-Lagged"). Dicção multiplicadora, elaborada à medida da irrupção, renovada e mais do que presente, da imagem da onda (não à toa, a gravura clássica da onda de Hokusai é homenageada na abertura do livro). O domínio das mais variadas formas e modulações enunciativas do poema contemporâneo, atende, em Algaravias, ao interesse do autor em captar os pontos de variação - figuras sobre figuras, máscaras sobre máscaras (como diz "A Fábrica do Poema", uma espécie já de clássico de nossa agoridade) - da vida presente, pólo indissociável da modernidade, em revisão e expansão.

Algaravias se mostra como o signo bem vivo de um poeta importante, há pouco falecido, um pequeno livro concebido em torno dos legados poéticos, das mediações tecnológicas e da idéia generalizada de trânsito (ecos de vozes, algaravias), de uma indiscriminada migração de imagens, bens/nomes materiais, como também, de seus imateriais/virtuais. (" A memória é uma ilha de edição" , lê-se em "Carta Aberta a John Ashbery" 5). Mundialização e tráfico aí se aproximam na câmera-de-ecos construída pelo poeta. Apenas para atravessar, com sentido de risco e de inteireza, o breve, imediato minuto do tempo-milênio em processo, e não mais progresso (o livro é de 1996).

Em todos os tons e em sintonia com o diverso, inacabado decorrer de uma certa história da pós-história e depois do pós-moderno, Algaravias lança alguns sinais de uma cultura planetária, essencialmente cartográfica, desbravada a partir de seus novos enlaces locais-globais para fora dos dualismos seculares. Conta para isso com linguagens diversificadas, em experimentação, à frente da monologia telemática e do imperativo econômico do chamado sistema-mundo a delimitar a geografia e os limites culturais do presente.

Mapas de passagens, sondas na faixa de ondulação da escrita exercida como ato, no risco de sua própria, multiplicadora investigação (para além da fixação de uma linhagem) . A poesia interroga o saber do tempo, inventa novos enlaces de arte/vida no seio de impérios tecnotrônicos, potencializando alguns transmissores de amplitude e velocidade. Na gradação da onda do tempo e de um corpus de textos legados como história. Na vibração dos corpos de seus agentes, demasiadamente críticos e conscientes de um longo trânsito de nomes, ritmos e alineas. Só para poder acontecer agora. À altura do movimento.

 

Dayan, Joan. "Finding What Will Suffice: John Ashbery's A Wave. MLN (Modern Language Notes) - Comparative Literature . Baltimore, Maryland. volume 100, nº 5. Dezembro, 1985. p. 1045-1079.

RIMBAUD, Arthur. Oeuvres Complètes. Paris: Gallimard, 1972. p.86-88.

ASHBERY, John. A Wave. Nova York: The Noonday Press, 1984. p. 84.

BARRENTO, João. "Sobre a poesia de John Ashbery", in ASHBERY, John. Uma onda e outros poemas . Tradução coletiva revista, completa e apresentada por João Barrento. Lisboa: Quetzal Editores, 1992. p. 7-10.

SALOMÃO, Waly. Algaravias. São Paulo: 34, 1996.