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Poética e autopoiese
Maria Luiza Ramos (UFMG)
Já nem se pode falar em crise, hoje em dia, porque nas últimas décadas temos vivido em processo tão acelerado, que é difícil, senão impossível, destacar este ou aquele momento como característicos de uma crise na produção literária. Que isso causa inquietação, reflete-se no propósito mesmo deste Simpósio, que é "discutir o lugar nele ocupado pela produção e pela reflexão sobre o poético." Para isso contemplam-se aqui temas como o diálogo entre palavra e imagem - que atingiu sua expressão mais sofisticada no videopoema - os procedimentos de solicitação do cânone, a desestabilização de hierarquias e fronteiras de gênero.
Não é minha intenção, entretanto, deter- me na análise de tais produções, relacionadas com a tecnologia e sujeitas à pressão da mídia, numa simbiose entre o ser e o ambiente, o que faz com que a arte esteja em contínuo processo de renovação. Meus caros companheiros de Mesa, e também de outras que se sucederão, vão tratar dessa matéria com a autoridade que lhes é reconhecida e que merece a minha admiração. Chamo a atenção, particularmente, para o título da comunicação da colega Maria Lúcia Barros Camargo, por abordar "o fim do poema", uma vez que é também o poema o ponto central da minha comunicação.
A minha participação nesta Mesa busca trazer um novo olhar sobre o poético, a partir dos objetivos do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares da Universidade Federal de Minas Gerais, ao qual tenho a honra de pertencer, como membro do Comitê Científico. Tais objetivos caracterizam-se pela migração de um conceito de um campo de saber para outro, com a conseqüente tendência à superação de fronteiras, o que é também a tônica dos estudos literários contemporâneos. É propósito do IEAT promover "o trabalho nas interfaces, ao reconhecer o direito de o não-especialista ou o especialista em sua matéria opinarem sobre outras especialidades e matérias alheias, em vista de sua interação, traspassamento, renovação e fecundação mútua." 1
O poeta que elegi para ilustrar a minha reflexão teórica é Waly Salomão, celebrado pelo seu talento e pela irreverência quanto aos cânones e as convenções sociais. Mas, como o meu trabalho é aqui transdisciplinar - Poética e Autopoiese - peço aos meus ouvintes que me acompanhem numa introdução, ainda que sucinta, sobre traços dessa teoria originada na área da Biologia, graças ao trabalho dos cientistas chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela. O ponto central da teoria da autopoiese é a natureza dos seres vivos - aquilo que os diferencia dos demais seres. E o ponto central da minha fala é a natureza do poema - também naquilo que o diferencia dos textos em geral. Para isso tenho de fazer uma breve reflexão teórica no campo das ciências cognitivas, que congregam atualmente a pesquisa acadêmica em áreas diversas do conhecimento. Da Inteligência Artificial à Física, da Filosofia à Biologia, muitas são as teorias que vêm revolucionando saberes estabelecidos, de modo a descortinar uma nova visão de mundo. E por trabalhar não apenas com obras literárias, mas principalmente com a pesquisa do próprio fenômeno poético, desde a minha Fenomenologia da obra literária, que já vai para mais de trinta anos, não podia eu ficar alheia a essa extraordinária contribuição científica.
Foi assim que tomei conhecimento da Teoria da Autopoiese, que veio constituir uma nova abordagem do fenômeno do conhecimento. Que esta era uma visão revolucionária, basta mencionar o fato de a cognição ser considerada aí como um fenômeno biológico. Seu objetivo é caracterizar a entidade a que se chama mente como uma metáfora para o processo do pensamento, e essa outra entidade conhecida por cérebro , como uma vasta rede de células interconectadas com o resto do sistema nervoso, operando de acordo com a sua própria interconectada dinâmica interna.
A lingüística chomskyana já reivindicara para os estudos sobre a linguagem um lugar entre as ciências naturais. E Steven Pinker intitula The language instinct um texto em que, opondo-se àqueles cientistas que têm descrito a linguagem como uma faculdade psicológica, um órgão mental, um sistema neuronal ou um módulo computacional, observa que prefere o termo instinto , por mais estranho que pareça: "Ele convém à idéia de que as pessoas sabem como falar, mais ou menos no sentido em que as aranhas sabem fiar teias." 2Mas a grande diferença entre esse enfoque e o dos cientistas chilenos reside no fato de que, embora não mais considerada como a "essência inefável de uma unicidade humana", e sim como uma adaptação biológica, a linguagem ainda tem para Pinker a função de "comunicar informação". E isso só é possível desde que se parta de uma concepção dualista do mundo, contra a qual se coloca a teoria da autopoiese. Não só a mente e o corpo são aí considerados inseparáveis, como também o eu e o mundo não podem independer um do outro. Assim, o contexto assume um papel essencial no processo do conhecimento, que só é possível pelo fato de não apenas estarmos em um mundo, mas de sermos um mundo que faz parte de nosso corpo, de nossa linguagem e de nossa história social . Para a operação do sistema nervoso não existe, portanto, nem dentro nem fora, mas apenas a manutenção de correlações que estão em contínua mudança. O sistema nervoso não "colhe informação" do ambiente, como se costuma dizer, nem "comunica informação".
A diferença entre o enfoque neurofisiológico e as primeiras abordagens das ciências cognitivas que se incluem na metáfora computacional é uma mudança de paradigmas: ao mundo pensado como realidade objetiva oferece-se agora, literalmente, uma nova visão de mundo, isto porque a cognição tem de levar em conta a relação recíproca entre o conhecido e o conhecedor: " Tudo o que é dito, é dito por um observador ". Quanto aos sistemas vivos, estes são tidos como unidades de interações que vivem em um ambiente, sendo que, de um ponto de vista estritamente biológico, eles não podem ser compreendidos independentemente daquela parte do ambiente com a qual interagem: o nicho. (Figura 1).

Figura 1
Na capa da tradução brasileira de El Árbol Del Conocimiento - A árvore do conhecimento - de Maturana e Varela (1995), a ilustração espelha bem a interação do ser vivo com o ambiente, lembrando a Banda de Möebius, usada por Lacan para demonstrar, a partir de Freud, que interior e exterior constituem uma unidade. (Trata-se de tomar as extremidades de uma fita e uni-las após terem sido torcidas, de modo que se pode passar de uma face a outra sem necessidade de levantar o dedo). 3Assim, o mundo, "trazido à mão", como diz Maturana, é ele mesmo um fator constituinte do processo cognitivo.
" Tudo o que é dito, é dito por um observador " . Insisto no tema de Maturana, por mostrar como se fundamenta aí a prática da intertextualidade e como a cultura pós-moderna se constrói a partir da interação eu/mundo , não mais como influência de um determinado contexto sobre o indivíduo, mas como constituição mútua de um e de outro. O conceito central dessas pesquisas, o qual se apoiava na circularidade e na autonomia da organização do ser vivo, chamou-se autopoiese , nome que Maturana diz ter inventado a partir de uma conversa com um amigo sobre o dilema de Don Quixote - seguir o caminho da praxis ou o da poiesis , ou seja, o da ação ou o da criação. Aí estava a idéia para um nome que designasse a dinâmica de realização de uma rede de transformações e de produções moleculares, que constitui o ser vivo . O nome se referia de início às células, logo tidas como sistemas autopoiéticos moleculares. E, considerados os sistemas como máquinas, chamou de máquinas alopoiéticas àqueles sistemas que geram produtos distintos dos mecanismos que os produzem. Já a máquina autopoiética é uma máquina organizada como um sistema de processos de produção de componentes concatenados de tal maneira que geram os processos (relações) de produção que os produzem através de suas contínuas interações e transformações. A máquina constitui, assim, uma unidade no espaço físico. 4
Tais componentes moleculares estão dinamicamente relacionados numa contínua rede de interações, a cujas transformações químicas se deu o nome de metabolismo celular. E a unidade dessa rede, no espaço físico, é produzida por uma membrana, uma pele - fronteira que a constitui como tal e que Maturana chamou sua clausura. Esse termo tem sido por vezes mal interpretado, no sentido de que sugere solipsismo, o que foi logo contestado pelo Autor, na medida em que a membrana é permeável ao ambiente e o ambiente é a condição da existência do ser.
Como em tudo que se trabalha hoje, o conceito de rede é fundamental, seja ela uma "uma rede de produções metabólicas", ao nível celular, ou "uma rede de interações lingüísticas", ao nível social. A teoria autopoiética refere-se a um espaço físico, mas o conceito de domínio , que diz respeito àquele princípio básico do "mundo trazido à mão", possibilita também a existência de um espaço conceitual. Assim, registram-se domínios como o cognoscitivo, o comunicativo, o lingüístico - todos eles domínios de interações que se dão através do observador, e em cujas relações uma entidade pode ser observada. O cerne da teoria da autopoiese é, pois, o sistema molecular, sendo a rede autopoiética celular definida como sistema de primeira ordem. E já que os seres humanos são sistemas estabelecidos como agregados celulares, constituem eles sistemas autopoiéticos de segunda ordem. E uma terceira ordem foi ainda admitida por Maturana e Varela ao considerarem uma colméia, uma colônia, uma família ou grupos sociais como sendo também sistemas autopoiéticos. Entretanto, chamam a atenção para o fato de que aquilo que os define como o que são, enquanto sistemas sociais, não é a autopoiese de seus componentes, mas a forma de relação entre os organismos que os compõem , e que notamos na vida cotidiana no preciso instante em que os diferenciamos em sua singularidade como tais ao usar a noção de sistema social. Em função da existência desse espaço conceitual, era inevitável que a teoria se expandisse no campo das ciências humanas. Assim, outras ciências foram sensíveis aos princípios da teoria, como a ecologia, a sociologia, a política e a psicologia, esta particularmente no campo da psicoterapia familiar.
Convivendo com a literatura ao longo da minha já longa vida acadêmica e trabalhando sobretudo com o fenômeno poético, observei desde logo que um "domínio lingüístico" não era espaço bastante para conter o poema. Fazia-se necessário estabelecer-se também um domínio poético. E esta é a minha contribuição à teoria. Veja-se que não trato aqui da poesia em sentido amplo, como seria, por exemplo, falar da poesia de um texto em prosa, de uma prosa poética, de uma pintura, de uma música, ou de uma dança, e mesmo como comumente se diz, fora do âmbito da estética, "poesia do entardecer", "de uma paisagem", etc. O meu objeto de estudo é o poema , o lugar em que se concretiza a poesia em sua expressão verbal. O fato de a linguagem manipular signos que remetem a algo exterior a eles indica desde logo o seu caráter alopoiético. Mas diferentemente do domínio lingüístico, no caso do poema as palavras, além de signos, são também coisas , o que vem sendo há muito reconhecido no campo da filosofia, como em Sartre, por exemplo, e sobretudo no âmbito da psicanálise. Um dos grandes méritos de Freud foi descobrir esse caráter de coisa das palavras no seu estudo dos sonhos, do lapso e do chiste, o que foi amplamente desenvolvido por Lacan.
Mas o principal fator que me leva a reivindicar um domínio poético diferenciado do domínio lingüístico é que o poema se rege pelo "princípio de circularidade", condição da rede molecular. Trata-se de um discurso fechado sobre si mesmo, que não admite qualquer alteração, não sendo, pois, passível de manipulação metalingüística. E trata-se ainda de um discurso sem finalidade, o que é também próprio dos sistemas vivos: "Os sistemas vivos, como máquinas autopoiéticas, são sistemas sem finalidade" 5
A circularidade está também associada ao "princípio de recursividade" , pois, não sendo linear, esse discurso se fecha no que estou chamando de clausura do verso, que é um ir e vir dentro de determinados limites estabelecidos seja pelo metro, pelo ritmo - em que se destacam recursos como a rima, as assonâncias e as aliterações, as anáforas e jogos do significante - seja ainda pelo paralelismo, pela organização estrófica, por estribilho e refrão, além de recursos de natureza semântica.
Ao tomar conhecimento da teoria de Maturana e Varela constatei, pois, que já estava familiarizada com uma "rede de produções metabólicas" ao nível das palavras, o que faz de cada poema "um ser único" , cujo fechamento é operacional com respeito ao seu ambiente. Do mesmo modo que o sistema vivo se fecha na clausura constituída por uma membrana, uma pele, que lhe confere identidade, o poema se fecha na clausura do verso, que, ao lhe conferir identidade, não o isola do ambiente, como já observei. Pelo contrário: é o ambiente a sua razão de ser, o qual vou aqui definir como o autor e seu hipertexto.
Assim, a circularidade, a recursividade e a clausura do verso fazem do poema um sistema autopoiético de terceira ordem , sistema que, lembrando as palavras de Maturana e Varela, é definido não pela autopoiese de seus componentes, mas pela forma de relação entre os organismos que os compõem, e que notamos no preciso instante em que identificamos um texto como sendo um poema, seja ele constituído por versos livres ou por uma forma fixa qualquer.
Como disse de início, elegi o poeta baiano Waly Salomão, falecido no ano passado, para ilustrar as minhas reflexões teóricas. E o faço a partir de uma publicação de 2001 cujo título - O Mel do Melhor 6- diz bem da qualidade dessa antologia, em que figuram composições de datas e concepções diversas. E vou também fazer uma breve pescaria em Pescados Vivos 7, livro recém-publicado. Os primeiros textos da antologia, contestadores desde os títulos - Me segura que eu vou dar um troço , Navilouca , Gigolô de Bibelôs - são também uma contestação do verso, expressando-se através da linearidade da prosa. A mesma coisa se dá em Nossa Senhora do Dendê e o Vil Monturo , uma sátira digna de Gregório de Mattos, que a inspira. Mas em Nosso Amor Ridículo se enquadra na moldura dos séculos (p.49) já as palavras se organizam em repetições e variantes, não só de células semânticas, mas também rítmicas, como em " bagaços de rolha bolha borra porra pó" . Os textos que se seguem, sem abrir mão do propósito inovador, apresentam porém uma estrutura que os define desde logo como poemas, no ir-e-vir dos versos que lhes conferem identidade. Uma Arte Poética, com epígrafe de Sá de Miranda, trabalha variações em torno da palavra saudade , em versos curtos e repetições sucessivas que terminam de modo circular em belos jogos verbais: Saudade é uma palavra // O sol da idade e o sal das lágrimas. A preocupação com o fazer poético é uma constante na poesia de Waly Salomão, fato que o inclui na categoria dos "poetas críticos" de honrosa linhagem, tanto em nossa literatura quanto em literaturas estrangeiras. A freqüência de citações, muitas delas inseridas subrepticiamente nos versos, evidencia, além de erudição, aquele princípio de que não apenas estamos em um mundo, mas que somos um mundo, que nos alimenta e é também por nós alimentado.
Mas onde melhor eu situo as relações conflituosas do Poeta com a sua produção, com o seu ofício, é no poema " Exterior ", do livro Lábia , que ratifica a minha reivindicação de um domínio poético no campo da linguagem. Aí se insere uma expressão latina - CARPE DIEM - que é citação de uma ode de Horácio (agarre o dia, ou viva o presente) - que traduz a revolta do Poeta por ter de limitar-se a poesia ao ir-e-vir dos versos, à recursividade do discurso, marcada pela repetição da mesma pergunta ao início de cada estrofe, pela repetição de palavras que se produzem e se reproduzem na rede de transformações - nesse metabolismo verbal - que rege a circularidade do texto. Este poema deve ser lido na íntegra:
EXTERIOR
Por que a poesia tem que se confinar
Às paredes de dentro da vulva do poema?
Por que proibir à poesia
estourar os limites do grelo
da greta
da gruta
e se espraiar em pleno grude
além da grade
do sol nascido quadrado?
Por que a poesia tem que se sustentar
de pé, cartesiana milícia enfileirada,
obediente filha da pauta?
Por que a poesia não pode ficar de quatro
e se agachar e se esgueirar
para gozar
CARPE DIEM! -
fora da zona da página?
Por que a poesia de rabo preso
sem poder se operar
e, operada,
polimórfica e perversa,
não poder travestir-se
com os clitóris e os balangandãs da lira?
Guardadas as proporções, lembro-me de Manuel Bandeira ao investir contra o parnasianismo no poema "Os sapos", fazendo-o entretanto em versos tipicamente parnasianos. Ironia ou não, também a irreverência do nosso poeta baiano não foi bastante para fazê-lo violar as fronteiras da página. O poema explora o espaço com liberdade, mas o texto é um ir e vir na "clausura" do verso.
Os textos do livro póstumo - Pescados vivos - mantêm-se também nos limites da página, como em Oca do mundo, estrutura circular em que a estrofe inicial se repete no final do poema: Dia sim, dia não // noite não, noite sim //o mesmo pesadelo // e o marasmo do seu padrão. Lembro as "Modulações" a partir da palavra mirar , repetida seis vezes no início de cada verso de um pequeno poema. "Tlaquepaque" é o título de outro pequeno poema, em que o primeiro verso - Há que haver manjar dos deuses para aquele que descrê dos céus // se repete no último, transformado, ou, para guardar o jargão da biologia, metabolizado: Há que haver ambrosia para aquele que descrê dos deuses. Aliás, não há necessidade de apelar para o contexto da biologia, porque " metábole" é uma figura de linguagem - dessas que a gente hoje até já esqueceu, desde que se concentraram as figuras no processo metonímico e no processo metafórico - figura que na retórica tradicional consiste na repetição de uma idéia em termos diferentes.
Finalizando, registro ainda uma brincadeira do Poeta, que diz, à moda de Cruz e Sousa: Vem vindo que vem vindo um vento // Que vem vindo um vento sem pé nem cabeça // Que nem antena de louva-a-deus detecta // Vem vindo que vem vindo um vento.
DOMINGUES, Ivan. (Organizador). Conhecimento e Transdisciplinaridade .. Editora UFMG, p. 19, Belo Horizonte, 2001
PINKER, Steven. The Language Instinct. Harper Perenial , New York , p. 18, 1994.
DOR, Joël. Introdução à Leitura de Lacan. Artes Médicas (Reprodução da capa). Porto Alegre, 1992.
MATURANA, Humberto Ramesin e VARELA, Francisco J. García. De Máquinas e Seres Vivos, Tradução de Juan Acuña Llorens, Porto Alegre, p.71, 1997. , .
MATURANA, Humberto Ramesin e VARELA, Francisco J. García, El Árbol Del Conocimiento, Editorial Universitaria, Santiago de Chile, p.153, 1990.
SALOMÃO, Waly. O Mel do Melhor . Editora Rocco: 221 páginas, Rio de Janeiro, 2001.
SALOMÃO, Waly. Pescados Vivos . Editora Rocco: 79 páginas, Rio de Janeiro, 2004.