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Os poetas sem qualidades na poesia portuguesa recente
Ida Ferreira Alves (UFF)

A poesia em Portugal sempre esteve presente de forma muito visível e ativa. Não apenas um poeta de outrora - Camões - escreveu , de forma indelével, o imaginário da nação, como alguns outros estiveram à frente em momentos diversos de crise especialmente os vivenciados ao longo do século XIX e sob o regime salazarista posterior. Crítica, questionadora, comprometida com o tempo presente e as tensões históricas, atenta às mudanças culturais e estéticas, a poesia foi nesse pequeno país tradicionalista e hierárquico a "mais moderna das artes", como já defendeu o crítico e poeta Gastão Cruz, explicando: " Ou seja, a mais obstinada nas suas buscas, a mais inquieta na organização do seu discurso." 1

Em nossa contemporaneidade ainda a poesia portuguesa encontra razoável espaço de respiração e se mantém atrativa o suficiente para permitir um movimento ágil de publicações que se verifica na continuidade de edições de nomes já consagrados e do lançamento de novos poetas em livros, com recensões, apresentações públicas e avaliações críticas a circularem em diferentes revistas literárias e cadernos culturais dos principais jornais. Além disso mantêm-se com certa freqüência encontros com poetas para os quais afluem um público eclético que simplesmente gosta de ouvir poesia. Sem falar ainda na oferta de projetos itinerantes de leituras poéticas em escolas, colégios e outros espaços comunitários em várias cidades. Naturalmente, lá como cá, também há o rosário de queixas sobre a queda do nível de leitura, desinteresse literário, massificação cultural e controle da mídia, mas o fato é que a situação da produção poética nesse país ainda é bem favorável. "E o que é um facto é que se continua a editar muita poesia em Portugal, e ela continua a ter um grande peso na instituição literária (ao contrário do que se passa noutros países da Europa, onde se tornou um domínio quase esotérico)" 2, escreve António Guerreiro. Essa força presencial se deve e muito à importância que determinados trajetos poéticos tomaram ao longo do século XX como os de Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen (recém falecida aos 85 anos), Eugénio de Andrade, Carlos de Oliveira, Antonio Ramos Rosa, Jorge de Sena, Ruy Belo e Herberto Helder, para citar os poetas mais referenciados e determinantes para aqueles que começaram a publicar na década de 70.

Com a participação desses nomes capitais os quais necessariamente devem ser apontados em qualquer panorama mínimo da poesia portuguesa do século XX, configurou-se o projeto do Modernismo confiante na potência da palavra aliada à reflexão metafísica e à quase obsessiva preocupação metapoética, fortalecendo-se práticas poéticas de interesse conceitual e de grande rigor estético em defesa do trabalho sobre a linguagem e sobre o mundo. Situação que podemos sintetizar no trânsito entre dois pólos: a "estética do testemunho" defendida por Jorge de Sena e a "estética do fingimento" aprendida com Pessoa.

Mas, antes de tratarmos propriamente da poesia portuguesa mais recente, considerando certa produção dos anos 90, seria aconselhável rever de forma rápida os caminhos dessa poesia na década de 60, período especialmente interessante para compreensão do que veio a se firmar de 70 em diante. Nessa época politicamente dramática (a realidade da guerra em África, o acirramento da ditadura, o desejo cada vez mais forte de transformação social e política e as hesitações do senso comum perante os rumos do país), cruzaram-se práticas poéticas divergentes como: i) a escrita visceralmente metafórica de Heberto Helder, ii) o olhar atento de Ruy Belo ao real cotidiano acompanhado de um trabalho versificatório extremamente cuidadoso, iii) a depuração do verso e a contensão da subjetividade nos poemas dos jovens poetas que passaram a ser indicados como os da "Poesia 61", iv) as práticas experimentais (1964-1966) em diálogo com o concretismo brasileiro e v) a poesia de guerra e social, numa última investida neo-realista.

Esse quadro múltiplo forçou que os poetas novos de 70 demarcassem de forma nítida e crítica a sua tradição e a sua vontade de ruptura. Se, por um lado, reconheciam a importância das propostas poéticas de Jorge de Sena, de Ruy Belo e de Herberto Helder (este visto como uma figura tão onipresente que era necessário escrever "contra" ela), por outro reagiam ao centramento no significante, ao escamoteamento da subjetividade e, principalmente, ao lirismo da abstração. Um grupo desses novos poetas de 70 - Joaquim Manuel Magalhães, Helder Moura Pereira, António Franco Alexandre e João Miguel Fernandes Jorge - abre a década literalmente amassando seus poemas e metendo-os num saco, como se bombons fossem. O grupo do Cartucho (assim se chamou essa edição sui-generis ) defendia a dicção narrativa em poesia e valorizava o olhar do sujeito lírico bastante presente e bastante atento ao real à sua volta, concentrando no corpo, sentidos e sentimentos, o discurso de reação não apenas aos valores sociais tradicionais como, principalmente, às estratégias poéticas até então mais praticadas.

A inflexão da poesia publicada durante a década seguinte, que corresponde ao efectivo aparecimento de uma nova geração, determina-se numa ultrapassagem do medo sintáctico do discursivo, do medo lírico do confessionalismo e da rasteira limitação em nome de um ouvidinho musical ou de um olhinho experimental, das explosões declarativas. Contra a necessária, na altura, rarefacção do sentimento, do enunciado e do imaginário, surge na poesia mais recente um ímpeto renovado de se contar, de assumir, por máscara ou directamente, um discurso cuja tensão é menos verbal do que explicitamente emocional. Assim, irrompe uma explicitação dos lugares do corpo, uma afirmação dos desejos e das intenções, uma narração dos confrontos com a ordem do lugar, ligados a um discurso mais empenhado em declarar do que em sintetizar ou em visualizar. 3

 

Propondo uma poesia mais atenta ao cotidiano e mais próxima da história comum ("empenhada em declarar"), Joaquim Manuel Magalhães, poeta que veio a tornar-se a voz crítica mais altissonante desse grupo, dirigiu sua palavra áspera e mesmo agressiva contra uma cultura considerada por ele medíocre e passiva. Sua obra crítica indicou bem o espírito dessa geração (passe esse termo tão problemático...): uma geração dessatisfeita , sem ilusões em relação ao mundo contemporâneo. No entanto, para que não se fique com a falsa idéia de homogeneidade de intenções, nesse mesmo tempo, um outro jovem poeta destacou-se na diferença: Nuno Júdice, o qual vai desenvolver ao longo de seu trabalho uma teorização do da poesia na própria prática do poema, reatualizando uma retórica poética com uma temática clássica em torno da temporalidade e um exercício de meditação sobre a importância da palavra, explorando inteligentemente as tensões estéticas de uma época denominada por muitos de pós-moderna.

Na década seguinte, entre as assinaturas poéticas de mulher, a voz de uma verdadeira persona poética - Adília Lopes - pareceu embaralhar, exemplarmente, o jogo português de poesia quando, assumindo um tom feminino infantilizado e/ou débil, explorou a banalização da palavra poética e pôs em atrito as diversas escritas literárias (e não apenas...) construindo de livro a livro um discurso de fatos "mesquinhos" e de lugares-comuns deliciosamente reciclados e re-significados. Essa perspectiva dessublimadora (e pensamos sublime aqui no seu sentido comum de "elevado", principalmente em termos morais e intelectuais) e sem pudor no tratamento do público e do privado, chamou a atenção dos leitores em busca de novidades e provocou a polêmica por entre a crítica: poeta pop / poeta fraca, pseudo-poeta / poeta inteligente - o pastiche do fingimento pessoano e o resultado concreto da mediocridade cultural que caracterizaria os novos tempos? Ou a defesa, em poesia, do princípio básico da cultura pop, como explica com facilidade Italo Moriconi: "visibilidade total e acessibilidade total (e caótica) às informações" 4? Ainda que não possamos avaliar de forma conseqüente o impacto da poética de Adília no espaço cultural português, compreendemos que sua voz pôs em questão posições críticas e rigores estéticos e talvez seja impossível encontrar um outro trabalho poético que, nesse período, tivesse causado semelhante efeito desestruturador.

O fato é que, chegando aos anos mais recentes com extrema diversidade de propostas, com a inexistência de grupos, só é possível falar da produção mais recente por meio de antologias. Nos anos finais do século XX e início do seguinte, sobre a nova poesia

portuguesa, destacam-se três antologias poéticas : Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (1997) organizada por Pedro Mexia, Anos 90 e Agora (2001), organizada por Jorge Reis-Sá e Poetas sem qualidades (2002), organizada por Manuel de Freitas. Com outro interesse mais amplo, destaca-se também Século de Ouro - Antologia crítica da poesia portuguesa do século XX (2003), organizada por Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro

Serra. A primeira e a segunda são antologias pessoais, ou seja, respondem ao gosto de seus organizadores sem pretensão maior. Mas a terceira e a quarta merecem uma apresentação mais detida.

Poetas sem qualidades é uma pequena antologia, numa edição de apenas 350 exemplares, reunindo nove poetas novos, autores de obras publicadas nos finais da década de 90 ou nos primeiros anos do século XXI. Como epígrafe ao livro algumas palavras de Herberto Helder: "Os poetas estão a avançar com uns vagares de galinholas. Porra." E como epígrafe ao texto que serve de prefácio um fragmento retirado da tradução francesa de O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil: "Des temps nouveaux venaient de commencer (il en commence à chaque minute): à temps nouveaux, style nouveau!" Esse prefácio intitulado "O tempo dos puetas" (sic) e assinado por Manuel de Freitas, também um poeta novo de 30 anos, é quase um manifesto em busca do direito dos poetas novos fazerem uma poesia modesta, em tom baixo, sem pretensão de ser ouvida por entre os ruídos do caos urbano onde se originou. Rejeitando qualquer transcendência da palavra poética, querem-na cada vez mais sincera e direta, voz de sujeitos cotidianos e comuns vivendo uma vida banal e inquieta. Rejeitando uma tradição poética conceitual vinda desde Camões, fortalecida por Antero e Pessanha, depois determinantemente praticada por Pessoa, e continuada pelos mais importantes poetas modernos portugueses, esses "puetas" (e lembremos que "puetas" são como se denominam os poetas populares chilenos) fogem das abstrações e da exigência da "experiência da linguagem" em busca da legibilidade e da comunicação imediata, nomeando as experiências diárias e comezinhas.

questão da noite

do programa que acontece:

 

em portugal, neste fim de século,

navegar é preciso?

 

resposta:

 

se morar no barreiro, sim. 5

 

O texto de Manuel de Freitas defende o valor dos poetas reunidos na antologia pela negação: eles não desejam ser nada, não são nada, não acreditam que sejam coisa alguma.

 

"Estes poetas não são muita coisa. Não são, por exemplo, ourives de bairro, artesãos tardo-mallarmeanos, culturalizadores do poema digestivo, parafraseadores de luxo, limadores das arestas que a vida deveras tem. Podemos, pelo contrário, encontrar em todos eles um sentido agónico (discretíssimo, por vezes) e sinais evidentes de perplexidade, inquietação ou escárnio perante o tempo e o mundo em que escrevem. Não serão, de facto, poetas muito retóricos [...] mas manifestam força - ou admirável fraqueza - onde outros apenas conseguem ter forma ou uma estrutura anémica. Comunicam, em suma; [...]

 

Escrevem, portanto, sem ilusão, não acreditando na especialização do poético. Desejam

"comunicar" apenas. Na perspectiva de Manuel de Freitas, que os reuniu na sua antologia, esses "puetas" rasuram frontalmente a palavra altissonante e retórica e o organizador, agressivamente, representa essa rejeição na crítica que faz ao poeta Nuno Júdice escolhido como representante de um statu s quo poético que abomina.

Poeta promissor, em tempos mui recuados, Júdice tornou-se o emplastro vivo (quase isso, enfim) do culturalismo auto-suficiente. É um desses poetas que, quando quer parecer 'contemporâneo' de alguma coisa, quase torna palpável o esforço com que o faz, pensando certamente num público alargável ao seu génio. Trata-se, em suma, de um poeta cheio de qualidades, como os franceses sabem. 6

 

É claro que esse prefácio gerou polêmica e a antologia, na verdade, acabou se reduzindo a esse texto irreverente. Tanto que, no nº 12 , de abril de 2003 da revista portuguesa de poesia relâmpago , tematizando a nova poesia, em quatro ensaios iniciais num conjunto de cinco assinados por críticos de renome (António Guerreiro, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz e Rosa Maria Martelo) discutem o prefácio de Manuel de Freitas e a formulação de uma "poesia nova". Mas, por mais discordâncias que as palavras de Freitas tenham causado, a sua proposta "sem qualidades" não foi simplesmente a defesa de uma escrita simplista, mas muito mais um desafio aos poetas deste tempo para enfrentamento de uma poesia fortemente conceitual produzida em sua cultura. E o adjetivo "conceitual" significa a compreensão metafórica como forma de conhecimento e a necessidade da reflexão sobre a linguagem poética, aliada a um compromisso de qualidade estética que rejeita qualquer facilidade de consumo.

Curiosamente, um ano depois, Osvaldo Silvestre e Pedro Serra publicam o grosso volume intitulado Século de Ouro 7, com o subtítulo "Antologia crítica da poesia portuguesa do século XX". Com uma introdução de 50 páginas intitulada "Desaprender (com) a História" e com a epígrafe " - Que século, meu Deus! Diziam os ratos. E começavam a roer o edifício", de Carlos Drummond de Andrade, os organizadores explicam a proposta de realização de uma antologia de tal amplitude, questionando a própria formulação de "antologias", seus sentidos e limites críticos. Por desejarem uma obra sem autor, pessoal e parcial, planejaram essa antologia como produto final de várias vozes convidadas a participar do projeto. Foram contactadas 73 pessoas por entre críticos com "obra feita", críticos jovens com "obras emergentes", portugueses ou não, vivendo ou não em Portugal, e poetas convidados a "momentaneamente" a "passarem para o outro lado". Foi solicitado a esses 73 leitores especiais que indicassem três poemas maiores da poética portuguesa do século XX. Recebidos os 219 poemas, os organizadores analisaram esse grande corpus e constatadas as repetições o reduziram a 73 poemas, um para cada crítico que, então, foram chamados de novo a escrever um texto crítico colado ao poema, onde se privilegiasse em detalhe a sua realidade estética (uma "close reading" reatualizada) e não a situação histórico-literária da escrita do poeta num panorama maior da poesia portuguesa. Feito isso, a própria composição da antologia, a ordem de apresentação dos poemas com seus textos de leitura foi estabelecida por um programa de computador. Essa longa introdução problematiza os problemas, limites e questões estéticas e crítico-literárias que a formulação de uma antologia crítica provoca, a começar pela discussão do gesto de legitimação do texto poético e a constituição de um cânone.

Não poderemos ir mais longe na análise dessa provocativa introdução, mas por agora o que desejamos destacar é a reunião de poetas "com qualidades" e tantas que se tornaram incontornáveis. Considerando os 73 poemas de 47 poetas (há poetas representados por mais de um poema), constatamos que cinco poetas foram expressivamente destacados: Camilo Pessanha, Álvaro de Campos, Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Ruy Belo e Herberto Helder. Poetas para quem a poesia é uma experiência da linguagem no seu mais alto grau de sentido e de relação reflexiva com o mundo. Observemos, com curiosidade, que aparece também um poema de Adília Lopes e um único poeta novo nascido na década de 70, Daniel Faria, que faleceu aos 28 anos, em 1999. Desse poeta um poema emblemático, separando-o dos outros poetas novos, defensores de uma regresso mais radical ao real:

Escrevo do lado mais invisível das imagens

Na parede de dentro da escrita e penso

Erguer à altura da visão o candeeiro

Branco da palavra com as mãos

 

Como a paveia atrás do segador

Vejo os pés descalços dos que correm

E escrevo para os que morrem sem nunca terem provado o pão

Grito-lhes: imaginai o que nunca tivestes nas mãos

 

Correi. Como o segador seguindo o segador

Numa coifa terrestre, tombando. Digo:

Imaginai 8

 

Assim, "Poetas sem qualidades" e " Século de Ouro" agem de forma semelhante: o oferecimento de escolhas e leituras (a realidade de uma antologia) mas afastam-se radicalmente na discussão de valor. Para os leitores as questões: como fazer poesia nova hoje? O que valida essa poesia? Que experiência importa? Os "sem qualidades" defendem a experiência do real, o figurativo e a legibilidade; os "com qualidades" afirmam a experiência da linguagem, o conceito e a tensão de leitura.

Em Portugal, a considerar as escolhas dos críticos e poetas registradas em "Século de Ouro", domina a concepção de que a escrita poética é necessariamente uma prática de cultura, com alta tensão de significação, por isso rejeita-se vigorosamente as facilidades de escrita e de comunicação, mas não a simplicidade, o presente e a sensibilidade ao mundo. Sabem todos muito bem e há muito tempo que a auréola do poeta caiu na lama... Para esses que acreditam nessa concepção de poético, o poema continua a ser um não-lugar resistente ao senso-comum e ao imediatismo da "comunicação" e, por isso, escrever continua a ser um exercício de deslocamentos, desvios e atritos, num eterno trabalho de Sísifo, talvez a mais real imagem do poeta.

 

CRUZ, Gastão. A poesia portuguesa hoje . 2 ª ed. corr. e aum. Lisboa: Relógio d'Água, 1999. p. 209

GUERREIRO, António. Alguns aspectos da poesia contemporânea. In Revista Relâmpago . Lisboa: Fundação Miguel Nava, n. 12, abr. 2003. p. 11-18.

MAGALHÃES, Joaquim Manuel. Os dois crepúsculos . Lisboa: A Regra do Jogo, 1981. p. 258.

MORICONI, Italo. A poesia brasileira do século XX . Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 99-100.

Poema de Nuno Moura in FREITAS, Manuel de (org.). Poetas sem qualidades . Lisboa: Averno, 2002. p.83

FREITAS, Manuel de. Op. Cit., p.13.

SILVESTRE, Osvaldo Manuel e SERRA, Pedro. Século de ouro - antologia crítica da poesia portuguesa do século XX. Braga / Coimbra / Lisboa: Angelus Novus e Cotovia. 2003.

FARIA, Daniel. Poesia . Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003. p. 271.