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Travessias do literário em Novos estudos
George Luiz França (UFSC)

Começo lembrando as palavras de Riobaldo:

Ah, tem uma repetição, que sempre outras vezes em minha vida acontece. Eu atravesso as coisas - e no meio da travessia não vejo! - só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais em baixo, bem diverso do que em primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso? 1

Trabalhar com literatura em revista tem muito disso. Atravessando textualidades múltiplas, por vezes fazemos considerações que, se não podem aspirar ao status de absolutas, ao menos nos servem como memória e reflexão sobre como o literário se imiscui no periódico, ocupa seu espaço e penetra e se faz penetrar por discursos outros na continuidade de seu processo. No entanto, somos um tanto quanto arrastados, e nosso caminho se torna um trafegar imprevisível entre as duas margens desse turbulento e instigante rio.

Os apontamentos que aqui pretendo fazer são fruto da pesquisa que desenvolvo junto ao Projeto Poéticas Contemporâneas II, no NELIC da UFSC, e dizem respeito aos trânsitos da Literatura dentro da revista Novos Estudos , publicada pelo CEBRAP, centro de pesquisa que, como é sabido, tem inclinação teórica para o marxismo e, no dizer de Ana Cecília Olmos 2, visava a superar os limites do discurso especializado, intervindo nos debates mais significativos da esfera pública.

Vejamos, pois, com a rapidez que não nos permite longas lucubrações, algo sobre o lugar (ou entrelugar) que a Literatura ocupa nessa revista acadêmica, espaço crítico por excelência. Centrar-me-ei no momento compreendido entre os anos de 1990 e 1992 e buscarei, com a alguma distância que o tempo já permite, linhas que conduzam, se cruzem e talvez se choquem para a (re)leitura da matéria literária aí publicada. Procurarei seguir, em alguma medida, a seqüência temporal das edições, prevendo eventuais licenças em relação ao plano inicial. Travessia.

O número 26 de Novos Estudos abre o ano de 1990 sob o signo da espera. Collor recém ascendera ao poder como o primeiro presidente eleito por eleições diretas depois de tantas lutas pela restauração destas, o que repercute em um tom de decepção e perplexidade dentro da revista. Contudo, ao mesmo tempo, vê-se que há a esperança de que venha da participação popular uma nova ordem. Sem forçar associações entre a publicação de um texto e o momento que a envolve, penso aqui na aparição do ensaio Quatro esperas , de Antonio Candido, que corrobora muito do clima que relatei.

A presença de Antonio Candido, espécie de mentor dos críticos do periódico, consoa com o que assinala Raúl Antelo 3, que considera Novos Estudos como herdeiro do espólio de Argumento e Clima . A análise que Candido faz dos textos de Kaváfis, Kafka, Buzzatti e Gracq toma a espera como fio condutor. Dividindo os contextos em que esta surge no recorte feito, o autor a lê de várias maneiras, que acabam por se complementar. Primeiramente, na cidade do poema À espera dos bárbaros , de Kaváfis, como aspiração à morte do indivíduo e da sociedade, resultado do reconhecimento de que uma dada lógica social, ainda que em representação alegórica, está derrotada, e aspira à "destruição" como redenção trágica; em seguida, no texto kafkiano A construção da muralha da China , como signo do espírito de negatividade do autor em relação ao absurdo e à irracionalidade de seu tempo (passível de um paralelo com o da publicação da revista e com o nosso); na fortaleza de Il Deserto dei Tartari , de Buzzatti, como progressivo desencanto das frustrações de toda uma vida, com destaque para um paradoxal triunfo na derrota, atemporalizado na construção narrativa, ressaltando a significação individual do evento morte; e, por fim, na marinha de Le Rivage des Syrtes, de Gracq, como estagnação que precisa se resolver na assunção de um risco, na negação e destruição do Estado, possibilidade de provocar um sinal de vida na sociedade parada.

Ora, o drama entre esperar e participar, que aí se resolve numa espécie de evocação de base literária à subversão da desgastada lógica social capitalista, está implícito no contraponto que Iumna Simon coloca em texto publicado na mesma edição de Novos Estudos sob o título de Esteticismo e Participação . A autora pensa na possibilidade de alguma vanguarda no contexto pós-"vanguardas heróicas", marcado pela incorporação da idéia de novidade e pesquisa formal à lógica burguesa, como assinala Adorno, por ela citado. Vendo a forma como problema técnico que a arte precisa resolver para reassumir seu verdadeiro lugar combativo na sociedade, Iumna, analisando a produção poética brasileira de entre 1954 e 1969, advoga uma participação social efetiva, e um lugar do literário que se exima da cega crença no progresso através da técnica, mas que não se restrinja a "palavras de ordem da esquerda", destacando o fato de que a presença do "inimigo-comum-regime-militar" propiciou um momento de urgência de posicionamento crítico. Tomamos, pois, como ponto de partida, que a relação Literatura-Sociedade encontra-se em lugar privilegiado no periódico.

Mas como se comportaria a produção que era publicada já no inicio dos anos 90 em relação a essas reflexões? Olhando para o periódico de que tratamos, a idéia de intervenção social, dado que a ditadura já morrera, e com ela muitos dos líderes que progressivamente a minaram, parece nesse nível um tanto quanto "fluida": pretendo tentar lê-la nas entrelinhas. Começo pelos poemas de Felipe Fortuna publicados no número 26, em especial A luz por cima . A luz, no poema, parece quase ausente, mas, ainda que suplementar, é responsável pela construção de um ser diferente (justamente por incorporar algo a mais), para quem se volta um olhar imerso, que não pode decidir entre o ser e o poder-ser daquilo que parece estar acima e além dele, de forma que impera a dúvida sobre a corporeidade desse ser visto. Podemos comparar a perplexidade com que se posta o eu-lírico com a fluidez da possibilidade de um olhar que está inserido em uma sociedade tão complexa e sem inimigos onipresentes, e, portanto, participa dela de alguma forma.

Do mesmo poeta, aparece um segundo poema, logo abaixo, na página, que sugere algum tipo de relação entre Literatura e Sociedade no plano da criação, a começar por seu título, A construção do movimento . O corpo-peixe (possibilidade de metáfora para a sociedade ou para o indivíduo) tem, oculta sob a carne, uma espinha-poema, que o move e o faz ter sentido. Quem sabe se possa pensar que para além do reificado contexto que circunscreve a todos, talvez encravada sob a carne de cada um, estaria uma possibilidade de movimentar, mudar, recriar, enfim, refazer a sociedade? Outrossim, esta já seria outra a partir do movimento, que, além de sacudi-la, mudaria seu lugar.

O elemento animal reaparece no poema de Jayro José Xavier, A Girafa , que trabalha com a concretude de uma girafa de grandeza metafísica já a partir da forma. O poema se constrói em trissílabos, que conformam visualmente um agrupamento longilíneo de palavras. As poucas exceções à metrificação uniforme coincidem com a marcação da mudança de carga semântica: "silêncio" aparece num verso de duas sílabas, reduzindo a duração da seqüência fônica. Outra "anomalia" são os versos "e palitinhos/ de fósforo", que marcam, a quatro e duas sílabas, a maneira como a estrutura (do poema, ou talvez da sociedade, ou das concepções metafísicas, de grandeza metonimizada pela figura imponente da girafa) é construída. Esse grande animal-estrutura é visto, entretanto, como artífice engendrado por um tempo que agoniza.

Esse tempo é fruto de um passado, que, ainda que tenha todas as heróicas glórias de ter bravamente resistido à repressão, precisa ser sepulto. Isso não significa esquecê-lo, mas guardá-lo e assumir sua herança em direção à possibilidade de um "futuro melhor". O poema A sombra da árvore, de Ítalo Moriconi, posto na linhagem de que falo, pode ser interpretado dessa maneira. Figura ali um pai que revela segredos ao filho, que os guardará "como um túmulo", deixando a ambigüidade patente entre "guardar como um túmulo guardaria", ou seja, lacrá-los e preservá-los para a eternidade, ou "guardar como se guardaria um túmulo", vigiando para que não sejam desonrados ou desfeiteados. A boca do pai se fecha com flores e insetos, símbolos talvez das belezas e das abjeções que precisam ser encerradas no passado, mas consideradas por cada um, uma vez que o segredo não-revelado, e, portanto, plurissignificativo, não pode ser transferido a mais ninguém, e cabe a cada um se projetar a partir dele em direção a essa dúbia entidade a que chamamos futuro.

Retomando a linha das reflexões de Simon no já referido ensaio, podemos dizer que esses três poemas, sob uma superfície aparentemente esteticista, trazem alguma possibilidade de atribuição de significado social. Penso que o contexto representado pela linha editorial da revista (que, conforme pesquisa no Banco de Dados Periodismo Literário e Cultural , do NELIC, tem Marx como principal autor citado no período em análise) permita tal operação. Cabe mencionar, antes de seguir, que a poesia tem lugar preponderante entre as manifestações literárias da revista, tanto como criação quanto como material de análise. Contudo, há que se considerar que a revista seleciona que tipo de poesia publica e que a seção de poesia não é uma constante nela.

Na edição 27, a tradução de poesia aparece ocupando lugar de destaque. José Paulo Paes publica sua tradução para os Doze poemas para Kaváfis , de Yánnis Rítsos, poeta e militante de esquerda que, no dizer da nota prévia do tradutor, figurou no altar-mor da poesia socialmente engajada do século XX ao lado de Neruda. Os poemas prestam tributo ao poeta que, como vimos, rendera uma análise de Candido no número anterior, focalizando-o como alguém que via a poesia como remissão, e dizia que, caso estivesse errado, não se poderia esperar misericórdia de ninguém. O desejo do poeta ficcionalmente recriado de proteger a si mesmo e aos outros pode ser ligado a seu zelo pelo fogo da lâmpada a querosene, que ajudava a construir a "ponte de vidro" dos óculos de aro de tartaruga à vidraça da janela, e, conseqüentemente, à cidade, ao povo, à sociedade. À preocupação com o olhar voltado para os problemas sociais, com uma poesia comprometida com a realidade (mas não necessariamente "realista"), vem a somar-se a necessidade de alguma distância dos conflitos para lançar tal olhar, que vejo não como falta de envolvimento, mas sim como algo que parece evocar o otium cum dignitate romano. Rítsos parece oferecer uma chave para o problema da relação entre forma/pesquisa estética e participação social, proposto por Simon: "A forma não se inventa nem se impõe:/está implícita na própria matéria e se revela às vezes/no seu movimento para fora." 4 À noite, quando o trabalho cessa, chega a hora de o poeta partir, para unir-se, na morte, à suprema poesia, ausente porém intermitentemente interveniente neste mundo. E o corpo, a obra visível, ali ficaria, qual estátua, para ser relida e revalorizada tempos depois. Trabalho de periódico; travessia.

Retomando a metáfora de Riobaldo, pensemos no rio como espaço de travessia. E nos surge Manuel Bandeira com seu Boi morto , e Davi Arrigucci Jr. Entre destroços do presente. Da memória de infância reiterada ao longo da obra do poeta, a imagem marcante da morte flutuando nas turvas águas de uma enchente se torna termo de comparação para o sentimento de imersão nos destroços do presente. O ritmo do rio que flui, o fluxo que tudo arrasta e nada deixa de pé, esmiuçados pelo crítico em termos de composição formal, complementam a criação do clima de experiência da morte unicamente narrável por ser a de outro e não a do próprio eu-lírico, atônito. É o ser a caminho da destruição, no dizer do crítico, visto de forma desdobrada e partida pelo sujeito, que encontra uma espécie de substituto na grotesca imagem do boi. Na linha da herança de Candido, Arrigucci transcende o puramente intrínseco para ler relações entre a literatura e elementos extrínsecos a ela nessa análise, ainda que não trate propriamente de relações sociológicas. Publicado em Novos Estudos juntamente a um anúncio de que comporia Humildade, paixão e morte , então no prelo, este ensaio reafirma a natureza da revista como espaço de circulação e apreciação crítica, bem como de formação e consolidação de cânones. Fica por minha conta algum possível paralelo entre literário e social.

É com a Alemanha reunificada que surge a edição 28 de nossa revista, e a Literatura aparece na pessoa de Sylvia Plath, com poemas traduzidos por Vinícius Dantas. O "realismo patológico" da poetisa, que olha para o mundo de um "ponto de vista distante e algo monstruoso" 5, frio para com um mundo onde se morre de frieza, permite que pensemos novamente na questão da participação. A metáfora da morte como fuga sublimada de um mundo inerte parece propícia em um Brasil que, apesar do movimento do mundo, estava chacoalhado em seu equilíbrio, mas parado. Urgia que, como n' O parque do casarão , vermes e passarinhos (miseráveis e "menos pobres/ricos", talvez?) convergissem auspiciando um difícil nascer, que desembocasse num "ser" longevo e audaz, como em Eu sou vertical . Para que ele nascesse, talvez fosse necessário, como o faz "uma mulher" em Espelho , mirar-se, reconhecer-se, enfrentar uma velha que, no poema, salta sobre ela todo dia, ou correr o risco de morrer, como a menina que ela afoga. N' A árvore, são as falhas que matam; mas seria necessário correr o risco de cometê-las contra o Evento de deixar que tudo se solidificasse.

1991 inicia com o retorno de poemas de poetas brasileiros à revista. Paulo Henriques Britto nos traz, em seu O encantador de serpentes , a imagem de uma idéia que se insinua e sugere outro texto, "mais vivo, extremo e verdadeiro", sugerindo que a verdade, "esguia e peçonhenta" recubra a página "já quase impenetrável" 6. Evocação de uma poesia mais social? Ou visões da sociedade como discurso? Na página seguinte eis um dos poemas mais explícitos no trato com a sociedade dentre todas as edições da revista estudadas. Não possui título, mas é de autoria de Alexei Bueno. A um retrato da realidade em seus meandros mais asquerosos segue-se a seguinte evocação: "Trabalha e transforma, oh! corja torpe e encordoada/Que eu cego nos postes não farei jamais nem nada!" 7 Dois paradoxos: transformar pelo trabalho inserido e subserviente à lógica do capital e negar a intervenção social no próprio ato de, de alguma forma, fazê-la. Nada despropositado: travessia da ironia.

Conviver com autores já canônicos pode ser uma forma de consagrar novos poetas. Já falamos da aparição de Manuel Bandeira na revista, mas cabe mencionar outros grandes nomes por ela relidos. Oswald de Andrade é analisado por Vinícius Dantas no n.º 30 (julho de 1991) sob a clave das relações entre autor e obra, pensando a experiência de Oswald com as vanguardas, com a moda européia e com a esquerda, que abre, com base no primitivo, uma possibilidade de visão positiva do "atraso" brasileiro. A "periferia" ali aparece não mais como atrasada, mas como diferente. No n.º 31 (outubro de 1991) surge Murilo Mendes sendo analisado por Murilo Marcondes de Moura, que lê justamente as mudanças de postura do poeta frente à Segunda Guerra Mundial. Partindo de Os amantes submarinos , poema em que, no dizer do crítico, cria-se uma totalidade em um não-lugar, contraposta à ordem social instituída, como forma de fuga, e chegando à requisição de posicionamento crítico do autor, Moura reitera as possibilidades de relação entre Literatura e outras séries que aqui buscamos ler.

Augusto dos Anjos também passa por uma revisão crítica na revista, mas na edição de n.º 33, em julho de 1992, por obra de José Paulo Paes. O autor da chamada "poesia de tudo quanto é morto" aparece ali como alguém que conseguiu mesclar o racionalismo do século XIX com a irracionalidade, a intuição e a alucinação, para tentar compreender as "entranhas" do mundo. Daí partiria um evolucionismo às avessas , ou seja, uma expansão do eu-lírico rumo à indiferenciação, feita, contudo, pela exacerbação do ego ao ponto de este poder inclusive ser o "espião do Apocalipse", ou seja, estar além dos poderes comuns. É interessante notar que Paes encerra seu ensaio dizendo que justamente essa posição de "espião do Apocalipse", que aparece em um soneto da obra Eu , nunca foi mais atual. Estava o Brasil prestes a testemunhar o declínio de Collor. Fim do mundo? Fim da picada? Fim da linha?

Ao lado de tudo isso, continuavam aparecendo os poetas "mais recentes". Mas cabe, para finalizar, marcar três travessias de grande interesse que a revista operou. A primeira delas se deu sob a forma de ensaio de Benedito Nunes, intitulado A recente poesia brasileira , no n.º 31. Ao analisar as tendências da poesia que praticamente lhe era contemporânea, em uma revista que, como vimos, tem o prestigiado caráter crítico acadêmico, Nunes centra-se principalmente nos poetas marginais, para marcar o contraponto entre eles e as "tendências híbridas" que a seu ver pouco ruído geravam na década de 80. Podemos entrever aí, além de um índice de revisão de cânones, a preocupação em debater o atual, e, por que não dizer, o social nele subrepticiamente incluso, ainda que em tendências tão diversas quanto a reflexão metapoética, a técnica de fragmento, a neo-retórica, a negação estética e a configuração epigramática, por ele discutidas.

José Paulo Paes é uma figura que representa outra travessia. De tradutor a crítico e a poeta, sua presença se faz em importantes participações na revista. O "poeta mínimo", falando de temas tão vários quanto sua perna amputada (e o Brasil, não estava há muito manco?), Brasília e sua posição de centro (e um paralelo interessante com a política, sem "extremos"), a televisão (e a experiência indireta da realidade, que leva o sujeito a prescindir do mundo) e o shopping center (e as "almas penadas do mundo do consumo"), encerra sua participação com Ao fósforo , conclamando uma "inflamação" social que parta da poesia.

É Orides Fontela a terceira e última travessia de que aqui falarei. No n.º 30, ei-la com Teologia, Toalha, Galo e Eros II , ou seja, apresentando sua criação literária, com poemas de um clima algo etéreo, falando dos deuses (e agradecendo por não ser um deles), de brancas toalhas abertas para receber o sangue de todas as coisas, das negações do amor. Já na última edição abarcada por esta análise, de novembro de 1992, o espaço de criação se abre para o conto A forma incerta de abril, de Zulmira Ribeiro Tavares, que tematiza a postura de um "Consertador de Tudo" no dia da morte de Tancredo, evocando, no pós-impeachment, as memórias dos áureos tempos de luta e de crença na democracia. O literário estava perdendo, na revista, espaço para discussões mais pragmáticas, e a poetisa surge como tema de análise de Alcides Villaça, que, em Símbolo e acontecimento na poesia de Orides, a trata como portadora de um sentimento de Destino e de uma lucidez questionadora desse mesmo sentimento. Acontecimento e símbolo (fato e atribuição de significado) aparecem entrecruzados na análise desses poemas de "perspectiva quase impessoal, que seria metafísica se não fosse poética, que seria abstrata se não se fundasse em um sistema simbólico tão expressivo." 8 Reportemos ao momento, que, como vimos, é de incerteza: a exemplo da maneira como, para Villaça, Orides conduzia sua poesia, cabia, na vida social, acima da estóica natureza de sofrer e não reclamar, buscar um rumo racional para conduzir o incerto 1993 que haveria de vir.

Chegamos, pois, à outra margem do rio que nos propusemos a atravessar. Contudo, esta acaba por se tornar tão-somente (infeliz ou felizmente) ponto de partida para novas travessias. Seguimos através da Literatura em si, com pontes possíveis entre ela e a Sociedade, à espera de mudança.

 

 

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ANTELO, Raúl. As revistas literárias brasileiras. In.: Boletim de Pesquisa NELIC . Florianópolis: UFSC, 1997, p.5-11.

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