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Desformar o Olhar
Ana Kiffer (PUC-Rio/CNPq)

Em primeiro lugar vou tentar esboçar qual problemática permeia esse recorte do Artaud que apresento aqui hoje, lançando algumas questões que norteiam o trabalho. Em segundo lugar, vou esboçar um pouco da trajetória de sua obra para entendermos como essa problemática vai se configurando, se radicalizando e se metamorfoseando. Em terceiro lugar vou partilhar com vocês a manifestação da questão no universo dos desenhos-escritos de Artaud. E por fim, vou estar indicando ao longo do texto algumas questões que foram posteriormente apropriadas pelo pensamento da diferença francês, sobretudo por Gilles Deleuze.

O problema que funda o trabalho em diálogo com a proposta desta mesa redonda diz respeito às relações entre texto e imagem, que, em Artaud, colocaria como sendo da ordem do olhar e do corpo. Sua aventura se situa na tensão entre uma experiência de pensamento e uma plástica-poética da crueldade. Por plástica-poética o que se deseja sugerir já é da ordem de uma desestabilização dos domínios apartados do texto e da imagem. Do texto, em Artaud, diríamos que ele deixa de ser texto enquanto expressão de uma interioridade, de uma profundidade, de enunciação de um sujeito -literário ou não- em proveito de uma materialidade da escrita. E, nesse sentido escrita é dança, é teatro, é desenho, é proferição, encantamento e imprecação da linguagem. E mesmo a imagem, em Artaud, deixa de ser imagem no sentido imaginário do termo para se manifestar enquanto um campo de dilaceramento de forças capazes de nos fazer, palavras do autor "desimaginar a imagem". É desse modo que a relação entre o olhar e o corpo vai na direção de um dilaceramento do olhar enquanto fascínio, ponto fixo e fixação, ou olhar narcísico que envelopa e unifica o corpo para poder justamente explodir numa multiplicidade de corpos. No que tange à aventura do pensamento, seríamos levados a afirmar radicalmente a partir de Artaud que a literatura pensa. Neste poeta a literatura pensa o próprio pensamento (daí a vertente que inspira as posteriores investidas filosóficas) e ela o concebe enquanto pensamento do combate. Seu solo inicial será o combate contra as formas mortas da cultura ocidental. Ele escreve "idéias claras são idéias mortas e terminadas" 1. Derrida 2 dirá que ele não tem medo de se atacar com o solo latino e ocidental, donde ouvimos por atrás as idéias claras de Descartes. No entanto, e esse foi sempre um grande risco nas leituras de Artaud, combater o solo cartesiano ou o autoritarismo do discurso ocidental não significa cair no confusionismo, na loucura, no desagregar da linguagem, no obscurantismo ou hermetismo das idéias. O que estaria em jogo a partir daí seria justamente uma desestabilização das nossas categorias opositivas e, também, uma suspensão constante da possibilidade de síntese. Assim sendo, algumas questões já se esboçam norteando esse trabalho: é possível promover uma experiência do pensamento que desestabilize nossas categorias sem necessariamente erigir outras tantas categorias? É possível encetar o pensamento enquanto peste-contágio, como desejou Artaud? É possível desformar o olhar através de uma travessia poético-plástica da crueldade e, nesse sentido, "deixar cair o olho" (XXI, 232-233) que olha em proveito de um "corpo que é uma multidão perturbada" (XXVI, 187), sendo estas expressões do poeta? Recusar aderir à visão tanto como aprovação do prazer que flui esteticamente quanto como assujeitamento que se cola às coisas que vê? É possível não sermos nem leitores nem autores, nem passivos, nem ativos? É possível pensar com e não sobre?

Desformar o olhar, título dado a este trabalho, pretende, portanto, dizer dessa dupla vertente, contida na trajetória do poeta, que quer, por um lado, combater esta tradição moderna do pensamento francês exigindo um descentramento, melhor, um dilaceramento radical do olhar, uma verdadeira erosão do solo do logos ocidental e, por outro lado, quer se realizar na projeção de um corpo que, sob a ótica do humano, viria a ser um corpo em sempiterna deformação. Nesse sentido, trata-se de des-formar - retirar a fôrma da forma ou do formado deformando. É importante assinalar que, no caso do poeta, uma vertente não se realiza sem a outra. É fundamental perceber que se trata de um pensamento do combate, que vai se localizar na falência de um projeto de modernidade e na dissonância e dissenso absoluto para com o erguer de um projeto de reconstrução da humanidade, liderado pelos Estados Unidos da América no pós Segunda Grande Guerra, que viria consolidar as diretrizes deste mundo contemporâneo. Mais uma vez será nesse sentido que a recepção de Artaud se fará, sobretudo, a partir da década de sessenta e numa investida filosófica que buscará, por um lado, insuflar materialidade ao pensamento desencarnado das teorias do sujeito e, por outro lado, tomar sua força de combate como força motriz de um pensamento que se quer, ao menos inicialmente, revolucionário, capaz de alterar a ordem instituída no Pós-Guerra. No que diz respeito a Artaud, diríamos que seu combate se situa nesse limbo histórico, nem moderno, nem contemporâneo, e, ao mesmo tempo, contra o moderno e contra tal projeto de contemporâneo. Daí também o fracasso e a censura que permeou suas iniciativas artísticas e teatrais.

Mas, para que possamos compreender melhor o limbo de que falo, situado precisamente nos últimos três anos de vida do poeta -de 1945 a 1948- faz-se necessário apresentar um pouco de sua trajetória. Em primeiro lugar gostaria de destacar a amplitude e a multiplicidade da obra: hoje se tem publicado pelas Edições Gallimard vinte e oito Volumes de suas Obras Completas, muitos Cadernos ainda estão inéditos e sabe-se da existência de sessenta e cinco grandes desenhos que se encontram no Museu Georges Pompidou em Paris, no Museu Cantini em Marseille, e muitos em coleções particulares. Nos anos vinte Artaud dedica-se à escrita de inúmeros ensaios sobre poesia, cinema e artes plásticas e tem pela primeira vez alguns de seus poemas e textos publicados pela então NRF ( Nouvelle Revue Française ), Gallimard. Ele dirige o Centro de Pesquisas do Surrealismo a partir de sua adesão ao grupo em 1924. Em 1927 é expulso do grupo já que não se engajava no sectarismo partidário que envolvia o movimento nessa ocasião. Apesar de sabermos que as diferenças entre Artaud e Breton eram muito anteriores ao episódio. Nos anos trinta o poeta dedica-se quase que exclusivamente às iniciativas teatrais, lançando sua proposta para um Teatro da Crueldade. Em 1936, parte rumo ao México, onde pronuncia várias palestras na Universidade do México e segue em viagem para a Sierra dos índios Taraumaras . Escreve livro enigmático, e de certo modo profético, inspirado na cabala e no tarô, intitulado As Novas Revelações do Ser (VII, 115-145), pede ao editor que apague seu nome do livro e assina o Revelado. Em 1937, de Paris, Artaud parte imediatamente para a Irlanda. É preso em Dublin - acusado de distúrbio da ordem pública, deportado para uma França já implicada no nazi-fascismo europeu e desaparece, não só o nome, mas, também, o próprio autor. É localizado no hospício de Ville-Évrard em 1939 em condições miseráveis e consegue ser transferido com a ajuda dos amigos, somente em 1943, para o Asilo de Rodez, que ficava em zona livre durante a Segunda Grande-Guerra. Dos vinte e oito volumes hoje publicados, dezoito foram escritos a partir de 1943 e, sobretudo a partir de 1945, até sua morte em 1948. Todos os seus escritos ainda hoje inéditos são também desse período. Justamente aí é onde a obra de Artaud vai se desvinculando do contexto e do "texto" da vanguarda e encontra uma complexidade antes insuspeita. E, aqui, valeria ressaltar algo da complexidade dessa obra. Diria que a questão que atravessa a aventura do poeta poderia se resumir na pergunta: "o que é preciso para se refazer um corpo?". Preciso, significando precisar e precisão ao mesmo tempo. A precisão será a base para formulação do gesto cruel, antes projetado para o espaço cênico, e a partir de 1945, realizado nos seus "desenhos-escritos". O necessário deste gesto vem se alojar naquilo que Artaud em 1924, em sua Correspondência com Jacques Rivière (I*, 21-38), chamou ser a sua "doença do espírito" vivida como abandono desse mesmo espírito e realizada numa verdadeira "erosão do pensamento". Essas serão as bases implacáveis e inelutáveis na busca do refazer o corpo. Dessa busca, aquela que nos cabe abordar aqui diz respeito às relações entre o olhar e o corpo através do que Artaud chamou ser seus "desenhos-escritos".

Em 1947 Artaud escreve longo poema que assim se inicia:

Dez anos que a linguagem partiu, / no seu lugar entrou / esse trovão atmosférico/ esse raio/(...)/ digo então que a linguagem separada é um raio que fiz vir agora no fato humano de respirar, o qual meus golpes de lápis sobre o papel sancionam. E desde certo dia de outubro 1939 nunca mais escrevi sem também desenhar 3.

 

Dez anos que a linguagem partiu faz referência precisa ao ano de 1937, quando Artaud da Irlanda, e depois do Hospício de Ville-Évrard, inicia um processo de escrita que não mais deixará de acompanhá-lo. Tal processo realiza-se através da junção entre o desenho e a escrita, entre o traço plástico e o poético. Intitulados "sorts" 4, essas cartas perfuradas projetavam uma escrita que desejava agir fisicamente naquele que escrevia e naquele que lia. Destituir reto e verso é destituir o texto prenhe de interioridades, lugar do olhar reflexivo que assiste a si mesmo através de pontos fixos de uma construção geométrica das subjetividades. Trata-se de destituir o texto em proveito de uma escrita capaz de explodir os quadros e os enquadres, uma escrita que se perfaz na força plástica do traço mais do que na forma ou fôrma da palavra. Nessa perspectiva que busca as bases materiais da linguagem deve-se assinalar a presença do traço como constituinte do que virá a ser o surgimento de sua plástica-poética. O traço vai agir contra a linha morta da linearidade do discurso ocidental. Todos os seus Cadernos (XV ao XXV) escritos em Rodez e depois no asilo de Ivry-sur-Seine em Paris, onde Artaud passou seus últimos três anos de vida, são manifestações, como ele mesmo disse, cito: "de interjeições, desses becos sem saída, de gritos sobre a antinomia entre viver e ser: agir e pensar,/ matéria e alma,/ corpo e espírito." 5. Tais cadernos, escritos e desenhados, não puderam jamais ser editados tal qual foram executados. A edição, que contempla somente o texto, linearizando-o por completo e inúmeras vezes excluindo grande parte dos poemas à margem das páginas dos Cadernos acaba ratificando a antinomia e a hierarquia contra a qual Artaud lutou. Ao ver seus Cadernos nos deparamos com a exigência de uma verdadeira revolução do olhar, como disse Grossman, revolução "no duplo sentido de uma revolta e de uma rotação." 6.

Sobre seu desenho intitulado A Morte e o Homem Artaud escreveu:

É preciso olhar esse desenho ainda uma vez depois de já tê-lo visto uma vez. Creio que ele permanece, então, não no espaço, mas no tempo, nesse ponto do espaço do tempo onde um sopro de trás do coração retém a existência e a suspende. Eu gostaria, olhando-o de mais perto, que se encontrasse essa espécie de descolamento da retina, essa sensação como virtual de um descolamento da retina que eu tive ao desprender o esqueleto do alto da página, colocando-o para um olho. (XXI, 232-233).

 

O descolamento da retina é um esfolar da figura / desfigurar antes que a mesma assuma uma forma, é o gesto preciso da crueldade que coloca em suspensão a possibilidade de fixação do próprio olhar através de um golpe de olho, um coup d'oeil , mas que aqui se faz golpe no sentido próprio, golpe de força, perfuração do olhar. A suspensão em Artaud é aliada do sopro, gestos primordiais de sua construção plástico-poética. Através deles são os interstícios que se abrem. Nos interstícios surgem as forças geradoras, ou como disse o poeta: "eu quero dizer da emoção geradora do desenho". O traço, junto ao sopro e a suspensão, vem, desse modo, se conciliar com a tentativa de crivar os corpos e devolver-lhes os vácuos, as passagens. Ele porta a força em suas nuanças de quebra, de corte, de falha. O traço respira enquanto a linha silencia. Dele ouvimos o balançar do corpo, a mão que treme, o sopro que infla.

Nessa plástica-poética do traço, seus desenhos-escritos, "essas misérias", segundo o poeta, devem restar como potência de dissolução das formas, como força de um arrombamento da visão. No Retrato de Jane de Ruy, amante de Jacques Prevel, é possível ver a explosão do rosto através de traços que flagelam, arrombam, perfuram a superfície da face e disseminam olhos e formas oculares em vários pontos da cabeça e pescoço retratados. Num poema escrito em 1947 ele dizia: "o abismo insondável da face, do inacessível plano da superfície por onde se mostra o corpo do abismo, o abismo em corpo, esse abismo o corpo, o abismo corpo" (XIV**, 147). Trata-se, portanto, de desfazer o antagonismo entre profundidade e superfície, arrombando o olhar e disseminando-o de maneira que este não possa mais figurar enquanto olhar da profundidade, olhar reflexivo que se pensa a si mesmo. A superfície e o abismo se encontram no sem fundo do corpo. Esse corpo que quer "fazer dançar a anatomia humana" (XIII, 104) já não será mais o corpo orgânico da língua, da gramática ou do homem. Mas uma "multidão perturbada do corpo" prenhe de encantamento, de proferição e de imprecação.

Em novembro de 1947, meses antes de sua morte, Artaud é convidado pelo Diretor das emissões dramáticas da Radio Difusão Francesa para participar numa emissão intitulada A Voz dos Poetas . Ele pergunta ao diretor se poderia fazer com total liberdade sua emissão e tendo o aval positivo escreve o texto Para Acabar com o Julgamento de Deus (XIII 67-104), que deveria ser lido por ele, Maria Casares, Roger Blin e Paule Thevenin. A performance ( avant la lettre ) inaugura inúmeros ritmos sonoros, xilofonia e tambores que fazem com que hoje Artaud seja reconhecido como um dos precursores da música concreta. Depois de gravada, a emissão foi censurada pelo Diretor Geral da Rádio. Tratava-se uma experiência sonora, física, vocal, poética e política. Artaud acusava, no imediato do pós-guerra, a soberania Americana, e num tom profético, dizia ser esta uma sociedade que só produzirá soldados e tanques. Tratava-se, em tom fantástico e delirante, de refazer o corpo humano, livrando-o do julgamento de deus que se encarnava nas novas figuras dos átomos, das bombas, da medicina, da manipulação genética, dos micróbios. O tom de delírio, fundado no combate político via corpo, chamou obviamente para si a censura. Hoje parece que estamos diante de um texto quase jornalístico. Será nesse texto que Artaud vai anunciar pela primeira vez a idéia de um corpo sem órgãos. O refazer do corpo vai na direção de um esvaziar e esburacar do mesmo, liberando-o dos automatismos. Nesse sentido, trata-se um corpo que vai no sentido contrário às retificações e idealizações do corpo pleno que invade os tempos atuais. Como sabemos, a idéia de um corpo sem órgãos será a ponta de lance para escrita futura de Deleuze e Guatarri no Anti-Édipo, livro que pretende radicalmente rever a tríade (papai, mamãe e filho) fundadora de um certo sujeito da interioridade, através de uma proposta materialista marxista, que toma de Artaud a necessidade premente de devolver ao corpo a liberdade que lhe foi roubada nesse mundo onde impera o julgamento de deus e dos filhos, sua imagem e semelhança. Contra a imagem e a semelhança ele nos deixou o campo cruel das estranhezas e do combate e a tarefa constante de refazer os corpos.

"(...) riam o quanto quiserem, mas isso que chamam de micróbios é deus, e sabem vocês com o que os Americanos e os Russos fazem seus átomos? Eles os fazem com os micróbios de deus. _ Você delira, Senhor Artaud. Você é louco. _ Eu não deliro. Não sou louco. Eu vos digo que reinventaram os micróbios afim de impor uma nova idéia de deus. (...). O homem é doente porque é mal construído. É preciso decidir colocá-lo a nu para lhe raspar esse micróbio que o come mortalmente. Deus, e com deus seus órgãos. Me amarrem se quiserem, mas não há nada mais inútil do que um órgão. Quando vocês fizerem um corpo sem órgãos então vocês terão se libertado de todos os automatismos e rendido a ele sua verdadeira liberdade." (XIII, 102-103-104).

 

 

ARTAUD, Antonin. Oeuvres Completes, Tome IV . Paris : Gallimmard, 1994. p. 39. (As citações correspondentes às Obras Completas do autor serão indicadas a partir de agora no corpo do texto de maneira que o chifre romano corresponda ao volume das OC e o chifre árabe à página citada).

"Forcener lê subjectile"In: ARTAUD, Antonin. Dessins et Portratis . (org.) Derrida, Jacques & Thevenin, Paule. Paris : Gallimard, 1989. p. 59.

ARTAUD, Antonin. Oeuvres sur Papier . Marseille: Reunión des Meces Nationaux, 1995. p. 56.

Todos os desenhos-escritos que serão referidos neste trabalho podem ser vistos na publicação: ARTAUD, Antonin. Dessins et portrait, (org.) Paule Thévenin et Jacques Derrida, Paris, Gallimard, 1986.

ARTAUD, Antonin. L'arve et l'aume: tentative anti-grammaticale à propôs de Lewis Carroll et contre lui. France: L'Arbalète, 1989. p. 8.

GROSSMAN, Evelyne. Préface . In: KIFFER, Ana. Antonin Artaud uma Poética do Pensamento . España/A Coruña: Biblioteca Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor, 2003. p. 12.