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Da representação à representatividade: quem legitima?
Teresa Cabañas (UFSM)
Tenho me esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas por entendê-las
Spinoza
A última crise do projeto moderno da cultura trouxe para a esfera dos estudos literários uma situação de pronunciado sabor a ajuste de contas. Desde que o Ocidente "desenvolvido" decidiu realizar um tardio mea culpa , reconhecendo a discriminação a que submeteu por séculos culturas diversas da que apregoava sua idéia de civilização, estamos assistindo ao que Mabel Moraña definiu, não sem ironia, como o " boom do subalterno". A partir, então, dessa nova cena é que nós, sujeitos privilegiados pois emissores de veredictos críticos, passamos a nos sentir apaziguados, mais confortados por entender que agora podemos trafegar por esse vasto mundo da cultura com o que parece ser um senso de justiça mais aprimorado.
Colocada a coisa desse jeito, é bom me apressar a dizer que nós, estudiosos da literatura, toda vez que mergulhamos no mundo da representação, temos uma particularidade, que é ao mesmo tempo a motivação a dar especificidade à tarefa que desempenhamos, essa nossa lida com o estético. Pois se encaramos o mundo da representação procurando entender seus conteúdos, a nossa teima específica é com a formalização do belo, um conteúdo que a filosofia já consagrara como transcendente e quase divino. Dessa forma nos cabe o complicado desempenho de dirimir sobre uma coisa que é pura sensibilidade, à qual devemos julgar e valorar, sempre nos disseram, objetivamente. É verdade que os recursos para isso sempre os tivemos, vindos dos mais preclaros mecanismos pensantes do Primeiro Mundo, que nós, subalternos por excelência na organização internacional do mercado dos saberes, nos apressamos sempre a assumir, seja para acompanhar a moda e não passar vergonha, ou porque honestamente nos pareçam oportunos para o entendimento do nosso próprio mundo.
O que vivemos atualmente no contexto brasileiro me parece um misto dessas duas situações. Por um lado, desde que o Ocidente "civilizado" nos deu permissão para tanto, um interesse inédito pelas expressões marginais ou subalternas passa por aqui a ocupar o nosso tempo de professores e pesquisadores de literatura. No entanto, recordemos que vinte anos atrás, quando o tema não ocupava a crista da onda, o estudo, por exemplo, da literatura de cordel era mais coisa de antropólogo, poucas vezes considerada como realização plenamente estética. A situação assim posta não escapa, então, ao risco do modismo, que já se aprecia no mecanicismo com que não poucas abordagens transladam modos analíticos, teorias e achados de última geração de forma esquemática a expressões que são resultado de contextos específicos, sem que se considere a necessária passagem de uma realidade a outra, momento no qual, geralmente, o particular desajusta o modelo metropolitano. Talvez não esteja eu mais do que repondo aqui os alertas que há mais de trinta anos saíram do contexto hispano-americano, quando estudiosos locais, num esforço crítico, esperavam constituir posturas teóricas que dessem conta da particularidade dos objetos literários que por aqui existiam.
Por outro lado, há, é claro, um sentimento sincero perceptível em miradas que nos mostram o assunto através da sua problematização. Com isso quero dizer que, não conformadas com atitudes aclamatórias e/ou paternalistas de aceitação, assumem o assunto, em primeira instância, como um encarar o próprio olhar. Esse trabalho nada cômodo de espionar o próprio umbigo, de reconhecer que se ocupa um lugar de privilégio, o mesmo que nos outorga poder judicativo e axiológico, e de ser consciente de que é dessa circunstância que podem advir os perigos para uma compreensão acertada daquilo que se toma para estudo. Suspeito que este sujeito cognoscente seja ainda minoritário entre nós.
Em se tratando da nova motivação que nos entusiasma, acredito, então, que nunca seja demais reparar no lugar de emissão da nossa fala, porque este é um espaço que, queiramos ou não, se mostra distante da natureza da matéria que agora nos ocupa, e porque nosso aprendizado de hermeneutas não é o do antropólogo ou afins, mas o do sujeito que teima com a formalização estética, essa que para nós sempre foi una, a encarnada no imaginário ilustrado e eurocêntrico moderno. Esse mesmo no que tantas vezes nos situamos para desconsiderar realizações sensíveis desviadas da sua territorialidade social e cultural. Vejo nisso tudo um dos aspectos principais da problemática sui generis pela que atravessamos quando agora decidimos abordar a representação literária elaborada por sujeitos que pouco ou nunca consideramos capazes de produzir um discurso estético. Perante esta situação, já me perguntei até que ponto não estaremos renegando nosso apego secular a uma forma mentis simplesmente porque esta começa a ser desmanchada na metrópole, e por isso nos sentimos comodamente autorizados a repetir o procedimento por aqui. Minha questão, que é, na verdade, uma preocupação, surge do acompanhamento de certos discursos que, mesmo bem intencionados, não reparam, porém, na sua insistência em certos conteúdos que constituem contradição ou ambigüidade dentro da formulação do que pretendem seja uma nova via de abordagem. Em português lato: o que se expulsa pela porta se deixa entrar pela janela.
Diferentemente do espaço intelectual que desde há décadas vem sendo criado pelos vizinhos hispano-americanos, e que hoje, pode-se afirmar, constitui uma tradição de estudos dedicados às formas diferenciadas em que diversos códigos culturais se assentam no discurso literário, e isso bem antes da maré desconstrutiva , multiculturalista ou pós-colonial dar o ar da sua graça por aqui, suspeito que não se pode falar o mesmo do caso brasileiro. Viria, pois, muito a propósito olhar vez por outra para essa trajetória vizinha, conhecer alguns de sus nomes e resultados, o que poderia ajudar a formalizar mais adequadamente esse lugar da nossa fala a partir de uma perspectiva latino-americana, que é, afinal, a que nos deve representar.
Assim, o que desejo expressar a continuação são certas inquietações que brotam desse encontro com alguns dos enfoques que no Brasil recentemente se interessam pela questão da produção literária subalterna ou marginal, e que leva naturalmente a um pronunciamento sobre aspectos como sua representatividade e autenticidade, seus desdobramentos estéticos e políticos, a definição desse sujeito produtor e ainda o seu ingresso e/ou exploração pelo mercado . Faço isso colocando-me entre os olhares problematizadores de seu próprio métier , ou seja, como sujeito interessado em (re)conhecer a existência e entender a dimensão significativa dessas manifestações, com o qual quero desvelar minha própria condição privilegiada, tentando também mirar para o que esta pode me colocar de limites.
Duas perguntas inicias poderiam se formular a respeito da produção literária de setores subalternos que começa a nos interessar: que tipo de representação estética estão constituindo e que tipo de sujeito é o que aí se apresenta. Mesmo considerando que o sujeito subalterno não tenha sua definição necessariamente atrelada a uma procedência popular, é nesse recorte que eu vou me situar dado o crescente interesse que ultimamente se aprecia pelas expressões vindas das classes populares. Um dos aspectos que nelas muitos destacam como positivo é o fato de não estar existindo aí o célebre intermediário a falar pela voz do outro, mas sujeitos da experiência relatando sua versão de própria voz. É o que para alguns parece materializar naturalmente a legitimidade e/ou autenticidade dessas expressões, que estariam rompendo com a dependência da maior ou menor compreensão do sujeito ilustrado que a cultura hegemônica lhes impusera. Dessa forma, implicitamente se opera com a idéia de autenticidade, que raras vezes é claramente definida pelo estudioso ou, como em outros casos, apenas se perfila por simples oposição a esse código culto que, por exemplo, utiliza referentes do universo subalterno para formalizar seus mundos ficcionais. Aqui não é estranho encontrar um interesse por descobrir o preconceito do escritor ilustrado apenas como visão errada, inautêntica, ilegítima, porque olha para esse referente a partir de seus próprios valores e interesses, como se a visão de um sujeito subalterno não obedecesse também a valores e interesses que podem levar a uma imagem igualmente preconceituosa sobre o outro contrário. O caso é que um dos argumentos que mais começa a prevalecer à hora da consideração de algumas expressões literárias subalternas é o da autenticidade, princípio com o qual busca-se legitimar seu ingresso às rodas acadêmicas e institucionais, seu lugar nos congressos literários.
O assunto se complica quando defendendo essa autenticidade, que configura por sua vez à representatividade da expressão, no que parece um procedimento tautológico, tampouco se explicita qual é o nível da representação literária que a estaria auspiciando. Ou dizendo de outro modo, essa autenticidade sub-reptíciamente se faz repousar nos conteúdos, que se supõe devem ser, de preferência, contestadores, enquanto pouco ou nada se explora da forma que os veicula. É certo que a recomposição dos paradigmas que o tempo contemporâneo trouxe expandiu os limites do campo literário, de modo que agora, além da consideração da obra como realidade textual, podemos nos interessar por questões como condições de produção, autor, leitor, espaços de referencialidade, etc. Contudo, parece-me que em se tratando da investigação da representação literária como tal esta não poderia se furtar ao conhecimento da maneira como os conteúdos que lhe dão vida se organizam, de como se arma a estrutura sobre à qual repousam, nem que fosse pela lembrança da sempre recuperável afirmação formalista de que um conteúdo é uma forma, ou de que ele é impossível sem esta.
No caso da intervenção literária de grupos ou indivíduos marginalizados, onde incluo também aqueles não procedentes dos setores populares, o aspecto formal é o primeiro fator a ser esgrimido pelos representantes críticos das chamadas altas literaturas para sua desqualificação. As razões e o procedimento já os conhecemos, e mesmo não compactuando com eles, sou obrigada a afirmar a importância do aspecto, dado que ele tem sido argumento a elevar ou rebaixar a avaliação crítica. Para alguns dos que contestam a postura ilustrada, a estratégia de dissensão crítica parece articular-se, num primeiro momento, na ênfase ao destaque da matéria conteudística, de onde sempre será possível resgatar a visão diferenciada desse sujeito, suas agruras e dramas e, o melhor, tudo dito de viva voz. Mas quando não se esclarece a materialidade formal dessas expressões não se está, pergunto eu, repondo a mesma atitude dos críticos tradicionais? Enquanto estes destacam a questão formal como prova incontestável de um valor literário quase inexistente, os outros a silenciam ou negligenciam como se temessem que, quando ao descoberto, ela não teria como competir com os modelos paradigmáticos consagrados. O resultado disso pode ser extremamente nefasto porque deita por terra qualquer aceno em relação não apenas à consideração como ao conhecimento de tais expressões, que me parece ser o que interessa.
A atitude pode-se desdobrar ainda em outras até mais graves, como quando se censura da expressão subalterna a pretensão "ilegítima" de querer se inscrever no âmbito letrado através da utilização de algumas de suas formas ou recursos discursivos, uso que nas mãos do sujeito subalterno passa simplesmente a ser taxado de "ambíguo", "deficiente" e "mal logrado", com o qual o interesse crítico se desvia da possibilidade de vir a conhecer através desse uso o tipo de diálogo que se estabelece entre dois códigos culturais com desenvolvimentos diferentes. Uma outra ação crítica, também bastante irrefletida, é a que passa a "corrigir" a escrita desses sujeitos, apagando o que se tem por erro lingüístico, quando na verdade esses "erros" constituem marcas específicas da identidade desse sujeito produtor. Outras vezes, se cobra dessas expressões uma resistência aos apelos do mercado, uma exigência que afinal apaga aspectos importantíssimos para o entendimento dessas sensibilidades diferenciadas da nossa mesocrática, como sua pendência para o melodrama, que é estigmatizado por relacioná-lo imediatamente ao demônio da televisão, quando, na verdade, é uma das maneiras sensíveis próprias das camadas populares, como já demonstraram suficientemente os trabalhos de Carlos Monsiváis e Martín Barbero, e uma das que, cá entre nós, mais repugna à sensibilidade sofisticada do crítico, educada no controle do visceral enquanto o popular não se importa em fazê-lo público.
Estas armadilhas que nos espreitam quando nos aproximamos de manifestações sensíveis diferentes principalmente do gosto que nos formou como hermeneutas, deixam ver a persistência de conteúdos preestabelecidos que o próprio crítico custa a perceber operando na sua abordagem. Antonio Cornejo Polar, um dos críticos hispano-americanos que bem vale a pena conhecer em se tratando destas questões, compara a grei dos críticos, na qual ele mesmo se coloca, "a uma incômoda paródia do Rei Midas: tudo que tocamos se 'converte' não em ouro mas em literatura" 1. Eu me atreveria a complementar a imagem perguntando pelo conceito de literatura ou, melhor, de obra literária que esperamos ou queremos encontrar nestes casos. O problema é que, por mais que todos saibamos que tal conceito é uma convenção histórica, produto de um certo imaginário social, o que tacitamente leva a dispensar uma discussão sobre o conceito, na prática, sua implementação continua entre nós bastante obediente aos requerimentos substancialistas tradicionais. Esboço, assim, minha primeira inquietação.
Deparar, da nossa posição mesocrática, com o popular subalterno é um encontro de divergências. Da nossa postura de estudiosos, isso deveria levar, em primeiro lugar, a investigar a constituição dessas formas sensíveis diferentes das nossas, que vão se expressar em formas lingüísticas também específicas. Como toda investigação, ela deveria buscar sem os a prioris conceituais que validam outras realidades sensíveis, solicitando, por que não, as importantes contribuições que a sociologia e a antropologia têm realizado por aqui. Cientes disso, talvez possamos passar a considerar o que nos parece ambigüidade, instabilidade, precariedade e pobreza, enfim, o tratamento literário "tosco" desses códigos como algo a mais do que defeitos, como marcas significativas do conflito que carregam, expresso em formas ambivalentes de uma estética que incorpora na suas matrizes específicas outras tomadas do necessário e forçoso contato intersocial.
Seguindo a trilha desbastada aqui do lado por nossos colegas hispano-americanos
cujas contribuições críticas deveríamos nos esforçar em conhecer, pode-se descobrir que tratar da autenticidade, da genuinidade ou da legitimidade de tais expressões não tem lá tanta importância, ou que, aliás, tais formulações podem se tornam suspeitas quando reparamos que antes do que dar conta do objeto empírico abordado, elas são justificações para o nosso olhar deslocado, para nossas opções de investigação. A "legitimidade" clareia-se hoje não como uma propriedade em si da obra mas como um valor agregado pelo grupo social que se encarrega de definir o literário. O que nos converte, então, a nos próprios em elementos de suspeição.
Se o estatuto estético de expressões tais ainda precisa ser delineado, o que acredito não nos permite escapar de uma discussão teórica sobre a noção de literatura, o mesmo acontece com a figura do sujeito que as origina. Em certas oportunidades, vê-se como esse sujeito produtor, assim como sua produção, é considerado ou desacreditado através de noções similares de autêntico/inautêntico, legítimo/ilegítimo. Acredito que no afã de não parecermos preconceituosos agimos com um outro tipo de conceito prévio, que descobre no fundo nossa má consciência, e que comporta uma espécie de idealização, de romantização desse sujeito, de modo que terminamos por preferir aquele que nosso imaginário perfila como o mais golpeado, mais vilipendiado ou mais indefeso, propondo-nos, a seguir, sua reivindicação. Essa atitude deriva às vezes, e sem que o crítico pareça perceber, para situações nas quais pouco menos que se força uma contenda entre sujeitos produtores, como se se quisesse demonstrar que um é mais ou menos autêntico do que o outro. A questão não é, como já se vê por aí, que Rubem Fonseca seja mais ou menos autêntico do que Ferréz, ou que, dentro do registro subalterno, este seja menos do que Carolina Maria de Jesus. Deveríamos resistir a operar por identificação, desde que não somos obrigados a gostar de tais expressões ou de tais sujeitos, mas sim a tentar a compreensão do seu sensorium , dos mecanismos do seu imaginário, dos seus modos expressivos. A consideração de outras práticas intelectuais que já mostraram que a cultura subalterna costuma se reapropriar a seu modo de elementos da cultura hegemônica e de que o sujeito subalterno também é atravessado por redes da cultura global seria aqui de muito proveito, sobretudo para evitar a idealização e começar a perceber esse sujeito na sua complexidade heterogênea e plural, na qual se fazem presentes as contradições do sistema social e as saídas sui generis que ele encontra para sobreviver as suas condições. Deixo configurada minha segunda preocupação.
O aspecto que completa este esboço de indagações é o mercado, esse monstro, bicho-papão que não terminamos de conhecer e em relação ao qual muitos de nós fazem questão de querer distância. A paranóia que alguns da nossa grei experimentam por qualquer manifestação cultural que se achegue ao mercado se acirra agora quando certas produções subalternas conseguem expressão na mídia, o que logo vai levantando a suspeita da cooptação, da submissão aos imperativos mercadológicos. Que o mercado lucre com estas expressões é coisa que nós não podemos corrigir. Que ele articule um boom publicitário para encher seus cofres não é sempre condição sine qua non para o irremediável aparecimento de um espírito conformado. O processo editorial que deu a conhecer muitos dos melhores nomes da chamada nova narrativa hispano-americana foi uma articulação publicitária e mercadológica sem precedentes. A edição de Crónica de una muerte anunciada foi precedida de um estardalhaço propagandístico e milhares de exemplares vendidos em bancas de jornal e comércios de todo tipo. Não podemos nos aproximar do fenômeno do mercado de maneira simplista, mas tampouco é hoje plausível continuar entrincheirados, como diz Camero Martán, na inicial visão conspiradora. Ocupar-se do mercado é tarefa bastante relevante, principalmente porque ele produz defecções a partir das quais suas determinações podem passar a ser reorientadas pelo uso particular das manifestações culturais que se aproximam de sua órbita. É esse espaço de dupla mão que nos deveria interessar, assim como a questão do consumidor, ou se se quer, do receptor, pois, afinal, para quem escreve o subalterno? Nessa altura bem que poderíamos partilhar das descobertas dos cientistas sociais que desvelam o mercado como lugar não apenas de circulação de bens materiais como de trocas simbólicas.
Quem legitima era a pergunta inicial desta comunicação. Pelo menos até o acontecimento de uma reviravolta social, como essa que Henri Lefebvre prognostica quando a arte passe a ser um evento quotidiano na vida de todo homem, acredito que, em boa medida, sejamos nós, que exercemos a atividade crítica. Se lidamos com representações, que são formalizações dos conteúdos significativos de um espaço imaginário, a pergunta que me ocorre é: onde atrelar a ação legitimadora? E avançando: se consideramos formas estéticas que resultam divergentes do imaginário letrado, continuará sendo oportuno perguntar pela legitimidade? Afinal, o que devemos procurar nestes textos-espaços simbólicos pelos quais agora nos interessamos? O exercício crítico concebido pela modernidade se plantou, por razões harto conhecidas, num esforço de avaliação, de atribuição de valor, que, previamente estabelecido, regulamentava a entrada ou não da obra no espaço literário. Se os paradigmas modernos caíram por terra ou, pelo menos, estão se redefinindo - como ilustra este mesmo encontro -, dá-se, então, a ocorrência de uma mudança no objeto pelo qual a crítica literária sempre se interessou. Isso tudo assinala a necessidade de uma retificação no interior do nosso trabalho, que talvez seja, numa primeira instância e para estes assuntos específicos, um deslocamento do avaliar para o compreender. Uma suspensão, da nossa parte, da ênfase legitimadora e um aprofundamento na criação de recursos teóricos que nos permitam conhecer e entender os mecanismos imaginários e sensíveis através dos quais sujeitos muito diferentes de nós construem sua identidade social e estética. Quem sabe possamos aprender a considerar sem paternalismos a existência de uma estética diferente da que nos agrada, o que num espectro mais largo pode vir a significar o início de um aprendizado para o convívio mais respeitoso com o outro, e assim fazer a prestação de contas que a história está demandando de nós.
Escribir en el aire . Lima: Editorial Horizonte, 1994, pp. 220.