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Sob o velho olhar: velhice e espaço
Susana Moreira de Lima (UnB)

As marcas do envelhecer impressas na literatura brasileira contemporânea inscrevem esse movimento do ser humano e convida-nos a refletir sobre a metamorfose do corpo. O visível é construído pelo olhar do outro. Aquilo que se narra é também fruto de construção e engendra o que será "visto" pelo leitor. Sob tal perspectiva, percebe-se a importância do outro para a visão do eu. A esse respeito, diz Sartre: "sou possuído pelo outro: o olhar do outro estrutura meu corpo na sua nudez, o faz nascer, esculpe-o, o produz como ele é, o vê como jamais o verei. O outro detém um segredo: o segredo daquilo que sou" 1. Sob as óticas: ver de dentro e ver de fora , observam-se no espaço ficcional as implicações da velhice.

A partir do olhar de dentro , é comum encontrar-se a representação do ser mergulhado em reflexões profundas, voltado para suas percepções, mesmo debilitadas pela velhice; ou do ser atento, agarrado ao fiapo de contato ainda possível com o mundo. Assim, incomunicabilidade e degeneração do corpo são temáticas significativas em narrativas do envelhecer. Sob a ótica da impossibilidade do fazer, pela perda dos sentidos, a velhice está presente no conto de Osman Lins "Os gestos" 2, na figura do velho André. A personagem é construída a partir do elemento que a impede de se comunicar, refere-se ao corpo quando este "de instrumento, passa a ser obstáculo" 3, pois ele não pode falar. Narrado em terceira pessoa, o conto apresenta o protagonista buscando expressar-se por meio de gestos, mostrando a ponte angustiante entre a memória e a incomunicabilidade através do olhar, pelo qual capta diversas sensações e reflete sobre elas. Para melhor fruir as imagens vistas ou criadas por ele do momento presente ou do passado recente, fecha os olhos e realiza o "encontro do homem com a memória" que permite a ele "operar uma seleção do prazer sobre a dor" e traz à tona "a lembrança das sensações ou imagens que se opõem à dor 4. André vê com mais intensidade, imagina o que lhe escapa de seu campo de visão, o quarto, a janela. O envelhecimento e a limitação física freqüentemente levam o idoso ao confinamento em um espaço muito restrito.

Luiz Vilela capturou instantes de velhices, como em "Amanhã eu volto" 5, conto narrado sob a ótica do neto de uma senhora de noventa anos e constitui-se de um diálogo com predomínio da fala da velhinha, que, embora não escute quase nada, aprecia a presença do neto - faz com que a avó sinta que "ainda está viva". Num pequeno recorte, a cena dessa visita, o autor mostra que o tempo passa e leva coisas irrecuperáveis, porém, o narrador abre a lente para um foco mais sutil e nos deixa entrever, nessa vida quase apagada pela velhice, o brilho denunciador da vida que já existiu, quando narra um pequeno gesto, mas não deixa de fazer uma observação que revela parte do passado dessa mulher: "Recoloca os óculos: detrás das lentes embaçadas de dedos duas manchas esverdeadas - o que foram um dia os mais belos olhos da cidade" 6. Enquanto para muitos ela é só uma velhinha, para alguém ela representa uma beleza imensa, a quem a lembrança dela aciona fortes emoções que se inscreveram em sua memória. Os velhos de seu tempo estão todos morrendo. Haverá um tempo em que os possíveis detentores dessa memória já não existirão. Cada ser afirma sua existência na mente do outro. Existimos para o outro tal ficamos registrados em sua memória. Será isto ter existência? É algo que depende do "estar junto", que se concretiza diante do olhar do outro?

O texto de Vilela evidencia o fato de que se vai perdendo a companhia de seus contemporâneos ao longo do envelhecimento. Nessa perspectiva, pode-se evocar Simone de Beauvoir ao refletir sobre essa questão: "o velho não viu morrer apenas as pessoas de sua geração: com bastante freqüência, um outro universo substituiu o seu" 7. A representação do declínio vital da personagem revela-se nos objetos descritos no espaço ficcional, quando o olhar do narrador deixa-nos ver que na cristaleira restam poucas peças de um jogo que foi se quebrando, assim como tudo o que compõe a vida da velhinha.

A temática do corpo degradado surge freqüentemente em narrativas do envelhecer, porém não só trazendo a discussão da decrepitude como impossibilidade de comunicar-se ou de agir, mas também como novos modos de estar no mundo. A modificação ocorrida no corpo desencadeia processos de mudança nas formas de estar nos espaços, de perceber-se nessa nova condição, de se posicionar frente às circunstâncias e frente ao outro. Essa relação corpo/mundo é tratada em "A chave" 8, de Lygia Fagundes Telles, cuja ambientação é marcada por um grande espelho no quarto do casal. O conto é narrado em terceira pessoa colada no protagonista, um homem trinta e um anos mais velho que sua jovem esposa. Ele quer dormir, ela se arruma para irem a uma festa. Ele observa a moça, encantada com sua própria imagem no espelho, e pensa a respeito da juventude, sobre como aprendera com o espelho que "envelhecer é ficar fora de foco: os traços vão ficando imprecisos e o contorno do rosto acaba por se decompor como um pedaço de pão a se dissolver na água" ( AC , 55-6) 9; deseja dormir naquele instante: "trocar a paz do pijama pelo colarinho apertado, (...) ter que se barbear, encolher a barriga, obrigando-a a se refugiar no primeiro espaço vago, aquela pobre, aquela miserável barriga que não tinha nunca o direito de ficar à vontade" ( A C , 50-1).

Ao observá-la vestindo-se e pintando o rosto, o idoso pensa sobre a inutilidade de tudo aquilo, das reuniões sociais em que "os jovens querem exibir-se", e lembra-se de sua primeira esposa - sem vaidade, não atendendo a seus pedidos de que devia se arrumar um pouco -, e de quando ela começou a envelhecer: "incrível como as mãos envelhecem antes. Depois foram os cabelos. Podia ter reagido. Não reagiu. Parecia mesmo satisfeita em se entregar, pronto, agora vou ficar velha. E ficou. ( AC , 54.). Pela memória, Tom traz a imagem do passado, pode ver de dentro , e só nesse momento compreende a postura de Francisca, pois chega a sua vez de entregar-se à velhice. "Tom, já disse que você fica abatidíssimo com a barba crescida. Parece um velho./ - Eu sou velho" 10. A discussão acerca de assumir a idade avançada coloca em foco a aceitação individual dessa condição humana, e a resistência desta pelos outros, ou pela falta de habilidade do grupo social em lidar com isso como algo natural.

Os movimentos das personagens apontam os espaços por onde querem se deslocar, exibir ou esconder seus corpos. Ela, jovem e bela, quer ir para o espaço externo, encontrar outros, ficar em evidência. Ele, velho e cansado, deseja ficar em espaço privado, recolhido na obscuridade. Quer o encontro com ele mesmo, o conforto de poder ser natural e estar à vontade com seu corpo. O homem mais velho nessa narrativa já não privilegia os encontros sociais, o que não lhe parece útil ou necessário, está desenganado das ilusões do que se pode apreender a partir da aparência física e do esforço que se tem de fazer para mantê-la bem aceita em situações sociais. A perspectiva masculina da narrativa deixa que se entreveja um envelhecer masculino. O confronto entre a juventude da mulher e a velhice do corpo do homem faz com que ele compreenda a própria condição de estar disposto para a vida diferentemente dela. É um movimento de olhar de dentro , de ver-se e aceitar-se.

A partir do olhar de fora , a representação do ser evidencia-se principalmente na preocupação com o "ser visto", com o que se pode mostrar ou esconder, com a materialidade visível, com o corpo no seu aspecto tangível pelo olhar do outro. Ver e ser visto é temática apresentada de forma contundente em outro conto de Lygia Fagundes Telles, "A presença" 11, em cuja narrativa a questão do olhar destaca-se ao abordar a velhice. Neste é dado um tom mais grave à necessidade de isolamento, representada pela atitude declarada de velhinhos moradores de um espaço que, pretendem, seja reservado só a seus "iguais". Preocupam-se em se preservarem dos olhares dos outros sobre suas velhices. O espaço ficcional do conto é um hotel, cujos hóspedes são antigos moradores fixos. O isolamento dos idosos nesse local é extremo. Apesar das ponderações do porteiro de que aquele lugar não teria nada de atrativo, um jovem insiste em acomodar-se naquele hotel, - "pássaros velhos e jovens raramente visitam as mesmas terras" 12, diria Bachelard. O delineamento das personagens é traçado em rápidas pinceladas, o suficiente para mostrar o quadro das vidas naquele espaço, dado pela retina do jovem que vê, furtivamente, idosos circulando ou se escondendo. Onde nem há espelhos nos espaços comuns, para que não se vejam as marcas da velhice, nesse "canto do mundo" eles se sentem protegidos, "o ser abrigado sensibiliza os limites de seu abrigo" 13.

Simbolicamente o olhar aparece como uma revelação para quem é olhado, levado a "observar-se a si mesmo sob olhares estranhos " , pois "o olhar de outrem é um espelho" 14. Assim, os idosos do conto fogem da possibilidade de serem vistos para não enxergarem sua realidade, já que, como afirma Beauvoir, "a revelação de nossa idade" vem "dos outros" e "não consentimos nisso de boa vontade" 15. Escondem-se para não materializarem, na própria memória e na dos outros, as imagens decrépitas de seu corpo, pois "todas as imagens - refletidas ou não em espelhos - são imediatamente formadas ou deformadas por aqueles que as fixam com os olhos" 16. Nessa narrativa, os velhos recusam-se a enfrentar situações que os façam lembrar de coisas já esquecidas. Segundo Bergson, "não há percepção que não seja impregnada de lembranças" 17. Assim, ao lembrar da juventude por meio do corpo exposto do jovem, os velhinhos sofrem o incômodo causado por essa visão. De acordo com as palavras de Ecléa Bosi, "o afloramento do passado se combina com o processo corporal e presente na percepção" 18. Deste modo, ao ver a juventude do outro, o sofrimento dos velhinhos do conto é tamanho, a ponto de a voz narrativa insinuar um envenenamento do jovem. Dada ao leitor numa curta e rápida estocada, essa informação soa como seqüência natural dos fatos narrados e encerra a história, sugerindo o desaparecimento dessa personagem.

O enigma da permanência do jovem fica suspenso. O moço é, nesse espaço, peça perturbadora. Não é pelo olhar, perguntava Sartre, que "o inferno são os outros" 19? O jogo de espreita, olhares furtivos trocados entre os velhos e o jovem lembram lances sutis de uma partida. Ou de um duelo? O gozo do rapaz, ao saber-se visto por outros e também por perceber-se, pelo olhar, pivô de intriga entre um casal, dá-nos pistas de uma excentricidade mórbida, pois ele sorri e exibe seu corpo nessa circunstância. Dá-se o embate por meio do olhar. A chave do problema é a visão, o ver e o ser visto, o permitido e o proibido, o confronto da velhice com a juventude, que revela aquilo que os velhos tentam esconder ao eliminarem os espelhos das dependências comuns do hotel. O desaparecimento do rapaz-espelho é tão sutil quanto o dos espelhos, dissimuladamente esquecidos de serem recolocados nas paredes pelos "sobreviventes" daquele espaço restrito a iguais na decrepitude.

Além da perspectiva do ver de fora ou do ver de dentro , há também olhares que se cruzam na "mão dupla". É o caso de narrativas que apontam o olhar do outro vendo de fora o seu diferente, porém narram também o estranhamento não só desse que olha de fora, mas o daquele que se estranha. As temáticas que envolvem a velhice, levantadas nos contos até este ponto da análise, abordadas pela perspectiva do olhar, reúnem-se em A obscena senhora D , de Hilda Hilst: a decrepitude do corpo, o isolamento, a impossibilidade da comunicação, além do abandono e do estranhamento dessa mulher envelhecida e solitária, vista pelos vizinhos como bruxa, como louca, temida por eles. Tais temas são elementos construtores da protagonista Hillé, também denominada Senhora D de derrelição, e do texto, na medida em que são temas recorrentes da reflexão da narradora-personagem. A história dá-se por uma narrativa desenfreada de Hillé, numa mistura de invocação a deus, lamento e narrativa de memórias. Narra em primeira e em terceira pessoa, mesclando outras vozes de fora, na mesma narrativa; ela é a protagonista de sua história e da de outros, ela mesma é muitas. Hillé olha de dentro e olha de fora para entender a vida para saber da morte, é como a figura do "recordador" de que fala Ecléa Bosi, pois "o velho narrador revivendo, está aprendendo a morrer" 20. Hillé não agüenta a vida, foge para um mundo seu, isola-se de todos, até do marido quando vivo, criando seu mundo embaixo da escada. Ela narra uma experiência profunda - "naquele momento em que ela se corporifica (e se enrijece) na narrativa" pode haver a perda de sua história, porém "o mutismo também petrifica a lembrança que se paralisa e sedimenta no fundo da garganta como disse Ungaretti" 21. Deste modo, é preciso narrar.

O movimento da personagem é narrar para não petrificar a lembrança, lembrar para compreender, entender para poder morrer. Como morrer sem ter entendido a vida? Essa é uma grande inquietação da personagem. No entanto, a Senhora D recusa-se às formas convencionais de encontro. Está em conflito consigo, com os outros, com o seu deus, Ehud, a quem questiona sobre tudo. Vive em busca de repostas, da razão. Representa a falta de viço em sua vida com o gesto de substituir seus dois peixes mortos por peixes de papel pardo, que recorta e coloca no aquário, periodicamente. Segundo Merleau-Ponty "o sensível não é feito somente de coisas. É feito também de tudo o que nelas se desenha, mesmo no oco dos intervalos, tudo o que nelas deixa vestígio, tudo o que nelas figura, mesmo a título de distância e como uma certa ausência" 22. A personagem materializa o desenho das coisas substituindo os peixes por sua representação recortada em papel.

Hillé invoca a memória do que fora, denotando a dificuldade em aceitar a degradação do corpo pelo envelhecimento: "Ter sido e não poder esquecer. Ter sido e não mais lembrar". "Ser e perder-se" ( OSD , 76) 23. O que ela é no presente figura no texto como mera representação do que fora no passado, assim como seus peixes de papel, pardo e sem vida como ela se sente, apenas um reflexo da existência em outros tempos: "tendo visto, tendo sido quem fui, sou esta agora? Como foi possível ter sido Hillé, vasta, afundando os dedos na matéria do mundo, e tendo sido perder essa que era, e ser hoje quem é?" ( OSD , 24). A personagem indaga-se sobre a vida, pensa-a falando dos dejetos, das excrescências, dos detritos, do lixo. Reflete acerca do corpo, por dentro e por fora, indaga sobre a vida a partir dele: "a vida foi isso de sentir o corpo, contorno, vísceras, respirar, ver, mas nunca compreender" ( OSD ,53). A narradora fala de gosma e putrefação, de tudo o que envolve a carne que chama de barro, da vida partindo da matéria perecível e frágil para poder narrar a realidade humana, para poder dizer do fio tênue que liga o corpo à vida e a vida à morte.

Porém, a personagem traz uma nova perspectiva, a da possibilidade de renovação, já que troca os peixes toda semana, para evitar a deterioração. Assim como ela, que troca de máscaras para poder ser sempre outra. Hillé pode ser muitas e seus peixes podem ser outros. O jogo de ausência e presença, do visível e do invisível é representado dentro da narrativa em perspectiva, pois a protagonista faz a representação da representação com a ausência dos peixes, trocados por outros de papel, e representa a própria ausência ao mascarar-se, ao ser outra. Hillé ausenta-se estando presente, "a própria ausência está enraizada na presença", diz Merleau-Ponty e "as 'negatividades' também contam no mundo sensível" 24. Hillé é tão lúcida, tão presente neste mundo, que se permite o devaneio, a loucura, a ausência de si, pelo menos no olhar dos outros sobre ela. Essa é sua forma de estar no mundo, ausentando-se.

A relação da personagem com os outros dá-se por uma janela. De fora, vêem-na como um bicho, como uma louca. Ela, por sua vez, constrói a imagem pela qual quer ser vista. Prepara máscaras horripilantes e coloca-as em seu rosto antes de abrir a janela: "olhar é, ao mesmo tempo, sair de si e trazer o mundo para dentro de si" 25. Ao ser visitada, repele as pessoas que tentam aproximar-se dela, mostrando sua nudez senil. A narrativa deixa claro que a repulsa dos outros por sua nudez é na verdade pelo corpo degradado, é a recusa em ver o corpo envelhecido, a imoralidade está na velhice do corpo. Hillé quer espantar os outros com as caretas que coloca no lugar de seu rosto, desfigurado pelas marcas do envelhecimento, "o que é visto se impõe ao espectador com força suficiente como para determiná-lo ao sabor da sua percepção" 26. A personagem substitui o horror do que ela vê em si, espantada pela velhice, pelo que pode ser um espanto para o olho do outro, mascarando-se, escondendo o rosto que é a face normalmente exposta ao olhar alheio e, ao mesmo tempo, revelando sua intimidade, o que sempre fica escondido é exposto. Assim, Hillé apresenta-se aos olhos dos outros tal como um fenômeno artístico, já que intencionalmente causa estranhamento ao desnudar-se ou ao mostrar-se com caretas e focinhos, grunhindo, pois a personagem remove um procedimento "do âmbito da percepção automatizada" 27. Deste modo, já que a visão constitui "o laço vivo entre nós e o mundo, entre nós e os outros", Hillé, exterioriza e estende seu questionamento a respeito do mundo ao escandalizar o outro, ao desestabilizar as relações primeiro dentro dela, depois dentro de casa, e, por fim, no mundo, ao abrir a janela e mostrar-se chocante: "o olhar tem a capacidade de pôr em questão toda realidade". Assim, a aparição horrenda de Hillé instiga-nos a pensar sobre o olhar que não consiste apenas em "ver e ser visto (e este é o fracasso do olhar contemporâneo, a condição trágica do homem moderno que só pensa no ver e no ser visto)", pois olhar quer e pode ser mais que isto, ele pode fazer ver 28além do visível.

Hillé escancara a velhice aos olhos do leitor, narra poeticamente a vida crua. Ao abrir a janela para ser vista, a Senhora D quer mostrar outras possibilidades de ser e estar no mundo, não desiste de entender a vida e de buscar novas formas de ver e ser vista. A voz narrativa, que costura presente e passado da história da narradora-personagem, evidencia a memória como ponto de apoio central daquele que envelhece e como suporte para a constatação do que se foi ou se possuiu e da consciência das faltas atuais, das ausências, das deficiências, do que não se é mais ou não mais se tem, diferenças evidentes principalmente no corpo. A Senhora D sabe que sua obscenidade está na velhice, no seu corpo degradado, e mostrá-lo é um ato obsceno. Envelhecer é obsceno em uma sociedade que valoriza o novo e o que se vê, e que acha belo o jovem, que cria espaços para este, esquecendo-se de adaptá-los também para quem tem idade avançada, propiciando-lhes a continuidade de um viver por si, com prazer e alegria, e que os veja de outro modo, como seres com vida, com possibilidades para além, abrindo perspectivas para que se sintam assim. Para o jovem, o mundo oferece muitas possibilidades as quais seu corpo permite-lhe viver. Para o velho, os espaços são restritos, por seus limites físicos. Alarga-se o espaço da memória, que assume caráter fundamental na vida do idoso ao resgatar a lembrança de um tempo em que era valorizado pela sociedade, recuperando por instantes sua importância na mesma.

Trazer à tona esse viver envelhecido do ser e tudo que o envolve é um belíssimo modo de a literatura inquietar as pessoas e, quem sabe, mover o mundo, ainda que lentamente, como o ritmo das idosas e idosos que povoam suas histórias, mas que faça a diferença, como a vida de cada uma e de cada um tem feito nesse mesmo mundo com a passagem de suas vidas.

Susana Moreira de Lima - UnB - sulima@uol.com.br

 

NOTAS

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A sigla AC , seguida de número de página, será usada neste trabalho sempre nas citações do conto "A chave".

 

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