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Dos surtos e hospícios à escritura: trânsitos textuais em Maura Lopes Cançado
Gislene Maria Barral Lima Felipe da SILVA (Universidade de Brasília - UnB)
O desvario é farsa? Mas a que ponto atinge a farsa? A farsa despedaça o próprio corpo no fio da gilete e tranca, entre grades, a alma em sangue? Come a própria língua? Acende em holofotes os próprios olhos e os torra no espelho da memória? Então é desvario.
Reynaldo Jardim
Muitas vezes a loucura, como estado de extremo sofrimento psíquico, faz calar o artista, mergulhando-o em um sintomático silêncio existencial e criativo. Freqüentemente sua subjetividade deteriorada o conduz a uma cantilena infinda, ininteligível, desastrosa, cujo sentido beira a um grau zero, e que, ao final, equivale àquele mais profundo silêncio. Essa tagarelice porta uma lógica própria da linguagem da loucura que pode ser interpretada na escuta psicanalítica a fim de plasmar uma interpretação para os fragmentos, repetições, palavras em liberdade e construir um sentido para o aparente nonsense . Segundo o filósofo francês Michel Foucault, para quem a loucura é o último estágio anterior à morte, a insanidade significou para muitos grandes artistas - como Nerval, Allan Poe, Van Gogh, Artaud, Nietszche - a supressão da obra, o silenciamento da criação 1.
No entanto, para outros artistas a loucura manifesta-se não como apagamento total de seu pensamento e discurso, mas, principalmente, como uma possibilidade de atualização do drama psíquico na criação artística. Mesmo mergulhados nesse universo dramático, eles ainda conseguem emergir dos profundos embates com o mundo e com sua subjetividade e dar forma a uma obra criativa. Embora a loucura signifique, na ordem racional cartesiana, ruptura com a criação estética, no caso de Maura Lopes Cançado, autora de Hospício é Deus e O sofredor do ver , o desejo da escrita impõe-se de modo tão visceral que anula a premissa da loucura como silenciamento da obra.
Entre os interstícios da loucura e da sanidade, da palavra literária e da palavra insensata, ela busca em seu discurso legitimar a fala da loucura, ao mesmo tempo em que desconstrói essa loucura ao criar um texto autobiográfico centrado em uma rigorosa lógica racional. Na escrita de seu diário, em que traça a trajetória de sua loucura e assume a identidade da louca, a autora exercita a liberdade da palavra literária, e então linguagem artística e linguagem da insanidade se infiltram uma na outra. Da loucura, contudo, fica a sugestão do fenômeno como uma normalidade hipertrofiada, uma extrema lucidez que permite à escritora viver, apreender e representar sua realidade de um modo extremamente singular.
Embora confinada voluntariamente no hospício, a autora-narradora não se submete a quaisquer normas e regras do local e nem mesmo da sociedade. Inadequada e estranha às dinâmicas internas desse não-lugar, ela entrega-se à escrita e narra, no diário, sua vivência naquele espaço, exteriorizando em sua obra a funesta experiência do internamento e de convivência em um local que lhe serve como refúgio do mundo exterior, do qual sente não fazer parte e onde seria maior sua dor de viver. Talvez porque considere, conforme o psicanalista Sigmund Freud, que "a civilização é em grande parte responsável por nossa desgraça e que seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas" 2. Não sendo isso possível, e para dar vazão à imensa energia interna que constitui o princípio do prazer, o ser humano necessita de "construções auxiliares", que são as medidas paliativas para amenizar tantos sofrimentos, frustrações e impossibilidades com que o homem se depara em sua existência em sociedade 3.
A vivência da literatura constitui, então, sua forma mais real de sonhar e um modo apaixonado de viver a própria vida, numa indicação de transferência afetiva em que a escrita pode figurar como uma medida paliativa, ou uma "construção auxiliar". Ou um modo de fuga ao desprazer proporcionado pela realidade insatisfatória que vive e que tanto abomina, conforme narra, em tom confessional, nos textos dos diários e dos contos. A escrita, assim como a loucura, representam para ela sua salvação e seu modo de estar no mundo. Sofrimento e/ou salvação, literatura e loucura não se calam porque elas não se excluem para a mulher e escritora. Tanto autora quanto obra irrompem-se em uma grande, profunda e sofrida tagarelice, numa escrita que é espaço de manifestação de uma subjetividade deteriorada, porém livre.
Em Hospício é Deus , a autora-narradora inicia a narrativa com um mergulho no passado, buscando compreender a gênese de seu desequilíbrio a partir da recomposição de sua formação psicológica na infância, na qual o medo e a insegurança ocupam papel central. O tratamento distinto que recebe dos pais, a situação sócio-econômica privilegiada, o afloramento sexual reprimido e o temor religioso gerando um profundo complexo de culpa estão na base de sua subjetividade dilacerada e de seu descontrole emocional.
À medida que a narrativa evolui, constata-se que a personalidade singular da narradora pode ser explicada como resultante da sensação de fracasso em relação aos modelos sociais de comportamento, e mesmo a loucura como um rótulo imposto socialmente por ela representar um desvio dos padrões estabelecidos no espaço conservador e taciturno das Minas Gerais. O estigma da mulher livre, divorciada, o que incomoda à época por ela pertencer a uma das mais tradicionais famílias mineiras é a punição que recebe e a transtorna .
Essa condição fora-de-lugar encontra nos devaneios, na imaginação, no sonho a forma de escape de uma realidade asfixiante: "Verdade que adquiri (não sei como), liberdade total em relação a tudo e todos que me cercavam, desde a mais pequena infância. Faltavam-me meios para fugir àquele clima de asfixia. Então eu sonhava" ( HD 4, 33). Se na infância e adolescência a desmedida insatisfação com tudo ao seu redor se ameniza com o refúgio nos sonhos, na vida adulta os sonhos são substituídos pelo mergulho em um estado de total descompromisso e irresponsabilidade, representado pela loucura. O enlouquecimento significaria um modo de estar sozinha e livre de qualquer compromisso com a lógica masculino-repressiva e ainda com a lógica racional dominante, escapando-se ao dever de desempenhar os papéis sociais que lhe caberia então. Porém o estado da loucura constitui um aprendizado, uma busca que a narradora não acredita poder alcançar: "Não creio que venha a me tornar louca. Sou demais pequena e covarde (...) a eternidade é a loucura. Ser louco para mim é chegar lá" ( HD , 37).
No entanto, a imagem que ela constrói de si própria é dúbia, instável, volúvel. A o longo da narrativa, e stados de espírito contraditórios se alternam e se mesclam, como confirmação de sua instabilidade emocional: ao mesmo tempo em que critica e procura desacreditar, agredir e rejeitar a moral burguesa, a sociedade em que se formou e o sistema psiquiátrico, ela busca desesperadamente ser aceita por esse mundo e se autopune por não conseguir se adequar a seus padrões.
Mas a sociedade que a rejeita é também rejeitada por ela, que elege para si o universo do hospício como seu espaço próprio enquanto idealização de um mundo onde a loucura é a possibilidade de transcendência das limitações materiais. É ao mundo material, com tantas restrições, convenções, preconceitos, que a narradora dirige toda sua descrença. I nstaura, com isso, um movimento de transição em sua existência, rumo ao distanciamento do mundo material e à busca de sua interioridade, o que a lança ao desespero, em uma busca de sentido para sua existência. Desespero que só pode ser sentido por aqueles que, na busca do auto-conhecimento, mergulham o mais fundo em si mesmo, sentimento considerado pelo filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard 5 como próprio do ser humano, já que ele não pode se libertar do seu eu.
A personagem busca o hospício como um lugar fora do mundo e a loucura como uma proteção contra esse mesmo mundo em que fracassa em todos os seus movimentos por autonomia e liberdade. O hospício é, então, uma oportunidade de introspecção e encontro consigo própria:
O que me traz para aqui? (...) Analiso cada passo meu. Sofro cada gesto. Odeio estar aqui - mas vim. O medo de estar só me levaria a morar com os mortos. Mas não têm estado todos mortos para mim? Meu egoísmo é tão grande que não me permite esquecer-me um pouco: sou, sou, sou. Naturalmente a dor não absorve - translúcida. Meu corpo visto através do maior desespero ( HD , 77).
No entanto, paradoxalmente, esse mundo desejado, romanticamente idealizado, e transmutado no espaço físico do hospício vai ser repudiado como espaço hostil, porque lugar do convívio indesejável com pessoas aquém de seu nível social, cultural, intelectual. Minguados os recursos da herança que a mantinham em caras casas de saúde, a narradora se vê a compartilhar o mesmo espaço degradante em que são empilhadas as loucas miseráveis das classes populares.
A partir de sua auto-representação, o leitor pode visualizar a estranha figura de uma mulher louca, bela, sedutora, a tudo percebendo com profundidade e agudeza de espírito. O desejo de total libertação, mas principalmente de atenção e compreensão, culmina com a tentativa de suicídio. Para a narradora, a morte física bem poderia solucionar definitivamente toda a angústia, já que a morte espiritual, representada pela pretensa loucura, parece tê-la tornado ainda mais lúcida, uma lucidez que ultrapassa a compreensão racional:
Avanço, cega e desnecessária - não é este o meu tempo. Fora da vida, do mundo, da existência -apesar de enclausurada. Que sou eu?? Não importa.. Quem poderia julgar-me?"(...) Obrigada a marchar como os outros, aparentando ser o que não sou , ou perturbo a ordem (...) passarei, sem conseguir minha identificação. E não serei jamais alguém, freqüentei um tempo errado ( HD , 241-2).
Dessa forma, sua loucura consiste em estar no mundo e não poder compreendê-lo e absorvê-lo.
A escrita tem papel crucial nessa jornada de auto-conhecimento. Ela constitui, assim como a loucura, uma tentativa de superação do vazio interior, da angústia e do desamparo. A experiência do suicídio e o desejo de autodestruição são adiados, uma vez sublimados pela transposição dessas imagens para a experiência literária. A consciência de sua loucura como material e espaço de criação leva a narradora a identificar-se a grandes artistas loucos: Van Gogh, Gauguin, Rimbaud, Dostoievski, e a filósofos como Gide e Nietzsche ( HD , 149).
Ademais, a todo momento ela se reafirma como escritora, que precisa cuidar de sua literatura e conhece a força literária de sua escrita. Formula conceitos sobre estética, moral, ética, e registra suas reflexões acerca da criação e da crítica literária, de obras e autores consagrados. Fatos literários e artísticos da época são invocados com freqüência, bem como as alusões a figuras que sobressaem na literatura brasileira, como Assis Brasil, Ferreira Gullar, Maria Alice Barroso e outros que participam do movimento literário da época e tornam-se personagens de sua narrativa, remetendo a seu convívio intenso com o mundo literário.
Enfim, Maura Lopes Cançado se narra enquanto personagem de uma experiência trágica sobre a terra: a de não pertencer a este mundo e a nenhum outro. Se "o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros: [já que] pode ocorrer que sua palavra seja considerada nula e não seja acolhida, não tendo verdade nem importância" (FOUCAULT: 1999, 11), também na escrita literária a narradora reafirma a consciência da inutilidade de sua palavra, a impossibilidade de, como insana, fazer com que sua palavra seja recebida e validada diante da autoridade hospitalar. Assim, revela: "Mas como chegar a ele, se não me ouve, me encara como psicopata - e pronto?" ( HD , 99).
Enfim, em Hospício é Deus a autora-narradora narra a dificuldade da palavra e da escrita em representar o real em suas múltiplas facetas. Por sua limitação ou incapacidade de dizer o indizível, a representação literária enclausura a palavra nos gêneros, os quais, por sua vez, a condiciona à escolha da forma literária. No caso do diário, a autora confessa: "Ao escrever, limito-me quase sempre a registrar fatos. É pena" ( HD , 277). Essa insuficiência, ante sua necessidade íntima e desesperada de trabalhar com as palavras, jogar com elas, de lutar com elas, provoca-lhe a ponto de impor a ela a escrita literária, presente ainda mais nos contos de O sofredor do ver , onde a autora pode exercitar livremente a arte literária, embora os textos do diário primem pela riqueza das construções, pela intertextualidade nas constantes alusões a autores da literatura brasileira da época e em diálogos com outros grandes da literatura universal.
Enquanto Hospício é Deus constrói-se sob uma aparente racionalidade, os contos de O sofredor do ver retomam cenas, fatos e experiências do livro de memórias, com forte carga literária. Esse deslizamento do gênero autobiográfico para a prosa poética dos contos mostra a escritora em busca de uma maior estetização/ficcionalização de sua realidade e da alteridade da louca. Os doze contos de O sofredor do ver , todos dedicados a pessoas do convívio da autora, resultam de um trabalho artístico com riqueza de imagens literárias, recriando fatos já mencionados no diário e agora explorados sob uma nova roupagem, percebendo-se um distanciamento entre o autor e a matéria da criação, um envolvimento menos pessoal e mais literário, isto é, mais concentrado no efeito da linguagem que no registro do fato. Assim é que o leitor toma conhecimento, por exemplo, da origem do texto inicial da coletânea, "Espiral ascendente", que, segundo anotações no diário ( HD , 153), receberia o título de "Sonifene", numa alusão ao medicamento administrado à narradora, como tranqüilizante e também como medida punitiva pelo mergulho indevido na cachoeira ( SV 6, 13-8).
O conto seguinte, "O quadrado de Joana", é produzido a partir da leitura do conceito de esquizofrenia em um manual de psiquiatria que a narradora apanha na mesa de seu médico. Ao ser rotulada pelo colega como esquizofrênica, sua curiosidade incita-a a buscar conhecer seu quadro nosológico ( HD , 222). Disso resulta o enredo em que a autora se retrata como a menina estranha, representada em toda sua incapacidade de lidar com o mundo e com o rótulo que a define ( SV , 21-7).
Uma das internas, Dona Auda, que, como a própria autora, foi enclausurada "numa cidade triste de uniformes azuis e jalecos brancos, de onde não pôde mais sair" ( SV , 29), aparece tantas vezes mencionada no diário e, por sua presença simbólica, motiva o conto "Introdução a Alda". Nele, a personagem alheia ao mundo, poeticamente estranha e solitária, inspira ternura e fascina por seus modos de encarnar tão digna e grandiosamente a loucura. Pela referência em seu diário, sabe-se que esse conto é lido e relido no hospício, o que desperta a atenção de todos para a interna e leva a autora a declarar: "Talvez devesse escrever um conto para cada doente, se isso viesse melhorar-lhes a sorte" ( HD , 140).
Fatos vividos e cenas observadas no hospício são retratados no diário e nos contos. Mesmo os acontecimentos anteriores à sua estada no local, memórias da infância e adolescência, voltam a ser revividos no diário e nos contos, como a lenta aparição da cidade natal de Maura Lopes Cançado, São Gonçalo do Abaeté, que se torna título do conto dedicado "aos habitantes de lá" ( SV , 91). Quando a civilização chegasse ao pacato lugarejo, acompanhada da inevitável neurose, a louca Ambrósia, patrimônio do local, não mais estaria ali, por ter, como a cidade, crescido demais em loucura.
E os contos prosseguem em uma elaborada prosa poética, como em "Pavana", no qual claramente a autora-narradora refere-se ao seu afastamento do filho e às transformações decorrentes do surgimento da insanidade ( SV , 79). O filho aparece novamente, agora como personagem e foco narrativo, em "O rosto" ( SV , 127-31), conto a ele dedicado, e narrado do ponto de vista ora da mãe, ora do filho, que se declaram mutuamente um amor incondicional. A maioria de cunho autobiográfico, como "A menina que via o vento ( SV , 99) e que não se perdoava por não ser loura, ou a "Distância" ( SV , 65), que revela, pateticamente, como o excesso de amor-próprio dificulta o encontro com o Outro; encontro esse que ocorre, mas de modo frágil, em "Rosa recuada" ( SV , 53). Em "O espelho morto", a narradora, concentrada na experiência do existir, isola-se em sua melancolia, tornando-se uma misantropa e acometida pelo pânico, o que a faz concluir:
"... vivo sozinha em um mundo cada vez mais estranho, fantástico, monstruoso. Não que as coisas tenham se modificado tanto. Desde menina este encarceramento me sufoca, minha coragem foi sempre formada do desejo de evasão, o desespero de fugas deu-me força até hoje. Ignoro mesmo se existe um lugar onde se movam pessoas, e esta dúvida pode ser a causa da crescente inquietação que me domina, pois ameaça ruir minha única esperança" ( SV , 37),
revelando um sentimento de desamparo e estranhamento em relação ao mundo que habita, o que também aparece em "Há uma catedral que desce ( SV , 106-25). O conto que dá título à coletânea, "O sofredor do ver" ( SV , 43-50), é emblemático já que pode traduzir uma profunda busca do essencial por meio do olhar, um olhar que representa o acesso à consciência última do ser humano, que se situa para além da razão, quiçá na loucura, na ilusão da imagem.
Os trânsitos textuais entre o diário Hospício é Deus, o relato pessoal do internamento, e os contos de O sofredor do ver , a estetização da experiência da loucura, levam à compreensão do conjunto da obra como uma tentativa de conjunção realidade/ficção, não havendo um apartamento preciso e necessário entre as duas peças, que, assim se interceptando, constituem um todo dos manuscritos do internamento de Maura Lopes Cançado. Lido simultaneamente, esse conjunto de obras proporciona uma visão ampliada do drama pessoal da escritora e jornalista, do contexto sócio-histórico das Minas Gerais da primeira metade do século XX e do estilo vivo, vibrante e desesperado de uma subjetividade deteriorada pelo estigma, pelas convenções sociais e pelo rótulo de mulher louca.
Apenas sua literatura a salva do abismo de si mesma. Menciona nos diários, por meio das tentativas de suicídio ("O suicídio me parece de fato uma solução. Apesar disso,não me vejo tentada de morte como antes (...) Mas, e esta falta total? Falta de objetivo, falta de dor, de amor, - toda esta ausência? Difícil continuar enganando-me" - HD , 174), seu desejo de morte, mas a ele resiste para poder contá-lo. Sua experiência traumática e avassaladora no mundo talvez pudesse ser acalmada pela ascese à dimensão tranqüilizadora da loucura, mas essa ela a considera por demais grandiosa para si.
Por fim, mesmo quando a autora vai tecendo o enredo de seus contos, as experiências e situações lancinantes vividas no hospício repercutem mais alto, a ponto de suas observações íntimas imiscuírem-se à própria ficção, invadindo-a e vice-versa. Impossível assim, desvincular as anotações das páginas do diário das do livro de contos, pois as marcas autobiográficas e as de intuito ficcional se misturam e se confundem, constituindo um quebra-cabeças para aqueles que se interessarem por deslindar os tênues limites entre a autobiografia e a matéria ficcional que Maura Lopes Cançado produziu a partir de sua vivência no hospício.
Assim, nos trânsitos textuais das memórias do diário Hospício é Deus para os contos de O sofredor do ver os males da alma e os embates da subjetividade figuram como a mais rica matéria-prima da criação literária para Maura Lopes Cançado, que faz da literatura uma busca de contato consigo mesma, com o mundo e uma forma de resistir à loucura.
CANÇADO, Maura Lopes. Hospício é Deus . Rio de Janeiro: José Álvaro Editor, 1965.
_________. O sofredor do ver . Rio de Janeiro: José Álvaro Editor, 1968.
FOUCAULT, Michel. História da loucura na Idade Clássica. Trad. de José Teixeira Coelho Netto. 3 ed. São Paulo: Perspectiva, 1991.
_________. A ordem do discurso. Trad. de Laura Fraga de Almeida Sampaio. 5 ed. São Paulo: Loyola, 1999.
FREUD, Sigmund. O mal estar na civilização. In: _______. O futuro de uma ilusão. Trad. de José Otávio de Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1974, pp. 73-171.
KIERKEGAARD, Sören. O desespero humano . São Paulo: Martin Claret, 2002.
NOTAS:
FOUCAULT, Michel. História da loucura na Idade Clássica . Trad. de José Teixeira Coelho Netto. 3 ed. São Paulo: Perspectiva, 1991, pp. 505-30.
FREUD, Sigmund. O mal estar na civilização. In: _______. O futuro de uma ilusão . Trad. de José Otávio de Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p. 93.
A sigla HD será utilizada doravante sempre que se fizer referência à obra Hospício é Deus , acompanhando-a do número de página.
KIERKEGAARD, Sören. O desespero humano . São Paulo: Martin Claret, 2002, p. 25.
As referências a trechos do livro de contos O sofredor do ver serão feitas por meio da sigla SV , seguida do número das páginas.