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Vozes da marcha da luta pela terra: as narrativas de identidade no acervo poético do MST
Eliana Mara de Freitas Chiossi (UFBA)

Somos milhões de companheiros e companheiras buscando a libertação da terra, de homens e mulheres em um país onde a terra vale ouro e os seres humanos, alguns gramas de chumbo moldados em balas que fazem sangrar o destino do nosso povo sofredor (...) A terra no seu suspiro nos abençoa e agradece através das nuvens de poeira provocadas pelos rígidos pés descalços que seguem destemidos, construindo esta grande irmandade de companheiros em busca da dignidade perdida. Seguimos cantando. (...) Assim a terra se converte em causa, a liberdade se converte em sonho, o grifo forte se converte em guerra e o povo todo segue um só caminho na trilha estreita plantando futuro.

Ademar Bogo

 

A tradução recente do livro Histórias locais/projetos globais: colonialidades, saberes subalternos e pensamento liminar , de Walter Mignolo, é um importante acontecimento editorial pois fortalece a circulação da noção de subalternidade num diapasão afirmativo, inferido desde o título na expressão saberes subalternos . Esta expressão é bastante operacional para o estudo das produções literárias dita marginais que têm sido analisadas com mais freqüência no panorama acadêmico e podem ser reconsideradas assertivamente como discurso competente, portanto não representada como falta de saber, mas de um saber outro.

Com a eleição do presidente Luís Inácio Lula da Silva, o imaginário brasileiro é forçado a um reconfiguração. Sem entrar no mérito da eficácia de seu governo, fiquemos com a imagem que agora circula mundialmente e entre nós: no posto mais alto das instituições do país a presença de um ex-metalúrgico, líder sindical, nordestino que migrou para morar nos confins da periferia paulistana. Em seu corpo, a marca da disciplina e riscos do trabalho. Na imagem do corpo do presidente há uma falha, por ter perdido um dos dedos em acidente na fábrica. Esta falha alimenta caricaturas e sátiras, especialmente para setores da mídia que precisam de diminuir o impacto da circulação de uma imagem tão contundente: é possível ser presidente de um país como o Brasil sem ter feito curso superior.

Atualmente, setores de instituições de ensino superior têm se dedicado a tratar de temas relacionados à exclusão e marginalição em geral. O diferente está na moda e pode-se até falar em "exaustão da diferença" como se houvesse uma certa automatização no uso do termo e na escolha de corpus e campos de atuação. No caso específico da área de Literatura, há várias linhas de pesquisa que incluem este aspecto, muitas vezes revestido de uma sublimação quase oportunista, pois o diferente tanto pode ser um menino de rua esmagado no meio da noite pela violência da chacina quanto um narrador em crise perambulando pela cidade. Ao girarmos demais as designações, noções e conceitos, acabamos muitas vezes por dizer coisa nenhuma.

Há um tipo de clivagem que nos atormenta, ao escolhermos como tema a questão da exclusão ou marginalidade. Gaiatri Spivak lança uma fórmula de indagação potente no título de um de seus trabalhos: Pode o subalterno falar? No espaço acadêmico, ainda que estejamos problematizando mais, calibrando mais nossas generalizações e tomando cuidados politicamente corretos com nossas textualizações sobre eles, os outros que não somos, eles, os subalternos, não podem falar. Nós comentamos, resenhamos, divulgamos suas falas, mas eles não foram convidados para nossa festa acadêmcia de comunicações e simpósios. Mas de que tipo de subalternidade estamos falando e que tipo de falas estamos abordando? Designada genericamente, estamos reunidos por tratar de "estratégias de deslocamento no espaço social"., que pode abarcar produções canônicas e não canônicas. A coerência fica mantida pelo foco dirigido especialmente ao conteúdo e qualquer leitura marota ou arguta pode se enquadrar como afim ao conteúdo. Ou melhor dizendo, o conteúdo que narra a operação de deslocamentos sociais. Portanto, o substrato desses estudos sobre subalternidade e exclusão na literatura, passa a ser um agrupamento de abordagens de textos que são narrativas de deslocamento, um inventário circunstancial das emergências textuais que têm o deslocamento social como seu motivo. Se tomado em sentido mais genérico, o deslocamento social pode ser voluntário e vantajoso, como certas migrações e deambulações deliberadas. Podemos pensar que uma mulher branca de classe alta que decide viajar para fazer compras em Miami, para uma rethail terapy , pode estar fazendo um tipo de deslocamento social. É preciso portanto entender se na noção de deslocamento social está implícita a noção de deslocamento em situação de desvantagem ou precariedade.

A produção poética do MST, presente no Jornal dos Trabalhadores Rurais, na década de 90. Defino como produção poética o que neste jornal, no período referido, foi publicado na coluna fixa intitulada "Poesia" que apresentava textos de integrantes do movimento de todos os estados do Brasil e alguns textos de simpatizantes. Estes textos poéticos funcionam como narrativas em identitárias, que ao emergirem de um espaço não legitimado detona uma movimentação de desestabilização da imagem nacional homogênea, calcada em mitos e emblemas fundadores que negam as diferenças e os conflitos e tensões de classe, etnia e gênero.

Ao conhecer a história do MST algo se destaca: a crença no futuro. É um movimento social que efetivamente busca uma utopia, mas que se torna agente desta busca. E talvez não se trate mesmo de uma utopia mas do alcance de uma reivindicação justa: terra para trabalhar e ter resgatado o lugar de trabalhador rural, fora do esquema da expropriação e exploração, resgata-se (ou constrói-se) a identidade. Ou se compreende a identidade forjada dentro do molde da subalternidade.

É preciso muito esforço para escoimar o joio do trigo na trajetória de saber o que é o MST. De um lado, a atuação da mídia que paira entre a cegueira e demonização com que se registra a atuação do MST. De outro, os vários produtos culturais que o próprio MST elabora para vir a público, além do material produzido na academia que tem o MST como foco de estudos. Fora dessa polarização, importa agora registrar de que modo o MST se configura, e de que modo esta configuração é uma expressão identitária.

Juntamente com a luta pela terra vão sendo produzidas marcas/imagens identitárias enquanto resistência. Quando Bernardo Mançano Fernandes, historiador do MST, fala em territorialização do movimento, lembra que esta territorialização é também territorialização identitária.

Como esses sujeitos, organizados elaboram seus conhecimentos? Constroem as dimensões do espaço de socialização política? Espacializam suas práticas, territorializam a luta e, por conseguinte, o próprio movimento? É possível mapear esses processos de luta? Entender esses processos, significa mobilizar recursos teóricos que permitam decifrar as suas faltas e seus atos. Significa, sobretudo, entender a sua resistência à expropriação dentro do processo contraditório de reprodução capitalista ampliada do capital.

Ao examinar os materiais produzidos pelo MST para se tornar público, tais como revistas, jornais e sita na internet, verifico a competência que tem o movimento de tornar pública sua luta e de interagir com outras instâncias sociais, culturais e políticas no Brasil, na América Latina e no mundo. Segundo Homi Bhabha as culturas "nacionais" estão sendo produzidas a partir da perspectiva de minorias destituídas. Os trabalhadores rurais vão construindo a identidade na trajetória da marcha e da luta, que vai incluindo negociações e matizes, permitindo que os conflitos desnaturalizem as formulações de identidade e nação.

Caminhando pelas beiras de estrada do país, vão ao mesmo tempo descobrindo o direito a uma identidade, enquanto a produzem, afirmando e reafirmando, deixando o lugar de despossuídos ou subalternos para emergir como sujeitos de sua reivindicação principal, de apropriação da terra, e expande sua luta por outros territórios, em busca de trabalho, solidariedade e dignidade. A ocupação, resistência e produção se fazem no âmbito simbólico/literário e esta produção serve como espaço de construção e reconfiguração identitária. O investimento na dimensão simbólica dá ao MST um caráter distinto de outros movimentos sociais.

Ao fazer a história dos excluídos do campo, o MST conta histórias de variadas exclusões e mobiliza a memória: de lutas, de sonhos e utopias que já não se sustentam em outros lugares. [...] Estes colonos sem-terra não são somente excluídos organizados que reivindicam com competência terra e trabalho.Eles convertem a sua exclusão ecônomica e produtiva em um capital. É a ausência de terra e de trabalho que explica o movimento e sustenta sua organização. E é com este capital que o MST negocia com a sociedade civil e o Estado. [...] A existência do colono se dá na sua relação com a terra; ao perdê-la, ele não perde somente a fonte de sua sobrevivência material, mas também o suporte de sua identidade. Logo, se este sujeito não detém aquilo que o qualifica como tal - a terra - a ele não existe. É um sujeito desabitado de si. Ao ingressar no Movimento, no entanto, reencontrando-se com os seus, para lutar por aquilo que reconhece ser seu, ele quer a terra para a Reforma Agrária e a terra para dignificar seu nome e construir sua história.

Rosely Caldart, educadora do MST, declara que quando o agricultor é poeta, isto quer dizer basicamente o seguinte: ele é um artista, mas não é só um artista; não é nisso que define sua identidade. Ele é um agricultor mas não é só um agricultor comum porque tem sua sensibilidade trabalhada de modo especial. Pode-se dizer que a identidade do agricultor-poeta está na articulação entre ser trabalhador da terra e ser artista (trabalhador da arte), mas a principalidade da identificação fica no pólo " trabalhador da terra" - é um agricultor-poesta e não um poeta - agricultor - , exatamente porque é isto que o situa na sociedade.

Falar sobre o Brasil ou sobre a nação que o MST deseja é uma temática recorrente e que atravessa toda a luta pela terra. Em 1998 o MST promoveu um Concurso Nacional de Redações e Desenhos e publicou os trabalhos escolhidos no volume Desenhando o Brasil, a interpelação do título é um desafio que se coloca também para crianças e jovens dos assentamentos e acampamentos, para que ocupem seu lugar como sujeitos da discussão e do momento histórico em que vivem. A coletânea foi o resultado dos trabalhos que os estudantes das escolas do MST fizeram a partir do tema: " O Brasil que queremos". Os trabalhos escolhidos apresentavam algumas pistas importantes sobre o papel que a escola pode ter na formação dos sujeitos deste momento histórico tão importante, educando gerações mais críticas e capazes de fazer escolhas que representem novas possibilidades de futuro, não só para o nosso povo, mas para toda humanidade.

Uma espécie de revisão da nacionalidade, ou crítica direta às imagens circulantes no circuito oficial, na letra Não somos culpados remete ao país e seus dirigentes a responsabilidade pela existência de uma realidade de desigualdade e disparidade social. As cinco estrofes da letra repetem anaforicamente a expressão "não somos culpados" e a cada uma vai sendo descrita uma face da realidade contra a qual os sem-terra se insurgem:

Não somos culpados

De ser tratados no nosso país

Como estrangeiro que veio de longe

Sem saber de onde sem ter onde ir.

(...)

Não somos culpados se o Brasil amado

É o grande berço deste latifúndio.

E se a rede Globo enganou a todos

Dando a nossa pátria um colorido fundo

Que nos embriaga com tanta ilusão

Mas já descobrimos o rumo a seguir

A Reforma Agrária vamos implantar

E com muita garra iremos gritar

Que é Ocupar, Resistir e Produzir.

 

Ao falar do processo de edulcoração da realidade, através das telecomunicações hegemônicas a letra faz também um jogo interessante com alusão a termos e imagens constantes no Hino Nacional, que em muitas propagandas oficiais aparece reiterado mas numa perspectiva de idealização reacionária ou como diz a letra " por alienantes comunicações" que apresenta uma farsa contra a qual somente os trabalhadores unidos e em luta podem reverter ou desmascarar:

Não somos culpados de ser enganados

Por alienantes comunicações

Mas o tempo passa e conta esta farsa

Vai crescendo a tempo a conscientização

Com uma nova linha o povo caminha

Segue entoando uma nova canção

Outra sociedade com novos valores

O processo avança contra os opressores

Tirando os espinhos para nascer as flores.

 

É ainda este raciocínio, de crítica, que vai aparecer em tantos outros poemas. Questionando o processo de pertencimento à nação, de fazer ou não fazer parte da comunidade imaginada, e divulgada nos meios de comunicação hegemônicos, questionando se há condições de manter a lealdade quanto a própria nacionalidade, o poema da edição de julho de 1998 retrata os mitos do Brasil e se nega a compactuar com eles. As estrofes têm uma estrutura de conteúdo comum: descrevem muito criticamente o país, apontando injustiças e desigualdades, a estrofe sendo sempre iniciada pelo trecho " Um país que ..." e vai sendo completada pelas situações ligadas ao descaso com as minorias, não cumprimento das leis, corrupção, desequilíbrio ecológico. Cada estrofe é finalizada pelo dístico " Pode ser país...mas não é o meu país". As reticências vão sendo preenchidas por denúncias do que é o Brasil ideal e o Brasil real:

Um país que crianças elimina

que não ouve o clamor dos esquecidos,

Onde nunca os humildes são ouvidos

E uma elite sem Deus

É quem domina;

Que permite o estupro

em cada esquina

E a certeza da dúvida infeliz;

Onde quem tem razão baixa a cerviz

E massacram-se o negro e a mulher,

Pode ser o país que quiser,

Mas não é com certeza, o meu país!

 

 

No ano em que o MST completa 20 anos de luta a mídia oficial não comemora nem notifica. É impressionante o silêncio das nossas instituições sobre as datas que recordam resistências. Os noventa anos de Dorival Caymmi, completados em abril, renderam incensamentos, aparição em novelas e eventos alusivos e cobertura generosa na mídia. Não retiro o valor de Dorival Caymmi. Mas combinar os 90 anos de Caymmi, lembrando de suas canções marítimas que mostram a alegria e dor da vida de pescadores, com os 20 anos do MST é possível e necessário. E pode render uma boa leitura. Os peixes estão disponíveis, a rede nós é que fazemos. Enquanto estamos abrigados do calor e das chuvas, realizando congressos, com toda a infra-estrutura necessária, para falar dos excluídos, eles estão certamente ainda passando fome e sendo espancados, mas não no espaço dos textos literários, mas no espaço das desigualdades que está em todas as cidades do Brasil. Nós somoséramos responsáveis por isso de alguma forma. Relembrando o desabafo de Clarice Lispector, na crônica Mineirinho :em que comenta o assassinato de Mineirinho, bandido carioca chacinado pelo esquadrão da morte em 1962 com 13 tiros:

 

(...) há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto me desassossega, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, no sétimo e oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo-primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo-segundo chamo meu irmão. O décimo-terceiro tiro me assassina - porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

 

 

Fiquemos com algumas imagens: por não saber ler, uma senhora tem dificuldades de pegar o ônibus para fazer faxina num bairro de zona nobre em alguma grande metrópole; um aposentado, ex-trabalhador da construção civil, se desespera porque não sabe como retirar o dinheiro da aposentadoria em um caixa eletrônico; um aluno pobre e mal alfabetizado está sendo humilhado por algum professor autoritário; um médico da rede pública de saúde explica procedimentos a um paciente numa linguagem que ele não consegue entender mas não tem coragem de fazer perguntas porque se sente inferiorizado; algum crítico literário deve estar dizendo que poemas feitos por trabalhadores rurais não podem ser considerados poemas. A essa hora, exatamente, quantos subalternos podem de fato falar? E o que nos cabe de responsabilidade nestas e outras tantas imagens e cenas?

O MST aparece neste cenário não só pondo em circulação narrativas poéticas que alteram os discursos oficiais da identidade nacional, mas assumindo um papel de construção de uma via alternativa de expressão e construção de outras identidades. Como já dizia Vandré, caminhando e cantando...