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O ódio dedicado: notas sobre a produção de Ferréz - Capão Pecado (2000), Manual prático do ódio (2003) e os cadernos de Literatura Marginal (2001 e 2002).
Benito Martinez Rodriguez (UFPR)
I. A partir da publicação do romance Cidade de Deus 1, de Paulo Lins, ganhou novo impulso no cenário editorial e visibilidade nas esferas letradas, inclusive no meio universitário, certa produção textual oriunda de setores tradicionalmente excluídos do sistema literário brasileiro, sobretudo como sujeitos da escrita. Há, decerto, antecessores importantes que merecem ser considerados, de modo a dimensionar o significado da produção mais recente, bem como compreender as condições de sua emergência. Obras muito diferentes entre si como as de Luiz Gama, de Solano Trindade e de Carolina Maria de Jesus, para ficar em um punhado de exemplos, oferecem oportunidades para a problematização de questões como auto-representação, marginalidade, afirmação identitária e inserção nos circuitos letrados canônicos e mercadológicos. Historiar a apropriação e elaboração da palavra impressa por sujeitos fora dos circuitos letrados hegemônicos no Brasil é um empreendimento apenas encetado 2.
II. As relações entre fenômenos importantes da segunda metade do século passado, tais como a intensa urbanização e o crescimento das taxas de alfabetização e escolaridade, atingindo pela primeira vez na história do país amplos setores das populações pobres e socialmente marginalizadas ainda não foi satisfatoriamente articulado à compreensão desta produção tornada mais visível para o leitorado tradicional apenas no decorrer da década passada. Outro aspecto a ser associado a tal reflexão é o das relações entre formas de expressão da palavra cantada e dos circuitos de leitura e escrita nas comunidades urbanas mais pobres. Embora haja um considerável volume de estudos sobre trânsitos entre literatura e formas de canção popular urbana, ainda escasseiam as investigações que procurem articular -- seja contrastando, seja associando - o rap e a literatura dos "novos marginais".
III. A produção de Ferréz, pseudônimo de Reginaldo Ferreira da Silva, renova a demanda pela discussão de problemas como os da "autenticidade" de tais vozes, das dinâmicas que nelas se desenham entre "documento", "testemunho" e "invenção", bem como a questão do(s) valor(es) - mercadológico, estético, político - negociados em tais textos. O recente lançamento de um CD com letras de rap de autoria de Ferréz 3 , reforça a sugestão acima apontada de um exame desta produção desde a perspectiva dos trânsitos e transações entre palavra impressa e palavra cantada.
IV. Por ocasião do II Colóquio Sul de Literatura Comparada / Encontro ABRALIC (UFRGS, 2003) e logo depois do I Simpósio Internacional de Literatura Brasileira e Hispano-Americana Contemporânea (UnB, 2003), examinando o romance Capão pecado 4, de Ferréz, bem como as duas primeiras edições da publicação Literatura Marginal 5, coletâneas editadas sob a direção do mesmo autor, esbocei a noção de "literatura de mutirão". O caráter coletivo, cooperativo e de afirmação identitária de ambos os empreendimentos - o romance e as revistas -, bem como a natureza heteróclita do projeto gráfico e do material editado em ambos os casos, sugeriu-me essa idéia de ler tais textos pela chave de sua relação com as comunidades no interior das quais eles são produzidos, em forte relação com os modos de apreensão e inserção destes escritos no quadro das grandes cidades brasileiras. O termo evoca, não sem uma ponta de ironia, a utilização mais ou menos consagrada em nossa área de estudos de categorias estético-arquitetônicas e urbanísticas como "art-nouveau" e "art-decô" para designar certas dicções literárias vigorosas na passagem do século XIX para o XX e nas décadas iniciais deste. No caso do "mutirão", o olhar se desloca do coração dos então renovados e elitizados centros urbanos para as periferias das grandes aglomerações de nossos dias. De todo modo, num e noutro casos, a operação crítica busca estabelecer articulações entre os modos de percepção e elaboração da experiência urbana na escrita literária, não apenas naquilo que as categorias arquitetônicas ou urbanísticas pudessem oferecer como analogia descritiva, mas, sobretudo, como estratégias de percepção das estratégias de representação das formas de sociabilidade, de experiência cultural e elaboração verbal constituídas no quadro das grandes metrópoles brasileiras. Em outros termos: se "literatura art-nouveau" pode ser mais do que uma simples metáfora, como se vê no rendimento crítico que um José Paulo Paes consegue extrair desta idéia, tornando possível relacionar os "ornatos verbais" de certa produção por ele examinada com o desenvolvimento contemporâneo das artes decorativas cada vez mais integradas aos processos de produção e consumo massivos na transição do século XIX para o XX 6, a idéia de uma "literatura de mutirão" igualmente poderia ir além da simples analogia, tocando em questões como as da fragmentação/dissolução da concepção de autoria, da natureza heteróclita das linguagens, dos repertórios e dos procedimentos mobilizados na construção da obra, bem como seu caráter "marginal" com relação aos circuitos tradicionais de nossa cultura literária.
V. Neste sentido, os modos de avaliarmos criticamente tais trabalhos passam a supor uma reavaliação de nossos critérios de valoração estética. Isso não significa qualquer condescendência crítica, mas antes uma problematização de nossos conceitos do que seja valor estético, do que seja eficácia composicional, do que constitua sentido na produção literária, em termos análogos ao esforço de reavaliação dos critérios, tanto estéticos quanto técnicos experimentados por arquitetos, engenheiros e urbanistas, cujo resultado tornou-lhes possível uma compreensão dos modos de apreensão e operação construtiva do espaço pelas comunidades populares nas grandes cidades brasileiras 7.
VI. A passagem de uma pequena editora em formação, por meio da qual lançou seu romance de estréia, para a portentosa Objetiva, responsável pelo lançamento de seu segundo romance no final de 2003, assim como o flerte recente com o mercado fonográfico, dão conta da tensões, negociações e novas possibilidades e desafios experimentados por Ferréz nos meses recentes. A casa de alvenaria sem acabamento externo, com lajes superpostas de modo mais ou menos errático, ao sabor das disponibilidades de espaço, material, tempo e conhecimento técnico, com interior bem mais acabado, com revestimentos azulejados, reboco e pintura vibrante, faz bonito na encosta do morro ou no fundo de vale, constituindo-se em marca de realização e status no contexto da comunidade. Transladada para vizinhanças mais aburguesadas, por quais critérios se poderia compreender tal edificação? Quais sentidos ela reteria de seu contexto anterior? Se é verdade que o autor esteve entre os convidados da recente Festa Literária de Parati , tendo causado vigorosa impressão, segundo o noticiário, é certo também que foi o único dos escritores que teve como companheiro de sessão e debatedor um sociólogo.
VII. Se a incorporação de novas técnicas composicionais ao seu trabalho de ficcionista, notável na comparação entre seu primeiro e seu segundo romances, também perceptível no exame de seus escritos publicados na revista Caros Amigos 8 ao longo dos últimos três anos, aponta para um adensamento do conteúdo e da expressão de seus trabalhos, por outro lado, as pressões por adequação ao perfil do mercado e ao papel de rústico porta-voz dos ofendidos junto ao público letrado segue sendo uma armadilha considerável.
VIII. Veja-se, a propósito, "O Plano", narrativa de Ferréz disponibilizada na página do Instituto Cultural Itaú, como parte da nova edição do projeto Rumos . Nela, confluem de forma quase indistinta registro confessional, documento, e exercício de ficcionalização, operação favorecida pelo formato de crônica que o texto adota. Adotando um tom coloquial, em exercício de monólogo interior, o texto põe-se em contínua interlocução com o leitor:
Não me admira que o plano funcione, os pensamentos são vadios, afinal essa é a soma de tudo, quem? O rei do ponto? Esse tá sossegado, só contando o dinheiro, informação? Não! O povo é leigo, não entende, então não complica, o assunto na favela, só Casa dos Artistas , discutir na favela, só se o Corinthians é campeão ou não, nada contra; sabe, mas futebol não é arte, futebol é bola e homens correndo. Pra mim num pega nada, desculpa quem gosta disso, mas é simples, é a regra da vida em simples lances, eu quero mais, quero regras complicadas, quero traços que tragam uma época que talvez não vivi, mas sinto, quero palavras que gerem vida, desculpa aí, meu, mas eu não gosto disso aí, pra mim nunca vogô nada, nunca entendi, nunca participei, só sei que muitos de que gostei morreram por isso, mas nunca entendi por que morrer por isso.
O meu povo é assim, vive de paixão, o ideal revolucionário também é pura paixão, muitos amam Lucimares, muitos amam Marias, Josefas, Dorotéias, e na transubstanciação da dor um tiro mata um empresário no posto, o plano funciona.
E quer saber?
NINGUÉM É INOCENTE EM SÃO PAULO
Somos culpados.
Culpados.
Culpados também.
O mundo em guerra e a revista Época põe o Bam Bam do Big Brother na capa, mas que porra de país é esse?
Ah! É verdade, o plano funciona.
O reconhecimento da complexidade da vida em contraposição à relativa simplicidade do futebol parece refletir-se tanto nos efeitos expressivos de linguagem - "Pra mim num pega nada, desculpa quem gosta disso, mas é simples , é a regra da vida em simples lances , eu quero mais, quero regras complicadas, quero traços que tragam uma época que talvez não vivi, mas sinto" - aliterações e paralelismos, que acabam por problematizar, por meio de uma gradação, os papéis desses atores sociais: "NINGUÉM É INOCENTE EM SÃO PAULO [...] Somos culpados. Culpados. Culpados também".
IX. Um cotejo entre os recursos mobilizados na composição verbal em Capão pecado e no Manual Prático do ódio permitiria reconhecer inúmeras diferenças entre a fatura de um e outro romances, com nítida ampliação das técnicas e avanço na utilização de procedimentos narrativos no último com relação ao trabalho anterior. A opção por fragmentar a perspectiva narrativa, buscando oferecer ângulos diversos para o desenvolvimento da narrativa, a problematização dos papéis ficcionais, afastando-se do maniqueísmo do romance de estréia, os avanços na representação das personagens femininas, e, especial no caso da personagem Aninha, refletem um autor em desenvolvimento, buscando combinar repertórios e recursos, em alguns casos, apenas recentemente assimilados 9.
X. Quanto aos repertórios, a presença das epígrafes extraídas dos Salmos no segundo romance de Ferréz, assim como sua recente investida pelo território dos rappers , com o lançamento de seu próprio CD - que, registre-se, conta com as prestigiosas participações de Arnaldo Antunes e de Chico César, assim como o romance Capão pecado contara com uma "participação especial" de ninguém menos do que Mano Brown, dos Racionais MC's - aponta para estes dois grandes repositórios de tradição no trato com a palavra nas comunidades periféricas: o texto bíblico 10 e a atividade dos MC's. Neste sentido, a convivência entre construções verbais e vocabulário solenes, e não raros episódios de hiper-correção com relação à norma culta escrita e os ritmos e registros da mais franca oralidade, adoção de grafia pseudo-fonética e profusão de gíria "das quebradas" reflete uma combinação de matrizes relevantes não apenas na formação do próprio escritor, mas sobretudo do público das próprias comunidades periféricas ao qual ele também dirige seu trabalho.
XI. Impasses, desafios, soluções instigantes, arremedos de panfleto, um bocado de tudo isso parece acumular-se diante de nossos olhos, enquanto sobem as paredes de exemplares do Manual prático... no estande da editora Objetiva, na mais recente Bienal do Livro em São Paulo. Convites para conferências em universidades, comunidades populares e na Festa Literária de Parati... Para um rapaz que há cinco anos atrás entrava na maioridade legal arrolando em seu currículo as credenciais de balconista, vendedor de vassouras, auxiliar-geral e arquivista, é um movimento e tanto. Tornado possível precisamente por sua determinação em seguir escrevendo e publicando, e as peculiares condições do circuito editorial e letrado que possibilitaram tal empreendimento... E dizer que até os inícios da década passada um escritor atento e sensível como José Paulo Paes ainda escrevia que no Brasil, escrever literatura ainda era uma marca de distinção de classe, atividade feita quase que exclusivamente com os olhos e as aspirações postas no registro erudito, fosse qual fosse a estatura efetiva da obra projetada... A trajetória de um Ferréz seguramente nos coloca diante de outra ordem de problemas. Bem longe de quaisquer soluções facilitadoras.
Notas:
LINS, Paulo . Cidade de Deus . São Paulo, Companhia das Letras, 1997. Além da chancela de uma importante casa editorial, teve grande significação na recepção original deste romance a calorosa resenha crítica que lhe dedicou Roberto Schwarz: "Uma aventura artística incomum", publicada no caderno Mais , do jornal Folha de S.Paulo , em 7 de dezembro de 1997.
Algumas referências sobre estudos que contribuem para a compreensão de aspectos desta produção podem ser encontradas em meu artigo "Mutirões da palavra: literatura e vida comunitária nas periferias urbanas". In : Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. Brasília, n. 22, julho/dezembro de 2003, pp. 47-61.
Ferréz (psed. de Reginaldo Ferreira da Silva). Determinação , Caravelas, 2004. O álbum foi lançado em março de 2004.
Ferréz (psed. de Reginaldo Ferreira da Silva). São Paulo, Labortexto Editorial, 2000.
Literatura Marginal: a cultura da periferia . São Paulo, Ed. Casa Amarela. Até o presente momento foram lançados três números desta publicação: o primeiro em 2001, o segundo em 2002 e o terceiro em junho de 2004.
Cf. PAES, José Paulo. "O art-nouveau na Literatura Brasileira". In : Gregos e baianos . São Paulo, Brasiliense, 1985.
Tais questões estão melhor desenvolvidas em meu artigo antes citado (ver nota 2).
Desde 2001, Ferréz é colaborador regular da revista mensal Caros Amigos , publicada pela mesma editora através da qual viabilizou-se a edição dos três números das coletâneas Literatura Marginal: a cultura da periferia . No espaço que lhe cabe, Ferréz alterna a publicação de crônicas em registro confessional, poesia, artigos de opinião e fragmentos de corte mais tipicamente ficcional.
A propósito das leituras e influências literárias do autor, ver a entrevista por ele concedida a Marcos Zibordi, publica da revista do MST, edição de julho de 2004.
A propósito do papel da Bíblia na formação da leitura em circuitos como os de Ferréz ver: ZIBORDI, Marcos Antonio. Jornalismo alternativo e literatura marginal em Caros Amigos. Curitiba, UFPR, 2004. Dissertação de mestrado orientada por mim e pelo co-orientada pelo colega Marco Antonio Maschio Chaga, desenvolvida no Curso de Pós-Graduação em Letras. Ver em especial os capítulos 4 e 5.