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Identidades em vôo cego: estratégias de pertencimento na prosa contemporânea brasileira
Analice Martins (CEFET - Campos)

Apropriei-me da expressão Identidades em vôo cego , de João Gilberto Noll, para nomear algumas reflexões sobre a prosa contemporânea brasileira. Apropriei-me não apenas para cotejar suas próprias narrativas, mas para pensar procedimentos e estratégias recorrentes na atual prosa brasileira. Para pensar também que relações se estabelecem entre a multiplicação de processos de identificação e os movimentos de deslocamento e nomadismo na contemporaneidade.

Apropriei-me, além disso, porque vejo, numa certa produção ficcional contemporânea, um projeto de reflexão, que não pretende escamotear seu local de enunciação, realocando a autoria na cena literária contemporânea. As entrevistas concedidas por Silviano Santiago e João Gilberto Noll, quando dos lançamentos, respectivamente, de Keith Jarrett no Blue Note : improvisos de jazz, em 1996, e de Berkeley em Bellagio , em 2002, referendam e autorizam o entendimento do projeto mencionado. A discussão sobre a condição nômade constitutiva da personagem dos contos de Silviano e sobre essas identidades em vôo cego das narrativas de Noll, registram a tentativa de nomeação dos desenraizamentos encenados nessas narrativas.

Quero também, no mesmo esforço de captura e nomeação, problematizar as categorias que Nelson Brissac Peixoto estipulou, em Cenários em ruínas 1, para refletir, a partir do cinema, as possibilidades de enunciação e as perspectivas de olhar instauradas pelo viajante, pelo passageiro e pelo estrangeiro. Quero, então, criar um diálogo entre essas categorias, os contos de Silviano Santiago e três narrativas de Noll: Rastros de Verão , A céu aberto e Berkeley em Bellagio .

Para Brissac, o viajante é aquele que procura, na deriva da espacialização, um lugar que lhe sirva de referência, desfazendo continuamente a própria identidade, em processos infinitos de estranhamento. A viagem é, então, contra-viagem, pois não se parte para chegar a lugar nenhum, mas apenas para deixar para trás tudo aquilo que torna a vida insuportável.

Na análise feita por Brissac, o viajante é aquele que parte em função de um estranhamento, de um abandono. Essa situação o torna um homem da fronteira, um homem sem lugar, para quem o deserto "aberto, horizontal e sem fim" (Peixoto, 1987, p.92) é o lugar possível e desejável, talvez por intensificar o estado de suspensão. Nesses espaços abertos, nada pode ser escondido, as distâncias somam-se e diluem-se, uma vez que a casa não é mais espaço de referência.

A percepção da própria identidade vai sendo, então, gradualmente abalada. O deslocamento promove uma volatilidade nas identidades anteriormente estabelecidas, gerando, segundo Brissac, "processos sucessivos de simulação", em que uma identidade remete à outra indefinidamente, corroborando o esfacelamento identitário pela multiplicação de máscaras assumidas nesses trajetos performatizados.

Tais processos de simulação remetem também a uma noção de equivocidade constitutiva desses viajantes que se tornam passageiros. Na condição de passageiros e não mais de viajantes, acentua-se o crescente processo de desenraizamento, que os faz ter a ilusão de que um completo desconhecido seja aqueles que estão buscando. A necessidade de encontrar alguém torna-se uma obsessão inócua, pois os objetos destas possessões, muitas vezes corporais, não são capazes de refletir a imagem desses homens sem rosto.

Assim, "...a viagem se converte no abandono definitivo do lugar. A errância provoca uma proliferação de lugares, uma extensão infinita de espaços, onde podem desaparecer". (Idem, p.137). É esta mobilidade contínua e ininterrupta que, na vertigem da deriva, provoca o desmoronamento e a desintegração de tudo ao redor. A provisoriedade da nova identificação espacial ou corporal anula qualquer lugar determinado para onde este viajante esteja indo. O que resta é apenas um vagar perpétuo ou um incessante desejo de alguém que se possa ser provisoriamente: "O momento de maior proximidade a outro, quando se adota a identidade de alguém, é ao mesmo tempo a evidência do estranhamento: a nova figura é oca, lhe escapa" (Idem, p.138),

Este salto na vida do outro e a certeza de que tudo pode se transformar em outra coisa são elementos de uma despossessão desejada. Entretanto, alerta Brissac, "uma substituição de identidade não é equivalente a um renascimento em outro lugar"(Idem, p.141). Então, não há encontros definitivos, pois o itinerário não pode ser interrompido:

 

Relações feitas em viagens são necessariamente muito efêmeras. Tudo o que podem esperar é um encontro momentâneo com alguém que lhes ajude na busca de si mesmos, uma pausa num itinerário que não pode ser interrompido (Idem, p.154).

 

Aquilo que é abandonado se transforma em imagem. Casa e passado são agora apenas imagens. Imagens nas quais não é mais possível se reconhecer, nem se abrigar. Para o viajante, existem paisagens, ao passo que para o estrangeiro restam as imagens, nas quais muitas vezes o estranhamento é tão intenso que os priva de qualquer linguagem possível.

Na realidade, para Brissac, a condição de estrangeiro corporifica-se no estranhamento implícito também nas condições de viajante e passageiro. O processo de estranhamento caminha simultaneamente a esta mobilização permanente. E é ainda mais acentuado, pois o estrangeiro é aquele que perdeu os vínculos com seu próprio país, com sua própria terra, não se reconhece em nada: "Eles não se sentem em casa no seu país, as suas tradições e cultura não lhes pertencem. Estão sempre procurando esquecer o passado, sua história, o que são. Querendo virar outros" (Idem, p.151).

A viagem empreendida pelo estrangeiro é um "apagar de todos os traços do passado" (Idem, p.157). Há uma vontade de mudar não apenas de nome, mas de mundo.

Berkeley em Bellagio e Keith Jarrett no Blue Not e: improvisos de jazz aproximam-se pela temática da experiência em terras estrangeiras. Registram, portanto, na ficção contemporânea brasileira, uma faceta desta experiência de deslocamento, agora, voluntário e previsto.

O estranhamento em terras estrangeiras concretiza-se na experiência acadêmica dos personagens cosmopolitas. Tanto num quanto noutro, o contato com a terra estrangeira é etapa de formação profissional e pessoal. Em ambos, também, a memória do lugar de origem, da casa familiar, irrompe como contraponto ao isolamento e à impessoalidade vivenciados nessas novas moradas deslocadas.

Aqui se desfaz a deriva do viajante e do estrangeiro, como concebida por Nelson Brissac, já que o fluxo de movimento e o desejo de outros lugares obedecem a propósitos definidos. Estar fora de casa é etapa constitutiva, programada. E é nessa distância de casa que se está ainda mais nela: "... não estar em casa significa estar mais em casa do que em qualquer outro local" (Idem, p.82).

Em Rastros do Verão , novela publicada, por Noll, em 1986, o personagem, que retorna a Porto Alegre para reencontrar o pai doente, pergunta-se sobre a história pessoal que poderia contar, depois de anos andando por aí: "Por essa geografia rarefeita quem tinha gerado comigo alguma memória duradoura?" (Noll, 1997,p.333).

Berkeley em Bellagio , romance publicado em 2002, é dedicado a Porto Alegre, abre-se com o mote da origem, na epígrafe de Fabrício Carpinejar: "'A morada em que nasci me habita'". Diferentemente do retorno, abortado pela morte e pela desintegração, em Hotel Atlântico (1989), e do retorno, sem encontro e sem resgate, em Rastros do Verão , Berkeley em Bellagio acena para algum retorno passível de felicidade: "Digo-lhe que tenho o que festejar, que voltar pra casa é o melhor da vida" (Noll, 2002, p. 81).

Muito embora se saiba, de antemão, da impossibilidade de um retorno original, é o próprio Noll, em entrevista ao Caderno Idéias do Jornal do Brasil , em novembro de 2002, que registra o fato de o personagem acabar por "se reconciliar com sua história e geografia", na vivência das pequenas culminâncias do cotidiano.

Berkeley em Bellagio , mais do que qualquer outra narrativa de João Gilberto Noll, assume intencionalmente uma discussão a respeito de pertencimentos, sejam eles territoriais, sexuais, afetivos. Na condição efetiva de estrangeiro, o personagem João, agora nomeado e localizado, experimenta o deslocamento da própria língua, tendo que se apropriar de uma língua estrangeira, o inglês, no caso, para que pudesse testemunhar e protagonizar suas histórias. Como professor convidado da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e escritor agraciado com uma bolsa da Fundação Rockefeller, em Bellagio, na Itália, o protagonista experiencia o deslocamento agora voluntário e consentido, como condição de existência.

Em Sobre o nomadismo : vagabundagens pós-modernas, publicado em 2001, o sociólogo Michel Maffesoli defende a tese do nomadismo como uma constante antropológica, como uma reatualização do desejo de outro lugar, logo, do Outro. Isso incitaria o movimento de saída de si mesmo e, conseqüentemente, de existência. O desejo de outro lugar, atitude típica dos nômades, configuraria, nesta narrativa, outras etapas do estudo que o próprio Noll afirma fazer sobre a "indeterminação das identidades em vôo cego". Neste sentido, Berkeley em Bellagio é sim um divisor de águas: os deslocamentos perdem a cegueira e se fazem à luz das escolhas: tanto a de sair do país quanto a de voltar para casa, para cidade natal. Trata-se agora do personagem que enfrenta seus desterros de forma nomeada, tanto na paisagem estrangeira, por vezes inóspita, quanto na sexualidade assumida.

O imperativo do deslocamento, em trajetória sucessiva de múltiplas identificações, consolidou-se como tônica A céu aberto . Aqui o personagem assume a condição de passageiro, proposta por Brissac.

A deriva das sexualidades das personagens, que assumindo vários corpos, assumem várias identificações, é, na realidade, a própria equivocidade do personagem narrador: "... eu era ainda o mesmo homem?" (Noll, 1987, p.662). A pan-sexualidade, de que fala Denílson Lopes 2, seria então a equivocidade de que fala Brissac. A transmutação sexual, onírica ou não, dos corpos alheios, é, no fundo, parte dessas identidades em vôo cego .

A céu aberto é percurso de sucessivas iniciações: o general, a gravidez da mulher/irmão, o assassinato da mulher,/do irmão, a possessão do filho de Artur, a submissão ao comandante, o rosto do terrorista. Ou seja: a iniciação sexual, a paternidade não realizada, a transgressão, o incesto, a prostituição, o terrorismo, a morte. A vida na vida alheia, a pulverização do eu, a identidade perdida, a identidade construída. A céu aberto seria também a passagem sucessiva da condição de abandonado à de desertor, à de assassino, à de terrorista.

A mudança de lugar contribuiria diretamente para esse abalo nas identidades dos indivíduos. No capítulo "Desnorteamento", Brissac tematiza as mutações ou simulações ou máscaras advindas das alterações espaciais. Para ele, a mudança constante de lugar provoca não só a sensação de perda, mas talvez de perdição, na vertigem das sucessivas identificações: No acampamento militar, o personagem é tão-somente o irmão zeloso e o filho em busca do pai; na casa de Artur, o adolescente em busca de abrigo e ciente do desabrochar de sua sexualidade; no paiol, é o amante, o marido, o futuro pai, é também o incestuoso e o transgressor; na casa de sua ex-mulher, o assassino; na cabine do navio, o fugitivo, o "escravo sexual"; na nova cidade, no hotel, o terrorista.

Trata-se, portanto, de um processo vertiginoso em que as transformações dizem respeito ao personagem, aos que estão à sua volta e aos lugares onde estão:

 

O deslocamento abala a identidade desses indivíduos que estão sempre tentando se localizar.(...) Uma aventura na qual ele deixaria de ser quem é para se converter em outro, em que encontraria também pessoas em constante mutação, em que se veria em lugares sujeitos a bruscas metamorfoses (Peixoto, 1987, p.129).

 

A este processo Brissac dá o nome de equivocidade, correlacionando-o à figura do passageiro ("Mas aí o viajante, o homem à deriva, se converte num passageiro"- Idem, p.131):

 

Eles foram tão longe nesse deserto de miragens que perderam toda substância e se converteram em indivíduos que não existem, em figuras arquitetadas, em artifícios. Não há mais falso nem verdadeiro. Cada mentira é substituída por uma outra. Sucessivas máscaras que escondem rostos sem definição. Cada mentira é substituída por uma outra (Ibidem).

 

O passageiro é aquele que quer alguém que ele possa ser provisoriamente. Brissac afirma ainda que "... na origem desta cadeia de identidades assumidas há um vazio". (Peixoto, p.127-8). Um vazio que se tenta preencher com a simulação, com o factício, em que uma identidade remete à outra infinitamente.

Berkeley em Bellagio , então, poderia, à primeira vista, parecer nota dissonante numa seqüência narrativa de esvaziamento de pertencimentos identitários e de personagens à deriva, à margem de estabelecimentos e de estabilidades. Traduz, no fundo, a discussão contemporânea sobre a coexistência de múltiplos pertencimentos. O dado novo na prosa de Noll parece ser a possibilidade de uma tal performatividade de caminhos sinalizar algum retorno possível, desde que deflagrado por um recomeço.

A saída receosa do cárcere/casa do próprio idioma, fundada no temor de não ter o que contar, a súbita amnésia lingüística, quando do advento da fluência na língua inglesa, e a reapropriação da língua portuguesa, quando da nova condição de paternidade no retorno a Porto Alegre, são brilhante metáfora, construída para deflagrar a ressemantização do espaço original, da familiaridade tão esgarçada.

Não é por outra razão que o domínio da língua inglesa é simultâneo à lembrança irruptiva de Porto Alegre. A foto amarelada de uma tarde de verão na cidade é memória subterrânea que "não quer passar, tão forte quanto o súbito inglês" (Noll, 2002, p.56).

Longe, então, de se desdizer, ao acenar para uma felicidade possível numa origem recriada, João Gilberto Noll insere um ponto a mais no estudo das suas identidades em vôo cego : a certeza, compartilhada com o personagem, de que "... tudo o que vinga na vida vem em duplo, pronto!" (Idem, p. 98).

É essa duplicidade de pertencimentos que é resgatada em Berkeley ... Diferentemente do esvaziamento da origem, encenado nas suas narrativas citadas, ou mesmo do dilaceramento da mesma em prol de uma multiplicidade de pertencimentos, agenciada com vigor em A céu aberto , cujo título metaforiza todo o desterro e abandono desse personagem desenraizado e descompromissado, assoma agora uma origem ressemantizada até mesmo pela escolha da paternidade.

Ainda mais significativo do que perceber a necessidade de fugir da univocidade pela fecundidade do duplo é a certeza da inviabilidade de uma única vinculação, seja afetiva, seja sexual, seja territorial. Nenhuma promessa de felicidade a vingar sem a possibilidade do outro lugar . Berkeley em Bellagio introduz, na narrativa de Noll, um pertencimento possível numa origem recriada.

Porto Alegre não é apenas um pertencimento pela memória, Porto Alegre não é apenas a foto amarelada que insiste em não se apagar em um tempo oco. Porto Alegre é uma escolha, não uma deriva, como talvez ainda fosse em Rastros do Verão e Hotel Atlântico . Assim como o Rio de Janeiro e o bairro de Ipanema são, para o personagem nômade de Silviano, imagens acolhedoras, que constituem a duplicidade necessária a qualquer promessa de felicidade.

Portanto, retomando as categorias de Brissac, o estrangeiro não seria propriamente aquele que quer esquecer sua história e virar outro. Ele quer, sim, virar outro, criar uma outra história para si, mas no espaço antes abandonado: "Tudo recomeçar deve ser de alguma forma o melhor" (Noll, 1987, p.351).

Pelo visto, este vôo cego pode se dar tanto num processo de múltiplas identificações ("É preciso se colocar na beira do abismo, se apagar, sumir, virar outro. É preciso mudar sempre" (Peixoto, 1987, p.82)), quanto num retorno, marcado pela ressemantização do espaço abandonado.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LOPES, Denílson. O homem que amava rapazes . Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002.

MAFFESOLI, Michel. Sobre o nomadismo : vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record, 2001.

NOLL, João Gilberto. Hotel Atlântico . Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

_____. Romances e contos reunidos . São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

_____. Berkeley em Bellagio . Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

PEIXOTO, Nelson Brissac. Cenários em ruínas : a realidade imaginária contemporânea. São Paulo: Brasiliense, 1987.

SANTIAGO, Silviano. Keith Jarrett no Blue Note : improvisos de jazz. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

 

 

 

PEIXOTO, Nelson Brissac. Cenários em ruínas : a realidade imaginária contemporânea. São Paulo: Brasiliense, 1987.

LOPES, Denílson. O homem que amava rapazes . Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002.