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O que quer, o que pode essa Língua?
Ana Cristina Chiara (UERJ)
O poeta come (seu) amendoim (Mario de Andrade)
O escritor é o inimigo potencial - e hoje - já atual do idioma. (Cortázar)
Voltei à língua do meu pai. (Bernardo Carvalho )
Vi uma seqüência de fotos de um guri palestino de 14 anos que carregava explosivos no corpo sendo desarmado pelos soldados israelenses à distância. Vi o medo dele. Os extremistas palestinos estão enviando essas bombas-meninos para explodirem em Israel. V. pode ver o medo nos meus olhos? Não estou paranóica não se preocupe, é que costumo te escrever de manhã, depois de ler os jornais.O dia passando, vou entrando num doce ritmo doméstico, ouvindo Milton Nascimento cantar, olhando o sol ameno do lado de fora. E me esqueço de quase tudo. Deixo apenas uma vela acesa.
Vi por trás dos olhos do menino, os olhos dos leitores espiando. Meu nariz aponta o chapadão de onde vêm estes rumores de uma língua selvagem e rude, uma língua caipira. Ouço os rumores da língua. Serão a carta-bomba que teremos de explodir? Como uma bala traçante? Como um cinto de dinamite disfarçado sob as roupas?
Mario de Andrade confessava numa carta: "é preciso coragem para ser intelectual no Brasil". A coragem do intelectual brasileiro é a coragem de expressar-se numa língua inculta e bela? De aprender como usá-la? A coragem do esquecimento, da desinstrução, depois do acúmulo? Coragem de ficar lost in translation ?
Recuo dois ou três passos e do modo de Bernardo Carvalho preciso voltar à lingua do meu pai. "Meu pai falava desse jeito a sua língua que eu cresci ouvindo e renegando porque não era minha; me revoltei contra ela, quis destrui-la" 1. Deslocar-se dentro da língua, de uma fronteira comunicativa, informacional, midiática, burocrática, instrumental para esse território do perigo, da fraude, da contaminação virulenta, das doenças da boca, estomatites, aftas corrosivas, ulcerações, gengivites. Minha língua salobra. Língua fálica, extensão da minha falta, querendo penetrar aquilo... sei lá o quê... os "desvãos do ser" como diz o Caetano. Suspender o tempo, a suspeita do tempo, mergulhar num fundo azul sem tomar ar. Camadas de resíduos se sobrepõem nessa ressaca remota desde quando? Da primeira carta? Dos textos e mais textos e mais textos? Dos beijos de língua? Um se enfiando pelo ouvido do outro, nessa doencinha chamada literatura?
Volto ao pai, abro a carta de Alencar: " O povo que chupa o caju, a manga, o cambucá e a jabuticaba, pode falar uma língua com igual pronúncia e o mesmo espírito do povo que sorve o figo, a pera, o damasco e a nêspera?" 2 . Acomodar a língua ao gosto das palavras, mastigá-las como o poeta mastiga o amendoim. Experimentar a carne das palavras, deixar que escorram o sumo lentamente, chupá-las. Alencar como poucos sabe o sabor da carne das palavras, sabe que são filhas da dor, são abelhas, são mel. A carta testamento de Alencar é o legado da consciência lingüística que transforma o escritor em um escritor numa língua. O escritor de uma língua. Volto ao meu pai, à língua do meu pai, procuro entender o que ele chama de 'índole da língua', sua prosódia, sua forma, releio suas frases: "poucos darão mais, se não tanta importância à forma do que eu; pois entendo que o estilo é também uma arte plástica, porventura muito superior a qualquer das outras destinadas à revelação do belo." 3Alencar é um estilista fashion. Ele soube /sabe interpretar as tendências da moda. Capta a língua brasileira da hora, a fonte de energia transformadora de uma língua sob o influxo de outras civilizações. Meu pai foi um piguara, senhor do caminho:
"guia, chamavam os indígenas senhor do caminho, piguara . A beleza da expressão selvagem em sua tradução literal e e etmológica me parece bem saliente. Não diziam sabedor , embora tivessem termo próprio coab , porque essa frase não exprimiria a energia de seu pensamento. O caminho no estado selvagem não existe; não é coisa de saber. Faz-se na ocasião da marcha, através da floresta ou do campo, e , em certa direção ; aquele que o tem e dá, é realmente o senhor do caminho." 4
Alencar, esse apaixonado pedófilo, que desentranhou o poema nacional escrevendo "versos para caboclos" numa língua elástica, pensada entre a selva e a metrópole: a poesia brasileira haurida na língua dos selvagens, tão menina ainda.... "Não é bonito? Não está ali uma jóia da poesia nacional?"
Eu posso ver por trás dos olhos que me espiam um certo enfado inteligente com meu balbucio, minha baba de pertencimento, minha procura de um abrigo, um refúgio, um conforto, um colo, uma língua que me tenha, uma pátria, patriazinha, nesse cenário tão transdiciplinar, transnacional, tão autoconsciente das construções, das falácias do discurso. Eu querendo um peito, um leitinho morno.
Edward Said, dividido, oscilando entre o inglês e o árabe, recorda esse lugar perdido para sempre. As palavras de ternura da ya ame, ya yune , sussurradas no ouvido do neném, vão ficar sem tradução, preso pra sempre nesse jogo pecaminoso, agarrado ao osso do amor materno, enquanto o câncer corrói tudo em volta, ele se deixa arrastar a "uma atmosfera oniricamente sedutora logo desfeita, deixando no ar a promessa de algo que no final não se consuma." 5 O escritor de uma língua perdida, dessa coisinha chamada amor, não agüento essa coisa... momi, você me deixou na saudade, me deixou de quatro. O menino está ali encarcerado na língua mãe.
E se não se tem a língua mãe como sugere Jacques Derrida 6? se a língua mãe é um espectro de que o escritor pensa se apropriar e que no entanto mais se apropria do escritor, uma déspota madrasta que o comanda? Um desconforto, um exílio branco, um 'chega pra lá', um 'sai daqui' bem hostil.... o escritor é sempre esse judeu magrebino correndo atrás da saia de uma linguagem que não lhe pertence, para sempre banido de casa, um sem teto? E se o escritor é brasileiro? Se já está desde sempre plantado na 'língua do outro', na língua do português?
Na Europa, Silviano Santiago surpreendeu-se diante de um quadro de Van Gogh cujo frenesi da pincelada deixava que o branco da tela surgisse criando pausas para que o olho brasileiro, no museu d`Orsay, pudesse respirar da pintura européia, pudesse se afastar do quadro e pensar no espaço reduzido da língua torpe do latino-americano, do bárbaro tecnicizado. Freqüentou as bibliotecas dos Estados Unidos e pôde, nas brechas dos livros retirados das estantes, ver o vazio, o entre-lugar, a fenda geológica, todos os intervalos da deserudição, da desinformação, da hipocrisia, da língua partida: um olho aqui, outro acolá, indecisa, pobrinha querendo a dislalia, a poliglotia.
Ainda assim insiste em duas maldições, ou três, ou quatro? Deixa as letras vazadas. Deixa que escorram, nunca ao pé da letra, da crítica de cinema, para a poesia ultramarina, do ensaio para a ficção, da ficção para a crítica literária, para as apropriações indébitas, gracilianas e artaudianas. Deixa que brilhem as letras nos olhinhos pisca-pisca de Stella Manhatãn. Stella é puro dispêndio . Está com a corda toda. É plástica, é táctil. É uma dobradiça; de um lado a precisão de Albers, d´outro a sensualidade orgânica da Lígia. Stella quer escapar, quer derramar, quer transbordar. O leite de Stella jorra na cara dos caretas. A energia dela tem que ser domada, tem que dar logo uns tapas. Aquietar o facho dessa energia tropical, esquentando o inverno novaiorquino. Essa tropicalidade que insiste em ficar olhando pra cima, enquanto "os homens dos países frios recusam a olhar para o alto quando saem à noite". Stella é excessiva, coisa demais para a praticidade e aloofness americanas... Essa ambigüidade incomoda. É um risco, um perigo.
Quando a barra pesa demais, Stella quer voltar para casa, quer voltar para o Brasil, quer voltar para a língua do pai. Mas está solta, soltinha, uma "acrobata liberada da gravidade", está ao desabrigo, homeless . Não tem mais volta.
É preciso coragem para ser um escritor no Brasil, pra ser um professor, para ser um crítico. É preciso coragem para falar brasileiro nos estilhaços festivos do multiculturalismo. É preciso muita coragem pra ser um esterco que não fertiliza, que suja a casa, esterco no ventilador do Padre Antonio Vieira. Precisa de "um acúmulo de energia que fuja da norma que satisfaz a necessidade". É preciso pôr o dedo na ferida da irresponsabilidade das letras. É preciso encontrar um modo de costurar arte e participação: "a inusitada situação da cena brasileira como que isentou os cultores da ùltima flor do Lácio de responsabilidade lingüística na relação com a atualidade." 7 O escritor, o crítico , o professor brasileiros levaram uma chamada do pai da Stella. Talvez Silviano Santiago estivesse advertindo o escritor, o crítico e o professor para encontrarem um modo de desencantamento consigo próprios, para conseguirem ligar o alarme crítico sem dispersar a convulsão subjetiva, antes que apaguem a Stella com uma over dose , um 'boa noite cinderela', um pau de arara.....
Noll num campo de Berkeley se vira com as parcas palavras de "um português viciado", resiste a ter de aprender a se expressar numa outra língua. O inglês parece tão pesado quanto as "ínfimas cavidades" "as pequenas erosões" da língua do aluno dele de português. A língua é um instrumento cansado para o escritor visitante tanto quanto para o sucker . Deslocando-se de Berkeley a Bellagio, o escritor está no campo do inóspito, o campo da não hospitalidade. Habita (tenta?) uma língua que não é a sua de um modo muito mal -arranjado, arranja-se. Fica na superfície, na epiderme, da língua do estrangeiro, ele está por fora.
Onde vá, no corpo que vier a ter, tenta sugar com a língua - da língua - um frescor perdido, um abrigo na memória, um traço de uma língua que já está perdida, viciada pelo gasto, cansada como o corpo do homem maduro. Sua " dislexia na língua inglesa, ou em qualquer outra" o deixa perdido na massa sonora, ele se encolhe quase afásico, auto-referencial, numa infra-língua, ali onde não está ainda o escritor. Está o menino sugando o leite materno que escorre farto, mas não contenta, sugando a porra que jorra da glande do amigo gerente da farmácia, sempre o gasto, o excesso, a pletora, a língua do incontentável.
De Berkeley a Bellagio a pergunta é como produzir a riqueza? Que tipo de riqueza pode ser produzida na língua de casa para encarar os tubos gastos pelas fundações americanas buscando reconstituir aqui e ali os buracos dos bombardeios, oferecendo bolsas de escritor visitante? O que pode o escritor visitante nessa língua trôpega, nessas litanias extáticas, nesse ardor e nesses desmaios, perdas da consciência, alguma trombose paralisando as palavras, engrossando o sangue, anunciando um derrame, um jorro, um gozo a perder de vista, um acidente vascular cerebral manchando de sangue os relatórios dos cnpquês, das fords foundations?
O que pode essa língua? Um testemunho? Um documento? Um prato cheio de miséria? Ou pular de vez no colo dos gringos geniais: ok, I´m felling so good, so good!....I´m speaking everything....I´m understanding. Ou esse desvio para o nada, essa língua acariciando a vertigem da ausência, lambendo a memória, o elo partido, o perdido, os pampas....? Essa falta total de objetividade, essa narrativa evanescente, mas afinal o que está acontecendo? Essa massa compacta e caótica de signos que prolifera, engrossando daqui e dali como a água barrenta do Guaíba numa enchente, comendo tudo em volta, essa enxurrada que não se detém, carcomendo as margens. Essa boca escancarada, essas gengivas, esse cuspe, esse cuspe, esse cuspe....
A perigo, correndo perigo, os discursos esgotados, o escritor, o crítico, o professor brasileiro é chamado a articular as complexidades contemporâneas, desafios relativos a territórios geográficos, culturais, patrimoniais, na festa globalizada, cuja perda de referências interessa a quem? Complexidade de relações, evanescimento ou trincamento da autoconsciência, impotência para compartilhar experiências palavras repetidas ad infinitum . Ele quer retroceder, quer voltar a Porto Alegre, quer voltar ao português. O inglês o tomou de assalto, arrombou-lhe "o aparelho fonético". Extraviado, estropiado o escritor tem de cumprir os prazos. No entanto, fica ali no meio, a um passo de casa, para onde ele não pode voltar até reaprender sua língua. Até encontrar a menina refugiada que veio com ele no avião na volta a Porto Alegre. Através da menina, ele pode esticar a mão até o menino bomba- palestino que ainda está na mira dos guardas israelenses.
Espio os olhos do menino palestino, espio por trás dos olhos dele. O que o escritor brasileiro pode? A recusa do menino que teima em não entender as ordens dos soldados? A recusa do menino em entender as ordens numa outra língua? Precisa de um tradutor, alguém que lhe peça, na língua da mãe, para desabotoar os botões, tire as calças, filhinho, as mãos na cabeça, querido, fique quietinho. A dois passos do nirvana, com as luzes apagadas, o menino parece não entender o perigo. Ele quer entretê-los, contágiá-los com seu medo, com sua estupidez, ele precisa inverter o jogo das letras vazadas. Ele, um mulato, um albino, um mosquito. Ele, a minha libido.
With the lights out, it's less dangerous
Here we are now, entertain us
I feel stupid and contagious
Here we are now, entertain us
A mulatto An albino
A mosquito My Libido 8
CARVALHO, Bernardo. Teatro . São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p.10
ALENCAR, José de. "Benção Paterna" . In: Sonhos d´ouro . São Paulo: Ática, 1981 p. 12.
__________. Pós-escrito à segunda edição. In: Iracema ; notas e orientação didática por Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975. p 67
SAID, Edward W. Fora do lugar: memórias . Trad. José Geraldo Couto. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. p. 20
DERRIDA, Jacques. O monolinguismo do outro, ou a prótese de origem . Trad. Fernanda Bernardo. Porto: Campo das Letras, 2001.
SANTIAGO, Silviano. "Outubro Retalhado" . Caderno Mais, Folha de São Paulo, domingo, 16 de novembro de 2003.