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A imprevisibilidade da escrita a instigar a atitude crítica do intelectual1
Socrates Fusinato (UDESC)
Ao escrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que não sabemos ou que sabemos mal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro.
Gilles Deleuze
Aos entusiastas obreiros da palavra um convite-desafio:
Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave? 2
Um dizer assim com um sentido assado, um risco preto no papel deitado, alguns pares de verbos conjugados. Desdobra-se em mil vozes a mão que tange o vocábulo.
A palavra, quando se faz foco e presa do emissor, é rascunhada e registrada em branco leito e, ousada, pode difundir sentidos mil. Feito dama fugidia, a palavra escorrega voluptuosa sobre o papel e oferecida sopra no ouvido de virgens linhas mundos de promessas.
Um mundo cartografado, um império constituído por palavras, é sintoma de uma mão que se mostra irrequieta e corre atrás de sentidos, é comichão de um corpo que sabe que está a expor tão somente um ponto de vista dentre as inúmeras possibilidades de vista.
Ao escrever, a mão zanza, procura, esquadrinha, estipula, lega vida aos dizeres reunidos. A escrita implica a apropriação da palavra como um instrumento de comunicação, como um arsenal capaz de trazer a lume teias de idéias que podem construir, a um só tempo, mundos uniformes com longas estradas retilíneas ou territórios fragmentados lotados de fronteiras e bifurcações. Assim, a palavra, enquanto manifestação verbal escrita, enuncia atos e inércias, traduz mundos.
A imprevisibilidade da mão que tange o verbo, que faz da vida obra de arte e da escrita seu mais nobre posto, permite a insurgência do novo. A escrita já não consegue se dissociar de um devir intenso. Isto porque o devir não é projeção de formas, de identificações, de imitações de uma realidade estanque; trata-se, pois, de uma zona que se constrói e se finaliza sempre habitando as raias do inacabado 3.
Mas eis que na crença de poder tecer biografia a mão que escreve histórias quer poder ser intitulada Eu. Mas não dá conta, pois escrever não é amontoar recordações, nem aprisionar em triste frasco o sangue vertido por um amor não sido; escrever não é escancarar os sonhos e as fantasias próprias de quem escreve. Assim, a língua que degusta o verbo não é a língua que diz poder tudo lamber, não é a língua que se conhece lambedora, que julga aprisionar o gosto do beijo, a náusea do não acontecido. A língua que degusta o verbo habita bocas carentes de sisos, loucos então os juízos que já não advogam em nome da existência de linhas retas e entidades perenes, nem nas coisas nem na linguagem.
Nesse sentido, atendo-se à discussão que se almeja travar, as duas primeiras pessoas não servem de condição para a enunciação literária. A literatura, no dissertar deleuzeano, só pode ser empreendida quando do nascimento de uma terceira pessoa que retira de quem escreve o poder de dizer Eu. Escrever é devir outra coisa que a identidade Escritor 4.
E os verbos acima conjugados mapeiam um espaço possível, o espaço em que se aflora o faiscar reluzente e tempestuoso da idéia de crítica que, em Friedrich Nietzsche e Michel Foucault, apresenta-se como tarefa permanente a ser empreendida pelo intelectual.
Em Nietzsche, a crítica é brecha que se abre para a inscrição da contradita. O "instrumental" da crítica permite ao intelectual lançar longos galanteios a uma desaforada dama, a Dúvida; pode ele então desmentir, impugnar, refutar de bom grado, enunciar seus dizeres e realizar seus afazeres de forma diferente. A crítica é atitude fundamental para o obreiro da palavra que quer fazer da vida obra de arte, isto porque a atitude crítica atualiza e torna imprevisíveis as linhas de fuga a serem esboçadas pelo intelectual; trata-se de um campo de atuação onde lutas e resistências podem ser empreendidas 5.
Bebendo longos goles da idéia de crítica presente na escritura nietzschiana, Michel Foucault construirá seu empreendimento filosófico, a sua história crítica do pensamento. A empreitada de Foucault registra a "eficácia de ofensivas dispersas e descontínuas"; trata-se de luta que tem por objetivo destilar "reviravoltas de saber".
Longe de almejar deixar como legado uma doutrina, um método, uma escola de pensamento, o filósofo francês, em suas lutas críticas, empenhou-se em criar um solo fértil para a "insurreição dos saberes sujeitados", espécies de "blocos de saberes históricos que estavam presentes e disfarçados no interior de conjuntos funcionais e sistemáticos, e que a crítica pôde fazer reaparecer" 6.
Em Foucault a crítica recende o gosto sempre fresco do saber histórico das lutas. Desse modo, dar ouvido aos saberes sujeitados significa abdicar do pedestal que sustém a identidade de um intelectual capacitado e que legitimado julga poder estender suas verdades e inundar o solo daqueles que se mostram desqualificados. Foucault se recusa a representar a figura do intelectual tradicional, uma espécie de homem de bem que fala em nome do gosto, dos valores estabelecidos, do povo que o elege. Isto porque o intelectual teórico que atua como consciência representativa é resultado, é efeito de um sistema de poder que sustém referida imagem. E a reforma que ele julga proceder quando toma por ocupação o falar pelos outros, o falar em nome dos outros, não passa de uma reorganização do poder que alimenta e legitima a sua iluminada atuação 7.
Foucault põe em xeque o intelectual que se arvora em homem de ciência e com sarcasmo, dissertando sobre o falso problema que reside no discurso sobre a morte dos intelectuais, reverbera:
A morte dos intelectuais parece-me um estranho conceito. Intelectuais, nunca os encontrei. Encontrei pessoas que escrevem romances e pessoas que curam os doentes. Pessoas que estudam economia e pessoas que compõem música eletrônica. Encontrei pessoas que ensinam, pessoas que pintam e pessoas de quem não entendi se faziam alguma coisa. Mas nunca encontrei intelectuais. Pelo contrário, encontrei muitas pessoas que falam do intelectual. E, por escutá-los tanto, construí para mim uma idéia de que tipo de animal se trata. Não é difícil, é o culpado. Culpado um pouco de tudo: de falar, de silenciar, de não fazer nada, de meter-se em tudo... Em suma, o intelectual é a matéria-prima a julgar, a condenar, a excluir... Não penso que os intelectuais falem demais, porque para mim não existem. Mas penso que o discurso sobre os intelectuais esteja passando do limite e seja pouco encorajante 8.
Não seduzido pelas pretensões de um discurso universal, pela fome de poder dizer a verdade última, cumpre ao intelectual investigar os discursos tidos como verdadeiros no contexto sócio-político em que participa. A atitude crítica dos intelectuais não diz respeito à denúncia externa dos erros, das injustiças que assolam o corpo social. É no interior da esfera política, sendo marcado e atravessado pelas relações de poder e saber, que o intelectual deve se aninhar. Assim, a crítica em Foucault é, sobretudo, autocrítica e nunca apenas crítica ao que está do lado de fora de quem a faz. Suas análises apontam na direção do compromisso ético-político desse indivíduo 9.
Apresentados, pois, fragmentos da tarefa que Foucault, enquanto intelectual específico, se propôs a enfrentar; eis a potência inovadora de seu pensamento construído com retalhos de críticas genealógicas e arqueológicas e fundado em uma estética da existência que toma a vida como obra de arte e uma ética que assume o agir no mundo, a escrita como prática da liberdade.
Por vezes a verborragia desenfreada (vontade compulsiva de dizer), em outras, o silêncio infindo e mal visto (homenagem ao ócio), mas no sempre, intermediário e latente, o tempo (juiz de todas as causas) que regula a vivacidade e a permanência do discurso que venha a ser proferido. Longe da solidão moribunda em seu quarto insone, quedado de um pedestal que o colocava na condição de dizer verdades e assim iluminar o todo ignorante, o intelectual, cansado de prometer e de aprisionar a escrita em pontos finais, passa a desdenhar a crítica sentenciosa - potente sonífero do homem moderno - a fim de fazer irromper uma crítica erigida com faíscas de inquietação, com sinais de vida. Uma crítica capaz de aflorar as pústulas negras de possíveis pestes.
E no sopro dos versos que já se excedem, ao obreiro da palavra derradeiro comichão.
Obreiro,
Teu saber é histórico, álbum de fotos tiradas pelos teus globos oculares. Teu saber é precário por seres também tu pouco em tua carcaça. Inventa-te em tantos outros quando escreves que poderias intitular-te incansável gerador de versos.
E o teu anverso? A tua sede de saber que por nada deixa? Mesmo consciente de que o verbo pode todos os ritmos dançar, tentas a todo custo declarar por encerrada tua difusa coreografia de frases; sempre queres no desfecho de teu discurso um ponto final resoluto. No entanto, como progenitor de verdades perecíveis, hás que reconhecer os limites que atingem as pernas e tornam cambaleantes os alicerces de teu próprio discurso. Eis que a incerteza de tudo poder saber é teu mais sóbrio posto. E hás que encontrar na escrita teu mais nobre mecanismo de expressão de subjetividade .
1 Escrito produzido pelas mãos inquietas de um Sócrates Fusinato, mestrando do Curso de Pós-graduação em Teatro da Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, Florianópolis.
2 ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa e prosa . 3. ed. Rio de Janeiro: Aguillar, 1973, p. 139.
3 DELEUZE, Gilles. Crítica y clínica . Trad. Thomas Kauf. 2. ed. Barcelona: Anagrama, 1997, p. 11 e 12.
4 Idem, p. 13.
5 A noção de crítica erigida no presente parágrafo bebe longos goles de dois aforismos nietzschianos: 297- Saber contradizer (contraditar o dito nem sempre é fácil, desler e tatuar a dúvida é tarefa difícil) e 307 - Em favor da crítica (a postura crítica requer um estar aberto para o novo, requer um distanciamento do olhar técnico, dos sensos comuns). NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência . Trad. Márcio Pugliesi, Edson Bini, Norberto de Paula Lima. São Paulo: Hemus, 1981, p. 194 e 200. Cumpre ainda ressaltar que o conceito de crítica em Nietzsche é lotado de nuances, e nesse sentido o filósofo alemão apresenta um sentido negativo de crítica, uma espécie de tirania do novo que nada mais toca, nada mais fere, e por si nada mais vale. Nesse sentido ver: NIETZSCHE, Friedrich. Segunda consideração intempestiva : da utilidade e desvantagem da história para a vida. Trad. Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003, p. 33-47.
6 FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade . Trad. Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 10-13. Por saber histórico Foucault entende também o saber das pessoas, os saberes desqualificados; a genealogia então revolve o saber histórico das lutas.
7 FOUCAULT, Michel. A microfísica do poder . Trad. Roberto Machado. 8. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p. 69-78.
8 Referido trecho foi retirado de uma entrevista concedida por Foucault ao Le Monde intitulada O filósofo mascarado .Para ler a entrevista acessar: http://banners.hpg.ig.com.br/banners/banner_popup_body.php3?username=foucault&cat=2401
9 Nesse sentido ver: RAJCHMAN, John. Foucault: a liberdade da filosofia. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987, 68-93.