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Nós e o pós: o olhar do intelectual brasileiro
Simone Regina Dias (UFSC/
UNIVALI)
Peter Sloterdijk 1 propõe uma metáfora interessante para se pensar a situação contemporânea: a substituição da coruja de Minerva pelos agitados pardais nos telhados das cidades.
A coruja enxerga uma totalidade e é considerada pelo crítico figura intelectual em declínio, enquanto os movimentados pardais expõem opiniões transitórias, inclinações momentâneas, perfis em processo. Para o autor, os pardais são, provavelmente, situacionistas, perspectivistas, taoístas. Ao invés de defenderem conhecimentos últimos, preferem articular conceitos nômades e voláteis nos telhados, saudando as manhãs, conhecendo a posição do sol e o escurecimento do céu. Tomo de empréstimo a perspectiva de Sloterdijk para refletir sobre os intelectuais que se incluem no quinto número da Revista do Brasil 2, publicada em 1986.
A pós-modernidade é o slogan que dramatiza a década de 80 no Brasil. Pouco a pouco, aqueles anos assistiram à disseminação do termo na agenda cultural. Sintoma disso e da repercussão no mercado das idéias reside nas capas de revistas e as manchetes dos suplementos culturais anunciando o fenômeno, rendendo debates, livros, teses, cursos e seminários. O pós-moderno havia se convertido em pauta para números temáticos dos periódicos e a "chamada" funcionava como estratégia de marketing, que atraía leitores curiosos para ver o que estava por trás da enigmática expressão.
A fim de apresentar algumas das articulações do debate encenado na crítica brasileira, identificando as interpretações do pós-moderno e a desterritorialização deste discurso, realizo, como pesquisa do doutorado, um mapeamento das abordagens e apropriações do referido debate por parte de nossa crítica. O corpus compreende os textos publicados nos periódicos literários e culturais da década de 80, "momento farol" da discussão no Brasil.
Funcionando como arena para as polêmicas, palco para os lançamentos, mastros para as bandeiras, baluartes de resistências, veículos oficiais, composições de agrupamentos e distanciamentos, considero as revistas fértil matéria-prima para a leitura de uma época. Perceber os antagonismos, as afiliações, as diásporas, enfim, se torna possível ler os termos do embate cultural. Neste caso, detenho-me nos textos acerca do debate que marcou a "década perdida": as leituras sobre o pós-moderno.
Optei por interpretar esta viagem da teoria sobre o pós-moderno através do que considero sintomas de tal apropriação: os números temáticos das revistas literárias/culturais. Aqui, foco a análise na Revista do Brasil , publicada em 1986 .
O editorial da quinta edição, assinado por Heloísa Buarque de Holanda, lança questões a propósito do "tempo" definido como "pós-modernidade", "era da plena disponibilidade, do 'fim das ideologias' e da crise da negatividade da arte moderna". 3 Afinal, este debate tem, ou não, suporte na produção literária brasileira da década? E se tem relação, quais os contornos dessa "literatura pós-moderna"?
No referido editorial, Heloísa rememora que José Guilherme Merquior já havia apresentado, em vários ensaios reunidos no livro Fantasma romântico (de 1980), a discussão sobre o pós-moderno, que, à época, passara praticamente despercebida, enquanto em 1986, afirma a editorialista, "os ventos da Nova República trazem de volta a urgência dessa discussão ainda que, lamentavelmente, esta venha se fazendo na forma de um diluído modismo".
A fase da Revista do Brasil que ora importa , financiada pelo Governo Estadual do Rio de Janeiro (através da Secretaria de Ciências e Cultura do mesmo Estado), lançada no primeiro semestre de 1984, conforme o editor, Darcy Ribeiro (à época também Vice-Governador do Rio), apresentava a proposta de se constituir como "uma revista de todos os homens de cultura do país". Em seu manifesto inicial, o antropólogo afirma suas pretensões:
[...] de sermos fiéis à intelectualidade que expressou a inteligência brasileira no passado. [...] Por isso é que você encontrará sempre, em nossas páginas, reedições de contos, poemas e ensaios que valem a pena ser lidos de novo. [...] Aspiramos também, principalmente, ser um espelho da criatividade cultural brasileira de hoje. Tanto através de análises quanto de toda sorte de textos ou criações gráficas e plásticas [...]. 4
O editorial expunha a pretensão de se constituir uma "dentição" definitiva da Revista do Brasil , somando-se à "longa construção coletiva da cultura brasileira". Temos, a partir do texto inaugural do periódico, uma avaliação do período por parte de Darcy, que considerava fundamental a continuidade de um ideário de construção cultural coletiva, traçada a partir do nacional e da literatura de Machado de Assis, Lima Barreto, Olavo Bilac, Rui Barbosa, Pedro Nava, dentre outros nomes consagrados. Ao invés do habitual lamento frente à produção artística da década de 80, o editor salientava a "criatividade cultural brasileira" do período, que se fazia necessária registrar na Revista. Darcy fazia questão de valorizar a fidelidade ao "nosso patrimônio cultural", impugnando, em contrapartida, a produção destituída de laços com tal patrimônio.
A proposta exposta no editorial de Heloísa distanciava-se da carta de intenções de Darcy Ribeiro, naquela sexta "dentição" da Revista do Brasil . O esforço de Darcy, explícito desde o primeiro número, consistia em reencarnar aquela "criatura que Monteiro Lobato dignificou como uma voz da consciência brasileira". Destaco que, na primeira dentição, o Programa da Revista do Brasil , de autoria de Lobato, pretendia integrar as diferentes peculiaridades da Nação e a revista deveria fornecer a base de estruturação a uma enciclopédia dos temas nacionais, capaz de absorver os mais variados assuntos, visando ao preenchimento das lacunas da história política, social e cultural do país. 5 Dito de outro modo, dedicava-se a resgatar os valores da cultura nacional e a discutir os principais problemas do Brasil.
A proposta da versão de Darcy também era clara: valorizar a "herança de nosso patrimônio cultural", jogando água no moinho patrimonialista.
Não por acaso, a quinta edição estampa no editorial um substituto para Darcy Ribeiro. O exemplar marca flagrante ruptura com o citado compromisso da Revista (o de 1916 e o de 1984), ao trazer a discussão sobre a literatura dos anos 80 e a pós-modernidade. Em suas páginas, encontramos ensaios de Silviano Santiago, Sérgio Paulo Rouanet, Flora Sussekind, José Guilherme Merquior, Luiza Lobo, Nicolau Sevcenko, Cacaso, dentre outros nomes, a maior parte, com certo reconhecimento na esfera da crítica, à época. Mas se tratava de uma nova geração de críticos.
Observo, de imediato, a amplitude de abordagens que o mote eleito pela revista vai suscitar: desde a crise de autoridade cultural européia até a reflexão sobre a pluralidade de vozes e a experiência possível do narrador na pós-modernidade. Tanto a postura de viés iluminista, na defesa da recuperação dos ideais da modernidade, quanto a leitura das marcas da estética pós-moderna ocuparão lugar nas páginas da mencionada edição.
Heloísa Buarque de Holanda preconiza, no editorial, a entrada na era pós-moderna e a crise da negatividade da arte moderna. As mudanças políticas e culturais trazidas pelos ventos libertários da Nova República traziam à tona a necessidade de pensar a questão do pluralismo. Assim, Heloísa quer admitir a adoção de um novo enfoque para a Revista , propondo abandonar a preocupação de se recuperar uma herança cultural, embora próxima, e, quiçá, significativa. O intuito, agora, é refletir sobre o quadro contemporâneo, mesmo correndo o risco de se tematizar "mais um gadget cultural", nomeado "pós-modernidade". A revista renuncia à recuperação do passado para testemunhar o presente. Os slogans Muda Brasil , Muda já , mencionados no mesmo editorial para ilustrar o novo momento político brasileiro podem também se ler como uma espécie de declaração: Muda Revista do Brasil!
O editorial reforça ainda a necessidade e a urgência "em se engendrar canais e abrir novos espaços para o confronto e para a convivência das diferenças e divergências" 6. Para elucidar a convivência das divergências, meta de Heloísa, passo ao mapeamento das abordagens dos ensaios reunidos na mencionada edição.
"O narrador pós-moderno" abre as páginas da revista, texto onde Silviano Santiago apresenta suas hipóteses sobre o novo estatuto do narrador, questionando a noção de autenticidade e reconhecendo que "as narrativas hoje são por definição quebradas. Sempre a recomeçar". 7
A Revista também abrigou "Aranha e abelha: para uma crítica da ideologia pós-moderna" 8, onde José Guilherme Merquior revê sua posição relativa ao pós-moderno quando esboça dez notas sobre seu desencanto com a poética pós-moderna. Ali, o autor s ublinha insistentemente a imprecisão das fronteiras entre o moderno e o pós-moderno, optando por encarar este último como um "ultra-modernismo" e ressaltar, ao invés das distinções, as continuidades e afinidades.
Sem citar autores brasileiros, Merquior desfila uma série de nomes de críticos e artistas modernos a fim de reforçar sua tese da indissociabilidade da estética moderna e a do que os "vendedores da teoria-da-crise" oferecem como a estética da pós-modernidade. Apela, por fim, à retomada do humanismo e ao abandono desta "sovada e infundada ideologia de negação e de desespero".
Em linha semelhante (porém, distinta no referencial teórico), estabelecendo uma leitura do pós-moderno como conceito espúrio, como farsa, Sergio Paulo Rouanet também reitera que não há corte, não há ruptura, não há provas convincentes, enfim, o pós-moderno é pura ilusão. Em "A verdade e a ilusão do pós-moderno" 9, Rouanet se alinha à perspectiva habermasiana e reitera a opção por uma modernidade iluminista como saída para o impasse colocado pela crise do projeto moderno de civilização, enxergando no pós-moderno a nova cara do velho irracionalismo.
Por sua vez, Nicolau Sevcenko colabora com "1976: o grito, o riso e o silêncio da geração X", propondo uma remontagem fragmentária e esquelética do quadro político e cultural da década de 70, a fim de examinar o "vácuo desconcertante" dos anos 80. O autor remete à cena em que o grupo Sex Pistols tirou as máscaras da cultura de massas, quando, em 1976, ao substituir o comportado grupo Queen, entrevistado ao vivo para a tevê inglesa, derrama um jorro frio de palavrões, impropérios e gargalhadas no ar, além de fazer cara de tédio e desinteresse ao que o apresentador perguntava. O episódio serve ao historiador para afirmar que, tal qual aquele grito, o inconformismo pós-moderno não pode ser sufocado em uma "história concebida como gaiola". E alerta para o sentido político do fragmentário e do provisório.
Na Revista , abre-se espaço ainda para a discussão da literatura de mulheres no Brasil: com a colaboração de Sylvia Perlingeiro Paixão, que atribui ao pós-moderno a instauração de uma crise de autoridade cultural, especialmente no que se refere àquela centrada na Europa Ocidental; com o ensaio de Sonia Coutinho, em "Ficção/ Mulher anos 80". Em ambos os textos, destaca-se a visão eurocêntrica e falocêntrica da sociedade ocidental, que assiste a um período em que a consciência de alteridade desperta as pessoas para a existência do outro, mais especificamente à presença da voz feminina, através da literatura. Sonia Coutinho reconhece ainda uma "marginalização sutil", enquanto Sylvia Perlingeiro Paixão celebra a literatura feminina enquanto "força motivadora de mudanças".
Em "Escrita proletária e grupos independentes na Nova República", é a vez de Luiza Lobo reclamar a ausência, naquele primeiro ano da Nova República, da escrita do proletariado. A autora menciona algumas experiências de grupos independentes, das diversas tentativas de organizar o teatro popular, com participação do operariado, que geralmente esbarram na falta de infra-estrutura cultural e no baixo nível de instrução da "massa brasileira". Podemos reconhecer, nestas abordagens da literatura feminina e do proletariado, a emergência da discussão sobre o multiculturalismo, no sentido da descentralização do cosmopolitismo, do redimensionamento do cânone cultural e de uma política da diferença, tema que será pauta na agenda cultural nos anos subsequentes, mais marcadamente na década de 90.
Minha breve passagem pelos textos serve para ilustrar que a Revista buscou a pluralidade de visões sobre a literatura pós-moderna. A quinta edição marca, a meu ver, o abandono do antigo projeto de Darcy Ribeiro, daquela reencarnação do "espírito" da antiga Revista do Brasil , para o reconhecimento de um novo estado do campo cultural, admitindo-se problematizá-lo.
A referida edição da Revista do Brasil , considerada por mim número de passagem, propõe-se não as reedições de contos, poemas, ensaios, prometidas no editorial inaugural de Darcy Ribeiro. Antes, aí se retrata a busca pela reflexão sobre o presente, alimentada por vozes dissonantes, reunidas para discutir o tema em voga na imprensa cultural - a pós-modernidade. Mesmo admitindo o "estado fluido de suas certezas", o que fez Nicolau Sevcenko, a aposta de Heloísa, justamente, reside na provocação do confronto de idéias referentes a fenômeno tão controverso que poderia tanto ser um modismo passageiro quanto uma mudança substancial em relação ao paradigma de nossa produção cultural.
No lugar da Minerva, agitam-se os pardais. Quero dizer: se até a década de 70, tínhamos revistas que reuniam colaboradores em torno de um ideário mais ou menos comum, caso da Argumento, em torno da resistência à ditadura; da José, em torno do apreço ao modernismo; e da Almanaque, e m torno da figura de Antonio Candido, por exemplo, a década de 80 reflete a impugnação de tal modelo e a referida edição da Revista do Brasil é emblemática para ilustrar o acontecido. Abandona-se o "Projeto" nacionalista da proposta inicial da Revista do Brasil , em que ainda se delineavam os contornos de um ideário. Em contraponto, no quinto número, interessa dar voz às várias leituras do pós-moderno: as que o festejam; que o questionam; dele duvidam; reconhecem-no; exemplificam-no, enfim, polemizam-no.
Tal qual os pardais assobiam seus cantos fugazes, os colaboradores partem do tema para lançar hipóteses, em seus ensaios. Mas assinalo: muitos projetos e revistas não sustentaram a revoada dos pardais. No referente à Revista do Brasil , a edição de 1986 assinala apenas uma interrupção. Voltando a circular só em 1988, perdurando até 1990, a referida Revista retoma, da fase de Darcy Ribeiro, a numeração, os aspectos gráficos e a missão de "preservar a memória", conforme consta em um dos editoriais, assinado pelo historiador Francisco de Assis Barbosa, substituto de Darcy e Heloísa à frente do periódico. Com mais intensidade que Darcy, os seis números subsequentes retornam às comemorações e ao tributo à memória. O pós-moderno teve ali um canto fugaz, servindo enquanto momento de passagem ou efetivamente criando o vácuo.
SLOTERDIJK, Peter. Mobilização copernicana e desarmamento ptolomaico . Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1992.
Revista do Brasil, Secretaria de Ciência e Cultura do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, n.5, ano 2, 1986.
HOLANDA, Heloísa Buarque de. Editorial. Revista do Brasil , Rio de Janeiro, n. 5, ano 2, 1986, p.3.
RIBEIRO, Darcy. Editorial. Revista do Brasil , Rio de Janeiro, n.1, ano 1, 1984, p.3. Ressalto que, à época, Darcy Ribeiro acumulava também a função de Secretário de Ciência e Cultura do Rio de Janeiro. Na quinta edição, consta o crédito do novo Secretário de Ciência e Cultura, Edmundo Ferrão Moniz de Aragão.
Brito Broca afirma que a Revista do Brasil surge em 1916 com um programa sério e definido, anunciando uma nova fase em nossas letras, sem concessão alguma à frivolidade e ao mundanismo. Apresentava-se com a "deliberação, a vontade firme de constituir um núcleo de propaganda nacionalista". Monteiro Lobato compra a Revista em 1918, mas já era um dos colaboradores mais assíduos (figurou em 15 dos 29 volumes publicados antes da aquisição). In: _____. A vida literária no Brasil - 1900 . 3.ed. Rio de Janeiro: José Olympio/ Departamento de Cultura de Guanabara, 1975, p.241. O mensário foi editado em São Paulo ininterruptamente de janeiro de 1916 a maio de 1925.
HOLANDA, Heloísa Buarque de. Editorial. Revista do Brasil , Rio de Janeiro, n. 5, ano 2, 1986, p.3.
SANTIAGO, Silviano. O narrador pós-moderno. Revista do Brasil , Rio de Janeiro, n. 5, ano 2, 1986, p.10.
Texto escrito em Londres, em maio de 1985. MERQUIOR, José Guilherme. Aranha e abelha: para uma crítica da ideologia pós-moderna. Trad. Luiza Lobo. Revista do Brasil . Rio de Janeiro, n. 5, ano 2, 1986, p.22-27.
ROUANET, Sergio Paulo. A verdade e a ilusão do pós-moderno. Revista do Brasil, Rio de Janeiro, n. 5, ano 2, 1986, p. 28-53.