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[Re] territorializações disciplinares: um fórum de debates de interseções e intercâmbio de valores
Ricardo Araújo Barberena (UFRGS)
Talvez fosse bastante propício uma retomada sobre a caminhada traçada pelos estudos comparatistas rumo à construção de uma perspectiva inter [trans] disciplinar, e, para isto, deveríamos refletir sobre alguns momentos de discussão nas últimas décadas. Primeiramente, não há como esquecer da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) no tocante ao desenvolvimento de uma série de oportunidades de diálogos norteados pelos múltiplos ângulos que caracterizam o estatuto literário (e cultural). Em 1988, na cidade de Porto Alegre, realiza-se o primeiro Congresso da ABRALIC - ponto de partida para uma longa trajetória 1 de encontros a serem produzidos nos próximos anos -, no entanto, não podemos perder de vista que naquele momento inicial já passam a serem discutidas questões descentralizadoras e, porque não, perturbadoras em relação a uma tradição estetizante dos estudos literários: protagonizam as indagações sobre limites, diferença, cânone, crítica cultural, nacionalidades, memória cultural. Definido pela temática "Intertextualidade e Interdisciplinaridade", o Congresso se apresenta extremamente significativo para que se entenda um ponto nodal na sistemática das discussões nessa área de estudo: o convite "crítico-reflexivo do diverso 2". Assim sendo, delineia-se o ponto de partida para o fortalecimento de um pensar crítico que não se mostre constrangido perante a transgressão das literaturas nacionais 3 e das territorializações disciplinares.
Os pontos de contato entre os diferentes saberes começam a ser expostos de forma mais recorrente, sem que esta aproximação represente uma perda ou uma indireção em relação à matéria literária. Discutido nesses termos, o primeiro Congresso da ABRALIC revela o desenvolvimento de um discurso crítico que procura estabelecer as teias de relações que se podem inferir entre vários campos epistemológicos devido à caracterização de um entre-lugar teórico - marcado por diferentes saberes -. Nesse sentido, trata-se de um lugar híbrido que reconfigura sentidos e dissemina um diálogo entre textos e representações que se apresentam marcados por um feixe de significados negociados num espaço intersecionado pelas marcas - de um passado não distante - e pelas confluências de uma nova produtividade - de uma nova paisagem-escritura -. A partir de uma perspectiva interdisciplinar, passamos a reconhecer o trânsito de diversos intertextos no interior de uma dada produção textual, pois
"[...] enquanto na leitura intertextual evidenciam-se identidades compartilhadas, na leitura interdisciplinar, a poética da oscilação de um a outro campo aposta na prática de identidades redimensionadas. Diferentemente da questão intertextual, na questão interdisciplinar, a constante memória das fronteiras textuais, dos limites críticos e teóricos alterna-se entre o apagamento e o não-apagamento, a relação interdisciplinar sorvendo dessa hesitação justamente o lugar e o ato dos efeitos projetados sobre e um e outro campos dispostos paralelamente" 4.
Alinhado a esse movimento de transgressão e ultrapassagem de fronteiras, percebemos uma significativa produção acadêmica 5 que já havia se manifestado no primeiro Congresso, tais como o ensaio "Literatura e Antropologia", de Eneida Maria de Souza, o texto "Estudos Literários e Interdisciplinaridade", de Domício Proença Filho, o ensaio "Psicanálise e Criação Artística", de Cyro Martins, o ensaio "Passeios do Intervalo: Música e Literatura", de Maria do Carmo Campos, o texto "Narração Literária e Narração Cinematográfica: Perspectivas Semiológicas Comparadas", de Duarte Mimoso-Ruiz, o ensaio "Roland Barthes: Entre a Literatura e a História", de Nicolas Gilles Tabuteau, o texto "Literatura e Direito: O Caso Machado de Assis", de Gentil de Faria, o texto "Literatura e Psicanálise: Os Discursos do Desejo", de Ruth Silviano Brandão Lopes, o ensaio "Literatura e Artes Plásticas", de Nancy Maria Mendes, o texto "Música e Linguagem Verbal: Uma Abordagem Comparativa do Conceito de Dupla Articulação", o ensaio "A Polifonia na Literatura e na Música", de Mônica Kalil Pires, o ensaio "Antropologia Cultural e Literatura Comparada", de Salvato Trigo. Os inúmeros exemplos não deixam dúvida quanto à complexa rede intersecções entre os diferentes campos de saber. A ABRALIC, no seu Congresso inaugural, parece apontar para a constituição de uma atividade crítica que não se mostre temerosa perante o intercâmbio de diversas áreas do conhecimento: afinal, aquelas fronteiras disciplinares - propagadas pelo projeto positivista - não mais se encontram fixas e atreladas a um regime cientificista. Assumida uma abordagem interdisciplinar, desenvolve-se uma crítica literária que esteja atenta para o seu caráter "indisciplinado 6" e transdisciplinar, afinal, não há como negar a existência de um objeto literário articulado por intermédio de uma escritura 7 - de uma linguagem - na qual os demais se apresentam interligados.
Adiantando no espaço temporal, façamos uma pequena parada em Belo Horizonte, no ano de 1990: data que marcou a realização do II Congresso da ABRALIC. Já logo no início, para encaminhar essa reflexão, proponho uma indagação: será que o viés interdisciplinar se sustentou nas discussões que deram prosseguimento ao encontro organizado em terras gaúchas? A fim de responder tal questionamento, comecemos pela própria denominação do II Congresso - "Literatura e Memória Cultural" -, ou seja, trata-se de uma temática voltada para a aproximação de diferentes áreas de conhecimento através do estabelecimento de uma reflexão não pautada "pelo olhar conservador frente ao passado e nem pelo culto da memória como mola do conhecimento" 8. Se era inevitável que o processo de trânsito entre saberes, que marcou o I Congresso, fosse deflagrado no bojo do encontro subseqüente, é bem verdade que acabou por atingir outros conceitos teóricos como a aceitação de um "outro ponto de vista" 9 situado nas "margens" 10. Diante da consolidação dessa moldura crítica, percebemos um rompimento [um deslocamento] perante certos postulados das ciências humanas que haviam sido ditados por critérios hierárquicos e unidirecionais no interior das barreiras disciplinares. Assim, é a partir de uma prática interdisciplinar que se possibilita construir uma crítica sintonizada por um constante movimento de atravessar/perpassar as produções textuais de diferentes áreas, e, para isso, configura-se um processo de desterritorializar a própria literatura numa oscilação entre um dessimbolizar e ressimbolizar [um estar fora e dentro do texto]. Nesse II Congresso, poderíamos citar alguns ensaios 11 que comprovam os entrecruzamentos entre várias áreas de conhecimento: o texto "Retratos de Casamento", de Miriam Lifchitz Moreira Leite, o estudo "Literatura e História: Da Literatura na História e Da História e Da História na Literatura Á Literatura Fazendo-Sendo História", de Ligia Chiappini, o ensaio "Memórias Contadas no Espelho: Darcy Ribeiro e Autran Dourado", de Fabio Lucas. Obviamente, nesse evento, existem mais textos de semelhante concepção crítica, mas, para efeito de citação, os ensaios arrolados são suficientes para a nossa exemplificação, pois demonstram o fortalecimento de um aporte interdisciplinar na procura do aprimoramento de uma teoria que esteja atenta às inter-relações dos saberes e as interfaces disciplinares.
Dando seguimento ao desenrolar dos eventos da ABRALIC, voltemos as nossas atenções para o III Congresso, intitulado "Limites", realizado em 1992. Novamente, na temática gerenciadora, nota-se um conceito - "limite" - que busca operacionalizar a aproximação de conhecimentos diversos, pois é justamente na zona limiar que se dá o trânsito entre formas discursivas norteadas pelo entrecruzamento de um entre-espaço e de um ponto de abertura para a outridade, a multiplicidade, a diversidade. A partir desse espaço limiar, articula-se uma atividade crítica pautada por um saber móvel que produz o desdobramento de fronteiras epistemológicas e [re] interpreta o objeto literário numa dimensão não meramente estetizante e universalista: afinal,
"[...] na prática interdisciplinar, a literatura é mais do que uma arte; sendo ela mesma uma forma especial de expressão, abre-se para outras formas de expressão, abre-se para outras formas de experiência humana acima das fronteiras disciplinares, tornando evidente que a rígida separação de disciplinas por especialização podem levar a um contraprodutivo e paralisante isolamento 12".
Quanto à propagação de um pensamento crítico ciente da produtividade dos limiares de um saber oscilante, não há como negar que a própria conferência de Abertura do Congresso, denominada "The Situation an Internal Limit: Constrains of Post-Modern Architecture", escrita e enunciada por Fredric Jameson, aponta para a consolidação de uma noção de transgressão/travessia de um espaço disciplinar para um outro: um sistema de trocas que revela um texto não mais estagnado por um desejo de totalização, mas, sim, a configuração de uma produção cultural inserida num processo relacional (a capacidade de estabelecer relações-olhares-paisagens entre a literatura e outras manifestações artísticas). Ainda, na perspectiva crítica balizada por Jameson, outros ensaios 13 foram apresentados e discutidos - ou seja: fortalecendo a tendência interdisciplinar já evidenciada no I Congresso - : "Vendo Conrad nos Filmes", de Antonio Eduardo de Oliveira, "Plenilúnio (Por uma Harmonia Barroca do Excesso): Las Hilanderas de Velázquez", de Antonio Manoel Nunes, "Ah! Você Comparou!... Notas Sobre Alguns Padrões de Interferência entre o Texto Poético e o Texto Publicitário", de E.M. Melo e Castro, "Paisagens Pós-Utópicas", de Eneida Maria de Souza, "Texto e Imagem: Efeitos Visuais na Escritura de Osman Lins", de Ermelinda Maria Araújo Ferreira, "O Front das Decifrações: A Reprodutibilidade Eletrônica", de Idemburgo Pereira Frazão Félix. Nesse sentido, o limite não é mais entendido como fim - ponto de separação de significados, culturas, geografias - mas, sim, como o início de uma engrenagem de interconexões de saberes conjugados num espaço híbrido marcado por um estar dentro e fora, um estar na nova paisagem e na marca anterior, um estar num Eu memorial e num Outro testemunhado.
Persistindo nessa trajetória de encontros e produções acadêmicas, agora, voltemos o olhar para ano de 1994: na cidade de São Paulo, realizou-se o IV Congresso da ABRALIC, intitulado "Literatura e Diferença". O evento se apresentou pautado por um "ponto de vista político-cultural" no tocante ao "descentramento de óptica, de forma a se analisar, com os pés na periferia, as imbricações entre o regional e o nacional, entre o nacional e supranacional e entre a série literária e as demais séries culturais 14". Marcado por uma "redefinição de fronteiras, inclusive fronteiras culturais 15", o IV Congresso continua compartilhando uma mirada crítica negociada por uma série de "reformulações curriculares 16", pois já parece bastante evidente que "novos campos de pesquisa são constituídos em áreas que interseccionam limites que antes delimitavam antigas disciplinas 17". Assim, trata-se da consolidação de uma atividade crítica - de caráter "multidisciplinar por excelência 18" - atravessada por uma constante incorporação de relações "intertextuais e intersemióticas, que ampliam o seu campo de investigação 19". Pensada nesses termos, não podemos esquecer que a "literatura comparada, ao romper com o antigo positivismo, veio constituir campo de aproximação interdisciplinar, para pesquisas antes espartilhadas pelas antigas disciplinas 20". Como exemplificação da materialização desse viés interdisciplinar, alguns ensaios 21 deveriam ser mencionados, a título de elucidação, da pungente produção acadêmica alinhada a esse conceito de intercâmbio de saberes: "Poesia Visual e Pintura: Uma Abordagem Intersemiótica", de Denise Guimarães, "O Roteiro Cinematográfico: Seu Status Lingüístico e Literário", de Emmanoel dos Santos, "Ficciones Geográficas o de dos Tierras Tramadas por La Historia: Entre Facundo Y Os Sertões", de Miriam Gárate, "Bertolucci Filma Paul Bowles: Mídia, História e Idéia", de Silvia Mussi da Silva Claro, "A Tradução Intersemiótica: A Questão da Representação", de Solange Ribeiro de Oliveira.
Em 1996, o V Congresso da ABRALIC, nomeado "Cânones e Contextos", caracterizou-se por uma série de debates em torno da "desconstrução dos cânones literários tradicionais". Tal discussão acadêmica parte da premissa que a "questão do cânone" deve ser constituída como uma instância de luta contra o "etnocentrismo", pois, ao se problematizar o legado canônico, coloca-se "em xeque um sistema de valores instituídos por grupos detentores de poder". A partir dessa [re] configuração dos "pilares em que se apoiavam os estudos literários tradicionais", consolida-se um espaço para uma discussão crítica voltada para os problemas relativos "a especificidade ou não do elemento literário", e, nesse sentido, também não podemos perder de vista a presença de uma rede de interconexões com os demais saberes - afinal, é sempre pertinente evocar as sábias palavras de Baudelaire: "escrever é, no mínimo, desenhar e pintar" -. Neste flanco aberto pela desestabilização do cânone tradicional, articula-se uma prática crítica que não está mais alinhada àqueles antigos conceitos de literatura como uma totalidade estanque e unidirecional, agora, diferentemente de um passado não tão distante, trabalha-se com a convicção de que a "obra literária pode servir a outras disciplinas e outras disciplinas podem servir de apoio à análise da obra literária no sentido de torná-la inteligível 22". Muitos ensaios 23, apresentados ao longo do V Congresso, evidenciam esse trânsito disciplinar que busca tornar o nosso mundo inteligível, cito alguns: "The Global Bazaar and The English Gentlemen´s Club", de Homi K. Bhabha, "Espacios Geográficos Y Localizaciones Epistemológicas o La Ratio entre La Localizacion Geográfica Y Subalternizacion de Conocimientos", de Walter Mignolo, "A Storm Blowing From Paradise: Negative Globality in Latin American Cultural Studies", de Alberto Moreiras, "A Escrita da Cidade e do Cânone: Uma Centrífuga Urbana", de Renato Cordeiro Gomes.
Dando continuidade aos debates comparatistas, o VI Congresso da ABRALIC, situado em Santa Catarina, no ano de 1998, possibilitou uma ampla discussão sobre as imbricações existentes entre a Literatura Comparada e os Estudos Culturais. Como uma certa constante nas produções acadêmicas, parece ter se sustentado uma certeza de que o entrecruzamento e o espaço limiar entre essas duas áreas de pensamento crítico não representa uma perda significativa para os estudos literários. Esse V Congresso aponta para a aproximação de uma maturidade crítica de uma série de questionamentos marcados por uma prática de [re] leitura teórica que
"associa heterogeneidades irreconciliáveis que o são à despeito de compartilharem entre si uma base comum de convicções e convenções mesmo divergindo em outros proliferantes dissensos que dão, contudo, sentido e coerência ao próprio concílio 24".
O Congresso se comporta como uma "festa 25" que reúne o "puro e o impuro 26", e, principalmente, não se mostra desconfiado perante a "equação que vincula a literatura comparada aos estudos da cultura". E, aqui, cabe a pergunta: Por que o pensamento comparatista estaria convidando os Estados Culturais para dialogar e intercambiar sentidos de prática crítica interdisciplinar? Talvez seja melhor que ouçamos a pessoa mais credenciada para responder tal indagação, o ilustre conferencista de Abertura:
"Por um conjunto de questões que vale explicitar. É por todos sabido que, no decorrer do último meio século, o modelo dos estudos literários descansou na oposição entre o cânone e seu outro, a cultura popular. O dictum de um crítico de arte, Clement Greenberg, pode aliás sintetizá-lo: vanguarda ou kitsch? Porém, as guerras teóricas dos anos 80 mudaram, radicalmente, o panorama. Com as abordagens desconstrutivas e pós-estruturais, isto é, com o tópico da "morte da literatura", as oposições entre alta e baixa cultura, ruptura e permanência, centro e periferia tornaram-se insustentáveis. As guerras teóricas recentes mostram que, em última análise, a literatura comparada fornece teorias da guerra e que, ao mudar o cenário e o objeto das lutas (não mais o indivíduo, não mais o valor, não mais a disciplina, não mais a nação) o específico da literatura comparada devém sua passagem ao ato, sua dissolução, sua transgressão, seu movimento ao exterior de si. 27"
Nesse sentido, não há como negar que os princípios da interdisciplinaridade acabam por desestabilizar a arte no que se refere ao seu "isolamento autoconfiante 28", pois a emergência de uma teoria, como a Literatura Comparada, que possa ir além do particular, regional ou "nacional, tendo que lutar agora com a emergência de novos saberes, via de regra, comprometidos com o investimento em curto prazo, empenhados eles mesmos em ultrapassar o próprio conceito de universal 29". Engajados na ratificação desse novo olhar crítico, alguns ensaios 30 demonstram justamente a diluição das barreiras coercitivas 31 e disciplinares: "Literatura Comparada e Estudos Culturais - aproximações e distanciamentos", de Tânia Franco Carvalhal, "O comparatismo e os discursos sobre a literatura: teoria, crítica e historiografia", de Eduardo F. Coutinho, "Comparativismo literário e valor cultural", de Wander Mello Miranda, "O legado de Raymond Williams", de Maria Elisa Cevasco, "Estudos culturais e expressões identitárias", de Ana Rosa Ramos, "Repensando a literatura comparada: Edward Said, Fredric Jameson", de Sérgio Luiz Prado Bellei.
O VII Congresso da ABRALIC, por sua vez, foi realizado no ano de 2000, no estado da Bahia, sob a denominação de "Terras & Gentes". A partir da composição da Conferência de abertura, percebemos uma visível aproximação em relação aos Estudos Culturais: deflagrando-se um processo, que, efetivamente, já havia se iniciado nos Congressos anteriores, e, para que se constate isso, basta uma releitura dos Anais dos encontros passados (inclusive do evento realizado em terras gaúchas). Coube ao renomado crítico cultural, Stuart Hall, a tarefa de começar os trabalhos do VIII Congresso através da sua palestra, intitulada "Diásporas or The Logics of Cultural Translation". Assim, parece que o encontro/o diálogo/o entrecruzamento entre a crítica literária e os Estudos Culturais se concretiza em termos inquestionáveis. Aquele espaço limiar e interdisciplinar - já debatido no I Congresso - está cada vez mais pautado por uma rede de trocas de sentidos que produzem um abalo na antiga abordagem positivista calcada no desejo de fixar os saberes através de uma disciplinarização do conhecimento. Para exemplificarmos a consolidação desse trânsito interdisciplinar, citemos alguns artigos 32 que foram expostos ao longo do VII Congresso: "O Etnógrafo e o Poeta. A Viagem", de Silviano Santiago, "Literatura e Mídia em Face da Desconstrução do Referente", de Claudia Gonzáles Constanzo, "Cidades Literárias: A Recriação do Espaço Urbano", de Niobe Silva Abreu Peixoto, "Lamento de um Blue: Uma leitura Sociológica da Obra a Hora da Estrela", de Edna Florentino Diogo Silva, "Musicalidade e Entonação na Poesia de Manuel Bandeira", de Pedro Marques Neto, "Telenovela e Literatura: Identidades Transnacionais na América Latina", de Lídia Santos.
O VIII Congresso da ABRALIC, realizado no presente ano, sediado em Belo Horizonte, denominado "Mediações", representou o ponto culminante da diversidade de linhas de pesquisas e enfoques multidisciplinares: nunca se havia notado tantos críticos inscritos e tamanha produção de ensaios. O encontro pretendeu discutir o processo de mediação entre os diferentes deslocamentos culturais e as interações múltiplas de um mundo globalizado, pois, na atual conjuntura social e política, nos deparamos com uma complexa rede de configurações ambíguas no tocante aos agenciamentos discursivos no âmbito de um contexto limiar de trocas de saberes. Neste constante movimento de circulação de conhecimentos, torna-se visível uma diversidade cultural calcada num feixe de interfaces entre a arte/cultura e o mercado-tecnologia-política. Assim, parece bastante coerente que reconheçamos o diálogo dos estudos literários com uma pluralidade de discursos, mas, para tanto, é preciso que se legitime a Literatura Comparada como um locus de enunciação pautado por uma heterogeneidade de saberes de aportes disciplinares. Como efetiva conseqüência, desencadeia-se um questionamento perante àqueles pressupostos críticos baseados numa lógica binária e excludente, principalmente, no que se refere ao privilégio - canônico e institucional - de determinados campos disciplinares.
Ao debater esses processos de mediação cultural, os Congressos da ABRALIC evidenciam a pertinência da "sua tendência transdisciplinar 33", afinal, a partir da constituição de um espaço de vários pensares, é possível "acolher a diversidade de olhares críticos e de intensificar o livre trânsito entre saberes. 34" A própria Abertura do VIII Congresso, intitulada a "Le grand récit", proferida por Michel Serres, é a comprovação de um exercício crítico que se mostra matizado por um percurso de ultrapassagem [de múltipla paisagem] no interior de diversos campos disciplinares: uma grande narrativa que caminha-viaja-transita sem temer as encruzilhadas epistemológicas. Ainda poderíamos citar muitos ensaios 35 que se encontram conjugados nesse viés transdisciplinar, no entanto, enumeremos apenas alguns: "Entre a Cidade Letrada e a Rua", de Eneida Leal Cunha, "Escrita e Corpo: Inscrições da Memória", de Ivete Camargo Walty, "La obra de arte en la época de su reproductibilidad digital", de Daniel Link, "O Comparatismo em Universos Transculturais: o Caso Latino-Americano", de Eduardo Coutinho, "A Literatura como Medição", de Leyla Perrone-Moisés, "La posición de lo estético en el actual debate sobre la crítica y los Estudios Culturales lationoamericanos", de Nely Richard, "Espectros da Nação", de Wander Melo Miranda, "Mediação e Antropologia", de Gilberto Velho, "Migração e Mediações Culturais", de Evelina Hoisel.
Desta forma, encaminhamos a conclusão do nosso panorama sobre os momentos decisivos que marcaram os Congressos da ABRALIC - esse espaço de discussão sem "endereço fixo 36" - :
"Esta entidade que viaja, desloca-se - e nos faz viajar, transitar - constitui um lugar propício e um intervalo adequado, ao mesmo tempo instável e seguro, para a pergunta que nos contém ou constrange: o possível estatuto da crítica, hoje, consideradas as intersecções, as negociações intensas e até as destituições recíprocas entre valor político, valor estético e valor mercatológico, que produzem algumas perguntas complexas ao nosso sistema disciplinar 37" (grifo meu).
Do frio rigoroso do pampa ao calor escaldante do pelourinho, a ABRALIC se constituiu como uma oportunidade de estabelecer debates num entre-lugar que está tencionado por um "dentro e fora 38" de uma territorialização disciplinar: uma trajetória matizada por uma atividade crítica que busca "romper fronteiras das literaturas nacionais 39" através de uma produtiva gama de práticas discursivas ponderadas pela interdisciplinaridade e os seus "imprevistos contatos ou conexões 40". Assim, parece bastante coerente que admitamos: a ABRALIC transita em muitas direções e sentidos. E o deslocamento se dá duplamente... De um lado, um trânsito geográfico (de Niterói a Belo Horizonte, de São Paulo a Florianópolis), de outro, um trânsito epistêmico/disciplinar (dos Estudos Literários aos Estudos Culturais, da antropologia à poesia virtual, da música à literatura oral, etc.). Ao longo dos seus quinze anos de fundação, a ABRALIC se consolidou como a mais representativa associação profissional na área de Letras no Brasil, e, atualmente, já está sendo caracterizada - por autoridades internacionais - como a maior entidade de seu gênero na América Latina. Atento ao encontro das diferenças, esse espaço de produção acadêmica vem se mostrando interessado pelos processos de mediação no interior das diversas instâncias de interação e tradução cultural. Nesse sentido, destaca-se uma prática crítica mediadora das imbricações entre os diferentes campos do conhecimento, afinal, torna-se muito pertinente a construção de um olhar teórico instigado pela superposição de redes interdisciplinares nos mecanismos de legitimação cultural e artística.
Referências Bibliográficas:
ABDALA JÚNIOR, Benjamin. "Sessão de abertura do IV Congresso da ABRALIC". Anais do IV Congresso da ABRALIC . São Paulo: 1994.
ANTELO, Raul. "Discurso de Abertura do V Congresso da ABRALIC". CD-ROM
BARTHES, Roland. A Aula. São Paulo: Cultrix, 1997.
BERWANGER, Maria Luiza da Silva. Suave Convívio: Literatura Comparada e Psicanálise. Porto Alegre: UFRGS,2000.
CANDIDO, Antonio de Mello e Souza. "Palavras do Homenageado". IN: Anais do I Congresso ABRALIC . Porto Alegre: 1988.
CARVALHAL, Tânia Franco. "O Futuro das letras na literatura comparada". IN: COSSON, Rildo (org.), O presente e o futuro das letras. Pelotas: Ed. UFPEL, 2000.
CARVALHAL, Tânia Franco. "Interfaces da Literatura Comparada". IN: SANTOS, Paulo Sérgio Nolasco (org). Literatura Comparada - interfaces e transições. Campo Grande: UFMG, 2001.
CUNHA, Eneida Leal. "Margens e Valor Cultural". IN: MARQUES, Reinaldo; VIELA, Lúcia Helena (orgs), Valores, Belo Horizonte: UFMG, 2002.
MARQUES, Reinaldo; VIELA, Lúcia Helena (orgs.) Valores. Belo Horizonte: UFMG, 2002.
NITRINI, Sandra. Literatura Comparada. São Paulo: EDUSP, 2000.
SOUZA, Eneida Maria. Abertura do II Congresso ABRALIC . Belo Horizonte: ANAIS do II Congresso da ABRALIC, 1990.
Notas:
A título de rememoração diacrônica: "Intertextualidade e interdisciplinaridade" (Porto Alegre, 1988), "Literatura e memória cultural" (Belo Horizonte, 1990), "Limites" (Niterói, 1992), "Literatura e diferença" (São Paulo, 1994), "Cânones e contextos" (Rio de Janeiro, 1996), "Literatura comparada =estudos culturais" (Florianópolis, 1998), "Terras & Gentes" (Salvador, 2000), "Mediações" (Belo Horizonte, 2002).
CUNHA, Eneida Leal. "Margens e Valor Cultural". IN: MARQUES, Reinaldo; VIELA, Lúcia Helena (orgs), Valores , Belo Horizonte: UFMG, 2002.
Quanto à literatura nacional, nada melhor que retomemos o discurso do mais renomado crítico brasileiro, Antonio Candido, no que se refere às intersecções entre os diferentes campos de estudo: "Há mais de quarenta anos eu disse que ´estudar literatura brasileira é estudar literatura comparada`, porque a nossa produção foi sempre tão vinculada aos exemplos externos, que insensivelmente os estudiosos efetuavam as suas análises ou elaboravam os seus juízos tomando a estes como ponto de reparo". CANDIDO, Antonio de Mello e Souza. "Palavras do Homenageado". IN: Anais do I Congresso ABRALIC . Porto Alegre: 1988.
BERWANGER, Maria Luiza da Silva. Suave Convívio: Literatura Comparada e Psicanálise
Os ensaios que serão citados se encontram publicados nos Anais do I Congresso da ABRALIC.
Conceito discutido por Sandra Nitrini. Ver: NITRINI, Sandra. Literatura Comparada. São Paulo: EDUSP, 2000. p.117.
Roland Barthes trabalha justamente com este entrecruzamento de saberes no interior de uma escritura. Ver: BARTHES, Roland. A Aula. São Paulo: Cultrix, 1997. p.18-19.
SOUZA, Eneida Maria. Abertura do II Congresso ABRALIC . Belo Horizonte: ANAIS do II Congresso da ABRALIC, 1990, p.46.
Todos os ensaios se encontram nos Anais do II Congresso da ABRALIC .
CARVALHAL, Tânia Franco. "Interfaces da Literatura Comparada". IN: SANTOS, Paulo Sérgio Nolasco (org). Literatura Comparada - interfaces e transições. Campo Grande: UFMG, 2001, p.14.
Situados nos Anais do III Congresso da ABRALIC .
ABDALA JÚNIOR, Benjamin. "Sessão de abertura do IV Congresso da ABRALIC". Anais do IV Congresso da ABRALIC . São Paulo: 1994, p. 34.
Foram retirados dos Anais do IV Congresso da ABRALIC.
CARVALHAL, Tânia Franco. "O Futuro das letras na literatura comparada". IN: COSSON, Rildo (org.), O presente e o futuro das letras. Pelotas: Ed. UFPEL, 2000.
Retirados dos Anais do V Congresso da ABRALIC .
ANTELO, Raul. "Discurso de Abertura do V Congresso da ABRALIC". CD-ROM
Estes ensaios estão no CD-ROM dos "Anais do VI Congresso da ABRALIC".
È sempre proveitoso que relembremos a presença marcante de Michel Foucault - em A ordem do discurso - no tocante a uma redefinição das disciplinas como um conjunto de procedimentos de controle de produção de discurso e de saber. As disciplinas desempenhariam dupla função: de um lado, um papel positivo e multiplicador, e, por outro, um caráter coercitivo e restritivo. Ver: FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola: 1996.
Os artigos foram publicados nos Anais do VII Congresso da ABRALIC (em CD-ROM).
MARQUES, Reinaldo; VIELA, Lúcia Helena (orgs.) Valores . Belo Horizonte: UFMG, 2002, p.7 .
Os "Anais do VIII Congresso da ABRALIC" ainda não foram publicados. Desse modo, esses ensaios foram citados a partir da participação pessoal nas sessões de comunicação. Obviamente, também se recorreu ao material distribuído no próprio evento.
CUNHA, Eneida Leal. "Margens e Valor Cultural". IN: Valores . MARQUES, Reinaldo; VIELA, Lúcia Helena (orgs). Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002, p. 159.