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José Saramago: O Intelectual Popstar da Literatura
Mariana Montenegro Rego (PUC/RJ)
José Saramago é considerado um dos mais importantes autores vivos de textos em Língua Portuguesa. Sua posição de destaque se acentuou, ainda mais, quando recebeu o prêmio Nobel de Literatura, ganhando maior notoriedade, maior divulgação por parte da imprensa mundial, ganhando status de celebridade. Isto fez com que outros leitores, que até aquele momento não o conheciam, se interessassem por seus livros.
Obviamente, com o prêmio, o alcance dos romances deste escritor português aumentou e, também, cresceu o número de estudos sobre sua obra. Contudo, o valor de sua produção não deve ser desprezado. Acreditamos que um prêmio como esse só é conferido a autores que já demonstraram a consistência do trabalho que realizam e é isso que procuraremos demonstrar.
Saramago tinha, por herança, todas as razões para escrever o grande romance neo-realista de Portugal. No entanto, o escritor vai além, quando opta por deixar de lado o caráter documental, que marcava os textos Neo-realistas e, na maioria das vezes, escolhe a construção de textos cheios de metáforas, de imagens fantasiosas, que remetem, de um modo indireto, ao real.
Uma das principais propostas da arte contemporânea seria criar um incômodo nos leitores, contribuir de alguma forma para que estes despertassem de sua vida acomodada. O texto não deveria dar repouso, tranqüilidade, mas inquietar quem o lê. Os leitores, acostumados, em sua maioria, com respostas, com finais felizes e soluções, deveriam ser provocados, a ponto de se tornarem atentos e questionadores, diante de suas próprias condições de vida.
A literatura já passou por diversas fases, inclusive pela tendência à não-intervenção, à indiferença político-social, mas, atualmente, a intenção de se fazer uma obra socialmente atuante parece ter-se tornado, outra vez, necessária.
Saramago ocupa um lugar muito próprio no panorama da ficção contemporânea: o seu êxito repousa no desassossego que os seus livros transportam e fazem emergir. Ele está entre aqueles que encaram a literatura como um dispositivo que nos faz pensar sobre aquilo que, só por intermédio da arte, se poderia pensar.
O autor dá preferência à interrogação e ao desafio, cria situações inusitadas, perturbadoras, renunciando a certas lógicas que organizam o mundo e fazendo com que o ser humano possa se rever e questionar, não só no seu presente, mas na diversidade das épocas e histórias que moldam a todos nós.
A saga de Levantado do Chão , capaz de iluminar os conflitos, as adversidades do regime de terra, não se prolonga em obras posteriores, como Memorial do Convento ou O Ano da Morte de Ricardo Reis , mas tais obras, tão diversas entre si, têm algo de suma importância em comum: estão investidas do que José Manuel Mendes denomina diagnóstico daquilo que somos, no artigo "José Saramago: Os livros de nosso desassossego".
Em um, como nos outros, irrompem figuras e narrativas que acabam retomando temas fundamentais: o amor, a morte, o poder, a mentira, a intolerância, a hipocrisia, o desengano, o fatalismo, a História enquanto movimento (com suas projeções no presente), o caráter mutável das coisas e a tensão entre o efêmero de cada realização e a necessidade, própria do ser humano, de tornar, ou acreditar em algo eterno.
Episódios como o da ocupação dos terrenos do Alentejo, o transporte da pedra para o Monumento de Mafra e a ascensão da Passarola do Padre Bartolomeu não são apenas eventos comuns, mas instantes mágicos. Esses momentos de magia não são "gratuitos", não são apenas uma construção ficcional, poética, mas alegorias que funcionam como uma espécie de recompensa após o sofrimento, fazendo, afinal, parte de uma parábola.
O primeiro ciclo de trabalho do romancista estava mais diretamente ligado a questões da História, mas os romances não são uma reconstituição histórica ou monumental, e sim uma invenção, que dialoga com o passado, busca "corrigi-lo", "completá-lo" e melhor compreendê-lo, a fim de esclarecer o próprio presente.
Acreditamos que Saramago não fez "romances históricos" nos moldes tradicionais, pois o que se tem como modelo deste tipo de romance é a ficção do século XIX, que encara a obra literária como um simples veículo para que se conheça melhor a história, a partir de uma reconstituição do passado.
No século XIX a História estava se constituindo como uma disciplina e, desde então, os paradigmas aos quais a mesma estava ligada passaram por mudanças significativas. A perspectiva pela qual a história é encarada no século XIX modifica-se completamente a partir da metade do século XX.
Segundo o historiador Paul Veyne, que sintetizou os conceitos de um movimento chamado de "nova história", a história é uma construção discursiva que não teria possibilidade de apresentar a verdade diante de uma determinada realidade, o discurso histórico é lacunar, pois, por mais que se conheça os documentos, deve-se levar em conta o recorte que é feito pelo historiador, ou seja, a subjetividade presente na enunciação dos fatos.
Essas considerações fazem cair por terra as concepções da história do século XIX, que pensava a mesma como um discurso absolutamente verdadeiro sobre determinado fato. Além disso, Saramago parece estar interessado em reconstruir, não a História de Portugal, sempre narrada pelo ângulo do poder, mas a dos Portugueses, fazendo sua a voz daqueles que estiveram sem voz: os marginais, os excluídos, os dominados. Afinal, as pessoas do povo não apenas assistiram da janela a passagem da história, mas a fizeram acontecer, apesar de não terem seus nomes escritos nos livros.
Em Levantado do Chão, por exemplo, Saramago viaja entre o passado e o tempo presente, acompanhando três gerações de uma família, os Mau-Tempo, e fazendo uma epopéia da vida dos trabalhadores alentejanos, de sua dor e sofrimento.
A diferenciação existente entre Levantado do Chão e romances históricos tradicionais é nítida, a começar pelo narrador, visto que este não só acompanha a ação, mas também a comenta e critica, levando o leitor a incorporar-se ao texto, sendo uma espécie de guia da reflexão e da consciência.
A história contada por Saramago atravessa vários períodos de Portugal, desde a época da monarquia, passando pela proclamação da república, pela ditadura e pela volta da liberdade, no final do século XX, com a revolução dos cravos.
O autor nos mostra, por meio da história dos Mau-Tempo, que o homem do povo, o trabalhador, era silenciado, acuado pela religião, pela opressão do governo e explorado pelos donos das terras. A vida era marcada pelo conformismo e os homens não viam nenhuma perspectiva de mudança.
Mesmo após a queda da monarquia e a chegada da República, nada mudou na vida do homem do campo e, quando Salazar assumiu o poder em Portugal, a situação tornou-se ainda pior. A Igreja, personificada, no romance, na figura do padre Agamedes, tinha sempre um discurso de conformismo, fazendo os homens aceitarem a situação. Aqueles que perceberam que era necessário lutar por mudança, tendo, inclusive, se organizado em torno de idéias comunistas, foram oprimidos por outras instituições como a polícia.
Em Saramago e o tempo da ficção , Maria Alzira Seixo privilegia, na análise dos textos do autor português, o que chama de "história do processamento de uma ficção", que é, na verdade, a observação do desenvolvimento, através da linguagem, de um tempo muito específico. O que mais interessaria, de acordo com a autora, seria saber se a representação feita nestas obras literárias é representação de um suposto real ou de um "mundo possível", que só existe no próprio texto.
Em Memorial do Convento, por exemplo, a autora observa uma sobreposição de níveis de narrativa, estando a reconstrução do passado em um destes níveis, enquanto a consciência crítica do narrador sobre essa sua visão do passado ocupa o outro nível. Se, por um lado, a leitura do passado pode ser considerada histórica, por outro a reescrita deste passado é a produção de um tempo concreto no texto.
O escritor será alguém com poder para escolher "verdades", que transmitirá através da linguagem, após verificar se elas irão "funcionar" nos planos estético e ideológico. Um exemplo de intervenção no passado é o vôo da passarola. Há dados nos livros da história oficial sobre o padre Bartolomeu Lourenço e a construção de uma passarola, mas nada que comprove o êxito da máquina. Se Saramago faz a "sua" passarola voar, livrando, desse modo, aqueles que a ocupam da Inquisição, é porque deseja transmitir aos leitores uma idéia muito específica: a de que ciência e poética podem, juntas, ser responsáveis pela libertação humana.
A preocupação social está sempre presente nas obras de Saramago, mas, como já vimos, ele não trata diretamente dos problemas da atualidade. Então, a problematização social, em seus textos, acontece através da tomada do ponto de vista do "perdedor", do menos favorecido pela História que é reconstruída.
Apresenta-se, em Memorial do Convento , o ponto de vista dos soldados, homens que enfrentam diretamente a guerra, encarando seus perigos e condições adversas, para que outros usufruam os possíveis resultados. Há, ainda, o ponto de vista dos operários que construíam o convento de Mafra, para glória e satisfação do rei.
Não poderíamos deixar de mencionar Baltasar e Blimunda, personagens de suma importância na narrativa, que são um bom exemplo de intervenção do autor na História, por serem fictícios e conviverem, na obra, com outras personagens de existência historicamente comprovada (como D. João V, D. Ana Maria Josefa, Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão e Domênico Scarlatti); e, ao mesmo tempo, são exemplo de mudança de ponto-de-vista da História, visto que fazem parte desta camada social menos favorecida.
O autor nos aponta, ainda, para a hipocrisia das relações humanas, para a diferença entre o discurso de que todos os seres humanos são iguais e o que efetivamente ocorre, por causa de questões de hierarquia, poder, etc.
As personagens vivem sob os ditames da Igreja e do Estado, sendo que este obedece às leis católicas. A afirmação dos dogmas cristãos com a Contra-Reforma é ainda atuante dentro da sociedade portuguesa. A religião serve-se de artifícios, como o Santo Ofício e a confissão, para reprimir manifestações contrárias aos ideais proclamados pela Igreja.
Blimunda e Baltasar transgridem os códigos, pois vivem, com liberdade, aquilo que escolheram. Essa transgressão tende a levá-los à condenação, o que só não acontece graças à fuga. No entanto, a transgressão do código moral se dá em vários outros níveis, mas há transgressões que não são consideradas como tal, pois fazem parte de um grande jogo. O rei transgride, mas ninguém o condenaria; os padres transgridem, mas ninguém os pode condenar, visto que são os representantes de Deus na terra.
Podemos, então, dizer que enquanto a justiça dos homens e a "dita" justiça de Deus beneficiam apenas a algumas pessoas, os "pequenos" transgressores serão sempre aqueles que, verdadeiramente, não podem burlar as leis.
O incidente que pontua a ação do romance Jangada de Pedra é mais um exemplo de evento fantástico que carrega um significado "oculto", que deve ser "desvendado" pelo leitor. A deriva da península ibérica, um enigma, é, na verdade, um jogo entre autor e leitor: assume as proporções do sublime no texto, mas tem por detrás de si uma grande complexidade, o que aponta para a necessidade de meditação, por parte de quem lê.
Saramago opta pela provocação, por apontar para o que tem permanecido obscuro, desocultar. Isto porque, se os heróis dos romances de Saramago são os excluídos da História, Portugal e a Península Ibérica foram igualmente excluídos da História européia. Portugal marginalizou-se ainda mais, assim como a Espanha, com ditaduras anacrônicas.
Segundo Pierre Rivas, no texto "A fraternidade dos excluídos", lido em sessão da Sorbonne, em novembro de 1998, a alegoria da Jangada de Pedra é reforçada pela teoria de alguns historiadores de que existe um núcleo central europeu e certas insularidades excentradas: a Grã-Bretanha, com sua excentricidade imperial, a Rússia, considerada início da Ásia e a Ibéria, pois a África começaria nos Pirineus.
Se a jangada parte à deriva, é porque a Europa centro-centrista já a tinha deixado à deriva. Saramago não faz mais do que assumir a exclusão dos excluídos. Exclusão que resulta numa abertura para a alteridade dos excluídos do Terceiro Mundo, para a mestiçagem, para a Relação, pois, como os oprimidos e os marginais têm de entrar na História, que não é apenas a dos Grandes, do mesmo modo os países periféricos têm de se unir e de resistir ao peso da História.
Trata-se de mestiçar a Europa, de a tirar do seu esplêndido e orgulhoso isolamento. É esta nova posição da Península que lhe permite ser esse eixo de ligação com o Sul, que permite uma comunhão com povos dominados, excluídos e marginalizados da História centro-européia.
Além de estabelecer um diálogo com a história sócio-política de Portugal, Saramago também construirá uma relação bastante interessante com relação à história literária do país.
Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, há a personificação de um dos célebres heterônimos pessoanos. O autor ousa, ao decidir apropriar-se da ficção de outrem, sendo esse outrem Fernando Pessoa, o poeta mitificado do passado, em cujo imaginário se intromete a imaginação de um escritor do presente.
O processo de incorporação de uma ficção literária noutra ficção literária fora legitimado pelo modernismo, enquanto afirmação da capacidade de auto-suficiência da literatura como sistema dotado de coerência interna e, por isso, autônomo em relação à vida. Apenas acontece que esse caráter é neutralizado, pela intrusão constante de referências histórico-sociais do universo extraliterário.
Fernando Pessoa, ao fragmentar a própria identidade na pluralidade de seus heterônimos, criou uma ficção que, como qualquer ficção, não esgota todas as possibilidades de criatividade, deixando em aberto as vias que os receptores poderão percorrer ou mesmo preencher.
Saramago fez o heterônimo (que, segundo biografia descrita pelo criador Pessoa, expatriara-se no Brasil) regressar a Portugal, para residir em Lisboa, até ao momento em que ele mesmo decide reunir-se pela morte ao poeta seu criador e introduziu personagens como Lídia e Marcenda, com quem Reis se envolve, e que derivam ambos das "Odes de Ricardo Reis" e o próprio Fernando Pessoa, que será tratado no livro como tema de ficção, enquadrado em algumas coordenadas históricas verdadeiras e, ao mesmo tempo, fazendo parte de uma situação sobrenatural, pois visita Ricardo Reis, depois de morto.
Também podemos citar o texto teatral Que farei com este livro? , no qual Saramago faz do ilustre poeta Luís Vaz de Camões seu personagem e que, segundo Maria Alzira Seixo, em O Essencial Sobre José Saramago, pode ser visto como uma homenagem ao poeta, já que toda a problemática da publicação de Os Lusíadas se dramatiza nesta peça: o desinteresse do rei e da corte, a miserável situação material do poeta, as relações com a Inquisição, o negócio do impressor.
Além disso, a peça adquire uma força ainda maior, porque trata da situação desprotegida do escritor, que é não só do tempo de Camões, mas de todos os tempos. Talvez, ainda mais do nosso tempo, pois deveríamos ter-nos tornado mais atentos às relações de produção no meio literário.
A visão que o texto nos dá do poeta sustenta-se por toda a força evocativa do seu tempo, mas não é uma visão histórica, antes uma visão fabular, porque o destino de Camões inspira piedade ao leitor. No final, ecoa uma pergunta: "Que fareis com este livro?". O poeta levara debaixo do braço uma obra-prima e viu-se injustamente enjeitado pelo mundo e gostaria de saber para que irá servir amanhã o livro que escreveu, assim como todos os escritores devem se questionar sobre o que será feito dos livros que andam a escrever.
Quando se fala no papel de intelectual, no caso de Saramago, é inevitável pensar em sua filiação ao partido comunista, o que é bastante compreensível, tendo em vista que, ao longo de sua vida, dedicou-se aberta e francamente ao marxismo.
No entanto, acreditamos que seus romances são de um nível e de um rigor literários verdadeiramente excepcionais e não se limitam a fazer uma espécie de manifesto de ideais comunistas, mas falam, com coragem e ousadia, sobre temas que podem, a princípio, não parecer os mais adequados para a literatura.
Basta citarmos obras mais recentes, como Ensaio sobre a cegueira que mostra o quanto os seres humanos, enxergam pouco a si mesmos e a seu comportamento em sociedade, ou O Homem Duplicado , que trata da questão da identidade, em tempos de globalização que elimina as singularidades, ou A Caverna , que trata dos problemas da sociedade de consumo.
Cada um dos livros de Saramago ilumina uma parcela significativa do "céu social". Este céu se abre, por meio de sua ficção, para receber mais e mais estrelas, ofuscadas pela história oficial, tradicional.
Contudo, pela complexidade de aspectos dessa obra, é o próprio Saramago quem mais brilha, tornando-se uma estrela solar, um astro rei na constelação da literatura portuguesa e mundial. Popstar .
BIBLIOGRAFIA
MENDES, José Manuel. " José Saramago: Os livros do nosso desassossego" IN: http://www.instituto-camoes.pt/escritores/saramago/livrsndesassg.htm
RIVAS, Pierre. A fraternidade dos excluídos . IN: http://www.instituto-camoes.pt/escritores/saramago/fraternidexclds.htm
SEIXO, Maria Alzira. O Essencial sobre José Saramago , Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1987.