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O entre-lugar da afetividade e do saber
Evelina Hoisel (UFBA)
Na XI Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, em 2003, o Sindicato Nacional dos Editores de Livros publica e distribui aos convidados a antologia de cartas de escritores brasileiros, de Gonçalves Dias a Ana Cristina César (1865-1995), intitulada A República das Letras, com seleção, prefácio e notas de Silviano Santiago. No Prefácio, que convida o leitor a transitar por momentos e espaços distintos da vida literária no Brasil a partir da correspondência de seus escritores, Silviano Santiago inicia o seu texto com algumas digressões autobiográficas que recuperam recordações dos seus anos de formação, na década de 1950, em Belo Horizonte, quando cursava a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.
Aí a formação do jovem intelectual, como a dos jovens intelectuais da época, é apresentada a partir de dois planos distintos, de dois tipos comportamentais que, como define Silviano Santiago, pela "lógica do absurdo" terminavam por constituir "a base dupla em que se fundava uma carreira artística responsável" 1: a vida universitária e a vida boêmia; de um lado, a vida regrada e operária do estudante universitário, a vida do saber institucionalizado, tradicional, codificado pelos livros; do outro lado, a vida anárquica e boêmia do jovem rebelde, com amigos, convivendo com artistas e intelectuais mais velhos, onde circulava um saber "anônimo, nômade e vagabundo, ao mesmo tempo anárquico e democrático, construído que era de rompantes que rasgavam o céu da conversa como punhais de cigano" 2 .
Ao longo dessas digressões, que dramatizam os anos de formação do intelectual mineiro, Silviano Santiago vai gradativamente resgatando a importância desses contatos e diálogos entre aspectos tão díspares da formação literária: a fala do magister e o diálogo com os confrades mais experientes, a disciplina e a maleabilidade, ressaltando como estes anos de dupla base educacional foram importantes para muitos escritores de sua geração e se transformaram em tema de romance de três escritores mineiros presentes na antologia: Ciro dos Anjos em O amanuense Belmiro; Fernando Sabino em O encontro marcado; Autran Dourado em Um artista aprendiz.
Ao traçar uma breve história das relações entre literatura e vida literária, relações que são pensadas pela crítica literária francesa a partir do final do século XIX, que pretendia mostrar como elas têm um caráter de complementariedade no aprendizado dos aspirantes a escritores e intelectuais, Silviano recorre ao estudo de Brito Broca, primeiro biógrafo da vida literária no Brasil, cujo estudo sobre a belle époque, no Rio de Janeiro, apresenta um importante painel dos acontecimentos que marcaram a vida intelectual da época. Nesse estudo são localizados ruas, cafés, bares, portas de livrarias, pontos de encontro de intelectuais e de escritores, componentes integrantes da boemia carioca, que se tornaram importantes marcas da memória cultural carioca - e brasileira - fornecendo vasto material para a reconstituição histórica desses anos de formação, onde os jovens aprendiam também por uma via não institucionalizada, transitando por outros espaços, fortalecendo-se através dos laços da amizade e do afeto que enlaçam as relações.
Ao resgatar esses acontecimentos que tecem a vida literária no Brasil, Silviano Santiago, em tom um tanto nostálgico, constata com pesar o fato das novas gerações estarem perdendo o convívio fraterno com os pares mais velhos, a vida anárquica e boêmia - o hábito da conversa - comprometendo uma parte importante de sua formação intelectual. Através desta constatação, introduz-se uma preocupação com a época atual, ou melhor, com a situação do aspirante a intelectual (brasileiro) na contemporaneidade, pois, cada vez mais, "a formação intelectual do jovem brasileiro tem-se reduzido ao espaço circunscrito pelo campus universitário", onde "a conversa gratuita e vaidosa" "se esvai quando a livraria se transforma em boutique de livros ou em p oint gastronômico" ou "quando a galeria tem vergonha de ser pequenina diante da massa compacta e variada de obras e artistas, celebrada pelo museu..." 3. Diante de tal contexto, por duas vezes consecutivas, Silviano indaga sobre esta perda, afirmando: "Seria falso dizer que as novas gerações vêm perdendo a graça, os benefícios e os desentendimentos oriundos do convívio frutífero e engrandecedor com a palavra dos pares mais velhos?", respondendo imediatamente a seguir: "Acredito que sim, acredito que não." 4
Se as digressões autobiográficas e históricas de Silviano Santiago funcionam como pretexto para introduzir as suas reflexões sobre a vasta correspondência de escritores brasileiros, elas servem também para resgatar, na cena da diferença, e em situação de suplementariedade,"a experiência da noite e da mesa de bar, onde a conversa entre amigos e competidores ... gera(va) um saber literário transgressor e revolucionário" 5. Nesse sentido, ao apresentar a antologia que é ofertada "graciosamente" aos convidados da XI Bienal Internacional do Livro, Silviano Santiago lança os dados das relações afetivas e diz: "Puxe uma cadeira e junte-se aos bons", convidando o leitor à experiência da noite, onde a conversa entre amigos e competidores promove esse saber nômade e transgressor, situando-o em um espaço simultaneamente público e privado, pela capacidade que têm as cartas de, mesmo na ausência de seus autores, presentificá-los e alojá-los junto aos leitores, através da cena boêmia e transversal da escrita - da carta e da literatura -, lugar de afetos e sentimentos íntimos tornados públicos. E assim, nas anotações desse prefácio, mais uma vez, Silviano Santiago recorre a um conselho de Mário de Andrade transmitido ao amigo Carlos Drummond de Andrade, mas tantas vezes expresso nas considerações do mestre modernista sobre a formação do jovem intelectual, ou sobre sua concepção a respeito da relação do escritor com a língua portuguesa. - o puxar conversa. Em múltiplas ocasiões, Silviano Santiago acolhe em suas reflexões o conselho de Mário, transformando-o, a partir desse acolhimento, em um viés importante para a sua atuação de intelectual. Sabemos como a migração de idéias de um autor para outro não se dá aleatoriamente, e que idéias migratórias recorrentes em textos de um escritor desenham o seu perfil literário ou teórico-crítico, situando-o em determinados filões genealógicos, constituindo-se assim em um dado importante da sua bio-grafia, isto é, da sua vida grafada no palco da escrita.
Cito aqui o parágrafo final do texto "Puxe uma cadeira. Junte-se aos bons", para em seguida atravessar os diversos desdobramentos e ressonâncias que tem a expressão de Mário de Andrade para a construção do pensamento de Silviano Santiago, tornando-se, também para ele, uma lição constantemente passada a limpo:
Nesse sentido, puxar conversa - a proposta por esta antologia e a advogada por Mário - é a busca do diálogo com todo e qualquer ser humano, numa indistinção fraterna que, se por um lado, beira o amor à humanidade, por outro, demonstra o poder social do uso público do raciocínio. A conversa induzida por esta antologia e por Mário frutifica - através de edificante e pedagógica, espontânea e abstrata confraternização universal - uma sociedade melhor, mais igualitária, mais tolerante e mais justa. 6
Como pretendo demonstrar até o final dessa abordagem, eleger as cartas como um entre-lugar da afetividade e do saber não se faz gratuitamente do ponto de vista do campo teórico-crítico traçado por Silviano, ou da sua atuação como intelectual contemporâneo, exercendo vigoroso papel na formação de pesquisadores e jovens escritores. Essa eleição, que para nós leitores chega através do espaço suplementar da escrita, traz a força de um desempenho que, somente pelo laço fraterno da amizade - a amizade indistinta pela humanidade, o amigo de todos, dos oprimidos, das minorias silenciadas - se dá pela coletivização e democratização do saber. Nas palavras de Silviano Santiago, "pelo poder social do uso público do raciocínio" - tarefa eminentemente do intelectual.
A alusão ao conselho de Mário de Andrade migra através de outros textos de Silviano Santiago, que procura compreender a sua atuação intelectual no contexto das idéias do modernismo. È interessante registrar que há em Silviano Santiago uma espécie de obsessão pelo tema, que se apresenta até como uma espécie de mote que se repete em muitos dos seus textos. A repetição não se dá apenas pela retomada do assunto, mas por um jogo citacional que recorta trechos de um mesmo texto. Esse processo de apropriação e de reapropriação de seu próprio texto produz novas significações, numa metodologia de leitura que faz disseminar novas significações. Nesse movimento migratório de temas, idéias, fragmentos textuais, observa-se que a expressão puxar conversa deixa de ser apenas objeto de comentário crítico das idéias do projeto literário e cultural de Mário de Andrade, e se incorpora gradativamente ao projeto escritural de Silviano Santiago. Ao apropriar-se da expressão, como acontece no parágrafo final da apresentação de A República das Letras, o sentido com que aparece no ideário modernista de Mário de Andrade já sofreu diversos deslocamentos, depurações, transformando-se em leitmotiv do campo teórico-crítico de Silviano Santiago.
Em ensaio publicado no Jornal do Brasil , já nos idos de 1993 (10 de outubro), intitulado "Ora (direis) puxar conversa!", Silviano Santiago dedica-se à explicação do tema no universo das idéias de Mário de Andrade e, em linhas gerais, a citação com que encerra a apresentação de A República das Letras já aparece no contexto do ensaio. O título é uma alusão ao poema de Olavo Bilac "Ora, direis, ouvir estrelas!" e introduz, com desdém semelhante ao do poema, o tema "puxar conversa". A estratégia do título é mergulhar o tema no lugar comum, corriqueiro e cotidiano do hábito de conversar ou "jogar conversa fora" e fazê-lo emergir com outra significação.
Ao procurar elucidar a expressão, Silviano inicialmente esclarece que, para Mário de Andrade, a vida literária de um país é uma conversa interminável e afirma que todas as formas de conversa - a falada, a escrita, a gestual - são formas de um mesmo exercício e servem a uma necessidade intelectual: a de dialogar com todo e qualquer ser humano, numa indistinção fraterna. Nessa perspectiva, Silviano Santiago associa o desejo da conversa - que nos textos de Mário aparece também ligada a um desejo de conversão -, tanto ao proselitismo cristão, quanto à maiêutica socrática, sendo assim uma marca decorrente da presença do cristianismo e do socialismo nas suas concepções.
Para ilustrar a fraternidade socializante, indiferenciada, que Mário buscava como exercício sóciopolítico e vontade de saber, Silviano recorre à seguinte citação: "E então parar e puxar conversa com gente chamada baixa e ignorante! Como é gostoso! Fique sabendo duma coisa, se não sabe ainda: é com essa gente que se aprende a sentir e não com a inteligência e a erudição livresca". 7
Assinala-se aqui a concepção de aprendizagem valorizada pelos modernistas de 22: aquela que rompe com a pedagogia institucionalizada, formal, transmitida nos limites da formação educacional em vigor. Daí introduzirem-se nos textos de Mário de Andrade as noções de "erro" e "desinstrução", pois o aprendizado começava por um processo de desaprender o que se tinha aprendido dentro dos padrões europeizantes vigentes.
Em artigo intitulado "A busca da identidade nacional", ao examinar o ideário do mestre do modernismo e o seu papel na formação da identidade nacional, Silviano observa como neste ideário dissemina-se a afirmação de que, para o artista brasileiro, "dublê de intelectual", a Vida é mais importante do que a literatura, confirmando ainda que, como ativista no campo da construção de uma sociedade (Silvino ressalta que Mário não é um espectador, mas um ator dessa construção), Mário de Andrade abdica passageiramente da cultura de elite e se entrega ao exercício da solidariedade, frisando que a forma mais absoluta do conhecimento pela solidariedade do outro étnico e cultural é a conversa, a conversa oral e pública com desconhecidos - no dizer de Mário, "com gente chamada baixa e ignorante". Esta definição é coerente com seu projeto cultural e dos modernistas, que pretendem acabar com os hábitos arraigados na mentalidade conservadora e eurocêntrica dos intelectuais brasileiros dos anos 20. Explicita Silviano:
O contrato lingüístico estabelecido pela conversa, antes de ser apenas fator de comunicação social, é fala comprometida com a vida em sociedade e mais: com a própria construção de uma sociedade urbana onde artistas eruditos entenderiam melhor as manifestações populares e a originalidade de suas expressões artísticas. "Puxar conversa", expressão típica de Mário de Andrade, é o modo de o intelectual modernista se aproximar agressiva e despudoradamente, sensual e fraternalmente do outro, para que este, ao passar de indivíduo a cidadão, e de objeto a sujeito do conhecimento, transforme o sujeito que puxou a conversa em receptáculo de um saber que desconhecia e que, a partir do congraçamento, passa também a ser seu" 8.
A expressão "puxar conversa" volta a aparecer no texto do Prefácio "Suas cartas, nossas cartas" com que Silviano Santiago apresenta o livro Carlos & Mário , correspondência completa entre Carlos Drummond de Andrade (inédita) e Mário de Andrade, publicado pela Editora Bem-Te-Vi. Aí Silviano declara: "puxar conversa" não é diferente de trocar cartas." 9Como prefaciador do livro e comentador das notas que acompanham a vasta correspondência entre Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, adverte o leitor de que ele passará pela experiência única de penetrar na intimidade de dois "gigantes do modernismo brasileiro" e que, ao invadir a intimidade da letra epistolar, estará sendo um transgressor, penetrando "despudoradamente e fraternalmente" nas grafias de vida de Carlos e Mário, devassando a intimidade de uma amizade que norteou não apenas a formação do intelectual Carlos Drummond de Andrade, a sua vida literária, mas também a sua vida pública.
Sob o signo da amizade, no entre-lugar da afetividade e do saber, as cartas do mestre Mário de Andrade e as do discípulo Carlos Drummond de Andrade, agora sob a mediação crítica de um outro mestre que se apresenta, também, como discípulo - Silviano Santiago, (as cartas) abrem-se a nós, leitores, e nos propiciam o estabelecimento de um diálogo - um puxar conversa, novamente no espaço-tempo suplementar da escrita - através do qual podemos conhecer as lições de amigo e nos aproximarmos simultaneamente de um saber transgressor, nômade (é interessante pensar no intenso movimento de idas e vindas das cartas, que se iniciou em 1924 e vai até quatro dias antes da morte de Mário de Andrade), um saber que, como Silviano Santiago procura compreender na leitura que faz do pensamento modernista de Mário de Andrade, coloca a instigante questão do que é o "saber saber".
Em uma outra apresentação, agora aquela que Carlos Drummond de Andrade escreveu quando da publicação das cartas de Mário de Andrade, após ter enfrentado o ético problema de desrespeitar o desejo do amigo que não queria sua correspondência publicada, Drummond fala sobre o imenso legado - "os bens imponderáveis" - que foi para ele o diálogo epistolar e a amizade que perdurou até a morte de Mário. Em A lição do amigo , título do livro da correspondência de Mário de Andrade, publicado pela Record, em 1998, define em que consiste, para ele, "tais papéis":
Estabeleceu-se imediatamente um vínculo afetivo que marcaria em profundidade a minha vida intelectual e moral, constituindo o mais constante, generoso e fecundo estímulo à atividade literária, por mim recebido em toda a existência. Isto sem falar no que esta amizade me deu em lições de comportamento humano, desvelos de assistência ao homem tímido e desarvorado, participação carinhosa nos cuidados de família, expressa em requintes que a memória e a saudade tornaram indeléveis.
Compreende-se, pois, o que tais papéis representam para mim: são parte integrante e vibrante da minha vida. 10.
Conforme já revelou Renato Cordeiro Gomes em seu estudo sobre "A correspondência enquanto mediação da crítica: a poesia de Drummond e a lição do amigo" 11, a correspondência trocada entre os dois Andrade exerceu papel preponderante para a "sagração" crítica da poesia do jovem Carlos Drummond. "A lição do amigo" espraia-se e tem uma ação efetiva na formação literária de Carlos Drummond, a partir dos constantes aconselhamentos sobre questões teóricas e práticas: a problemática da influência, as relações entre arte e vida, os impasses concernentes ao nacionalismo e o universalismo, à constituição de uma identidade nacional, às relações entre o popular e o erudito, à constituição da linguagem, sugerindo o abandono do uso lusitanizante do léxico e da sintaxe, e a adoção dos "erros" das classes populares, como forma de transgressão ao centramento do ensino da cultura europeizada.
Esses aspectos são confirmados e ampliados pelos comentários de Silviano Santiago ao verificar que, no corpo a corpo da escrita epistolar, "pelo exercício hermenêutico da conversa", Mário de Andrade vai revisando as grandes questões de sua época, propagando de forma persuasiva e discriminada as suas idéias junto aos jovens intelectuais modernistas, e construindo a sua própria liderança intelectual. Percebe-se assim que o espaço privado, íntimo e afetivo da carta torna-se um instrumento ímpar para, de um lado, Mário assumir o tom didático e professoral perante o jovem intelectual amigo; do outro lado, para Carlos Drummond de Andrade introduzir-se na vida literária, a partir de uma formação intelectual duplamente marcada pela afetividade e o saber do mestre, que encontrou no discípulo um especial receptáculo para fazer germinar as suas lições transgressoras. (É interessante salientar que Silviano chama a atenção para o fato um tanto contraditório que pode ser observado no jogo epistolar: Mário de Andrade se apresenta extremamente afetuoso, entretanto, pouco confessional na sua correspondência, ao contrário de Carlos Drummond, que constantemente assume o tom confessional).
Mediando esse exercício hermenêutico da conversa, Silviano Santiago embaralha as cartas, transformando-as em um fecundo material teórico-crítico para refletir sobre um momento marcante da vida literária e da história literária brasileiras. Aliás, vale a pena lembrar que o modernismo tem sido um tema constante nas reflexões de Silviano Santiago, e diversos ensaios de Nas malhas da letra , Vale quando pesa, além de ensaios publicados em jornais, são dedicados ao movimento, que se coloca como um referencial para as suas concepções. Mais que isso, a figura de Mário de Andrade é central para a revisão crítica que Silviano faz do projeto de 22, efetuando o deslocamento de um dos "gigantes do modernismo", no sentido de estabelecer rupturas com essa tradição, compreender a contemporaneidade, situá-la e situar-se na cena do presente. Esses deslocamentos não se processam apenas do ponto de vista das concepções teóricas e críticas, mas se exercem também através da prática literária de Silviano Santiago que, a partir do diálogo com procedimentos construtores da produção literária modernista, reverte o cânone de 22, como as noções de paródia e de memorialismo, substituídas pelas de pastiche e autobiografia, como se verifica no romance Em liberdade.
Dessa perspectiva, as cartas transformam-se em um instrumento público - um lugar público - onde o intelectual Mário de Andrade coloca o seu pensamento, o seu saber, à disposição do outro; e não apenas do amigo Carlos Drummond de Andrade que, para ele, de maneira confessional, expressa os seus sentimentos e os seus impasses intelectuais. Sob a interferência do olhar devassador e transgressor de Silviano Santiago, "o primeiro estranho a aventurar-se pela caverna da correspondência privada," 12 as cartas chegam ao público como preciosos documentos para o resgate e a reconstrução de uma memória individual e coletiva, doando aos leitores os afetos que transbordam dos corpos escritos, bem como os impasses que se travam na vida íntima e pública desses atores que amorosamente tanto se empenham pela construção de uma sociedade melhor, mais igualitária, mais tolerante e mais justa.
Tendo em vista as reflexões desenvolvidas até aqui, fica evidente que, quando falo desses atores, não estou me referindo apenas a Carlos e Mário, mas a Carlos & Mário reconstruídos pelo olhar de Silviano Santiago. Ao inscrever-se no espaço textual das volumosas cartas que constituem um importante arquivo da República das Letras - e aqui considero tanto as cartas do arquivo de Carlos e Mário, quanto aquelas dos acervos de escritores brasileiros do período de 1865 a 1995 -, Silviano Santiago, no seu gesto transgressor e devassador, encorpa-se nas malhas da letra, fornecendo um significado suplementar a esses documentos, ao tempo em que, pelo desvio da palavra do outro, corporifica-se no gráfico da escrita (da apresentação e das notas), imprimindo aí as marcas do seu projeto de intelectual contemporâneo, cartografando por essa via o seu lugar na República das Letras.
Silviano SANTIAGO (Org). A República das Letras; de Gonçalves Dias a Ana Cristina César: cartas de escritores brasileiros: 1965-1995. Rio de Janeiro: SNEL, 2003, p. 21.
Silviano SANTIAGO . Ora (direis) puxar conversa! In: Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 10 out. 1993.
Silviano SANTIAGO. A busca da identidade nacional. www.pacc.ufrj.br/nabuco.htlm .
Silviano SANTIAGO (Organização, prefácio e notas); Lélia Coelho FROTA (Pesquisa iconográfica). Carlos & Mário: correspondência completa entre Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi. 2002. p. 15.
Carlos Drummond de ANDRADE. Apesentação. In: A lição do amig o. Rio de Janeiro: Record, 1988, republicada no livro Carlos & Mário . p. 34-35.
Renato Cordeiro GOMES. A correspondência enquanto mediação da crítica: a poesia de Drummond e a lição do amigo. In: Mediações. VIII Congresso Internacional da Abralic, 2002, Belo Horizonte. Anais. Belo Borizonte: Abralic, 2003. 1 CD-ROM.