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O intelectual Herberto Sales
Andréa Beatriz Hack (UFBA)

INTRODUÇÃO

 

O escritor Herberto Sales sempre se queixou de ter sido esquecido pela mídia, o que infelizmente é verdade. Sua obra literária é carente de estudos mais aprofundados, sendo que é fato constatado que há pouca fonte bibliográfica de estudo e pesquisa sobre ele e seu legado literário. Minha proposta de trabalho é situar e investigar a atividade intelectual desse escritor que não permaneceu apenas no universo literário, mas adentrou-se também na esfera governamental, tendo exercido diversos cargos públicos em diferentes gestões governamentais, inclusive representando o país no exterior. Também atuou na diretoria da Revista "O Cruzeiro", das Organizações Assis Chateubriand, que na época era um importante órgão da imprensa. Como essa pluralidade de atividades, essas migrações vivenciadas por esse intelectual influenciaram sua produção literária, sua perspectiva social, bem como sua própria atuação como intelectual?

Quanto à produção literária, esta é bastante variada e complexa, não se limitando apenas à narrativa ficcional, mas enveredando-se também pela Literatura Infantil, trabalhos científicos, contos, notas de viagens, obras em colaboração com autores expressivos, como Jorge Amado, Marques Rebelo, José Cândido de Carvalho, entre outros. Dessa maneira, tendo saído da pequena Andaraí, no interior da Chapada Diamantina, Herberto Sales ganhou a metrópole do Rio de Janeiro, e a partir de então, tornou-se conhecido no Brasil e no mundo através de suas publicações. Tendo como ponto de partida seu romance de estréia, Cascalho (1944), resquício ainda da ficção regionalista em voga na época, serão realizados alguns apontamentos a respeito da produção artística, bem como sobre a atuação política e social que tornaram o nome de Herberto Sales uma referência em termos de cultura brasileira.

 

O INTELECTUAL HERBERTO SALES

 

Herberto Sales foi um importante escritor baiano, cuja obra apresenta grande variação temática e estilística. Oriundo de Andaraí, na região da Chapada Diamantina, onde viveu até 1948, sempre emprestou às suas obras um cunho de crítica social bastante acentuado. Não obstante o fato de ser de uma família abastada, Herberto Sales iniciou-se na Literatura fazendo denúncia da problemática social existente no contexto dos garimpos de sua região natal. Em Cascalho (1944), sua obra de estréia, ele lança mão de sua vivência diuturna e diurna para descrever a exploração do homem pelo homem, num clima de barbarismo e desumanidade sumariamente instituídos. Assim, ele assume a voz silenciada dos oprimidos, denunciando um quadro de opressão política não percebida, ou, ao menos, não admitida concretamente Segundo Michel Foucault (1972), esse tipo de postura caracteriza o intelectual socialista, a saber, aquele que descobre e revela uma determinada verdade, numa interação entre consciência e eloqüência. Contudo, essa postura, de fazer as vezes de "voz" dos oprimidos é também bastante criticada pelo filósofo, podendo constituir mesmo uma indignidade. De acordo com Foucault, hoje em dia as minorias oprimidas não precisam mais de ninguém que fale por elas, sendo que elas mesmas já adquiriram voz própria e tomaram posse de seu discurso, de sua luta. Atualmente, o papel do intelectual seria mais o de mediador dessas vozes muitas vezes silenciadas e desconsideradas no sentido de lhes angariar o acesso ao público, a serem de fato ouvidas.

Agora, no caso específico de Herberto Sales, estaria ele realmente interessado em fazer denúncia da exploração imposta aos pobres garimpeiros retratados na obra, expondo as mazelas de um sistema arcaico e pautado pela injustiça e desigualdade de condições? Nesse caso, teria ele como objetivo gerar uma cisão nesse sistema, desafiando abertamente o poder, ou apenas trazer a público uma inquietante realidade pertinente ao seu contexto de origem? O uso da linguagem coloquial em Cascalho (1944) e em Além dos Marimbus (1961), constitui-se numa marca que se sobressai nessas duas obras. Isso porque a presença de vocábulos, ditos e conceitos populares não soa falsa, imitativa, fotográfica. O autor soube estabelecer o necessário equilíbrio entre o documento objetivo, que é o lado racional, engajado, e o documento subjetivo, representando o lado expressivo e participante, o que resultou numa maior cumplicidade entre arte e realidade, entre o artista e o seu meio e o seu momento. Herberto Sales vai lançar luz sobre a exploração do trabalho braçal do garimpeiro pobre e desvalido das lavras diamantinas, bem à moda dos coronéis nordestinos que mandavam na época (independente de possuírem de fato alguma patente militar!) de maneira que fez esse obscuro sertão brasileiro conhecido do público pela primeira vez.

Conforme já mencionado anteriormente, o intelectual Herberto Sales foi muito ativo, e suas atividades públicas não se limitaram apenas à publicação literária. Ele foi um jornalista militante, o qual ocupou cargos de chefia nos "Diários Associados" de Assis Chateubriand, na área da revista "O Cruzeiro", da qual foi assistente de redação na melhor fase desse órgão jornalístico, um dos pioneiros da imprensa brasileira. Aliás, foi por intermédio desse mesmo órgão que seu primeiro romance, Cascalho , foi publicado. Em "O Cruzeiro", Herberto Sales exerceu o cargo de diretor de outras unidades da mesma empresa, inclusive de sua editora de livros. Em 1974, o autor prosseguiu com suas migrações intelectivas, inserindo-se na esfera política. Mudou-se para Brasília e assumiu o cargo de diretor do Instituto Nacional do Livro, o qual exerceu durante dez anos. Por um ano, também atuou como assessor da Presidência da República, sob o governo de José Sarney. Foi membro de Conselho Federal à Academia Brasiliense de Letras e à Associação Nacional de Escritores. A partir de 1986, residiu em Paris durante quatro anos, servindo como Adido Cultural à Embaixada Brasileira.

Como um intelectual comprometido com os problemas sociais, o que pode ser detectado facilmente em diversas obras suas, consegue conciliar sua militância, seu engajamento na causa dos oprimidos, com o exercício de cargos governamentais? Tal prática é possível, sem incorrer em incoerência ou demagogia? Herberto Sales também foi recebido na Academia Brasileira de Letras pelo acadêmico Marques Rebelo, seu grande amigo e incentivador, em 21 de setembro de 1971, para ocupar a cadeira de número três, antes ocupada por Aníbal Freire da Fonseca. Aliás, foi graças à insistência de Marques Rebelo, bem como por seu apoio logístico, que foi empreendida a publicação de Cascalho . Tendo lido o original da obra, esse escritor percebeu o talento do jovem romancista, antevendo o início de uma promissora carreira literária, que mais tarde veio a se constituir. Talvez conjugando seu compromisso com a cultura e o poder de sua posição política, enquanto diretor do Instituto Nacional do Livro, Herberto Sales alternou a edição de obras um tanto quanto esquecidas com a de novos escritores, contribuindo para a revelação e oportunizando o lançamento dos mesmos. Além disso, conveniou o Instituto com mais de 2.000 bibliotecas públicas, o que favoreceu o acesso à boa literatura para o povo.

O fruto do vosso ventre (1976), seu quarto livro, chamou muito a atenção da crítica, e é até hoje um dos mais conhecidos e estudados. Nesse romance, impregnado de sátira, ele faz uma crítica ferina contra o Estado tecnocrata, o qual, através de regras rígidas, matematicamente elaboradas, nega a liberdade e a condição de humanidade do indivíduo, com a intenção de "coisificá-lo", reduzi-lo a uma mera peça na engrenagem da máquina capitalista. Através desse livro, o autor demonstra sua preocupação com o lugar do ser humano numa sociedade cada vez mais fria e desigual, onde os interesses econômicos e políticos são colocados acima de necessidades sociais. Mais uma vez pode-se perceber a manifestação da consciência do intelectual, não apenas denunciando os problemas de uma sociedade em franca evolução tecnológica e econômica, mas também apontando caminhos, soluções. E o que chama a atenção é que, pela primeira vez, Herberto Sales vai lançar mão do discurso religioso, talvez para legitimar sua proposta: na terceira e última parte do livro, ele insere uma belíssima alegoria, paródia do texto bíblico, relatando o nascimento de Jesus Cristo. Através do resgate dessa história mítica, o autor faz um pungente apelo em favor da vida e dos valores mais profundos e intrínsecos do ser humano, como o amor, a simplicidade, a solidariedade e a união, os quais ele vê ameaçados pelo monstro do capitalismo e pela frieza da tecnologia. Nessa obra, Herberto Sales analisa e ao mesmo tempo ironiza o mundo tecnocrata, mantendo um lúcido distanciamento da matéria e envolvendo-se no relato, com o comprometimento próprio do narrador oral, ou "contador de histórias". Dessa forma, o autor descompromete-se com a realidade, a fim de estabelecer o distanciamento e atemporalidade necessários para direcionar toda a atenção para a problemática em foco. Num tom que equilibra o humor e a ironia, o autor criticou o mundo burocrático, totalmente dominado pelo racionalismo autoritário, retratando uma sociedade inumana, em que a tecnocracia dita as regras da vida social a ponto de interferir no âmbito sagrado do amor conjugal e familiar, bem como no direito de ser pai e mãe. É a força do sagrado integrado à obra de arte. Mas porque esse autor recorre a um discurso como esse? Justamente no auge do racionalismo, que desbarata implacavelmente a subjetividade das antigas crenças e tradições?

Ainda segurando a pena de romancista, Herberto Sales tece também uma crítica audaz ao regime escravocrata, dessa vez voltando seus olhos para o passado. Infelizmente, o Brasil foi o último país americano a abolir a escravidão, a qual foi balizada pelo governo imperial e legitimada pela Igreja Católica. Em Os pareceres do tempo (1984), o escritor utiliza linguagem culta, barroca, carregada de erudição, para narrar a saga de duas famílias portuguesas, instaladas no interior da Bahia. A Bahia, que até hoje sofre com o preconceito racial e a desigualdade social, cicatrizes ainda dolorosas da escravatura. Ele menciona, numa ironia despretensiosa, porém escarnecedora, a "piedade cristã" do capelão dos navios negreiros o qual, acompanhando o percurso dos negros naquela fatídica viagem - África / Brasil - evitava que os negros mortos neste trajeto ficassem sem a Palavra de Deus. É importante salientar que o capelão tinha, como recompensa por seus "serviços", direito a cinco escravos para serem negociados a seu gosto e para seu lucro. Muitos dos negros morriam durante o percurso, mas a presença do capelão lhes garantia uma digna "morte cristã", haja vista que eram batizados em massa dentro dos navios.

Outro exemplo da ironia do autor e crítica à prática cristã posta a serviço dos interesses econômicos dos portugueses: antes de comprar os negros para escravizá-los, os fiéis lusitanos compareciam à igreja para receber a bênção de Deus que garantiria o sucesso da empreitada. Além do mais, os dois navios negreiros mencionados na narrativa têm nomes católicos: corveta Augusta - ligado a anjo, e corveta Salve-Rainha - louvor à Virgem Maria. Com mordacidade e ironia, o autor denuncia a crueldade e o desrespeito ao ser humano, exaltando a "habilidade" dos portugueses em "socar" quinhentos escravos numa corveta muito pequena. Esses são poucos e pequenos exemplos da mordaz crítica tecida por esse autor em suas obras, nas quais utilizou a arte para retratar e denunciar a hipocrisia que permeia a sociedade, não só agora, mas desde sempre, não se isentando disso nem mesmo a dita piedosa igreja católica.

A temática religiosa novamente constitui-se num fator relevante nessa obra de Herberto Sales. Ele insere em sua ficção narrativas, elementos e até mesmo valores pertinentes à religião católico-cristã, na qual foi educado. Sabe-se que o discurso religioso, de um modo geral, possui uma carga de autoridade muito forte, a qual pode pesar tanto a favor quanto contra si mesmo. Por que um escritor utiliza-se desse tipo de discurso em sua ficção? Seria uma atitude que pode ser interpretada como estratégia para conferir legitimidade e autoridade à mesma, ou simplesmente expoente de um processo de dessacralização do mito concernente ao imanente religioso, tão comum em nossos dias? De qualquer forma, é importante salientar que o autor não está a serviço de nenhuma crença ou ideologia uma vez que nenhum de seus personagens faz qualquer tipo de discurso demagógico, nem assume posições contra ou a favor; sua obra, em muitos momentos, apenas denuncia as injustiças sociais cometidas e comumente abrandadas, quando não desmentidas pela História.

Não foi apenas como ficcionista que Sales exerceu seu papel de intelectual ativo e observador crítico, inserido e comprometido com sua realidade contemporânea. Sua geração se viu sacudida pela Segunda Guerra Mundial e seus horrores. Ele registrou e publicou a visita que fez aos campos de concentração em Dachau, Treblinka e Auschwitz, fustigando o mal com veemência, e alertando para o fato de que o horror não deve ser esquecido, para que não venha a ser repetido. Sua obra literária alcançou expressão internacional através da tradução de várias obras para idiomas como o tcheco, o espanhol, o romeno, o japonês, o inglês, bem como edições em Portugal. Seus contos foram publicados em diversas antologias no Brasil e no exterior, sendo que tanto os romances quanto os contos, e a literatura infanto-juvenil se constituíram e são até hoje objeto de estudos e pesquisas em respeitados cursos de língua, literatura e cultura brasileira em universidades e escolas do Brasil.

Ainda abordando diretamente a temática religiosa, destaca-se a obra História Natural de Jesus de Nazaré - Uma Narrativa Cristã (1997). Trata-se de um ensaio, provavelmente sua última publicação, na qual ele reconta a história de Jesus de Nazaré contida nos evangelhos, inclusive reiterando e criticando trechos, sob a luz de resultados de pesquisas científicas e arqueológicas, assim como relatos de historiadores. Cabe salientar que a qualidade e a seriedade dessa obra foi reconhecida até mesmo pelo Vaticano.

Herberto Sales sempre se queixou de que a mídia nunca lhe deu a atenção devida. Talvez por seu ingresso na esfera política, através dos cargos públicos que ocupou, talvez como reflexo de sua natural modéstia, que o levou a uma vida isolada, de auto-exílio, em São Pedro da Aldeia, onde fixou residência após seu regresso ao Brasil, vindo da França. Não obstante suas características modéstia e simplicidade, próprias de um homem oriundo do interior, que sempre teve dificuldades em falar de si mesmo, preferindo, antes, mencionar e exaltar os companheiros, a saber, os escritores que admirava, o romancista teve uma atividade intelectual muito grande, transitando por diferentes lugares e esferas de ação, não só na literatura, mas pelos diversos cargos públicos e políticos que ocupou. Tal característica pode significar um contra-senso, pois de acordo com Edward Said (2000), o papel público inerente ao intelectual não pode ser político já que, para poder fazer a crítica social e os questionamentos que lhe são devidos, o mesmo não deve ser cooptado por governos ou corporações, sob o risco de perder sua liberdade de expressão, bem como comprometer a legitimidade e a neutralidade de seu discurso. Será que Herberto Sales foi capaz de equilibrar as duas coisas? Ou sua inserção no governo prejudicou sua visão lúcida da realidade, sendo que é fato consensual que os governos continuam a oprimir as pessoas e a calar os intelectuais? Investi-lo em cargos políticos teria sido uma estratégia para silenciá-lo e assim conter seu discurso denunciatório e libertário, veiculado pela literatura, principalmente?

Pelo fato de, semelhantemente a outros escritores contemporâneos, como José Saramago, esse autor ter se utilizado do discurso religioso em diversas obras suas, ora reiterando-o, ora questionando-o, ou ainda estabelecendo crítica social a partir dele, pode-se dizer que o autor reconhecia os valores religiosos como elementos importantes e mesmo preponderantes dentro da cultura brasileira, e dessa maneira resgatou o seu valor, ao mesmo tempo em que ressignificou-os, num processo chamado por Walter Benjamin de "dessacralização" do discurso religioso, colocando em xeque a autoridade e poder inerentes a esse discurso justamente pelo fato de deslocá-lo de seu lugar, a saber, o contexto da religião cristã, e inseri-lo livremente na obra de arte, sem, contudo, modificá-lo ou desmenti-lo, em sua essência.

Herberto Sales foi um intelectual como poucos, no sentido de ter circulado tanto no meio artístico quanto público governamental e, não obstante sua natureza modesta e introvertida, quase que avesso à projeção publicitária, conquistou respeito e consideração de seus pares, tanto por seu talento artístico, atestado por seu legado literário, quanto por sua competência e probidade administrativa, das quais dão testemunho suas realizações enquanto no exercício dos diversos cargos públicos que ocupou, já mencionados. Essa pesquisadora propõe-se a contribuir para o preenchimento parcial da lacuna nos estudos literários brasileiros da obra de Herberto Sales, fazendo assim justiça à rica literatura baiana, na pessoa de um de seus grandes expoentes.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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