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O papel do intelectual na cultura contemporânea. Seria Almada um intelectual da atualidade?
Ana Lucia Maciel (PUC/RJ)

Este texto inicia com uma leitura sintética do texto A herança depreciada de Cervantes , 1 em A arte do romance. E por quê? Por tratar, essencialmente, de um romance de formação. Formação de um intelectual precipuamente moderno, autodidata de saber e dedicação inquestionáveis. Produtor de obra plural, sendo a heterogeneidade a marca de seu gênio. Em Almada Negreiros, logicamente, 1+1= 1. Vejamos ...

O século XX assistiu à crise da humanidade européia, nascida com a filosofia grega e entendida como identidade espiritual, estendendo-se além da Europa geográfica. A crise teve início com os denominados Tempos Modernos, com as descobertas de Galileu e Descartes, época inicial do desenvolvimento das ciências européias, em uma perspectiva unilateral.

O avanço das técnicas, da política, da História, reifica o homem: assim, as forças externas ultrapassam, sobrepassam, possuem-no. O homem - seu ser concreto, seu modo de vida - no percurso dos novos tempos, vai sendo eclipsado, esquecido de antemão. O homem não é mais senhor e dono da natureza , como apregoava Descartes.

Para Kundera, os filósofos fizeram foi desvendar a ambigüidade dessa época, ao mesmo tempo, degradação e progresso, trazendo em si, como tudo o que é humano, o germe do fim em seu nascimento. Considera que Descartes e Cervantes são os fundadores dos Tempos Modernos e que, enquanto as ciências, a filosofia, esquecem-se do ser do homem, a literatura recupera a perspectiva humana, explora esse filão.

O romance acompanha o homem, constante e fielmente, desde o princípio dos Tempos Modernos. Tempos que nasceram com Dom Quixote. Herói que não possuía mais as condições de entender o mundo que o rodeava: um mundo abandonado pelos valores maniqueístas medievais (valores de bem e mal), pelos valores de um mundo em que a Verdade cristã não mais orientava a vida. O mundo se relativizava, tornava-se ambíguo. A única certeza passa a ser a sabedoria da incerteza .

O homem, com sua vontade inata de julgar antes de compreender, deseja o discernimento do bem e do mal. Nessa vontade são fundadas as religiões e as ideologias. E o romance, numa forma conciliatória, traduz as linguagens de relatividade e ambigüidade no próprio discurso.

As aventuras quixotescas abrem caminho para os romances vindouros, o mundo parece ilimitado. Um mundo europeu para o qual o futuro não pode acabar nunca, tempo sem começo ou fim, espaço sem fronteiras.

Kundera, ao falar do caráter reducionista que acompanha a unificação da história do planeta, questiona se não é hoje o momento de se ampliar o foco do romance literário, aquele que nos protege contra o esquecimento do ser, mantendo vivo o mundo. O autor afirma que o espírito do romance é o da complexidade. Cada romance diz ao leitor que as coisas são mais complicadas do que se pensa. 'Esta é a eterna verdade do romance que, entretanto, é ouvida cada vez menos no alarido das respostas simples e rápidas que precedem a questão e a excluem.'

A conclusão de Kundera é a de que o romance para sobreviver tem de adquirir a postura de ser contra o progresso do mundo, colocar-se contrariamente ao espírito do tempo. Diz ele que o futuro é o pior dos conformismos, a covarde adulação do mais forte. O futuro é sempre mais forte que o presente. O autor inclui-se, cavaleiresca e contraditoriamente, na herança depreciada de Cervantes, é este o caminho que aponta. Em oposição à conclusão amarge de Kundera, pode-se incluir a obra de Almada, produzida no século passado, no breve século XX , tão bem caracterizado por Hobsbawn. Produzida em um ontem próximo - um ontem tão próximo que nos parece contemporâneo, a obra de Almada está, fundamentalmente, ligada à idéia de um século moderno, que seria também o princípio de um mundo moderno, de um modernismo com laivos futuristas. O artista nos diz, de forma otimista, não haver entre si e a vida qualquer mal-entendido.

Ao morrer, em 1970, Almada deixou mais de cinco décadas de produção artística. Viveu sob o signo de uma vontade incansável de renovar o discurso artístico do seu país. Ocupou sempre um lugar de destaque nos debates culturais. Artista plástico, Poeta d'Orpheu, futurista e Tudo , foi mais que um precursor de novos tempos, nele os tempos se fizeram novos. A obra escrita de Almada Negreiros precede sua produção plástica mais efetiva, fazendo parte de um projeto artístico-cultural e, conseqüentemente, de um anseio sócio-político, posto em prática.

Ser autor é o caso mais sério que se regista na história da inteligência humana. Ser autor é, depois de saber tudo o que se conhece, trazer-nos inédito o que ainda pertence ao conhecimento geral. A humanidade é um indivíduo único, colectivo, geral e por isso mesmo anônimo. A humanidade reconhece o seu próprio caminho mas não o conhece senão até onde já foi. O autor toma a dianteira à humanidade para a prevenir de viva voz do seu próprio caminho. Recordai e ligai: autor e artista são ambos da mesma ordem. 2

 

A leitura do trecho acima remete, inevitavelmente, à questão proposta por Michel Foucault: o que é um autor? 3, remetendo, ainda, à questão da representatividade do intelectual. Como afirma Humberto Eco: o intelectual tem de ser a consciência crítica do grupo. Ele existe para incomodar 4.

A obra literária de Almada consiste, essencialmente, na busca de uma linguagem capaz de descrever, em termos adequados, as múltiplas contradições enfrentadas pelo homem do século XX. O artista foi um dos primeiros escritores portugueses que ousou incorporar, na ficção, uma visão narrativa característica da modernidade, na qual se destacam as ironias implícitas de um mundo que se apresenta ao artista como radicalmente fragmentado. Para Bauman,

os mal-estares, aflições e ansiedades típicos do mundo [...] - resultam do gênero de sociedade que oferece cada vez mais liberdade individual ao preço de cada vez menos segurança. Os mal-estares pós-modernos nascem da liberdade, em vez da opressão. São as outras características da ficção artística, aquelas explicadas por Umberto Eco - a capacidade de simplificar a desnorteante complexidade, selecionar um grupo finito de atos e personagens na infinda multiplicidade, reduzir o infinito caos da realidade a proporções intelectualmente manejáveis, compreensíveis e evidentemente lógicas, apresentar o contraditório fluxo de acontecimentos como uma narrativa com um enredo interessante de se ler[...].- Quanto mais o mundo real adquire os atributos relegados pela modernidade ao âmbito da arte, mais a ficção artística se converte no refúgio - ou será, antes, na fábrica? - da verdade. 5

 

A obra em prosa traça os primeiros passos de Almada na criação de um universo outro, produto da sua própria ficção. A riqueza do universo almadiano resulta de uma feliz confluência de idéias, gêneros e meios que, quando apreciados na sua totalidade, permite-nos apreciar diferentes mecanismos constitutivos de seu universo artístico - universo interpretativo da renovação das artes portuguesas, mas, sempre, de um modo bastante pessoal.

As grafias pessoais de Almada produzem uma percepção 'positiva', uma percepção solar, da contemporaneidade, diferentemente da resignação melancólica observada nas análises de Walter Benjamin sobre o papel do poeta na modernidade. Trata-se, pois, de um intelectual que acredita na ação, que narra o mundo moderno e que desenha, em vários matizes, a crença na ação. Almada multiplica seus dons, esperneia, grita manifestos contra o conservadorismo pátrio de

Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mais atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos indiferentes! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado! 6

 

Vejamos o que diz o escritor no Ultimatum Futurista :

[...] Eu sou um poeta português que ama a sua pátria. Eu tenho a idolatria da minha profissão e peso-a. Eu resolvo com a minha existência o significado actual da palavra poeta com toda a intensidade do privilégio. Eu tenho 22 anos fortes de saúde e de inteligência. Eu sou o resultado consciente da minha própria experiência: a experiência do que nasceu completo e aproveitou todas as vantagens dos atavismos. A experiência e a precocidade do meu organismo transbordante. A experiência daquele que tem vivido toda a intensidade de todos os instantes da sua própria vida. A experiência daquele que assistindo ao desenrolar sensacional da própria personalidade deduz a apoteose do homem completo. Eu sou aquele que se espanta da própria personalidade e creio-me portanto, como português, com o direito de exigir uma pátria que me mereça. Isto quer dizer: eu sou português e quero portanto que Portugal seja a minha pátria. [...] 9 - Porque Portugal a dormir desde Camões ainda não sabe o novo significado das palavras. Exemplo: pátria hoje em dia quer dizer o equilíbrio dos interesses comerciais, industriais e artísticos.Em Portugal este equilíbrio não existe porque o comércio, a indústria e a arte não só não se relacionam como até se isolam por completo receosos da desordem dos governos. [...] O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades. 7

A partir de 1925, depois de escrito o romance Nome de Guerra, que expõe a trajetória de lembranças de um personagem que deve ser feito homem, pode-se considerar como bem definidos os contornos do projeto artístico de Almada. O romance já indica a maturidade plena do autor e revela a percepção clara dos mecanismos que estruturam e organizam a transmissão de um conhecimento pessoal por intermédio da criação artística. Desde 1915, Almada experimenta várias estratégias narrativas com o fim de descobrir um modo de comunicação adequado para relacionar o sujeito com o objeto, isto é, para inserir o seu 'eu' em um mundo caracterizado pela fragmentaridade da experiência moderna. Os contos e novelas de Almada, até então, consistem não só em textos de questionameto do sujeito; são também os textos de um sujeito que a si próprio se busca.

A atualização da novela de aprendizagem, que se verifica em Nome de Guerra , leva Antunes, moço provinciano, a Lisboa. O rapaz é apresentado à Cidade por um amigo do tio, D. Jorge, um experimentado, aquele que conhece os códigos de sociabilidade do universo urbano: bruto como as casas e ordinário como um homem . 8O moço é e sempre fora policiado no seu crescimento masculino, deveria tornar-se um homem nos parâmetros do tio. Mas o papel da sociedade, foco do capítulo II, A Sociedade Só Tem a Ver com Todos, Não Tem Nada que Cheirar com Cada Um , é apresentado diferentemente do que a do guia familiar, não cabendo à sociedade dirigir o destino das pessoas.

O papel da sociedade é imediatamente mais evidente sobre cada pessoa do que o atropelado movimento das gerações que a antecederam e lhe determinaram o seu sangue, mas aquela não vale esta. Que uma pessoa tome a seu cargo dirigir o próprio destino que lhe coube, é com ela. Que seja a sociedade quem se proponha dirigi-lo, é ingenuidade . 9

 

É um rapaz sem importância coletiva; é apenas um indivíduo 10 - o rapaz provinciano chega despreparado e passa a transitar pelos caminhos do desconhecimento de si e da Cidade até, aos poucos, descobrir-se e à Cidade. O desconhecimento liga-se à província. Sua chegada à Capital, as dificuldades provocadas pelo falta de cultura urbana, provocam a reflexão, os questionamentos. O olhar perscruta, as inquirições se sucedem. A lógica infantil não conclui decisivamente, anota comportamentos como se a organizar um novo código.

(...) eu não faço a apologia da ignorância nem o desprestígio da sabedoria, tão-somente me refiro que nas idades da ignorância existe uma força vital que não parece trespassável para as da sabedoria. Há um ditado que diz: se a juventude soubesse e a velhice pudesse ... ora a juventude é bem o sinónimo de ignorância e a velhice de sabedoria. O que importa é que as energias da ignorância não se estiolem na sabedoria. 11

 

Mas o mais difícil era esquecer o que lhe ensinaram. O mais difícil era ficar outra vez ignorante: aquela genial ignorância das idades onde se começam todas as coisas deste mundo. Se era sabedoria o que faltava ao Antunes não era contudo o que ele desejava para já. Pelo contrário o que ele queria era ter contacto com a multidão, fazer parte dela, das massas ignorantes e inconscientes, ter a inconsciência e a ignorância dos que nada sabem e vivem assim mesmo. 12

 

Mesmo que se admita queo mundo não possa ser desvendado, Almada o enfrentou, prazerosamente, como um enigma a se desvendar. Não chegou armado de respostas prontas, categóricas e definitivas. Aceitar que o mundo é um enigma e que a partir desse enigma o que se pode fazer é fabular, lutar com as palavras, torná-las ação, avançando em suas incertezas, buscando respostas aos seus questionamentos, tornou-se o Norte do intelectual.

Em Almada, encontra-se a reflexão sobre a construção do sujeito no lugar mesmo de sua constituição, a Cidade moderna. Ela mesma enigmática, inscrita em códigos e só aberta aos que souberem decifrá-los. A cidade moderna nas suas formas representativas, constrói sujeitos e suas formas de pensar, sentir, agir, imaginar e narrar. Sujeitos que se manifestam de maneira diversa em diferentes textos, sejam eles um edifício, um romance, um poema, um comportamento, uma escultura, um quadro.

A necessidade modernista de criar a própria identidade através da arte é reiterada por Almada na sua expressiva produção artística. A ficção literária foi o seu primeiro passo no sentido de uma possível libertação do sujeito. Ao contar histórias, Almada inventa a sua identidade. Esta invenção possibilitou-lhe a descoberta da liberdade de criação, consolidando-lhe a personalidade estética e, por extensão, a nossa, também em busca do desvendamento dos eus de todos nós, das cidades e do grande mundo em que vivemos.

Em Gramsci, lê-se que é preciso destruir o julgamento de que a filosofia é algo sumamente difícil por ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos. É preciso, portanto, demonstrar que todos os homens são filósofos, e definir os limites e as características desta filosofia espontânea própria de todos.

Assim, todos os homens são filósofos, porque pensar é próprio do homem como tal. O que separa um grupo do outro (intelectual e o não intelectual) não é a forma de conhecimento em si mesmo, mas um tipo de logicidade do pensamento, a coerência sistemática, a possibilidade de usar a própria história do pensamento, o seu sentido e também o seu desenvolvimento nas ações e tentativas de explicações do mundo.

 

O moderno, no ontem próximo ou no hoje, continua enigmático, fechado a quem não possui as chaves certas do desvendamento. E refletir sobre o mundo - grande cidade em sua confusão de códigos - constitui uma nota especial de interesse que só revigora a discussão de tantos temas - Ocidente e Oriente, transculturação, a cidade, o príncipe eletrônico, o desencantamento do mundo, os mitos e as mitologias - na aparência distintos, mas que se ligam, na textura interior da reflexão sobre eles. A fascinação pela literatura, pelas artes, instrumentos privilegiados do conhecimento, propicia o aceite da diferenciação enigmática da cultura deste mundo que segue o curso da globalização, no fundo nada novo - como bem o disse Teixeira Coelho 13, ao analisar o livro de Octavio Ianni, Enigmas da Modernidade-Mundo .

Permanece o dilema pós-moderno, já tantas vezes debatido, fazendo-nos lembrar o título do capítulo XL de o Nome de Guerra - Uma mesa pequena para um grande assunto ou, melhor dizendo, uma grande mesa para um pequeno assunto.

Lembramo-nos também de frase singular da personagem Scarlett O'Hara, em O Vento Levou : amanhã eu penso. Peço a todos que participem dessa tarefa ...

 

Comunicação integrante do Simpósio O Lugar do Intelectual na contemporaneidade : Almada - perspectivas da (pós-) modernidade

Síntese

 

A partir da obra de José Sobral de Almada-Negreiros, colocar em questão:

•  O papel do intelectual na cultura contemporânea. Seria Almada um intelectual da atualidade?

•  Percurso de auto-conhecimento: relações com o poder - Estado, mercado e política cultural.

•  A fala do intelectual português - discursiva e plástica.

•  Para subsidiar a reflexão, utilizar-se-á textos de Foucault, Marshall Berman, Sartre, Gramsci, Walter Benjamin, Said e outros teóricos que se debruçaram sobre o tema.


Referências Bibliográficas

 

Básicas

 

NEGREIROS , José de Almada. Obras Completas . Vol. VI. Textos de Intervenção . Lisboa: INCM, 1993. Apud DINE, Madalena Jorge & FERNANDES, Marina Sequeira. Para uma leitura da poesia modernista: Mário de Sá Carneiro e José de Almada Negreiros .Lisboa: Presença, 2000.

 

Apoio

 

BAUMAN , Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 272 p, 1998.

ECO , Humberto. A função dos intelectuais . In: Época , 3 de fevereiro de 2003.

FOUCAULT , Michel. O que é um autor? 5.ed. Lisboa: Vega, 2002.

GRAMSCI , Antonio. Maquiavel, a política e o estado moderno . Rio de Janeiro . Civilização Brasileira; 1979.

........................ Materialismo histórico e a filosofia de Benedetto Croce . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 1981.

IANNI , Octavio. Enigmas da Modernidade-Mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,

KUNDERA , Milan . A herança depreciada de Cervantes . In: A arte do romance: ensaio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

SARTRE , Jean-Paul. A Náusea . 6. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.


EDMUND HUSSERL
por J. M. Bochenski

Tradução de Antônio Pinto de Carvalho. In: A filosofia contemporânea ocidental , Herder, 1968

A. EVOLUÇÃO E IMPORTÂNCIA DE SEU PENSAMENTO. EDMUND HUSSERL (1859-1938) que, juntamente com BERGSON, exerceu e continua ainda exercendo a influência mais profunda e duradoura sobre o pensamento contémporâneo, foi discípulo de BRENTANO. Estudou também com o psicólogo CARL STUMPF (1848-1936). Desenvolveu sua atividade acadêmica nas universidades de Halle, Goettingen e Friburgo de Brisgóvia. Trabalhador infatigável, aliava uma extraordinária capacidade de análise a uma rara penetração de espírito. Sua obra, muito extensa, é de leitura extremamente difícil, não por deficiências de linguagem, senão por causa da aridez do assunto. Como escritor de filosofia, é modelo de precisão e, neste particular, faz recordar ARISTÓTELES . Quanto ao seu sistema, depende, em parte, de BRENTANO e de STUMPF e, indiretamente, através do primeiro, da escolástica. Nota-se, outrossim, nele, uma certa influência neokantiana.

HUSSERL começou sua carreira com trabalhos matemáticos. Foi então que publicou o primeiro volume de sua importante Philosophie der Arithmetik , obra que não prefigura por forma nenhuma o caminho por onde sua filosofia iria enveredar. Nos anos 1900-1901 apareceu sua obra principal, Logische Untersuchungen ( Investigações lógicas ), na qual dirige a atenção para os fundamentos da lógica. Esta obra monumental divide-se em duas partes: a primeira, os Prolegomena zur reinen Logik ( Prolegômenos à lógica pura ), contém uma critica do psicologismo e do relativismo, de um ponto de vista intelectualista e objetivista, ao passo que a segunda mostra a aplicação dos princípios enunciados na primeira a alguns problemas particulares da filosofia da lógica. Em 1913, HUSSERL, publica suas Ideen zu einer reinen Phänomenologie ( Idéias relativas a uma fenomenologia pura ). Aqui a fenomenologia converte-se numa "filosofia primeira" e aplica-se ao estudo do conhecimento em geral, tornando-se já patentes as conclusões idealistas. Estas conclusões encontram seu pleno desenvolvimento nos dois livros seguintes: Formale und Transzendentale Logik (1929) e Erfahrung und Urteil (1939) ( Lógica formal e transcendental e Experiência e Juízo ). Globalmente considerados o caminho seguido pelo pensamento de HUSSERL, pode resumir-se da seguinte maneira: partindo do estudo filosófico da matemática, desenvolve primeiramente um método objetivista e intelectual e, na aplicação deste método à consciência, desemboca no idealismo.

A influencia de HUSSERL opera em várias direções. Em primeiro lugar, as penetrantes análises de suas Investigações lógicas representam sério golpe no positivismo e no nominalismo, que imperavam no século XIX. Ao mesmo tempo, seu método, que sublinha o conteúdo e a essência do objeto, contribuiu poderosamente para a elaboração de um pensamento antikantiano. Sob este aspecto, é um dos grandes pioneiros da nova filosofia. Por outro lado, criou um método, denominado fenomenológico, aplicado hoje em dia por grande parte dos filósofos. Além disso, seus trabalhos contém tamanha quantidade de análises sutilíssimas e penetrantes que parece ser mais que duvidoso que esta multidão de conhecimentos tenha sido aplicada e aproveitada em sua totalidade. Tem-se a impressão de que a obra de HUSSERL esteja prestes a se converter numa fonte clássica da filosofia do porvir. HUSSERL foi o fundador de uma escola muito numerosa e importante. Mas sua influencia não se confina nesta escola, senão que se estende, como dissemos, a toda a filosofia contémporânea.

É claro que não podemos pretender resumir aqui nem sequer uma só de suas obras riquíssimas de conteúdo. Com maior razão do que noutros casos, torna-se mister remeter o leitor para o próprio texto, especialmente para as Investigações lógicas . Limitamo-nos a dar uma vista de conjunto muito sumária do método de HUSSERL, de sua teoria da lógica e do caminho por onde ele chegou ao idealismo.

 

B. CRÍTICA Do NOMINALISMO. HUSSERL, em suas Investigações lógicas , submeteu à crítica demolidora o nominalismo que, sob o nome de empirismo, de psicologismo, etc., invadia, desde LOCKE e HUME, quase toda a filosofia. Segundo os nominalistas, as leis lógicas seriam generalizações empíricas, e indutivas, comparáveis às leis das ciências da natureza, e o universal seria somente uma representação esquemática. HUSSERL mostra que as leis lógicas não são, em si, por forma alguma, regras, que a lógica tampouco é ciência normativa, embora - como aliás todas as ciências teóricas - sirva de base a uma disciplina normativa. De fato, a lei lógica nada. diz sobre o "dever", mas diz alguma coisa sobre o "ser". O principio de contradição, por exemplo, não diz que não seja possível enunciar duas proposições contraditórias, mas única e simplesmente que uma e a mesma coisa não pode possuir predicados que se contradigam. Assentes estes princípios, HUSSERL ataca o psicologismo, segundo o qual a lógica seria um ramo da psicologia. O psicologismo está em erro, sob duplo aspecto: se ele fosse verdadeiro, as leis lógicas teriam o mesmo caráter vago que as leis psicológicas, seriam, quando muito, prováveis e pressuporiam a existência de fenômenos psíquicos - o que é absurdo. Pelo que, as leis lógicas pertencem a uma ordem inteiramente diferente: são leis ideais, aprióricas. Em segundo lugar, o psicologismo falseia completamente o sentido das leis lógicas. Com efeito, estas nada têm que ver com o pensamento, o juízo, etc., mas referem-se a algo objetivo. O objeto da lógica não é o juízo concreto de um homem, mas o conteúdo deste juízo, sua significação, que pertence a uma ordem ideal. Finalmente, o fundador da fenomenologia entra também em conflito com o nominalismo em sua teoria da abstração. Mostra ele que o universal nada tem que ver com uma representação generalizada. O que podemos nos representar, quando apreendemos um termo matemático por exemplo, quase não tem importância. LOCKE, HUME e seus sucessores, incapazes de compreender objetos ideais, hipostasiaram o universal, convertendo-o falsamente em mera imagem. Mas não existe tal coisa. O universal é, na realidade, um objeto de natureza muito peculiar, um conteúdo ideal universal.

 

C. DOUTRINA DA SIGNIFICAÇÃO. A crítica precedente - um dos maiores enriquecimentos da filosofia do século XX e, ao mesmo tempo, um retorno aos grandes pensamentos ontológicos da Antigüidade e da Idade Média - serve de fundamento à tese de que a lógica possui domínio próprio, a saber, o domínio das significações. Quando compreendemos um nome ou uma proposição, o que uma ou outra expressão enuncia não é propriamente o equivalente de uma parte do ato intelectual correspondente. É, antes, a significação. Diante da diversidade infinita das experiências individuais, há sempre que nestas é expresso, um Idêntico no sentido estrito da palavra. Mas o termo "exprimir" é equívoco. Podemos distinguir nele pelo menos três funções diferentes: 1) o que a expressão "põe de manifesto" (a saber, o psíquico, as vivências psíquicas); 2) o que "'significa", com uma nova distinção: a) o sentido, o conteúdo do conceito, e b) o que o termo designa. Por último, HUSSERL distingue entre os atos que atribuem a significação ( bedeutungsverleihende Akte ) e os atos que a preenchem ( bedeutungserfüllende Akte ). Estes últimos conferem ao ato a plenitude intuitiva; os primeiros contém unicamente o essencial da expressão, mas não subministram "preenchimento" intuitivo da intenção de significação.

Com a teoria da significação prende-se uma gramática pura , a teoria filosófica da gramática. Neste como em muitos outros domínios, introduziu HUSSERL valiosos enriquecimentos que a lógica matemática permite hoje apreciar. Esta deve-lhe, entre outras coisas, a noção da categoria semântica ( Bedeutungskategorie ). Outro aspecto importante e interessante das Investigações lógicas é a doutrina do todo e das partes. É impossível entrar aqui nos pormenores destas teorias, pois, embora elas devessem pertence ao que há de mais valioso na filosofia contemporânea, são demasiado abstratas e, por outro lado, não tiveram a mesma repercurssão que as demais doutrinas de Husserl.

D. O MÉTODO FENOMENOLÓGICO. HUSSERL propõe-se estabelecer uma base segura, liberta de pressuposições, para todas as ciências e, de modo especial, para a filosofia. A suprema fonte legítima de todas as afirmações racionais é a visão, ou também, como ele se exprime, a consciência doadora originária ( das origindr gebende Bewusstsein ). Devemos avançar para as próprias coisas. Esta é a regra primeira e fundamental do método fenomenológico. Por "coisas" entenda-se simplesmente o dado, aquilo que vemos ante nossa consciênela. Este dado chama-se fenômeno , no sentido de que phainetai , de que aparece diante da consciência. A palavra não significa que algo desconhecido se encontre detrás do fenómeno. A fenomenologia não se ocupa disso, só visa o dado, sem querer decidir se este dado é uma realidade ou uma aparência: haja o que houver, a coisa está aí, é dada.

O método fenomenológico não é dedutivo nem empírico. Consiste em mostrar o que é dado e em esclarecer este dado. Não explica mediante leis nem deduz a partir de princípios, mas considera imediatamente o que está perante a consciência, o objeto. Conseqüentemente, tem uma tendência orientada totalmente para o objetivo. Interessa-lhe imediatamente não o conceito subjetivo, nem uma atividade do sujeito (se bem que esta atividade possa igualmente tornar-se em objeto da investigação), mas aquilo que é sabido, posto em dúvida, amado, odiado, etc. Mesmo nos casos em que se trata de uma representação pura, é preciso distinguir entre o imaginar e o imaginado: quando, por exemplo, nos representamos um centauro, este centauro é um objeto que importa distinguir cuidadosamente de nossos atos psíquicos. De igual modo, o tom musical dó , o número 2, a figura círculo, etc., são objetos, não atos psíquicos. Contudo, HUSSERL rejeita o platonismo: este só seria verdadeiro no caso de cada objeto ser uma realidade. HUSSERL qualifica-se a si próprio de "positivista", enquanto funda o saber sobre o dado.

Mas os positivistas cometem, segundo ele, erros grosseiros, dos quais importa que nos desembaracemos, se quisermos chegar à verdadeira realidade. Eles confundem o ver em geral com o ver meramente sensível e experimental. Não compreendem que cada objeto sensível e individual possui uma essência . Sendo o individual, enquanto real, acidental, ao sentido deste acidental corresponde precisamente uma essência ou, como diz HUSSERL, um eidos que precisa ser captado diretamente. Existem, portanto, duas espécies de ciências: ciências de fatos, ou fácticas, que estribam na experiência sensível, e ciências de essências ou eidéticas, às quais compete a intuição essencial ( Wesensschau ), a visão do eidos. Mas todas as ciências de fatos se baseiam em ciências de essências, porque, em primeiro lugar, todas utilizam a lógica e em geral também a matemática ( ciências eidéticas ) e, em segundo lugar, cada fato alberga uma essência permanente.

As ciências matemáticas são manifestamente ciências eidéticas. A filosofia fenomenológica pertence à mesma espécie: seu objeto é constituído não por fatos contingentes, mas por conexões essenciais. É puramente descritiva, e seu método consiste, antes de mais nada, em descrever a essência. Seu processamento é um esclarecimento gradual, que progride de etapa em etapa mediante a intuição intelectual da essência. Ao abordar os fundamentos da ciência ela é "filosofia primeira" e procede com uma ausência total de preconceitos. Ao mesmo tempo, é ciência exata e apodíctica. Seu exercício não é fácil; todavia, HUSSERL e seus discípulos mostraram que o método fenomenológico abre vasto campo a investigações extraordinariamente fecundas.

E. REDUÇÃO: COLOCAÇÃO ENTRE PARÊNTESIS. Para alcançar seu objeto próprio, o eidos, a fenomenologia deve praticar não a dúvida cartesiana, mas a denominada epoché . Quer isto dizer que a fenomenologia "coloca entre parêntesis" certos elementos do dado e se desinteressa deles. Importa distinguir várias espécies destas reduções. Em primeiro lugar, a epoché prescinde de todas as doutrinas filosóficas; ao fenomenólogo não interessam as opiniões alheias; ele investe contra as próprias coisas. Após esta eliminação preparatória, temos a redução eidética , mediante a qual a existência individual do objeto estudado "é colocada entre parêntesis" e eliminada, porque à fenomeno-logia não interessa senão a essência. Eliminando a individualidade e a existência, eliminam-se igualmente todas as ciências da natureza e do espírito, suas observações de fatos não menos que suas generalizações. O próprio Deus, enquanto fundamento do ser, deve ser eliminado Também a lógica e as demais ciências eidéticas ficam submetidas à mesma condição: a fenomenologia considera a essência pura e põe de lado todas as outras fontes de informação.

À redução eidética acrescenta HUSSERL, em suas obras posteriores, o que ele chama a redução transcendental. Esta consiste em por entre parêntesis não só a existência, senão tudo o que não é correlato da consciência pura. Como resultado desta última redução, nada mais resta do objeto além do que é dado ao sujeito. Para bem compreender a teoria da redução transcendental, é necessário que examinemos agora a doutrina da intencionalidade, que lhe serve de base.

F. INTENCIONALIDADE. IDEALISMO. A redução transcendental é a aplicação do método fenomenológico ao próprio sujeito e a seus atos. HUSSERL já tinha afirmado anteriormente que o domínio da fenomenologia precisava ser constituído com diferentes regiões do ser. Uma destas regiões do ser, região característica, é a consciência pura . Chega-se a esta consciência pura mediante o muito importante conceito de intencionalidade, que HUSSERL recebeu de BRENTANO e, mediatamente, da escolástica. Entre as vivências sobressaem algumas que possuem a propriedade essencial de ser vivências de um objeto. Estas vivências recebem o nome de "vivências intencionais" ( intentionale Erlebnisse ), e na medida em que são consciência (amor, apreciação, etc.) de alguma coisa, diz-se que tem uma "relação intencional" com esta coisa. Aplicando agora a redução fenomenológica a estas vivências intencionais, chegamos, por um lado, a captar a consciência como um puro centro de referência da intencionalidade, ao qual o objeto intencional é dado, e, por outro lado, chegamos a um objeto que, depois da redução, não tem outra existência senão a de ser dado intencionalmente a este sujeito. Na própria vivência, considera-se o ato puro, que parece ser, simplesmente, a referência intencional da consciência pura ao objeto intencional.

Deste modo a fenomenologia se converte na ciência da essência das vivências puras. A realidade inteira aparece como corrente das vivências concebidas como atos puros. É mister advertir insistentemente que esta corrente nada tem em si de psíquico, que por conseguinte se trata unicamente de puras estruturas ideais; portanto, a consciência pura (que no estado de atualização se chama " cogito ") não é um sujeito real, nem seus atos são mais do que relações meramente intencionais, e o objeto não é mais do que um ser dado a este sujeito lógico. HUSSERL opera ainda na corrente das vivências uma distinção entre a hylé (matéria) e a morphé (forma) visada. Chama "noese" àquilo que configura a matéria em vivencias intencionais, e "noema" à multiplicidade dos dados que se podem mostrar na intuição pura. No caso de uma árvore, por exemplo, distinguimos o sentido da percepção da árvore (seu noema ) e o sentido da percepção como tal ( noese ); de igual modo, distingue-se no juízo o enunciado do juízo (isto é, a essência dêste enunciado, a noese do juízo) e o juízo enunciado (o poema do juízo). Este último poderia ser denominado "proposição em sentido puramente lógico", se o noema não contivesse, além de sua forma lógica, uma essência material.

O mais importante em todas estas análises é que nelas fica solidamente estabelecido o caráter bipolar da vivência intencional: o sujeito aparece como essencialmente referido ao objeto, e o objeto como essencialmente dado ao sujeito puro. Quando estamos ante a realidade - o que nem sempre é o caso, porque um ato intencional pode apresentar-se sem objeto real - sua existência não é, entretanto, necessária para o ser da consciência pura; por outro lado, o mundo das "coisas" transcendentes depende totalmente da consciência atual. A realidade é essencialmente privada de autonomia, carece do caráter do absoluto, é somente algo que, em princípio, não é senão intencional, cônscio, algo que aparece.

Deste modo, a filosofia de HUSSERL desemboca num idealismo transcendental que, em muitos aspectos, se assemelha ao dos neokantianos. A diferença entre ele e a escola de Marburgo consiste essencialmente em que HUSSERL não reduz o objeto a leis formais e admite uma pluralidade de sujeitos aparentemente existentes . Contudo, sua escola não o seguiu no terreno deste idealismo

O espírito do romance é o espírito da continuidade, da intertextualidade, cada obra é a resposta às obras precedentes, cada obra contém toda a experiência anterior do romance.

 

 

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Teixeira Coelho é ensaísta, escritor e diretor do Museu de Arte Contemporânea (MAC-SP), autor, entre outros, de "Niemeyer - Um Romance" (Geração Editorial) e "Dicionário Crítico de Política Cultural" (ed. Iluminuras).