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A Cidade dos Vícios: Releitura de Coelho Neto
Maurício Silva (USP/UNINOVE)

Correspondendo ao período histórico que, na França, se convencionou chamar de Terceira República (1870-1914) - época em que vigoraria a instável e enganosa Paz Armada -, a Belle Époque afirmou-se muito mais como um modus vivendi singular e original do que como um conceito historicamente determinado. Foi, nesse sentido, uma forma de pensar e agir sem precedentes, relacionada ao anseio de determinada classe social e artística pela renovação e pela modernidade. Noções, aliás, que se encontram presentes na própria denominação da principal tendência estética da época, sintomaticamente conhecida pelos nomes de art nouveau ou modern style . Novidade e modernidade, assim, emergem como dois conceitos que acompanharam a idéia mais ou menos fluida de Belle Époque durante toda sua vigência.

No Brasil não foi diferente. Sob o influxo das reformas urbanas de Pereira Passos, a Capital Federal vivia um período de súbito esplendor: não apenas a cidade, mas também a sociedade se renovava e se modernizava; a tecnologia - impulsionada pela recente Segunda Revolução Industrial - ganhava igualmente foros de novidade perene, com seus automóveis, aviões, máquinas diversas e invenções; levava-se adiante um amplo processo civilizatório , caracterizado por uma singular febre de saneamento público; os símbolos mais acabados do novo estilo de vida que se inaugurava com a virada do século espalhavam-se por toda parte, indo desde as famosas confeitarias e salões, às ruas e avenidas mais freqüentadas, sem deixar de contar com os teatros, cinemas e cassinos que surgiam por toda a cidade.

Glória e esplendor superficiais, é verdade, já que procuravam esconder - sob o manto diáfano de uma expressiva joie de vivre - todo um conjunto de sintomas típicos da mais aguda crise social e econômica, que revelariam a face mais cruel da nossa incipiente República. Assim, não obstante ser o elemento superficial que contava para uma sociedade mundana cada vez mais atuante no comando das decisões políticas e administrativas do Estado, entrevia-se, no bojo desse entusiasmado desenvolvimento, uma série infindável de processos marcadamente decadentes, refletindo um estilo de vida caracterizado pelos vícios de toda espécie, mas sobretudo pelos vícios acarretados pelo progresso citadino.

Literariamente, nossa Belle Époque tropical foi marcada em profundidade por uma visão mais ou menos padronizada das artes, visão esta perfeitamente sintetizada na consideração da literatura como o sorriso da sociedade , como bem percebeu o sentido acurado de Afrânio Peixoto, representante de destaque dessa mesma tendência. Além disso, o que acima chamamos de anseio pela novidade e pela modernidade permaneceu vigente, traduzindo-se, via de regra, na ampla aceitação de um singular cosmopolitismo literário à D'Annunzzio e Oscar Wilde. Assim, seriam representantes máximos dessa tendência, além do já citado Afrânio Peixoto, figuras célebres da época, como João do Rio, Théo Filho, Arthur de Azevedo e, talvez mais do que todos eles, Coelho Neto.

Considerado pela crítica como um dos expoentes da literatura oficial da Belle Époque carioca, Coelho Neto tem sido lido, ao longo dos anos, como um autor típico da produção diletante e mundana que vigorou inconteste no início do século e encontrou justificativa na concepção literária expressa por Afrânio Peixoto. Entretanto, uma releitura mais acurada de sua obra (DANIEL, 1993; LOPES, 1997), pela ótica de um realismo fin-de-siècle , pode-nos revelar uma face verdadeiramente nova do autor, em que o mesmo emerge como um primoroso romancista de costumes, retratando uma sociedade em que, ao lado da entusiástica prosperidade, surgem sinais de um flagrante decadentismo: são os vícios da cidade moderna, conforme aludimos há pouco, que o autor irá, obstinadamente, retratar e combater literariamente. Assim sendo, como temática basilar deste ensaio, buscaremos enfatizar uma face totalmente nova de Coelho Neto: aquela que nos revela um autor preocupado com a representação da cidade moderna como espaço privilegiado das manifestações dos vícios humanos.

 

 

Coelho Neto e a cidade dos vícios

Os progressos desencadeados pelo influxo da modernidade no começo do presente século resultaram, invariavelmente, na introdução em nosso meio de novos padrões de convivência social, fato largamente abordado pela historiografia sobre a época (SEVCENKO, 1983; CARVALHO, 1989; MEADE, 1997; ARAUJO, 1993). Não apenas a realidade física dos grandes centros urbanos sofria profunda e irreversível transformação, mas sobretudo os costumes se modificariam substancialmente, revelando, entre outras coisas, uma sintomática degenerescência moral.

Embora haja opiniões respeitáveis que neguem a Coelho Neto o papel de retratista dos costumes da época (CAMPOS, 1935), não há como furtar ao grande romancista urbano sua atuação nesse campo, realidade atestada por não menos importantes estudiosos de sua produção artística (NEVES, 1938; FARIA, 1996). Por isso, é possível conceber, sem incorrer em erro crasso, a produção coelhonetiana - ao lado da de um Machado de Assis e um Lima Barreto - como um dos principais conjuntos documentais da época, sobretudo no que se refere à exposição dos hábitos e costumes durante a Primeira República.

Nesse sentido, pode-se caracterizar o conjunto ficcional de Coelho Neto - sobretudo no que se refere aos seus romances - como retrato "verdadeiro" da cidade, uma cidade urbanizada - como salientamos acima - sob o ímpeto desenvolvimentista que marcou a administração de várias personalidades da história da época, o que não podia deixar de desencadear uma continuada transfiguração dos hábitos de seus moradores, acarretando toda uma série de problemas comportamentais, flagrados pela pena atenta de Coelho Neto. É relevante, portanto, o fato de esse autor ter inaugurado sua vasta produção romanesca justamente com uma obra que, veladamente, engrandece as qualidades naturais do campo, em detrimento dos vícios particulares da cidade ( A Capital Federal , 1893); e ter finalizado a mesma com um romance que, tout court , desbanca a espaço citadino justamente por ser este o local privilegiado de todos os vícios que o ser-humano possa apresentar no decorrer de sua vida ( O Polvo , 1924).

Estas duas obras são, por assim dizer, verdadeiros marcos ficcionais de sua atuação como retratista dos vícios humanos desenvolvidos nos limites do espaço urbano. Tais vícios, podemos acrescentar, podem ser didaticamente divididos em duas espécies singulares: os vícios materiais e os vícios morais.

Como retratista do primeiro conjunto de vícios, Coelho Neto não hesitou em associar à cidade urbanizada e mundana de então as drogas de toda espécie, cujo consumo conhecia uma franca ascensão naquele dourado começo de século no Rio de Janeiro. Não era novidade alguma o uso de diversos psicotrópicos pelas mais variadas classes sociais, realidade de que os cronistas da época nos dão um pungente retrato (RIO, 1991; COSTALLAT, 1931). Coelho Neto, em suas obras, procurou revelar esse fato de maneira ampla e contundente, criando personagens claramente dependentes das drogas, autênticos viciados: Helvecio Pires, amigo do protagonista do romance Tormenta (1901), é uma dessas personagens, cuja vida nos é descrita como tomada por uma intensa letargia, resultado lastimoso da dependência da morfina:

 

"Era um caso perdido. Para onde ia levava a seringa: eram cinco, seis, oito injeções por dia. Tinha o corpo todo picado, já lhe haviam apparecido furunculos, erypselas; os braços estavam cobertos de escaras" (NETO, 1924, p. 71).

 

Viciada era também Lucília, protagonista de O Polvo , deixando-se levar pela dependência da cocaína, embora sua figura mereça destaque por se tratar de uma espécie algo diferente de vício, como veremos adiante. Ao lado das drogas, o jogo é um tipo de vício comumente descrito por Coelho Neto como sendo dos mais comuns ao ambiente urbano: não sem razão, o autor dedica todo um capítulo de seu romance A Capital Federal para descrever uma cena de jogo protagonizada por Anselmo Ribas e Gomes de Almeida.

Mas drogas e jogos são apenas a manifestação mais material do vício maior que Coelho Neto busca retratar em quase todos os seus romances, vício a que poderíamos simplesmente qualificar como lúxuria urbana . Com efeito, é a célebre grande vida, o mundanismo próprio das cidades urbanas - e particularmente do Rio de Janeiro - que o autor irá condenar com veemência em sua produção romanesca. Fica claro que, para o autor, o chamado "grande mundo" (NEEDELL, 1993; BROCA, 1960) é a representação acabada do principal malefício que a cidade pode causar ao ser-humano. Nesse sentido, a própria realidade urbana já é, por si mesma, a configuração real desse mundo e, portanto, a concretização do vício. Não causa espanto, portanto, o fato de o autor afirmar em seu romance histórico-biográfico A Conquista (1895) que até as próprias ruas da cidade possuíam os vícios humanos; ou, em O Paraíso (1898), umas das personagens lamentar que no Limbo não existiam os vícios próprios da cidade:

 

"Trago comigo todos os meus vícios, sinto-os pruindo-me o desejo e sofro com isso. Falta-me tudo aqui, tudo! Faltam-me os jornais, o cigarro, o meu chope, a palestra no charuteiro, o meu pocker... e a noite, a noite sobretudo, com os seus encantos velados" (NETO, 1926, p. 213).

 

É exatamente esse cenário mundano que critica o autor, com todas as suas seduções urbanas, com todos os seus velados encantos. Mas nenhum outro romance de Coelho Neto trata com mais profundidade semelhante tema do que O Polvo , cujo enredo é quase todo marcado pela crítica aberta à perniciosa influência do grande mundo sobre a vida das pessoas: Lucília, que passa subitamente de uma condição doméstica a uma dama da sociedade, é compulsoriamente atraída pelas seduções da cidade grande, tornando-se inclusive uma requisitada prostituta. Sem dúvida alguma, o autor não hesita em deixar claro que não foi senão a cidade - com seus infinitos tentáculos, daí o título do romance - a causadora do desastre conjugal e doméstico, já que Lucília teria sido fatalmente assediada pelo mundo que a envolvia obstinadamente:

 

"a Cidade estendia-se-lhe à vista, imensa, com a Avenida, o maior tentáculo, sugador de honra e fortuna, com as suas ventosas que são os teatros, as casas de chá, os cinemas e todas aquelas vitrinas, todos os largos mostruários cheios de seduções que prendem o olhar e, por ele, atraem a vítima envolvendo-a em desejos, prendendo-a pela ambição ou pela vaidade" (NETO, 1924, p. 40).

 

Como dissemos acima, nem só do retrato dos vícios materiais - isto é, dos vícios ligados intrinsecamente à noção concreta da cidade urbana - vive a obra de Coelho Neto. Também os chamados vícios morais encontram-se, em sua obra, intimamente relacionados à vida citadina. No conjunto, sua produção ficcional trata com inesperada maestria toda uma gama de libertinagens morais capazes de aproximar consideravelmente sua produção ficcional da tendência decadentista preponderante na literatura ocidental finissecular. A narração das modificações psicológicas sofridas por Jorge, de Inverno em Flor (1897), parece corroborar mais uma vez essa asserção:

 

"a cidade refê-lo, reviçou-lhe o sangue com os seus philtros varios attrahindo-o seductoramente a todos os vicios. E elle entregou-se passivo, dissipando-se em prazeres vulgivagos, sem medir gastos nem cuidar nas consequencias, restaurando-se em somnos languidos, pelos dias dentro, das vigilias orgiasticas em que atravessava as noites" (NETO, 1928, p. 59).

 

Tanto em Inverno em Flor quanto em O Polvo , a cidade sedutora parece surgir como um centro em torno do qual giram todos os demais acontecimentos, cada um deles procurando confirmar a visão decadente veiculada pela prosa de Coelho Neto.

Assim sendo, não é raro depreender de sua produção literária enredos carregados de cenas de incesto, de adultério, de prostituição e muito mais. Atuando como um autêntico retratista dos vícios materiais ou morais, Coelho Neto afirma-se também em nossa literatura pelo viés do realismo fin-de-siécle , emergindo como um romancista de costumes às avessas, exatamente por eleger como temas e motivos de seus retratos a degenerescência completa dos costumes.

 

 

Conclusão

A conclusão que se pode retirar das observações acima arroladas parece não ir muito além do que ficou dito na linhas e entrelinhas desse ensaio: mais do que um representante da tendência literária oficial que perdurou durante a passagem do século, tendência esta que encarava a literatura como um mero exercício de esteticismo vazio e mundano, Coelho Neto surge como um dos mais enfáticos retratistas da decadência moral de nossa Belle Époque . Não sem razão, sua obra permite uma leitura pela ótica do realismo trágico que caracterizou a prosa naturalista de um Aluísio Azevedo ou a poesia cientificista de um Augusto dos Anjos.

Embora sua ficção possa apresentar recursos lingüísticos próprios de uma expressão especificamente fin-de-siècle (DIMAS, 1983; WEBER, 1988), é curioso que, por meio de um original arranjo estético, Coelho Neto lance mão de propriedades estilísticas pouco afeitas à temática decadentista, a fim de dar maior consistência lingüística à sua pujante e imaginativa narração: é sob a forma do inflexível estilo parnasiano que registra as mais cruentas e realistas cenas do cotidiano carioca. Desse modo, aproxima-se inevitavelmente - ao menos enquanto retratista - de nossos principais reformadores sociais pré-modernos, condenando subrepticiamente os vícios da cidade urbana.

Mas, sobretudo, emerge como um isolado promotor da versão contemporânea do sentimento de distanciamento das metrópoles emergentes, espécie singular de fugere urbem finissecular (BROCA, 1958). Desse modo, o espaço urbano é visto sob uma perspectiva agudamente negativa, na medida exata em que se revela como um espaço privilegiado para o cultivo dos mais diversos e perniciosos vícios que uma sociedade possa conhecer, tal e qual se revela, na pena de Coelho Neto, a sociedade carioca finissecular.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

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BROCA, Brito. Coelho Neto e Artur Azevedo. Revista do Livro , Rio de Janeiro, ano III, n. 12, p. 193-194, dez. 1958.

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SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão. Tensões Sociais e Criação Cultural na Primeira República . São Paulo: Brasiliense, 1983.

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